Annona, ou Misto Curioso
Annona ou Mixto Curioso
TÍTULO: Annona ou Misto Curioso
SUB TÍTULO: Annona ou Mixto Curioso
AUTOR:
NOTAS DE AUTORIA: org. Eduardo da Cruz, Gilda Santos
PREFÁCIO:
SUPORTE: Impresso
GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia
DATA DE PUBLICAÇÃO: 2023
DEPÓSITO LEGAL:
EDIÇÃO: 1ª edição
LOCAL: Porto
EDITORA: Livraria Lello
TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR:
ENCADERNAÇÃO: Capa dura
FORMATO / DIMENSÕES: 21 cm
NÚMERO DE PÁGINAS: 523 páginas
COLECÇÃO: Folheto semanal (publicação periódica de baixo custo).
Formato de folhetim, ou seja, fascículos independentes que podiam ser encadernados.
ISBN/ISSN: 9789899135925
COLECÇÃO DE: SELO DE MAR
REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”:
OBSERVAÇÕES:
O primeiro folhetim de culinária em língua portuguesa, publicado entre 1836 e 1837 e quase desaparecido, foi reeditado pela Livraria Lello em livro, numa parceria com Real Gabinete Português de Leitura. Annona ou Misto Curioso é agora transformado em livro para o leitor do século XXI. Annona ou Misto Curioso é uma deliciosa viagem no tempo, reunindo um conjunto de receitas variadas temperadas pela tradição e cultura portuguesas, acompanhadas de jogos de salão, “digestivas” histórias de Portugal, fábulas mitológicas, poesias e pequenas narrativas que animavam os serões festivos oitocentistas e que, divertirão, os leitores contemporâneos.
Um documento raro e essencial para a investigação da alimentação que reflete os costumes de uma época única.Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.
The first culinary feuilleton in the Portuguese language, published between 1836 and 1837 and nearly vanished, was reissued by Livraria Lello in book form, in collaboration with the Real Gabinete Português de Leitura. “Annona or Misto Curioso” is now transformed into a book for the 21st-century reader. It is a delightful journey through time, bringing together a collection of diverse recipes seasoned with Portuguese tradition and culture.
The book is accompanied by parlor games, “digestible” stories of Portugal, mythological fables, poems, and short narratives that animated festive evenings in the 19th century and are sure to entertain contemporary readers.
A rare and essential document for researching the culinary practices that reflect the customs of a unique era.
CRUZ, Eduardo da; SANTOS, Gilda (org.). Annona ou Misto Curioso. Porto: Livraria Lello, 2023. ISBN: 978-989-9135-92-5.
Guida Cândido
Universidade de Coimbra
A edição em apreço resulta da estreita colaboração entre a Livraria Lello, do Porto, e o Real Gabinete Português de Leitura (RGPL), do Rio de Janeiro. Com mais de meio milhar de páginas, reúnem-se neste volume os 36 fascículos da primeira revista de culinária em língua portuguesa que circulou em Portugal entre 1836 e 1837. O “folheto semanal que ensina o método de cozinha e copa, com um artigo de recreação” (Cruz; Santos, 2023, p. 5) respondia, de forma objetiva, às práticas de comensalidade da sua época, onde se incluía, além das propostas culinárias, um leque vasto de outras matérias, como poesia, contos, fábulas, curiosidades, anedotas e propostas de jogos de salão, indispensáveis aos serões da sociedade burguesa.
Se dúvidas restassem sobre o aumento significativo no interesse pelo estudo da alimentação, essa edição vem esclarecer e reforçar o seu papel nas agendas globais. Confirmada a sua posição como campo historiográfico, desde 1961, com o inaugural e incontornável estudo de Fernand Braudel, Alimentation et catégories de l ́histoire (2003), a comensalidade constitui uma das mais profícuas esferas de investigação científica, contribuindo para a história da humanidade, numa leitura ampla e diversificada, correlacionando quatro pilares fundamentais: a alimentação, a gastronomia, a dietética e o património. O ato de comer não resulta apenas da necessidade biológica, assenta antes num código alimentar que pressupõe outros aspetos como o gosto e o desejo, decorrentes de contextos variados e de dissemelhanças sociais, geográficas, culturais, religiosas, económicas e até políticas.
