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2023 Annona ou Misto Curioso

Annona, ou Misto Curioso

Annona ou Mixto Curioso

TITLE: Annona ou Misto Curioso

SUB TITLE: Annona ou Mixto Curioso

AUTHOR: 

NOTAS DE AUTORIA: org. Eduardo da Cruz, Gilda Santos

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 2023

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 1st edition

LOCAL: Porto

PUBLISHER: Livraria Lello

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: Capa dura

FORMATO / DIMENSÕES: 21 cm

NÚMERO DE PÁGINAS: 523 páginas

COLECÇÃO: Folheto semanal (publicação periódica de baixo custo).
Formato de folhetim, ou seja, fascículos independentes que podiam ser encadernados.

ISBN/ISSN: 9789899135925

COLECÇÃO DE: SELO DE MAR

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: 

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”:

OBSERVAÇÕES: 

O primeiro folhetim de culinária em língua portuguesa, publicado entre 1836 e 1837 e quase desaparecido, foi reeditado pela Livraria Lello em livro, numa parceria com Real Gabinete Português de Leitura. Annona ou Misto Curioso é agora transformado em livro para o leitor do século XXI. Annona ou Misto Curioso é uma deliciosa viagem no tempo, reunindo um conjunto de receitas variadas temperadas pela tradição e cultura portuguesas, acompanhadas de jogos de salão, “digestivas”  histórias de Portugal, fábulas mitológicas, poesias e pequenas narrativas que animavam os serões festivos oitocentistas e que, divertirão, os leitores contemporâneos. 
Um documento raro e essencial para a investigação da alimentação que reflete os costumes de uma época única.

The first culinary feuilleton in the Portuguese language, published between 1836 and 1837 and nearly vanished, was reissued by Livraria Lello in book form, in collaboration with the Real Gabinete Português de Leitura. “Annona or Misto Curioso” is now transformed into a book for the 21st-century reader. It is a delightful journey through time, bringing together a collection of diverse recipes seasoned with Portuguese tradition and culture.
The book is accompanied by parlor games, “digestible” stories of Portugal, mythological fables, poems, and short narratives that animated festive evenings in the 19th century and are sure to entertain contemporary readers.
A rare and essential document for researching the culinary practices that reflect the customs of a unique era.

CRUZ, Eduardo da; SANTOS, Gilda (org.). Annona ou Misto Curioso. Porto: Livraria Lello, 2023. ISBN: 978-989-9135-92-5. 

Guida Cândido 

Universidade de Coimbra 

 A edição em apreço resulta da estreita colaboração entre a Livraria Lello, do Porto, e o Real Gabinete Português de Leitura (RGPL), do Rio de Janeiro. Com mais de meio milhar de páginas, reúnem-se neste volume os 36 fascículos da primeira revista de culinária em língua portuguesa que circulou em Portugal entre 1836 e 1837. O “folheto semanal que ensina o método de cozinha e copa, com um artigo de recreação” (Cruz; Santos, 2023, p. 5) respondia, de forma objetiva, às práticas de comensalidade da sua época, onde se incluía, além das propostas culinárias, um leque vasto de outras matérias, como poesia, contos, fábulas, curiosidades, anedotas e propostas de jogos de salão, indispensáveis aos serões da sociedade burguesa. 

Se dúvidas restassem sobre o aumento significativo no interesse pelo estudo da alimentação, essa edição vem esclarecer e reforçar o seu papel nas agendas globais. Confirmada a sua posição como campo historiográfico, desde 1961, com o inaugural e incontornável estudo de Fernand Braudel, Alimentation et catgories de l ́histoire (2003), a comensalidade constitui uma das mais profícuas esferas de investigação científica, contribuindo para a história da humanidade, numa leitura ampla e diversificada, correlacionando quatro pilares fundamentais: a alimentação, a gastronomia, a dietética e o património. O ato de comer não resulta apenas da necessidade biológica, assenta antes num código alimentar que pressupõe outros aspetos como o gosto e o desejo, decorrentes de contextos variados e de dissemelhanças sociais, geográficas, culturais, religiosas, económicas e até políticas. 

Atualmente, é reconhecido o papel da gastronomia no desenvolvimento e na promoção do turismo, sendo objeto de investimento expressivo por parte dos organismos estatais. Isso também se verifica no campo editorial e nos media, sendo relevante o volume de livros de culinária que alcançam sucesso de venda, bem como programas televisivos na esfera da culinária que convertem cozinheiros, profissionais e amadores, em verdadeiras estrelas televisivas. 

Perante estas circunstâncias, não se estranha o interesse em reeditar uma revista oitocentista que, apesar do seu sucesso inicial, não sobreviveu a um período correspondente ao de uma gestação humana: nove meses! De tão rara e escassa em bibliotecas ou alfarrabistas, os colecionadores não hesitaram em despender verbas avultadas pelos limitados exemplares sobreviventes. Nesse sentido, é de excecional mérito e generosidade para a sociedade académica e civil, a disponibilização que o RGPL materializou com o projeto “O Real em Revista” oferecendo ao público 35.000 páginas digitalizadas on-line de uma seleção de periódicos oitocentistas, predominantemente portugueses, que enriquecem o acervo dessa ilustre instituição. Destaca-se neste particular a Annona que, como lembra o seu presidente, “deliciada com os 36 folhetos, que mesclam as artes de cozinha com as variedades dos almanaques, parte da equipe se lançou à tarefa de sua publicação em livro, atualizando-os e contextualizando-os” (Cruz; Santos, 2023, p. 8). A este desígnio, em boa hora, juntou-se a centenária Lello, eleita a livraria mais bonita do mundo. 

Importa esclarecer que o título da publicação não tem qualquer relação com a fruta que ostenta o mesmo nome, mas sim uma clara referência à “deusa da abundância e das provisões da boca” (Cruz; Santos, 2023, p. 21), plasmada no prefácio, silencioso quanto à sua autoria. Em todo o caso, os três tomos com receitas e entretenimento indicam, no frontispício, que as assinaturas eram firmadas na “Loja de José Joaquim Nepomuceno, Rua Augusta, nº 137” da capital. Sabe-se, ainda, que era possível adquiri-la noutras lojas, embora a indicada fosse do livreiro José Joaquim Nepomuceno Arsejas (1800-1869). Matriculado na classe de livreiro, a partir de 1820, tinha loja aberta antes de 1836, uma vez que editava desde junho de 1835 um Jornal de Comédias e Variedades, com particularidades semelhantes à Annona ou Misto curioso. Distinguia-se desta apenas pela troca de comédias por receitas culinárias (a singularidade da revista), mantendo-se a matriz que agregava charadas, enigmas, poemas, anedotas e fábulas, como se referiu inicialmente. 

Não obstante essa eventual autoria, não se descura a possibilidade de existir mais do que um autor, uma vez que alguns textos patenteiam iniciais diferentes como assinaturas, tais como “R.” ou “J.”. Contudo, as mais das vezes, trata-se de cópias de receitas já antes publicadas, nomeadamente no sobejamente conhecido e inaugural livro de culinária impresso em Portugal, A arte de cozinha, editado em 1680 pelas mãos do cozinheiro régio Domingos Rodrigues. 

Detenhamo-nos na presente edição que reúne num único tomo a totalidade dos fascículos originais, ainda que não o faça na forma original, temática e cronologicamente ordenados. Visando uma arrumação de matérias mais condizente com o leitor generalista dos nossos dias, os organizadores optaram por agrupar em diferentes secções a multiplicidade de textos que, à época, foram publicados em jeito de miscelânea em cada número do periódico. Eduardo da Cruz e Gilda Santos do RGLP introduzem o leitor na obra com um texto informativo sobre a origem, identidade e conteúdo da revista oitocentista, bem como os objetivos da sua reedição. Após essa abertura, segue-se a secção mais extensa e singular da publicação, dedicada à culinária, cabendo a Ida Alves e Mônica Genelhu Fagundes um breve texto introdutório esclarecedor do que se disponibilizava aos comensais em 1836 e 1837. As investigadoras atualizaram a linguagem original e a pontuação “para que as receitas sejam mais compreensíveis ao leitor de hoje”, deixando, contudo, em diversas ocasiões, a marca do tempo, permanecendo “traços próprios da sintaxe oitocentista” (Cruz; Santos, 2023, p. 25). Com um sentido pedagógico e viabilizando a possível reprodução das receitas pelo leitor, incluíram um apêndice com a conversão das antigas medidas de peso e o glossário com alimentos, técnicas e utensílios que podem oferecer algumas dúvidas na atualidade. 

