Foi no momento em que o homem utilizou, pela primeira vez, o fogo — que se começou a distinguir dos animais. Talvez enquanto se aquecia, aproximou dele o primeiro bocado de carne — e a cozinha nasceu.
Até aí alimentava-se apenas de raízes, peixe, carne, fruta — tudo cru — que devorava sem prazer.
Se não comia tudo de uma vez, guardava o resto numa concha e num recanto da caverna. Assim nasceram: o primeiro prato e o primeiro armário.
Este homem obteve, pois, o assado.
Outro, mais engenhoso, conseguiu aquecer água numa escudela de pedra — logo seguida pelo vaso de argila.
O mundo científico demonstrou já que, até à época paleolítica, os homens conheciam pois o fogo — não só para o adorarem mas também para o utilizarem.
Mais tarde, o espeto surgiu perto da faca de sílex, um pote foi colocado junto da travessa de metal.
Ao princípio, a gregária necessidade de lutarem contra as forças inimigas, obrigava os homens a reunirem-se em volta da mesma fera caçada e estrugindo no lume. Mas cada um ia pensando na forma de melhorar as condições vitais. Assim nasceu a pedra cavada que fez de sopeira ou prato coberto; assim apareceu o osso de rena ou de mamute, trabalhado em colher para recolher o sangue que corria da peça rechinante.
E o progresso foi lentamente dando o sabor do aperfeiçoamento.
Poder-se-ia dividir a história da preparação culinária em três períodos: ar livre e pedras; chaminé; fogão.
Realmente, esse torno, que construiu a primeira vasilha de barro, foi prodigioso. Tanto que tendo nascido na treva do tempo ido, ainda hoje se utiliza entre nós — pessoas ultracivilizadas que possuímos a grelha de raios infravermelhos e aos andares, que assa uns seis ou dez bifes ao mesmo tempo e em vinte segundos.
A machada começou a ser de pedra polida.
O cobre disse também a sua palavra junto das colheres, das facas e dos púcaros que, não já nas cavernas mas sim nas cidades lacustres pousadas sobre estacaria, iam surgindo. Mas como era frágil para a confecção das armas fizeram uma liga juntando-o ao estanho. E o bronze nasceu.
Mais tarde, mas ainda no tempo em que os homens usavam colares com dentes de urso, apareceu o pote de ferro que, ainda hoje, serve não só para se escreverem fábulas mas também para se cozerem couves.
O Egipto colocou a cozinha num pedestal.
Já nos reinados dos primeiros faraós se preparavam cereais e se bebia vinho acompanhando a caça, a pesca e a criação.
Havia mesmo certo requinte na apresentação dos acepipes, dispostos em pratos de bronze, vidro, faiança, esmalte e até ouro.
Na mesa central colocavam as iguarias e cada pessoa servia-se enterrando a faca ou colhendo com a concha, estendendo a taça para que a escrava deitasse vinho ou água e refastelando-se nas almofadas que ao acto da mastigação davam maior comodidade.
Entre os caldeus, as mulheres não se mostram nos baixo-relevos conhecidos: estavam sempre recolhidas no harém. Era gente de boa política, como o demonstra a seguinte faceta contada por Heródoto: reuniam, no mercado, todas as raparigas que havia para vender; quando apenas as bonitas encontravam comprador, esse dinheiro ia servir de dote às feias.
Mas nada sabemos sobre a sua alimentação.
Os hebreus fazem dois inventos: a forquilha de duas hastes com que retiram a carne da panela — é a precursora do garfo que não aparecerá senão no fim do século XVI — e o odre para transportar vinho, o que decerto lhes serviu de muito nas constantes migrações em que andaram antes de entrarem na «terra da promissão», país de oliveiras, centeio, vinhas, pão e mel…
Os fenícios, embora possuíssem um cozinheiro que ficou na história — Cadmos — tinham um fraco: honrar os seus deuses Moloch e Baal, por meio de ruidosas orgias, no final das quais eram sacrificadas inocentes crianças.
Com uma religião desta forma cruel e sanguinária, não interessa nada saber o que tal gente comia, embora, juntamente com o incenso e a mirra, já conhecesse muito bem as especiarias e as águas de cheiro.
Os persas e os assírios continuaram a ter utensílios em bronze, argila, madeira, ferro batido e prata. Cozinhavam em fornos de tijolo, situados ao ar livre ou no próprio compartimento onde comiam, utilizando-se já de grelhas, fervedeiros, chaleiras, etc. Os gregos adoptavam um nome para designar o cozinheiro: mageiros. Que, afinal, significa: amassador.
Parece que no tempo de Homero ainda ele não existia pois era o próprio anfitrião, auxiliado por mulheres, que preparava o repasto.
Nas grandes casas havia muitos criados-escravos, cada qual com o seu serviço marcado: o éleatros (mordomo), o agorastês (comprador), o opsartytês (que acendia e mantinha os lumes), a demiourga (doceira), o trapezopoios (que punha a mesa e lavava a loiça), o oinophoros (que comprava os vinhos) e o oinochoikos (jovem escravo que enchia as taças).
A importância do cozinheiro era tão grande que ninguém lhe tocava. Este provérbio o atesta: «Quando o cozinheiro comete uma falta é o tocador de flauta quem apanha pancada». Apesar do incêndio da biblioteca de Alexandria, ainda resta uma certa literatura culinária — sendo o mais referido cozinheiro, aquele que foi amigo de um dos filhos de Péricles: Archestrate de Siracusa.
Dele e doutros se ocuparam: Timachidas de Rodes, Filoxene de Leucade, Acesius, Hegesipo, etc.
Pouco a pouco, o conjunto de utensílios foi melhorando, à medida que o povo mais se ia requintando. Os tesouros de Bosco-Reale que se encontram no museu do Louvre, em Paris, assim o atestam. As caldeiras chegavam a ser em prata. A cerâmica atingiu elevado nível, havendo os vasos pintados com figuras vermelhas ou pretas e as estatuetas tão faladas: de Tanagra.