Atualmente, é reconhecido o papel da gastronomia no desenvolvimento e na promoção do turismo, sendo objeto de investimento expressivo por parte dos organismos estatais. Isso também se verifica no campo editorial e nos media, sendo relevante o volume de livros de culinária que alcançam sucesso de venda, bem como programas televisivos na esfera da culinária que convertem cozinheiros, profissionais e amadores, em verdadeiras estrelas televisivas.
Perante estas circunstâncias, não se estranha o interesse em reeditar uma revista oitocentista que, apesar do seu sucesso inicial, não sobreviveu a um período correspondente ao de uma gestação humana: nove meses! De tão rara e escassa em bibliotecas ou alfarrabistas, os colecionadores não hesitaram em despender verbas avultadas pelos limitados exemplares sobreviventes. Nesse sentido, é de excecional mérito e generosidade para a sociedade académica e civil, a disponibilização que o RGPL materializou com o projeto “O Real em Revista” oferecendo ao público 35.000 páginas digitalizadas on-line de uma seleção de periódicos oitocentistas, predominantemente portugueses, que enriquecem o acervo dessa ilustre instituição. Destaca-se neste particular a Annona que, como lembra o seu presidente, “deliciada com os 36 folhetos, que mesclam as artes de cozinha com as variedades dos almanaques, parte da equipe se lançou à tarefa de sua publicação em livro, atualizando-os e contextualizando-os” (Cruz; Santos, 2023, p. 8). A este desígnio, em boa hora, juntou-se a centenária Lello, eleita a livraria mais bonita do mundo.
Importa esclarecer que o título da publicação não tem qualquer relação com a fruta que ostenta o mesmo nome, mas sim uma clara referência à “deusa da abundância e das provisões da boca” (Cruz; Santos, 2023, p. 21), plasmada no prefácio, silencioso quanto à sua autoria. Em todo o caso, os três tomos com receitas e entretenimento indicam, no frontispício, que as assinaturas eram firmadas na “Loja de José Joaquim Nepomuceno, Rua Augusta, nº 137” da capital. Sabe-se, ainda, que era possível adquiri-la noutras lojas, embora a indicada fosse do livreiro José Joaquim Nepomuceno Arsejas (1800-1869). Matriculado na classe de livreiro, a partir de 1820, tinha loja aberta antes de 1836, uma vez que editava desde junho de 1835 um Jornal de Comédias e Variedades, com particularidades semelhantes à Annona ou Misto curioso. Distinguia-se desta apenas pela troca de comédias por receitas culinárias (a singularidade da revista), mantendo-se a matriz que agregava charadas, enigmas, poemas, anedotas e fábulas, como se referiu inicialmente.
Não obstante essa eventual autoria, não se descura a possibilidade de existir mais do que um autor, uma vez que alguns textos patenteiam iniciais diferentes como assinaturas, tais como “R.” ou “J.”. Contudo, as mais das vezes, trata-se de cópias de receitas já antes publicadas, nomeadamente no sobejamente conhecido e inaugural livro de culinária impresso em Portugal, A arte de cozinha, editado em 1680 pelas mãos do cozinheiro régio Domingos Rodrigues.
Detenhamo-nos na presente edição que reúne num único tomo a totalidade dos fascículos originais, ainda que não o faça na forma original, temática e cronologicamente ordenados. Visando uma arrumação de matérias mais condizente com o leitor generalista dos nossos dias, os organizadores optaram por agrupar em diferentes secções a multiplicidade de textos que, à época, foram publicados em jeito de miscelânea em cada número do periódico. Eduardo da Cruz e Gilda Santos do RGLP introduzem o leitor na obra com um texto informativo sobre a origem, identidade e conteúdo da revista oitocentista, bem como os objetivos da sua reedição. Após essa abertura, segue-se a secção mais extensa e singular da publicação, dedicada à culinária, cabendo a Ida Alves e Mônica Genelhu Fagundes um breve texto introdutório esclarecedor do que se disponibilizava aos comensais em 1836 e 1837. As investigadoras atualizaram a linguagem original e a pontuação “para que as receitas sejam mais compreensíveis ao leitor de hoje”, deixando, contudo, em diversas ocasiões, a marca do tempo, permanecendo “traços próprios da sintaxe oitocentista” (Cruz; Santos, 2023, p. 25). Com um sentido pedagógico e viabilizando a possível reprodução das receitas pelo leitor, incluíram um apêndice com a conversão das antigas medidas de peso e o glossário com alimentos, técnicas e utensílios que podem oferecer algumas dúvidas na atualidade.