Nas páginas originais da Annona, a cada número, apresentaram-se as breves explicações técnicas de cozinha e as receitas salgadas e doces, sem ordem específica na sua publicação ao longo dos fascículos. Todavia, na presente compilação, e por forma a orientar o leitor na sua busca, a organização é sistematizada em função da sua tipologia, abrindo com os caldos, seguindo-se as potagens ou sopas; os embutidos; as terrinas e os popetões; os pastéis, as empadas, as tortas e os timbales. Surgem depois as massas, muito ao gosto do século XIX, que antecedem as receitas de pescado, respondendo estas, as mais das vezes, às prescrições religiosas de abstinências. Seguem-se, em maior número, as propostas de carne – incluindo açougue, aves e caça – e depois os molhos e ragus. Encerrando a secção de salgados, mostram-se as receitas de legumes, espelhando a posição pouco valorizada na comensalidade das elites oitocentistas. Em conformidade com qualquer refeição, finalizam com o item dedicado à doçaria, onde convivem em harmonia: as sopas; as conservas; os cremes; as massas; as tortas; os pudins; os manjares; os biscoitos; os bolos e as outras especialidades doces, muitas destas associadas a receitas tradicionais portuguesas. De forma singular, identifica-se uma receita brasileira, a célebre canjica. 

No sumário da Annona, segue-se o Misto curioso, precedida cada uma das secções com um texto introdutório de especialistas, à semelhança do que se verifica na parte culinária. Fica, pois, o leitor com um manancial de propostas que fariam as delícias em qualquer repasto burguês oitocentista, onde era costume beneficiar os comensais com: poesia; contos; fábulas; história; bons ditos; apotegmas; anedotas; bernardices; jogos de salão; adivinhas; charadas; cronogramas; enigmas; logogrifos e sortes. 

Fazendo jus a um trabalho coletivo que se plasma na presente edição, não se olvidam os múltiplos colaboradores, encerrando a obra com uma breve biografia da notável equipa que materializou a compilação que oportunamente nos chega às mãos e que nos relembra a atualidade do prefácio da primeira edição: “nada pois mais lindos a qualquer pessoa, ainda nobre ou plebeia, como o saber de tudo: olhai que não vos desdobra entrar na copa ou na cozinha” (Cruz; Santos, 2023, p. 21). 

Recebido: 15/01/2024 Aprovado: 14/02/2024 

Referências 

BRAUDEL, Fernand. Alimentation et catégories de l’histoire. Food and History, Tours, vol. 1, p. 23-30, 2003. 

CRUZ, Eduardo; SANTOS, Gilda (org.). Annona ou Misto curioso. Porto: Livraria Lello, 2023. ISBN: 978-989-9135-92-5. 

Minicurrículo 

GUIDA CÂNDIDO é Doutorada em Patrimónios Alimentares: Culturas e Identidades. Investigadora integrada do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Professora Auxiliar Convidada no Mestrado em Alimentação: Fontes, Cultura e Sociedade, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

RESENHA DE ANNONA OU MISTO CURIOSO FOLHETO SEMANAL QUE ENSINA O MÉTODO DE COZINHA E COPA COM UM ARTIGO DE RECREAÇÃO.

1836-1837
em ABRIL – Revista do NEPA/UFF, Niterói, v.16, n.33, p. 157-162 jul.-dez. 2024

Joana Monteleone

 Annona é o nome da deusa romana responsável por abastecer Roma nos tempos antigos. Representava a abundância. Seu nome deriva da palavra “ano” em latim, marcando os ritmos das colheitas dos cereais. Geralmente era representada ao lado de Ceres ou Deméter, a deusa das plantas que brotam e do amor maternal. Annona era retratada com uma cornucópia, o chifre da fertilidade, recheado com frutas, plantas e cereais. Vinha à frente da proa dos navios que chegavam a Roma com as delícias de além-mar, e seu retrato aparece com frequência em módios, moedas do império romano. Não foi, portanto, por acaso que os editores de uma das primeiras revistas de gastronomia editada em Portugal entre 1836 e 1837 escolheram Annona como seu título e padroeira. O título integral da publicação é Annona ou Misto Curioso, com a seguinte informação: “folheto semanal que ensina o método de cozinha e copa com um artigo de recreação”. Foram poucas as revistas de gastronomia voltadas para o público leitor de português no século XIX, assim como foram poucos os livros de gastronomia lançados no mercado português e brasileiro neste período. Com um tema considerado menor, ligado ao universo feminino, à cozinha e aos afazeres domésticos, Annona teve vida relativamente curta de apenas dois anos na década de 1830. Hoje, através de iniciativa pioneira de pesquisadores brasileiros ligados ao Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras (PPLB) sediado no Real Gabinete de Leitura, no Rio de Janeiro, e apoio editorial da Livraria Lello, no Porto, em Portugal, o almanaque oitocentista volta ao mercado editorial em formato de livro — essencialmente em Portugal, mas pode-se fazer uma encomenda. A edição em capa dura verde água com título em amarelo conta com apresentação geral de Eduardo Cruz e Gilda Santos. A edição ficou com 523 páginas reunindo receitas, anedotas, poesia, contos, fábulas e histórias em seções separadas. Desta forma, o periódico português não aparece republicado pelo número da edição ou pela data de cada folheto, mas por assunto e, à frente, vêm as receitas, explicitando o assunto principal. A reedição de Annona tem assim o mérito de recolocar nas livrarias e bibliotecas uma obra das mais importantes para se entender as relações de gosto e sociabilidade tanto em Portugal, onde o periódico foi inicialmente editado, como no Brasil, onde também circulava. Na versão ora impressa, cada parte da obra é introduzida por breves textos dos pesquisadores envolvidos no trabalho de edição, sobretudo da área de Letras e História. Além dos organizadores, Ida Alves, Monica Genelhu Fagundes, Gilda Santos, Ana Cristina Comandulli, Pedro Paula Catharina, Andreia de Castro, Elisabeth Martini, Angela Telles, Aline Erthal, Betty Biron e Julianna Bonfim explicam as seções que formavam o almanaque histórico: receitas, poesia, contos, fábulas, história, ditos e anedotas, jogos de salão e adivinhas. Em relação ao conjunto de receitas (de sal e doces), as responsáveis pela transcrição incluíram um glossário ao final da parte das receitas, explicando certos nomes de alimentos ou processos que podem causar estranheza ao leitor de hoje, além de fazerem a equivalência de algumas das medidas antigas mencionadas nos textos.
Teria sido interessante, para que a edição permitisse uma compreensão melhor da publicação original, que os editores incluíssem alguns fac-símiles (ou pelo menos um). Estudos recentes mostram como a própria diagramação de uma revista é passível de ser lida e é também uma forma de leitura.

Por exemplo, em almanaques de gastronomia, poesias dialogam com as receitas ou mesmo com outros textos. A consulta à Annona em formato facsimilar, contudo, não está totalmente distante dos já interessados. Está online e, ao “folheá-la”, podemos perceber que não existiam anúncios. A diagramação é simples, com as receitas vindo em primeiro lugar e, depois, a parte literária, de recreação — simulando o próprio jantar do século XIX, em que à mesa seguiam-se atividades coletivas, leves e recreativas. Annona nasceu num momento de efervescência editorial e literária, com diferentes estilos de publicações sendo lançados em vários lugares do mundo — a dianteira desse movimento ficava com a França, impulsionado pelas ideias iluministas e pela Revolução de 1789. Ao mesmo tempo, mudanças tipográficas importantes facilitavam a edição (Hallewell, 1985), já que as primeiras décadas do Oitocentos foram pródigas em pensar o papel da imprensa e dos leitores, com o lançamento de publicação para públicos diferentes. As mulheres, cada vez mais alfabetizadas, entraram em cena como ávidas consumidoras de livros, jornais, revistas, almanaques, folhetos e afins. Annona nasceu voltada preferencialmente para o público feminino. Mais do que “apenas” uma inspiração cultural, a França fornecia também o conhecimento técnico que permitia a expansão editorial em outros países da Europa e da América Latina. Muitos editores, tipógrafos e trabalhadores do livro partiram para novos destinos, saindo da França, em busca de negócios e trabalho depois da derrota de Napoleão, em 1812. Trabalhar com publicações sempre foi arriscado econômica e, também, politicamente, e os empresários e tipógrafos estavam sujeitos à censura, a prisões e perseguições políticas de toda espécie. No Brasil, um desses editores franceses expatriados, Pierre Plancher, lançou uma série de produtos editoriais no mesmo período — ele desembarcou no Brasil com uma tipografia e alguns funcionários e abre seu negócio em 1824 (Santana Júnior, 2019). Por uma década, até 1834, Plancher dominou os negócios editoriais do jovem país de Dom Pedro I e, em 1827, publicou um periódico para mulheres que versava, entre outros assuntos, sobre moda — era O Espelho Diamantino. O jornal durou 14 números, de 1 de novembro de 1827 até abril de 1828 e se assemelhava ao Annona em muitos aspectos (diagramação, assuntos, maneiras de se dirigir aos leitores e leitoras). O principal, certamente, era o tipo de público leitor, as mulheres. A imprensa era uma ferramenta poderosa no século XIX. Tratava de temas políticos, que influíam no cotidiano do país, mas também servia como um dos mais importantes marcadores temporais do século XIX. Números publicados com regularidade, com assuntos voltados para o cotidiano, para a divulgação científica e cultural dos leitores e leitoras, modificaram a noção de tempo no período. Junto com os relógios, que passaram a estar em vários lugares da vida do dia a dia (nas casas, nos bolsos dos coletes, nas ruas ou nas lojas), os periódicos marcaram a vida no século XIX (Benjamin, 1985). A busca por um novo público leitor, as mulheres, não apenas aumentou as tiragens e as opções de leituras, mas difundiu a ideia de que as mulheres deveriam ser educadas, deveriam aprender a ler, a escrever e a contar, além de outros atributos para um bom casamento, como saber cozinhar, fazer doces e se vestir apropriadamente, dançar ou tocar piano. A moda, como no Espelho Diamantino, ou a culinária, como na Annona, ensejaram publicações que tinham nas leitoras seu público-alvo. Além disso, ambas possuíam seções de divertimentos e literatura, como de contos, de poesias, de fábulas e anedotas — leituras vistas na época como apropriadas às mulheres educadas. A ideia de um tempo de lazer e diversão também nasce com a revolução industrial — o ócio, diria Veblen —, tempo que deveria ser preenchido com atividades civilizadas, como a leitura de jornais e romances (Veblen, 1978).

