Banquete: revista portuguesa de culinária

N. 1 (Mar. 1960) — n. 176 (Dez. 1977)

TITLE: Banquete: revista portuguesa de culinária

SUB TITLE: 

AUTHOR: direcção Maria Emília Cancela de Abreu
António Oliveira Romero –  editor da revista Banquete

NOTAS DE AUTORIA: propriedade Cidla

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Publicação Periódica

DATA  DE PUBLICAÇÃO: N. 1 (Mar. 1960) — n. 176 (Dez. 1977)

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: António Oliveira Romero

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN P.P. 10621 V.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 549

OBSERVAÇÕES:

549

BANQUETE
Banquete : revista portuguesa de culinária / propr. Cidla;
dir. Maria Emília Cancela de Abreu . — N. 1 (Mar. 1960) —
n. 176 (Dez. 1977) . — Lisboa : António Oliveira Romero,
1960-1977 . — 30 cm

Mensal

BN P.P. 10621 V.

in
BiblioAlimentaria

1. Memória gastronómica

Banquete.

Revista Portuguesa de Culinária, sob a direção de Maria Emília Cancella de Abreu, era uma revista de periodicidade mensal, de que foram publicados 176 números (entre março de 1960 e dezembro de 1974). O custo inicial de compra foi fixado em 42$00 por assinatura anual e em 3$50 para a venda avulso.

Decorrido mais de um século sobre a publicação da sua “avó” Annona, a revista Banquete apresenta um muito maior e mais diversificado conjunto de rubricas temáticas, fontes valiosíssimas para o estudo das mentalidades da sociedade portuguesa durante os últimos 14 anos do regime ditatorial.

Tal como a sua antepassada longínqua, esta revista tem um claro programa de formação cultural, educação e recreio dos leitores. Não ignora a consciência de que há um património alimentar que importa recuperar e divulgar, patente na rubrica “Isto e Aquilo”, de que destacamos os exemplos dos artigos “Manjares dos Antepassados” (n.º 8, p. 16) e “Notas sobre Iconografia da Culinária I” (n.º 11, pp. 10‑11). Que a literatura é um género em que a temática alimentar ocupa um lugar de 93

destaque é uma consciência que a diretora da revista deixa bem clara, com a criação da rubrica “A culinária na Literatura Portuguesa”. O binómio cozinha portuguesa e estrangeira permanece um polo de interesse da redação e dos leitores, mesmo num período político em que os nacionalismos falavam mais alto60. Essa dicotomia de interesses da sociedade da época vem espelhada nas rubricas “Petiscos da nossa terra” e “Cozinha internacional”. O universo feminino, não só adulto, mas também jovem (a necessitar de instrução nas lides culinárias), continua a ser o público‑alvo maioritário da revista, conforme evidenciam, no primeiro caso, as secções “Entre comadres” e “Pela porta da cozinha” (verdadeiro correio das leitoras, em que se transcrevem as perguntas enviadas à redação e as respostas da sua diretora). Aliás, logo no n.º 1 da revista, nas palavras de apresentação da obra aos seus destinatários, M. E. Cancella de Abreu referira, de forma inequívoca, o perfil do seu público, nos seguintes termos (p. 3):

“Por todas estas razões nos parece não ser descabido o aparecimento desta revista, que surge sem pretensões e ùnicamente com a finalidade de ajudar as donas de casa na preparação das suas ementas, quer estas sejam simples ou de alta cozinha, de execução rápida ou demorada, económicas ou dispendiosas”.

Também as meninas que davam os seus primeiros passos na confeção de receitas, por seu turno, tinham ao seu dispor a “Cozinha para principiantes”. Procurando cobrir todas as necessidades de um público feminino sofisticado e, em alguns casos, já colocado no mercado de trabalho e, por essa razão, com menos tempo para se dedicar a um (muitas vezes) demorado labor culinário, Cancella de Abreu contempla conselhos e (in)formação tanto para momentos em que se espera um maior requinte na mesa doméstica (em “Há convidados”), como para ocasiões de menor disponibilidade para cozinhar (em “Se tem pouco tempo”). Testemunho inegável de que, nessas décadas de 60 e 70 do século xx, a gastronomia adquirira já em Portugal a importância que se traduz na emergência nos media da figura do gourmet encontramo‑la na criação de uma rubrica denominada “Segredos de um gastrónomo”. Célebres eram também os responsáveis pelas cozinhas dos mais afamados restaurantes e cozinhas de hotéis, pelo que se abriu um espaço na revista para entrevistas a esses experts da arte culinária (a “Página do Chef”). Na senda da filosofia segundo a qual a mesa é um espaço de divertimento, e fazendo jus ao espírito fundador da “avó” Annona, a Banquete oferece ao seu leitor uma “Página humorística”. Fruto da realidade da época, aí se encontra, por exemplo, a piada baseada em estereótipos colonialistas, conforme imagem abaixo apresentada.

Impõe‑se uma observação final ao grafismo da revista, em que se destaca um esforço em apresentar bastantes imagens, que nos primeiros números são maioritariamente ilustrações, com uma paleta de cores ainda pouco variada. À medida que os anos vão passando, registam‑se melhorias assinaláveis a este nível, com uma presença cada vez maior da fotografia e um aumento da policromia.

A periodicidade da revista e a sua identidade são abaladas pela mudança de regime político ocorrida em abril de 74. Assim, entre junho e dezembro desse ano são publicados três números duplos (junho‑julho, n.º 172; agosto ‑setembro, n.º 173; outubro‑novembro, n.º 174), sendo a última revista, a 175, publicada em dezembro desse ano sob o formato de índice geral das receitas de toda a coleção. Suspensa durante dois anos, a revista tem um fugaz renascimento, resumido à edição de um número, o 176 de dezembro de 1977.

No editorial que dirige nesse último número às suas “queridas, dedicadas e habituais leitoras” (p. 2), Maria Emília Cancella de Abreu explica as causas políticas que estiveram por detrás da suspensão do periódico culinário. A reestruturação da anterior empresa nacional Cidla dera lugar à Petrogal, nova proprietária da revista, tendo sido necessários dois anos para se atingir a estabilização que permitiu retomar a publicação herdada da estrutura anterior. Embora não tenha prosseguido, a obra evidenciava uma viragem que novos ventos impunham à redação editorial. Reduz‑se drasticamente o espaço de formação e lazer, passando a aposta a residir no predomínio técnico da apresentação de receitas. Uma nota final, denunciadora da inflação a que se assistira no período que mediou entre a série contínua de 1960‑1974 e a que se tentava reiniciar em 1977. O custo por revista quase triplicou, passando de 7$50 (preço do n.º 174) para 20$00 cada.

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