Nas páginas originais da Annona, a cada número, apresentaram-se as breves explicações técnicas de cozinha e as receitas salgadas e doces, sem ordem específica na sua publicação ao longo dos fascículos. Todavia, na presente compilação, e por forma a orientar o leitor na sua busca, a organização é sistematizada em função da sua tipologia, abrindo com os caldos, seguindo-se as potagens ou sopas; os embutidos; as terrinas e os popetões; os pastéis, as empadas, as tortas e os timbales. Surgem depois as massas, muito ao gosto do século XIX, que antecedem as receitas de pescado, respondendo estas, as mais das vezes, às prescrições religiosas de abstinências. Seguem-se, em maior número, as propostas de carne – incluindo açougue, aves e caça – e depois os molhos e ragus. Encerrando a secção de salgados, mostram-se as receitas de legumes, espelhando a posição pouco valorizada na comensalidade das elites oitocentistas. Em conformidade com qualquer refeição, finalizam com o item dedicado à doçaria, onde convivem em harmonia: as sopas; as conservas; os cremes; as massas; as tortas; os pudins; os manjares; os biscoitos; os bolos e as outras especialidades doces, muitas destas associadas a receitas tradicionais portuguesas. De forma singular, identifica-se uma receita brasileira, a célebre canjica.
No sumário da Annona, segue-se o Misto curioso, precedida cada uma das secções com um texto introdutório de especialistas, à semelhança do que se verifica na parte culinária. Fica, pois, o leitor com um manancial de propostas que fariam as delícias em qualquer repasto burguês oitocentista, onde era costume beneficiar os comensais com: poesia; contos; fábulas; história; bons ditos; apotegmas; anedotas; bernardices; jogos de salão; adivinhas; charadas; cronogramas; enigmas; logogrifos e sortes.
Fazendo jus a um trabalho coletivo que se plasma na presente edição, não se olvidam os múltiplos colaboradores, encerrando a obra com uma breve biografia da notável equipa que materializou a compilação que oportunamente nos chega às mãos e que nos relembra a atualidade do prefácio da primeira edição: “nada pois mais lindos a qualquer pessoa, ainda nobre ou plebeia, como o saber de tudo: olhai que não vos desdobra entrar na copa ou na cozinha” (Cruz; Santos, 2023, p. 21).
Recebido: 15/01/2024 Aprovado: 14/02/2024
Referências
BRAUDEL, Fernand. Alimentation et catégories de l’histoire. Food and History, Tours, vol. 1, p. 23-30, 2003.
CRUZ, Eduardo; SANTOS, Gilda (org.). Annona ou Misto curioso. Porto: Livraria Lello, 2023. ISBN: 978-989-9135-92-5.
Minicurrículo
GUIDA CÂNDIDO é Doutorada em Patrimónios Alimentares: Culturas e Identidades. Investigadora integrada do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Professora Auxiliar Convidada no Mestrado em Alimentação: Fontes, Cultura e Sociedade, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
RESENHA DE ANNONA OU MISTO CURIOSO FOLHETO SEMANAL QUE ENSINA O MÉTODO DE COZINHA E COPA COM UM ARTIGO DE RECREAÇÃO.