 A maioria das receitas de Annona reproduz, às vezes na íntegra, partes do livro Arte de cozinha, de Domingos Rodrigues, publicado em 1680. O livro é um clássico absoluto da cozinha portuguesa, com uma compilação de 300 receitas, as quais ao longo dos anos volta e meia reaparecem em outros livros de receitas — até o século XX. Domingos Rodrigues nasceu em Vila Cova à Coalheira em 1637 e morreu em Lisboa em 1719. Foi cozinheiro do rei Dom Pedro II de Portugal, tendo estado à frente da cozinha da Marquesa de Valença. Ele tinha 43 anos quando publicou o volume, que, como em Annona, nem sempre apresenta medidas exatas dos ingredientes, apenas modos de fazer, explicados de maneira bem solta, sem maior precisão. Cento e cinquenta e seis anos separam as duas publicações. Pelas receitas publicadas, percebe-se que os pratos portugueses não mudaram muito nesse período. É nítida uma influência francesa — mais forte na Annona do que na Arte de cozinha (no início do século XVII, essa influência estava se iniciando). São receitas que traduzem não apenas um gosto, particular ou de grupo, por determinados alimentos — elas traduzem também a maneira de comer de classes ociosas, no caso, a alta burguesia e a aristocracia. Desta maneira estão presentes ostras, enguias, pombos, lampreias, salmão, pargos e doirados, bacalhau, camarões, vitelos e carneiros, perus, trufas, alcachofras, castanhas, aspargos, couve-flor, chicórias, ervilhas, favas, pepinos entre vários outros ingredientes. A escolha cuidadosa do que se ia colocar à mesa mostrava riqueza, poder e civilidade. Apesar da influência, em Annona estão ausentes algumas palavras que estavam ligadas à tradição francesa e que hoje estamos acostumados a usar. São elas: “gastronomia”, “gastrônomo”, “gourmet”. Se, por um lado, isso mostra que a influência francesa era sensível, mas não avassaladora na cozinha portuguesa, por outro mostra que o refinamento à mesa passava por outros símbolos e signos além da palavra. Foi no começo do século XIX que a França se estabeleceu como referência incontestável na cozinha, com a circulação dos textos do advogado e jurista Jean-Anthelme Brilliat-Savarin (1995), que progressivamente fariam as palavras mencionadas anteriormente se tornarem referência da comida de elite. Brilliat-Savarin não apenas popularizou esses termos em seu livro mais conhecido, La phisiologie du goût, lançado em dezembro de 1825, numa edição paga pelo próprio autor, como criou a ideia de que a cozinha era uma arte equivalente à música ou ao teatro, portanto feita por gênios-cozinheiros e passível de ser criticada. Desta forma, quando a Annona passa a ser publicada em 1836, ela está fazendo, ainda que de modo indireto, uma referência a Savarin e ao estilo de vida francês da Restauração, entre 1815 e 1830. Neste momento, jantares privados passavam a ser mostras de civilidade burguesa, e eram bastante protocolados.

Desde o século XVIII, cozinheiros franceses eram contratados para diferentes cortes reais na tentativa de modernizá-las, adequá-las aos novos tempos e aos novos governantes. Em Portugal, D. Maria (1734-1816), durante seu reinado entre 1777 e 1792 (quando começou seus delírios e Dom João VI assumiu o trono na prática) contratou o cozinheiro francês Lucas Rigaud, que acabou por escrever Cozinheiro moderno ou Nova arte de cozinha (Rigaud, 1999), chocado com o fato do livro de Domingos Rodrigues ser o único livro de cozinha de Portugal até então, meados do século XVIII. Os desconhecidos editor (seria José Joaquim Nepopuceno Arsejas?) e redatores da Annona sabiam, portanto, ao falar para seu público, que estavam a par tanto da tradição culinária portuguesa, com as receitas de Domingos Rodrigues, como com as novas modas culinárias de Vincent Sain Chapelle e Lucas Rigaud e a cozinha francesa. Se a cozinha aristocrática portuguesa ainda exagerava nas especiarias, mostrando seu valor comercial e sua importância econômica, desde o começo do século XVIII a cozinha francesa buscava o refinamento do “gosto puro” dos alimentos, que pouco depois seria tão exaltado por Brilliat-Savarin. Mas a Annona não foi um periódico apenas de receitas ou de gastronomia, ainda que essa fosse seu principal chamariz. Além da comida, publicava poesias, contos, fábulas, anedotas, adivinhas no melhor estilo “almanaque do século XIX”, com uma variedade incrível de assuntos leves e mundanos. A ideia, como referimos, era ser uma revista voltada para o público feminino da alta burguesia à aristocracia portuguesa — uma revista de entretenimento no sentido mais completo do termo. As receitas deveriam ser servidas em jantares, seguidos por distrações leves, músicas, recitação de poesia, contos ou anedotas. Dessa maneira, um jantar estaria completo, numa oferenda para Annona, a deusa da abundância, terminando a noite cheia de felicidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas: magia e técnica, arte e política.
São Paulo: Brasiliense, 1985.

BRILLIAT-SAVARIN, Jean-Anthelme. A fisiologia do gosto. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

CRUZ, Eduardo e SANTOS, Gilda. Annona ou misto curioso. Porto: Livraria Lello, 2023.

HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil: sua história. São Paulo: EdUSP, 1985.

MONTELEONE, Joana. Sistema métrico. In: SLEMIAN, Andréa, AIDAR, Bruno, LIMA LOPES, Jose Reinaldo. Dicionário histórico de conceitos jurídico-econômicos. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2021.

RIGAUD, Lucas. Cozinheiro moderno ou Nova Arte de cozinha. Lisboa: Colares, 1999.

RODRIGUES, Domingos. Arte de cozinha. Lisboa: Biblioteca de Autores Portugueses/. Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1987.

SANTANA JUNIOR. Odair Dutra. Jornais de Língua Francesa na tipografia de Pierre Plancher (Rio de Janeiro, 1827). In: Revista Non Plus, Ano 7, n.15, jan.- jun. 2019, ISSN: 2316-3976 n.