1836-1837
em ABRIL – Revista do NEPA/UFF, Niterói, v.16, n.33, p. 157-162 jul.-dez. 2024
Joana Monteleone
Annona é o nome da deusa romana responsável por abastecer Roma nos tempos antigos. Representava a abundância. Seu nome deriva da palavra “ano” em latim, marcando os ritmos das colheitas dos cereais. Geralmente era representada ao lado de Ceres ou Deméter, a deusa das plantas que brotam e do amor maternal. Annona era retratada com uma cornucópia, o chifre da fertilidade, recheado com frutas, plantas e cereais. Vinha à frente da proa dos navios que chegavam a Roma com as delícias de além-mar, e seu retrato aparece com frequência em módios, moedas do império romano. Não foi, portanto, por acaso que os editores de uma das primeiras revistas de gastronomia editada em Portugal entre 1836 e 1837 escolheram Annona como seu título e padroeira. O título integral da publicação é Annona ou Misto Curioso, com a seguinte informação: “folheto semanal que ensina o método de cozinha e copa com um artigo de recreação”. Foram poucas as revistas de gastronomia voltadas para o público leitor de português no século XIX, assim como foram poucos os livros de gastronomia lançados no mercado português e brasileiro neste período. Com um tema considerado menor, ligado ao universo feminino, à cozinha e aos afazeres domésticos, Annona teve vida relativamente curta de apenas dois anos na década de 1830. Hoje, através de iniciativa pioneira de pesquisadores brasileiros ligados ao Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras (PPLB) sediado no Real Gabinete de Leitura, no Rio de Janeiro, e apoio editorial da Livraria Lello, no Porto, em Portugal, o almanaque oitocentista volta ao mercado editorial em formato de livro — essencialmente em Portugal, mas pode-se fazer uma encomenda. A edição em capa dura verde água com título em amarelo conta com apresentação geral de Eduardo Cruz e Gilda Santos. A edição ficou com 523 páginas reunindo receitas, anedotas, poesia, contos, fábulas e histórias em seções separadas. Desta forma, o periódico português não aparece republicado pelo número da edição ou pela data de cada folheto, mas por assunto e, à frente, vêm as receitas, explicitando o assunto principal. A reedição de Annona tem assim o mérito de recolocar nas livrarias e bibliotecas uma obra das mais importantes para se entender as relações de gosto e sociabilidade tanto em Portugal, onde o periódico foi inicialmente editado, como no Brasil, onde também circulava. Na versão ora impressa, cada parte da obra é introduzida por breves textos dos pesquisadores envolvidos no trabalho de edição, sobretudo da área de Letras e História. Além dos organizadores, Ida Alves, Monica Genelhu Fagundes, Gilda Santos, Ana Cristina Comandulli, Pedro Paula Catharina, Andreia de Castro, Elisabeth Martini, Angela Telles, Aline Erthal, Betty Biron e Julianna Bonfim explicam as seções que formavam o almanaque histórico: receitas, poesia, contos, fábulas, história, ditos e anedotas, jogos de salão e adivinhas. Em relação ao conjunto de receitas (de sal e doces), as responsáveis pela transcrição incluíram um glossário ao final da parte das receitas, explicando certos nomes de alimentos ou processos que podem causar estranheza ao leitor de hoje, além de fazerem a equivalência de algumas das medidas antigas mencionadas nos textos.
Teria sido interessante, para que a edição permitisse uma compreensão melhor da publicação original, que os editores incluíssem alguns fac-símiles (ou pelo menos um). Estudos recentes mostram como a própria diagramação de uma revista é passível de ser lida e é também uma forma de leitura.
Por exemplo, em almanaques de gastronomia, poesias dialogam com as receitas ou mesmo com outros textos. A consulta à Annona em formato facsimilar, contudo, não está totalmente distante dos já interessados. Está online e, ao “folheá-la”, podemos perceber que não existiam anúncios. A diagramação é simples, com as receitas vindo em primeiro lugar e, depois, a parte literária, de recreação — simulando o próprio jantar do século XIX, em que à mesa seguiam-se atividades coletivas, leves e recreativas. Annona nasceu num momento de efervescência editorial e literária, com diferentes estilos de publicações sendo lançados em vários lugares do mundo — a dianteira desse movimento ficava com a França, impulsionado pelas ideias iluministas e pela Revolução de 1789. Ao mesmo tempo, mudanças tipográficas importantes facilitavam a edição (Hallewell, 1985), já que as primeiras décadas do Oitocentos foram pródigas em pensar o papel da imprensa e dos leitores, com o lançamento de publicação para públicos diferentes. As mulheres, cada vez mais alfabetizadas, entraram em cena como ávidas consumidoras de livros, jornais, revistas, almanaques, folhetos e afins. Annona nasceu voltada preferencialmente para o público feminino. Mais do que “apenas” uma inspiração cultural, a França fornecia também o conhecimento técnico que permitia a expansão editorial em outros países da Europa e da América Latina. Muitos editores, tipógrafos e trabalhadores do livro partiram para novos destinos, saindo da França, em busca de negócios e trabalho depois da derrota de Napoleão, em 1812. Trabalhar com publicações sempre foi arriscado econômica e, também, politicamente, e os empresários e tipógrafos estavam sujeitos à censura, a prisões e perseguições políticas de toda espécie. No Brasil, um desses editores franceses expatriados, Pierre Plancher, lançou uma série de produtos editoriais no mesmo período — ele desembarcou no Brasil com uma tipografia e alguns funcionários e abre seu negócio em 1824 (Santana Júnior, 2019). Por uma década, até 1834, Plancher dominou os negócios editoriais do jovem país de Dom Pedro I e, em 1827, publicou um periódico para mulheres que versava, entre outros assuntos, sobre moda — era O Espelho Diamantino. O jornal durou 14 números, de 1 de novembro de 1827 até abril de 1828 e se assemelhava ao Annona em muitos aspectos (diagramação, assuntos, maneiras de se dirigir aos leitores e leitoras). O principal, certamente, era o tipo de público leitor, as mulheres. A imprensa era uma ferramenta poderosa no século XIX. Tratava de temas políticos, que influíam no cotidiano do país, mas também servia como um dos mais importantes marcadores temporais do século XIX. Números publicados com regularidade, com assuntos voltados para o cotidiano, para a divulgação científica e cultural dos leitores e leitoras, modificaram a noção de tempo no período. Junto com os relógios, que passaram a estar em vários lugares da vida do dia a dia (nas casas, nos bolsos dos coletes, nas ruas ou nas lojas), os periódicos marcaram a vida no século XIX (Benjamin, 1985). A busca por um novo público leitor, as mulheres, não apenas aumentou as tiragens e as opções de leituras, mas difundiu a ideia de que as mulheres deveriam ser educadas, deveriam aprender a ler, a escrever e a contar, além de outros atributos para um bom casamento, como saber cozinhar, fazer doces e se vestir apropriadamente, dançar ou tocar piano. A moda, como no Espelho Diamantino, ou a culinária, como na Annona, ensejaram publicações que tinham nas leitoras seu público-alvo. Além disso, ambas possuíam seções de divertimentos e literatura, como de contos, de poesias, de fábulas e anedotas — leituras vistas na época como apropriadas às mulheres educadas. A ideia de um tempo de lazer e diversão também nasce com a revolução industrial — o ócio, diria Veblen —, tempo que deveria ser preenchido com atividades civilizadas, como a leitura de jornais e romances (Veblen, 1978).