VEBLEN, Thorstein. Teoria da classe ociosa. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

NOTAS
1 Joana Monteleone é editora e historiadora, fez Pós-Doutorado na Cátedra Jaime Cortesão da Universidade de São Paulo (USP) com o tema “Açúcar e Industrialização” e na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com o título “O Almanaque Laemmert e o tempo do Império” (2015-2018). Ganhadora do prêmio Jabuti em 2017 como editora, é editora da Alameda Casa Editorial desde 2004. Fez doutorado pelo Programa de Pós-graduação em História Econômica do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP – 2013), com o título de O circuito das roupas: a Corte, o consumo e a moda (Rio de Janeiro, 1840-1889). Possui mestrado em História Econômica pela Universidade de São Paulo (2008), com o título de Sabores Urbanos: alimentação, sociabilidade e consumo (1828-1910). Atua, principalmente, nos seguintes temas: história do império, história do consumo, história da alimentação, história da moda, história e urbanismo. É autora dos livros Sabores Urbanos (Alameda, 2015), Toda comida tem uma história (Oficina Raquel, 2017), O circuito das roupas: a corte, o consumo e a moda, Rio de Janeiro, 1840-1889 (2022) e coorganizadora de A história na moda, a moda na história (Alameda 2019), Histórias de São Paulo: construções e desconstruções (Edusp, 2023) e Cachaça, história e literatura (Alameda, 2023). 2 A questão das medidas e do sistema métrico é complexa tanto em Portugal como no Brasil. Nos países o sistema métrico demorou a ser implantando e até hoje se utilizam medidas não decimais nas receitas como colheradas, bacias, xícaras e pitadas (nenhuma dessas medidas aparece na tabela de equivalências, por sinal). Para saber mais sobre a questão das medidas e da implementação do sistema métrico, ver MONTELEONE, Joana. Sistema métrico. In: SLEMIAN, Andréa, AIDAR, Bruno, LIMA LOPES, Jose Reinaldo. Dicionário histórico de conceitos jurídico-econômicos. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2021. 3 É possível ler o fac-símile em https://www.docvirt.com/DocReader.net/RealGabObras-Raras/38862 . 4 Ver a apresentação de CRUZ, Eduardo e SANTOS, Gilda. “Annona, muito além dos prazeres da mesa”. In: Annona ou misto curioso. Porto: Livraria Lello, 2023, p. 15-20.

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A Cozinheira das Cozinheiras de Rosa Maria: alimentação e saúde

A Cozinheira das Cozinheiras de Rosa Maria: alimentação e saúde

A autora agradece à Prof.ª Dr.ª Carmen Soares pelas suas preciosas sugestões para o trabalho inicial que originou este artigo.

Ana Branco Carvalhas é  Doutoranda em Patrimónios Alimentares, Culturas e Identidades na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Licenciada em Nutrição pela Universidade do Porto. (abcarvalhas@gmail.com)

Resumo


O livro de Rosa Maria, A Cozinheira das Cozinheiras, publicado em Lisboa no início dos anos 1930, conheceu grande sucesso. A obra, surgida numa época de enorme crise económica, compõe-se de uma parte sobre higiene alimentar e de outra com 500 receitas. Na primeira, contendo informações de saúde, são apresentadas tabelas do valor nutricional dos alimentos, tempos de preparação e regimes para diversas condições físicas e, na segunda, o modo de confecção dos pratos (salgados e doces), principalmente de culinária portuguesa, destinados à alimentação familiar. Analisamos os preceitos de higiene alimentar à luz dos conhecimentos atuais. Ajudamos a clarificar a identidade da autora, que assinou outros livros, ainda não está clara, assim como a relação do livro com um livro brasileiro de autora homónima e com capa muito semelhante. Assinalamos que várias receitas são copiadas de um livro português com um título quase igual.

Palavras-chave: A Cozinheira das Cozinheiras. Culinária Portuguesa. Higiene Alimentar. Nutrição. Rosa Maria.

Introdução

A relação da gastronomia com a dietética é antiga, mas, no início do século XX, surgiu uma nova dietética, mais convincente e com maior influência sobre as condutas alimentares: tratava-se não só de escolher bem os alimentos, mas também da melhor maneira de os preparar e de os comer (Flandrin; Montari, 2001, p. 292-293). Além disso, começaram a ser mais bem conhecidas as ligações da alimentação com a saúde: por exemplo, as vitaminas foram descobertas entre 1913 e 1948; a insulina foi isolada em 1922, feito a que se seguiram logo os primeiros tratamentos da diabetes; e as fibras alimentares foram identificadas nos anos 1930, embora essa designação só tivesse aparecido mais tarde. Na época assistia-se a um aumento do consumo de legumes e frutas, à redução dos tempos de cozedura, transformações que têm relação com as descobertas das vitaminas e depois das fibras (Ibidem, p. 293).

Por outro lado, as autoridades públicas começaram a legislar sobre higiene alimentar, com vista à prevenção de certas doenças. As primeiras décadas do século XX, marcadas pelas Primeira e Segunda Guerras Mundiais, com a gripe espanhola e a Grande Depressão pelo meio, foram de grandes carências alimentares no mundo.

Mas foi também o tempo em que surgiram os primeiros estudos para averiguar quais eram em pormenor os nutrientes e as necessidades mínimas de uma dieta alimentar saudável, enfatizando-se as vitaminas (Ibidem, p. 405-406).

Apesar do enorme atraso socioeconómico de Portugal relativamente a outros países da Europa, os avanços que se faziam no mundo iam chegando ao país. Nas primeiras décadas do século XX, foram publicados no país vários livros de culinária, muitos deles sucessivamente reeditados, sendo alguns de autoria feminina (o que era na época uma inovação, que correspondia à progressiva afirmação das mulheres na sociedade), que serviram de guia a muitas cozinheiras (Cf.: Grenha, 2011, p. 61; Braga, 2008, p. 125; Braga, 2016). Foi no início dos anos 1930, na transição da Primeira República para o Estado Novo, no período da Ditadura Militar, quando largas faixas da população passavam por grandes dificuldades económicas que Rosa Maria publicou o livro A Cosinheira das Cosinheiras (Maria, 1977).¹ O subtítulo “Higiene Alimentar” revela desde logo preocupações com a saúde, e o vocativo inicial (“Às senhoras que dirigem o lar doméstico”) mostra que as destinatárias eram as donas de casa a quem cabia a gestão da economia alimentar e a preparação das refeições familiares (Soares, 2018, p. 69-74). A obra exibe uma clara intenção pedagógica na área da alimentação e saúde (Braga, 2015, p. 6), uma vez que a autora dedica as primeiras 20 páginas a fornecer informação sobre calorias, valor nutritivo dos alimentos, necessidades calóricas de acordo com a idade, atividade física e clima, e regimes alimentares para pessoas que sofrem de diabetes, artrites, problemas de estômago, fígado e rins. Rosa Maria acentua também a necessidade de uma boa preparação culinária de alguns alimentos associando-a à respetiva digestibilidade (para ela, a cozinha era o processo preliminar da digestão). As inclusões dessas preocupações com a higiene alimentar diferenciam o livro de outros livros de receitas da época.

O livro de Rosa Maria, que veio na sequência de outras obras suas sobre cozinha económica e que haveria de ser seguido por outros livros que multiplicavam o número de receitas para cada tipo de prato (de carne, de peixe, vegetariano, doces etc.), haveria de marcar gerações de mulheres na cozinha.²

Respondia, de facto, a necessidades sentidas pelas donas de casa, decerto mais as urbanas do que as rurais, as quais, no seu dia a dia, tinham de pôr na mesa as refeições.

As receitas são descritas brevemente, sem ilustrações, divididas em salgados e doces, e seguindo a ordem alfabética do seu título. Não há uma arrumação separada para a gastronomia nacional, que constitui a maior parte do receituário. Esse conceito só estava, aliás, a emergir nessa época com a publicação, em 1936, do famoso livro Culinária Portuguesa, de António Maria de Oliveira Bello (Bello, 1936) sobre a culinária portuguesa (Fábio, 2018, p. 225). Vários trabalhos têm sido publicados sobre esta Rosa Maria portuguesa (Cf.: Braga; Oliveira, 2015; Braga; Pilla, 2018; Soares, 2018), salientando-se o de Braga e Pilla, atendendo ao pioneirismo na publicação de receituário de cozinha portuguesa para o grande público, antes de outras autoras de livros de receitas, mais cuidadas graficamente, que também conheceram grande êxito: merecem especial menção os nomes de Bertha Rosa Limpo, em 1945, Maria Odette Valente, em 1962, e Maria de Lourdes Modesto, em 1981.

Pouco se sabe sobre Rosa Maria, ignorando-se até se seria este o seu verdadeiro nome. Segundo Braga e Pilla (2018, p. 13), que creditam a informação a uma fonte oral da editora Civilização, tratar-se-ia do pseudónimo de um homem, Gaspar de Almeida. Além disso, persiste um mistério sobre a extrema semelhança no design de capa com uma obra de uma autora brasileira com o mesmo pseudónimo, mas de identidade conhecida – Marieta de Oliveira Leonardos –, que apareceu em 1931 (Maria, 1931). Analisaremos aqui a obra principal de Rosa Maria, com especial incidência nas questões de higiene alimentar, concluindo com a discussão da sua autoria e da eventual relação com a obra brasileira.

¹ Usámos para este trabalho a 2.ª edição, sem data, com capa mole, que usa “s” no título da folha de rosto (mais tarde aparecerá como título A Cozinheira das Cozinheiras, grafia hoje corrente). Na lista de Fontes está a lista completa dos livros de Rosa Maria.

² Veja-se a seguinte citação: “A Cosinheira das Cosinheiras foi a bíblia da minha mãe, que o levou para os Estados Unidos da América, quando se casou, trazendo-o religiosamente na bagagem, quando regressou, dez anos mais tarde roída de saudades, e mo ofereceu quando me casei, sabendo da minha apetência pela cozinha” (Barroqueiro, 2021, p. 114).

Descrição da A Cozinheira das Cozinheiras de Rosa Maria e da restante bibliografia da autora

Rosa Maria é o nome da autora de 15 livros de cozinha, pequenos e baratos, que foram publicados originalmente entre o início dos anos 1930 e 1964.³ O seu enorme sucesso junto do público transparece do número das sucessivas edições. O livro A Cosinheira das Cosinheiras: A Arte de Bem Comer, com o subtítulo de Higiene alimentar e mais de 500 receitas para cozinhar, fazer doces, gelados, compotas, foi publicado pela Empresa Literária Universal, com sede na Rua da Era, 17, em Lisboa, no início dos anos 1930, é a mais relevante das suas obras não só pelo seu maior tamanho (200 páginas), mas também pelo maior número de edições (32) ao longo dos anos. Contém, antes da apresentação de 500 receitas, a maioria de cozinha portuguesa, alguns conselhos de nutrição, higiene e saúde, uma vez que “a saúde da família está dependente da maneira como é alimentada” (Maria, s./d., p. 5).

A data da edição original é desconhecida: ela não existe nem na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) nem na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC), nem a conseguimos localizar em nenhum alfarrabista. Saíram reedições sucessivas até à 32.ª, em 1999 (hoje encontra-se esgotado, só existindo no mercado de livros em segunda mão). A partir da 9.ª edição, em 1955, o livro passou a sair do prelo da Livraria Civilização Editora, do Porto.

O título foi decerto inspirado pelo conhecido título de 1905 O Cozinheiro dos Cozinheiros, coordenado e ditado pelo luso-francês Paulo Plantier (ter-se-á passado do género masculino para o feminino, por as destinatárias serem as donas de casa), um volume de quase 800 páginas contendo mais de 1500 receitas da autoria de vários nomes das letras e das artes.⁴ Paulo Henry Plantier (1840-1908), filho de um francês e de uma portuguesa, foi fotógrafo, ourives e gastrónomo. Nesse volume compilou muitas receitas de escritores e artistas nacionais como Bulhão Pato, Fialho de Almeida, Ramalho Ortigão e Rafael Bordalo Pinheiro e estrangeiros como o francês Alexandre Dumas (Pai).

Não foi apenas o título que serviu de inspiração a Rosa Maria: descobrimos que várias das “suas” receitas foram transcritas de forma literal ou quase das do livro de Plantier; por exemplo, das receitas iniciais de Rosa Maria, “Açorda à Andaluza”, “Açorda à Portuguesa”, “Alfaces com Substância”, “Alfaces Recheadas”, “Arraia à Maître d’hôtel”, “Arraia com manteiga corada”, etc., são ipsis verbis do volume editado pelo luso-francês. Rosa Maria tinha decerto na mão a obra de Plantier e, pese embora não existirem direitos de autor de receitas, não teve escrúpulos em copiar algumas, sem indicar o original, ficando a ideia de que não as experimentou. O subtítulo Higiene Alimentar do livro de Rosa Maria sinaliza a sua preocupação com a saúde, o que contrasta com a obra de Plantier.

Rosa Maria publicou as obras originais essencialmente em dois períodos: o primeiro nos anos 1930 e o segundo nos anos 1950, ficando por saber a causa do hiato. As primeiras obras foram publicadas no início dos anos de 1930, todas elas na Empresa Literária Universal (ver Fontes): Como devo governar a minha casa: orçamento familiar… (s./d.); Como se cozinha bacalhau de todas as maneiras (s./d.) (uma das primeiras obras em Portugal só com receitas do bacalhau, o “prato nacional”); Como se janta por 3$00: cem jantares diferentes (s./d.); e Como se almoça por 1$50: 100 almoços diferentes (1933). Todos esses livros, pequenos, em papel de baixa qualidade e, por isso, bastante baratos, denotam uma clara preocupação com a economia doméstica, o que se justificava pela difícil situação que Portugal atravessava, mergulhado na ditadura iniciada com o golpe de 28 de maio de 1926 e que só foi definitivamente encerrada com o aparecimento do Estado Novo, que se associa à promulgação da Constituição da República de 1933 (Wheeler, 1999, p. 561-564). Na sequência da queda manu militari da Primeira República, Portugal atravessava uma época marcada por uma grave crise económica e social, sendo por isso oportunos os conselhos às donas de casa que as ajudassem a preparar refeições saudáveis com parcos rendimentos. Nessa linha de cozinha económica, Rosa Maria publicou, em 1936, um livro de receitas vegetarianas, Mais de 200 receitas de cosinha vegetariana: para uso das famílias, um título que, com ligeiras modificações, haveria de ressurgir 20 anos mais tarde.

Em 1953 editaram-se, de Rosa Maria, três volumes de uma série de livros de cem receitas, uma sobre o bacalhau, recuperando conteúdos do título sobre bacalhau atrás indicado, e as outras duas sobre peixes e carnes. Ofereciam cem receitas simples e económicas, ordenadas alfabeticamente, no modelo da Cozinheira das Cozinheiras, mas num formato de brochura. Esses livros passaram a sair na Civilização a partir de 1956, com sucessivas reedições. Continuavam a ser bastante acessíveis e, por isso, a serem procurados. Nesse ano de 1956 saíam mais quatro títulos dessa série, todos eles na Civilização: sobre sopas, sobre ovos, sobre acepipes, molhos e saladas, e sobre cozinha vegetariana.

³ A lista completa das obras de Rosa Maria encontra-se nas Fontes deste artigo.

⁴ O livro de Plantier de 1905 é uma reedição do original de 1870, saído pelo prelo da Tipografia Luso-Britânica: em 1890 tinha saído uma 2.ª edição, melhorada e acrescentada.

A última obra, 100 Maneiras de Cozinha Vegetariana, que retomava ipsis verbis o tema do vegetarianismo tratado nos anos 1930, continha, logo de início, como a Cozinheira das Cozinheiras, tabelas sobre os valores calóricos e proteicos dos alimentos. Esta obra defende a alimentação vegetariana do seguinte modo (Maria, 1956, p. 5-6):

Está provado que a cozinha vegetariana não só é a mais prática, como a mais económica e a mais saudável. O momento difícil que atravessamos, leva-nos a pensar que não só devemos ser mais económicos, como ainda procurar viver, tanto quanto possível, adaptando-nos às leis da Natureza.

É paradoxal que a autora escreva, a seguir:

Está mais do que provado que a carne e o peixe são verdadeiros venenos alimentares, devendo, portanto, ser substituídos por outros produtos que mais se adaptem ao nosso paladar e nos deem as calorias indispensáveis à vida, dando-nos saúde e alegria, porque a verdadeira felicidade tem as suas bases na alimentação (Maria, 1956, p. 5-6).

Uma vez que, em A Cozinheira das Cozinheiras, tinha louvado as virtudes da carne, em particular de boi, a que chamou “alimento soberano por natureza” (Maria, s./d., p. 9).

Talvez houvesse a preocupação de agradar ao público interessado por regimes vegetarianos, ou talvez a autora tivesse simplesmente mudado de ideias. Outra possibilidade é que os livros fossem pastiches de vários textos, colados sem preocupação de coerência. São apresentados no novo livro menus familiares apenas vegetarianos. As receitas estão aí ordenadas por almoço e jantar, havendo dois pratos em cada refeição.

Finalmente, em 1964, saiu o último livro da série de “cem receitas” económicas, sobre doces, que ficou assim com oito volumes no total. Note-se o adjetivo “económico” no título, repetindo uma preocupação da autora desde o início da sua atividade. O objetivo era decerto diferenciar o livro de outros, entretanto aparecidos, contendo sobremesas mais caras: de facto, os primeiros volumes de Rosa Maria sobre refeições económicas nem sequer incluíam sobremesas.

Análise da primeira parte do livro sobre higiene alimentar

O livro A Cozinheira das Cozinheiras destina-se diretamente “Às senhoras que dirigem a vida do lar”, numa introdução de uma só página, assinada pela autora. Esta elenca logo aí de forma clara o objetivo essencial da obra: a apresentação de receitas práticas de salgados e de doces a fim de facilitar a vida das donas de casa.

Defende a economia doméstica (Ibidem, p. 5): “É preciso não desperdiçarem a maior riqueza, a saúde, cozinhando sem método, sem organização, sem valor nutritivo e muitas vezes a par da perda da saúde, ainda a ruína da bolsa”. E expõe de seguida a ligação entre alimentação e saúde (Idem): “A arte de comer bem, não significa comer muito, mas sim comer alimentos agradáveis ao paladar e que contenham os elementos necessários à vida quotidiana” (Grifos no original). Segue-se uma exposição de conhecimentos básicos sobre a relação dos alimentos com a saúde.

A autora começa por falar da necessidade de alimentação adequada de acordo com o sexo, a idade, as estações do ano e um maior ou menor sedentarismo. Por exemplo (Ibidem, p. 7-8): “O homem e a mulher que trabalham violentamente no campo, na oficina, etc., etc., perdem forças que não consomem os que não trabalham de igual modo, e, portanto, têm obrigação de se alimentarem de maneira que as recuperem”. Na alimentação das mulheres, a preocupação é com as situações de anemia, que eram muito frequentes por causa da deficiência alimentar: Rosa Maria fala de “milhares e milhares de anemias e de outras enfermidades gravíssimas” (Ibidem, p. 7). Esses casos infelizmente ainda hoje permanecem no mundo em populações com carências alimentares, em especial de carne (Cf.: FAO et al., 2023). A autora explica, neste contexto, que não se deve irracionalmente abusar do regime de base vegetal por este estar na origem de “milhares e milhares de anemias e de outras enfermidades gravíssimas” (Maria, s./d., p. 7).

A principal preocupação da autora é a ingestão adequada de calorias e, de modo a assegurar a conservação dos tecidos orgânicos, de albuminas, termo usado, bem como “corpos albuminoides”, para designar o que hoje se chamam proteínas.⁵ Ela reduz o valor nutritivo dos alimentos apenas às respetivas calorias (Maria, s./d., p. 7): “Comer muito não é comer bem. O valor nutritivo dos alimentos, deve-se calcular pelo número de calorias que cada um contém”.

Estranhamente, não se encontra qualquer referência a vitaminas, os compostos químicos que, nos anos 1930, estavam presentes nas recomendações de saúde em numerosas publicações. Hoje sabemos que, para além do número de calorias necessário para manter o funcionamento do corpo, há que atender também à origem dessas calorias. Seguem-se considerações sobre os alimentos e determinados preparos: carnes, ovos, leite, manteiga, azeite, arroz, legumes, hortaliças, batata, pão (de trigo e milho), frutas, água, vinho e outras bebidas alcoólicas, café, chá e chocolate. O livro tem três tabelas, sem qualquer indicação das fontes de onde os dados foram extraídos.

A primeira (Maria, s./d., p. 16) contém os valores aproximados em percentagem de albumina (proteínas) e o número de calorias (estão erradas nessa página as indicações de “percentagem de albumina” e de “percentagem de calorias”, uma vez que se trata, respetivamente, de valores de massa e de energia) dos alimentos mais usados. Encontramos nela os primórdios da classificação dos alimentos por grupos:

Grupo I – Carnes, peixes, ovos; Grupo II – Cereais (sêmola, massa, arroz);
Grupo III – Legumes secos (ervilhas, feijões, lentilhas);
Grupo IV – Legumes frescos e de conserva, batatas;
Grupo V – Queijo;
Grupo VI – Frutas frescas (maçãs, peras, laranjas);
Grupo VII – Frutas secas (figos, ameixas, nozes);
Grupo VIII – Pão;
Grupo IX – Manteiga e gorduras; Grupo X – Açúcares;
Grupo XI – Leite;
Grupo XII – Vinho;
Grupo XIII – Diversos (biscoitos secos, chocolate).

Uma curiosidade é o uso do termo “elementos” para designar o que hoje chamamos nutrientes: “o indivíduo cujas faculdades nutritivas estejam enfraquecidas, como o homem idoso por exemplo, deve preferir os alimentos que forneçam sob pequeno volume o máximo de elementos úteis” (Idem). A autora faz a seguir recomendações genéricas e breves para os regimes dos artríticos, diabéticos, doentes do estômago, do fígado e dos rins.

O número de calorias para cada alimento não anda muito longe do que hoje se conhece. A segunda tabela refere-se às quantidades, albuminas e calorias de uma “ração normal” (Maria, s./d., p. 17). A terceira refere-se ao tempo de digestão dos diversos alimentos (Ibidem, p. 18).

Antes de começar com as receitas, a autora informa ainda as razões pelas quais o ato de cozinhar interfere quer na digestibilidade dos alimentos, quer na sua higiene, evitando contaminações e, no caso da carne, a propagação de parasitoses: diz que “as triquinas no porco doente só podem ser mortas quando a sua carne é muito bem cozinhada” (Maria, s./d., p. 22).

⁵ Albumina é hoje o nome genérico usado para proteínas solúveis em água, mas não inclui todas as classes de proteínas.

Note-se que a obra revela, nesta primeira parte, a atenção a situações sociais. Por exemplo, é feito o elogio do “caldo” (sopa), muito usado no ambiente rural (Ibidem, p. 8-9): “Com duas boas tigelas de caldo, dois pedaços de pão, 4 ou 6 sardinhas alimentavam-se, à falta de melhor refeição, milhares e milhares de trabalhadores rurais, que vergam nos campos de sol a sol sob a ação de um trabalho violento”.

E, sobre o vinho, escreve (Ibidem, p. 13-14. Grifos no original):

Do abuso do vinho têm resultado terríveis enfermidades, como o delirium tremens, a loucura, doenças do fígado, etc., e não menor número de desordens e desgraças de ordem moral, que têm levado muitos homens ao degredo, à penitenciária e ao patíbulo. Convém, portanto, beber-se o vinho em porção racional, unicamente às horas das refeições, pois que, deste modo, alimentando, é ao mesmo tempo um útil excitante. O seu excesso, repetimos, é que pode e tem, milhares e milhares de vezes, provocado doenças mortais, e a prática de crimes hediondíssimos.

Salta à vista que no receituário, iniciado a meio da p. 22 e não numa nova página, sob o título “A Arte de comer bem”, não são exemplificados os preceitos de saúde enunciados de início, que assim aparecem desgarrados. Braga e Oliveira (2015) realizaram um estudo muito interessante sobre o uso de vários tipos de gordura na confecção dos alimentos Oliveira.

Discussão sobre a autoria

Rosa Maria é, muito provavelmente, um pseudónimo, conforme descobriram as investigadoras Braga e Pilla (2018, p. 13): Entretanto, no intuito de obter dados concretos, entrámos em contacto com a Editora Civilização e apurámos que Rosa Maria era, na verdade, um senhor chamado Gaspar de Almeida, pai de um funcionário da filial da editora de Lisboa. Este era igualmente editor, eventualmente da Empresa Literária Universal, a quem Américo Fraga Lamares (anterior administrador da Civilização) comprava algumas edições.

A inexistência de arquivos e a ausência de colegas contemporâneos desta figura, que há muito deixara a empresa, implica a inexistência de certezas.

Aparentemente, Gaspar de Almeida também foi autor de Cartas de amor para namorados, saídas na Empresa Literária Universal, com edições em 1950, 1964 […] e 1986, sob o pseudónimo de Maria Celeste. Traduziu ainda […] do francês […] em obra intitulada Trabalha para ti: podes ganhar o dinheiro que precisas, publicada pela Empresa Literária Universal.

Apurámos que Gaspar de Almeida era, de facto, o gerente da Empresa Literária Universal, editora que existia desde o início do século, que chegou até aos anos 1980 e que se especializou em edições de grande circulação, mormente livros infantis, mas também editou alguns clássicos da literatura portuguesa e universal.

No ano de 1955 ocorreu uma troca de correspondência entre Gaspar de Almeida e os Serviços de Censura por causa de um romance que tinha sido apreendido – Vinte Anos de Manicómio, de Carmen de Figueiredo, ver Figueiredo (2021); ver também um trabalho académico que aborda a autora, no quadro da censura a escritoras: Pedrosa (2017) –, que não deixa dúvidas sobre o nome do editor da Empresa Literária Universal (Almeida, 1943).⁶ E há também uma carta dele ao Grémio dos Editores, na BNP. Parece-nos perfeitamente possível que Gaspar de Almeida tenha sido o autor, embora não conheçamos mais dados biográficos sobre ele.

Com efeito, não é inédito a adoção, por razões comerciais, do nome de uma mulher por um homem em publicações destinadas às mulheres. Sendo a autoria do editor, o segredo sobre a identidade ficaria bem guardado, como aliás ficou. O nome “Rosa Maria” foi sendo usado ao longo dos anos para assegurar proventos editoriais. Quanto ao outro hipotético pseudónimo feminino de Gaspar de Almeida, Maria Celeste, analisadas as Cartas de Amor para Namorados (1950), verificámos que, apesar das óbvias diferenças de conteúdo, há algumas semelhanças entre essa obra e A Cozinheira das Cozinheiras.

Começam por ser gráficas: capa, tamanho e qualidade do papel. E as Cartas contêm também duas partes, uma introdutória, que é basicamente astrológica embora não refira signos, mas apenas meses de nascimento (o que pertence na mesma à pseudociência), e outra, onde se listam os modelos de carta. Trata-se nos dois casos, pelo formato, tamanho e estilo, de obras com o propósito de serem populares.

⁶ Pode ler-se na nota de Informação da Direção dos Serviços de Censura, de 6 de fevereiro de 1952, nota 20, p. 2: “Veio à Censura, a meu pedido, Gaspar de Almeida, gerente da Empresa”.

⁷ Fernando da Silva Correia (1893–1966) foi um médico higienista, licenciado e doutorado na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, com vasta obra científica e pedagógica, que inclui mais de uma centena de títulos entre livros e artigos. Trabalhou sobre temas de saúde pública e termalismo, com especial preocupação nas questões ligadas à infância, à higiene escolar, à educação física e ao desporto, à medicina social e à assistência. Foi também historiador.

⁸ José Ignacio de Araújo (1837–1907), ourives de Lisboa que também foi dramaturgo e poeta.

Conseguimos localizar nos livros saídos na Empresa Literária Universal um outro volume de Rosa Maria, que não está sinalizado na literatura sobre ela, o que se explicará por não se encontrar facilmente em bibliotecas: não está nas coleções nem da BNP nem da BGUC. O título, pertencente à série “Indústrias Caseiras” (onde há várias traduções de livros sobre atividades “faça você mesmo”), é Cem Maneiras de Fazer Licores. Conhaques, vinhos licorosos, vermouts, refrigerantes, etc. Receitas para comércio e uso caseiro (não tem data, mas o Google Books dá-lhe a data de 1934) (ver Figura 1).

Na contracapa desse livro vem que Gaspar de Almeida é autor de Arte de Encadernar os Livros, saído na mesma série, não se sabe quando, uma vez que não está catalogado nem na BNP nem na BGUC.

Obtivemos num alfarrabista a 2.ª edição, sem data, desse livro, e o autor é, de facto, S. Goulet; talvez Gaspar de Almeida tenha sido o tradutor. Mas é obviamente anterior a Cem Maneiras de Fazer Licores.

Explorámos uma outra hipótese para a autoria de A Cozinheira das Cozinheiras. Ao consultar o Dicionário de Pseudónimos, de Albino Lapa (1980, p. 150), na entrada “Rosa Maria”, verificámos que esse nome é atribuído ao médico Fernando da Silva Correia.⁷

A BNP e a BGUC integraram nos seus catálogos essa atribuição de pseudónimo. Poderia A Cozinheira das Cozinheiras ser da autoria desse médico? As datas das edições encaixam com o percurso biográfico desse higienista, autor da tese de doutoramento Portugal Sanitário (Correia, 1938), que nos anos 1930 exercia a sua profissão nas Caldas da Rainha (escrevendo livros sobre águas termais e sobre cuidados maternos) e nos anos 1950 estava em Lisboa, à frente do Instituto Superior de Higiene Dr. Ricardo Jorge, lugar que ocupou entre 1946 e 1961.

A favor dessa segunda hipótese, para além da entrada no dicionário, está o facto de este médico ter uma obra imensa, tanto de ficção como de não ficção, assim como o facto de conhecer bem as questões de saúde pública e de alimentação. Contudo, contra essa hipótese está o facto de ele ter um arquivo bem organizado nas Caldas da Rainha, sobre o qual existe uma tese de mestrado (Ribeiro, 2018) (que inclui, num anexo, uma entrevista com a sua sobrinha, a historiadora de arte Natália Correia Guedes) e, nesse trabalho, não se vislumbrar que ele tenha escrito o que quer que fosse sobre culinária. Além disso, não tem qualquer publicação na Empresa Literária Universal. Sendo Correia um erudito, não faz também sentido que tenha deixado, como sendo de Rosa Maria, um poema sobre a “Açorda à Portuguesa” que surge na receita da açorda sem indicação do autor (Maria, s./d., p. 23), que é, de facto, de José Ignácio de Araújo,⁸ tal como está aliás n’O Cozinheiro dos Cozinheiros, de P. Plantier.

Avaliando as duas hipóteses, não nos parece que o médico seja o autor. Seria interessante saber em que informação Lapa se terá baseado para dizer que Correia usou o pseudónimo de Rosa Maria.

Para descartar completamente esta hipótese, faltará consultar a lista que foi feita da sua biblioteca quando foi vendida num leilão. Foi elaborado um catálogo (Oliveira, 1969), mas não conseguimos ter acesso a ele, pois não se encontra nem na BNP nem na BGUC nem em outras bibliotecas com catálogos online. A biblioteca dispersou-se no leilão, o que só se pode lamentar.

Discussão da relação com obra brasileira

No Brasil houve uma outra Rosa Maria que escreveu A Arte de Comer Bem, saído originariamente na Oficina Industrial Gráfica do Rio de Janeiro em 1931, com uma primeira reedição em 1933 (ver Maria, 1931). A capa da primeira edição⁹ é extremamente parecida com a do livro português (Figura 2). Essa capa manteve-se em muitas edições, embora não em todas, que totalizaram 21 em vida da autora (Cf.: Braga; Pilla, 2018, p. 7; Pilla, 2020, p. 270). O livro foi engrossando nessas reedições, chegando a ter 800 páginas em dois volumes. É conhecida a identidade da autora, Marieta de Oliveira Leonardos, uma senhora da sociedade do Rio de Janeiro. Em contraste com a Rosa Maria portuguesa, a Rosa Maria brasileira dirige-se às senhoras das classes mais altas, orientadas mais para questões de gosto do que para questões de economia. Trata-se de um diálogo entre mãe e filha, em que a primeira dá conselhos à segunda sobre culinária e etiqueta. A identidade do nome das autoras, a extrema semelhança do design de capa (incluindo o tipo de letras do título, o uso no livro português do título brasileiro A Arte de Comer Bem, a pose e o vestido da figura feminina,¹⁰ e ainda o retângulo de fundo) levam a concluir que houve um plágio gráfico, que foi provavelmente da edição portuguesa (a qual, curiosamente, não ostenta o nome da autora na capa – mas apenas na lombada – e inclui algumas sobremesas em baixo).

Esta nossa afirmação não alinha com a de Braga e Pilla (2018, p. 3), que sustentam que a primeira edição da obra brasileira não apresentava ilustração na capa:

A primeira edição de A arte de comer bem foi publicada pela editora Officina Industrial Graphica, localizada na rua da Misericórdia número 74 na cidade do Rio de Janeiro.

Foi apresentada em capa dura e sem ilustrações […]. No ano de 1933, o livro lançou a segunda e a terceira edições já ampliadas e com capa ilustrada. (Braga; Pilla, 2018, p. 7). Nessa base, as mesmas autoras sustentam que “a capa original terá sido da edição portuguesa” (Ibidem, p. 24), que supõem ser de 1932.

Apesar de as capas serem praticamente iguais, o conteúdo dos livros é bastante diferente: o plágio restringiu-se, portanto, à capa. A existência de plágio poderá justificar o facto de o editor português sempre ter escondido a autoria (não é, de resto, inédito que os editores usem pseudónimos quando se autopublicam), tendo, porventura, tido ajudas tanto para os conselhos de higiene alimentar, como para as receitas.

Como copiou de forma quase literal algumas receitas do livro de Plantier com título semelhante, é muito natural que tenha também copiado receitas de outros livros (e copiado ainda os conselhos de higiene alimentar, sem nexo com as receitas).

Em 1933 já tinham sido vendidos no Brasil mais de cem mil exemplares do livro brasileiro e é bastante provável que Gaspar de Almeida tenha procurado obter um êxito semelhante em Portugal. E conseguiu-o!

Só difere a substituição na edição portuguesa do bolo da bandeja por uma lagosta, o que contrasta com a intenção de economia doméstica do livro, mas pode querer projetar uma imagem de sonho de riqueza.

Capas do livro das duas Rosa Maria: respetivamente, a edição portuguesa (s./d.) e a edição brasileira.

Conclusões

O livro de Rosa Maria A Cozinheira das Cozinheiras, saído no início dos anos de 1930 em Lisboa, faz parte, pelo impacto que alcançou, da história da culinária e gastronomia portuguesa.

Dentro do espírito da época, a autora começa com algumas indicações, de cariz científico, sobre higiene alimentar. Essas indicações não se refletem, porém, no receituário que constitui a maior parte do livro.

Depois da exposição do estado da arte e de uma análise genérica da obra principal de Rosa Maria e de um resumo das suas outras obras, analisámos com mais cuidado crítico a primeira parte de A Cozinheira das Cozinheiras, com conteúdos de saúde.

Estando basicamente certa para os conhecimentos da época, tem também algumas limitações, como por exemplo a falta de referência às vitaminas que eram bem conhecidas na altura. Não são indicadas as fontes utilizadas.

Alguma informação contrasta, como não podia deixar de ser, com o que se sabe hoje. É natural que o lado científico do livro seja incipiente. As ciências da nutrição despontaram nas primeiras décadas do século XX (Cf.: Carpenter, 2003), tendo-se depois desenvolvido extraordinariamente, de modo a servir de base aos padrões da alimentação humana.

Ao contrário do que se passava nesses tempos pioneiros, hoje já se olha para a origem das calorias e não apenas para o seu número. Recentemente, tem havido uma crítica das conceções mais reducionistas da alimentação humana, designadamente o chamado “nutricionismo”, segundo o qual o valor alimentar vai muito para além da consideração dos nutrientes (Cf.: Scrinis, 2013).

No que respeita à autoria de A Cozinheira das Cozinheiras, avançamos neste trabalho com dados que permitem concordar com a hipótese das historiadoras Braga e Pilla de que Gaspar de Almeida foi o autor do livro: ele era, de facto, o editor da Empresa Literária Universal, fazendo sentido que se tenha querido esconder por trás de um nome feminino num livro dirigido às senhoras.

Por exemplo, Manuel da Mata escreveu, nos anos de 1920, na editora Figueirinhas, vários fascículos (“Biblioteca Culinária”) com o nome de Febrónia Mimoso, para chegar mais facilmente às donas de casa (Braga, 2008, p. 134).

Demos a conhecer um livro de Rosa Maria, saído na mesma editora, que não consta dos estudos anteriores sobre a autora, e em cuja contracapa é indicado um livro pretensamente de Gaspar de Almeida (de facto, ele só o deve ter traduzido). Comparámos a eventualidade de uma outra autoria, a do médico Fernando da Silva Correia, dada no Dicionário de Pseudónimos, de Albino Lapa, para o verdadeiro nome de Rosa Maria. Concluímos que é muito pouco provável que esse clínico seja o autor, prevalecendo, por isso, a hipótese de ser Gaspar de Almeida.

Finalmente, defendemos a hipótese de o editor português ter usado o nome de Rosa Maria, a inscrição “A Arte de Bem Comer” e o grafismo da capa, apenas com ligeiras modificações, de uma obra brasileira, cujo conteúdo é muito distinto, uma vez que se dirigia às classes altas e não médias.

O facto de haver este plágio de forma – que acresce aos plágios de conteúdo, designadamente do título e de algumas receitas d’O Cozinheiro dos Cozinheiros, de Plantier – é mais uma razão para a autoria ter permanecido secreta.

Uma edição brasileira serviu muito provavelmente de modelo para o nome da autora, subtítulo e grafismo de um livro português de culinária que conheceu enorme circulação ao longo de décadas.

Referências

Edições d’A Cosinheira das Cosinheiras, que encontradas em bibliotecas portuguesas:

MARIA, Rosa. A Cosinheira das Cosinheiras: a arte de comer bem. Higiene alimentar e mais de 500 receitas para cozinhar, fazer doces, gelados, compotas, etc.
Lisboa: Empresa Literária Universal,

1.ª ed., s./d.;
2.ª ed., s./d., 196 p.;
3.ª ed., s./d.;
5.ª ed., 1941;
6.ª ed. 194[?];
7.ª ed., 1953;
9.ª ed., Porto: Civilização, 1955;
11.ª ed., 1957;
12.ª ed., 1958;
13.ª ed., 1959;
14.ª ed., 1962;
15.ª ed., 1966;
18.ª ed., 1967;
19.ª ed., 1969;
20.ª ed., 1970;
nova ed., 1972;
24.ª ed., 1974;
25.ª ed., 1975;
26.ª ed., 1977;
27.ª ed., 1977;
28.ª ed. 1978;
29.ª ed., 1981;
30.ª ed. 1982;
32.ª ed., 1999.

Outras obras de Rosa Maria, por ordem cronológica:

MARIA, Rosa.
Como devo governar a minha casa: orçamento familiar… Lisboa: Empresa Literária Universal, s./d. (Existe na BGUC, mas não na BNP).

MARIA, Rosa.
Como se cozinha bacalhau de todas as maneiras.
1.ª ed. Lisboa: Empresa Literária Universal, 193[?], 38 p.
(Em 1936 saiu reedição com o título acrescentado de 100 receitas de cozinhar bacalhau ao alcance de todos).

MARIA, Rosa.
Como se janta por 3$00: cem jantares diferentes.
1.ª ed. Lisboa: Empresa Literária Universal, 193[?];
3.ª ed., Lisboa: Empresa Literária Universal, 1936, 39 p.

MARIA, Rosa.
Como se almoça por 1$50: cem almoços diferentes compostos por carne, peixe, legumes, ovos, cereais, farináceos, etc.
1.ª ed., Lisboa: Empresa Literária Universal, 1933, 40 p.;
3.ª ed., 1936.

MARIA, Rosa.
Mais de 200 receitas de cosinha vegetariana: para uso das famílias. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1936, 32 p.

MARIA, Rosa.
Cem maneiras de cozinhar bacalhau.
1.ª ed. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1953, 32 p.;
2.ª ed., Porto: Livraria Civilização Ed.,
1956; 1958; 1967; 1978; 1980; 1981; 1983; 1986; 1987; 1989; 1992; 1994; 1996; 2012.

MARIA, Rosa.
Cem Maneiras de Fazer Licores: Conhaques, vinhos licorosos, vermuths, etc.: Receitas para comércio e uso caseiro. Lisboa:
Empresa Literária Universal, [1934?], 32 p. (Não existe nem na BNP nem nas BGUC).

MARIA, Rosa.
100 maneiras de cozinhar peixes.
1.ª ed. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1953, 32 p;
2.ª ed., Porto: Livraria Civilização Ed.,
1956; 1961; 1968; 1978; 1980; 1982; 1986; 1987; 1989; 1992; 1994; 1996; 2012.

MARIA, Rosa.
100 maneiras de cozinhar carnes.
1.ª ed. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1953, 32 p.;
2.ª ed., Porto: Livraria Civilização Ed.,
1956; 1970; 1977; 1980; 1981; 1983; 1986; 1987; 1989; 1992; 1994; 1996.

MARIA, Rosa.
Cem maneiras de fazer sopas: caldos, purés e sopas.
1.ª ed. Porto: Livraria Civilização Ed., 1956, 32 p.; 1983; 1986; 1992; 1994.

MARIA, Rosa.
100 maneiras de cozinhar ovos.
1.ª ed., Porto: Livraria Civilização Ed., 1956, 48 p.;
1964; 1975; 1979; 1981, 1986; 1987; 1994.

MARIA, Rosa.
100 maneiras de cozinhar acepipes, molhos e saladas.
1.ª ed. Porto: Livraria Civilização Ed., 1956, 32 p.;
1965; 1977; 1978; 1983; 1987; 1988; 1991; 1994.

MARIA, Rosa.
100 maneiras de cozinha vegetariana: para uso das famílias.
1.ª ed., Porto: Livraria Civilização Ed., 1956, 47 p.;
1965; 1977; 1980; 1982; 1986: 1988; 1989; 1993.

MARIA, Rosa.
100 maneiras de fazer doces económicos: bolos, pudins, compotas, sorvetes, etc.
1.ª ed., Porto: Livraria Civilização Ed.,
1964, 32 p.; 1969; 1977; 1980; 1981; 1983; 1986; 1987; 1991; 1994; 1996.

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2023 Vasilhame – Um livro cheio de garrafas vazias.

Vasilhame - Um livro cheio de garrafas vazias.

2023

TITLE: Vasilhame 

SUB TITLE: Um livro cheio de garrafas vazias.

AUTHOR: Raul Reis

NOTAS DE AUTORIA: 

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SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 2023

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 1st edition

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