A maioria das receitas de Annona reproduz, às vezes na íntegra, partes do livro Arte de cozinha, de Domingos Rodrigues, publicado em 1680. O livro é um clássico absoluto da cozinha portuguesa, com uma compilação de 300 receitas, as quais ao longo dos anos volta e meia reaparecem em outros livros de receitas — até o século XX. Domingos Rodrigues nasceu em Vila Cova à Coalheira em 1637 e morreu em Lisboa em 1719. Foi cozinheiro do rei Dom Pedro II de Portugal, tendo estado à frente da cozinha da Marquesa de Valença. Ele tinha 43 anos quando publicou o volume, que, como em Annona, nem sempre apresenta medidas exatas dos ingredientes, apenas modos de fazer, explicados de maneira bem solta, sem maior precisão. Cento e cinquenta e seis anos separam as duas publicações. Pelas receitas publicadas, percebe-se que os pratos portugueses não mudaram muito nesse período. É nítida uma influência francesa — mais forte na Annona do que na Arte de cozinha (no início do século XVII, essa influência estava se iniciando). São receitas que traduzem não apenas um gosto, particular ou de grupo, por determinados alimentos — elas traduzem também a maneira de comer de classes ociosas, no caso, a alta burguesia e a aristocracia. Desta maneira estão presentes ostras, enguias, pombos, lampreias, salmão, pargos e doirados, bacalhau, camarões, vitelos e carneiros, perus, trufas, alcachofras, castanhas, aspargos, couve-flor, chicórias, ervilhas, favas, pepinos entre vários outros ingredientes. A escolha cuidadosa do que se ia colocar à mesa mostrava riqueza, poder e civilidade. Apesar da influência, em Annona estão ausentes algumas palavras que estavam ligadas à tradição francesa e que hoje estamos acostumados a usar. São elas: “gastronomia”, “gastrônomo”, “gourmet”. Se, por um lado, isso mostra que a influência francesa era sensível, mas não avassaladora na cozinha portuguesa, por outro mostra que o refinamento à mesa passava por outros símbolos e signos além da palavra. Foi no começo do século XIX que a França se estabeleceu como referência incontestável na cozinha, com a circulação dos textos do advogado e jurista Jean-Anthelme Brilliat-Savarin (1995), que progressivamente fariam as palavras mencionadas anteriormente se tornarem referência da comida de elite. Brilliat-Savarin não apenas popularizou esses termos em seu livro mais conhecido, La phisiologie du goût, lançado em dezembro de 1825, numa edição paga pelo próprio autor, como criou a ideia de que a cozinha era uma arte equivalente à música ou ao teatro, portanto feita por gênios-cozinheiros e passível de ser criticada. Desta forma, quando a Annona passa a ser publicada em 1836, ela está fazendo, ainda que de modo indireto, uma referência a Savarin e ao estilo de vida francês da Restauração, entre 1815 e 1830. Neste momento, jantares privados passavam a ser mostras de civilidade burguesa, e eram bastante protocolados.
Desde o século XVIII, cozinheiros franceses eram contratados para diferentes cortes reais na tentativa de modernizá-las, adequá-las aos novos tempos e aos novos governantes. Em Portugal, D. Maria (1734-1816), durante seu reinado entre 1777 e 1792 (quando começou seus delírios e Dom João VI assumiu o trono na prática) contratou o cozinheiro francês Lucas Rigaud, que acabou por escrever Cozinheiro moderno ou Nova arte de cozinha (Rigaud, 1999), chocado com o fato do livro de Domingos Rodrigues ser o único livro de cozinha de Portugal até então, meados do século XVIII. Os desconhecidos editor (seria José Joaquim Nepopuceno Arsejas?) e redatores da Annona sabiam, portanto, ao falar para seu público, que estavam a par tanto da tradição culinária portuguesa, com as receitas de Domingos Rodrigues, como com as novas modas culinárias de Vincent Sain Chapelle e Lucas Rigaud e a cozinha francesa. Se a cozinha aristocrática portuguesa ainda exagerava nas especiarias, mostrando seu valor comercial e sua importância econômica, desde o começo do século XVIII a cozinha francesa buscava o refinamento do “gosto puro” dos alimentos, que pouco depois seria tão exaltado por Brilliat-Savarin. Mas a Annona não foi um periódico apenas de receitas ou de gastronomia, ainda que essa fosse seu principal chamariz. Além da comida, publicava poesias, contos, fábulas, anedotas, adivinhas no melhor estilo “almanaque do século XIX”, com uma variedade incrível de assuntos leves e mundanos. A ideia, como referimos, era ser uma revista voltada para o público feminino da alta burguesia à aristocracia portuguesa — uma revista de entretenimento no sentido mais completo do termo. As receitas deveriam ser servidas em jantares, seguidos por distrações leves, músicas, recitação de poesia, contos ou anedotas. Dessa maneira, um jantar estaria completo, numa oferenda para Annona, a deusa da abundância, terminando a noite cheia de felicidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas: magia e técnica, arte e política.
São Paulo: Brasiliense, 1985.
BRILLIAT-SAVARIN, Jean-Anthelme. A fisiologia do gosto. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
CRUZ, Eduardo e SANTOS, Gilda. Annona ou misto curioso. Porto: Livraria Lello, 2023.
HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil: sua história. São Paulo: EdUSP, 1985.
MONTELEONE, Joana. Sistema métrico. In: SLEMIAN, Andréa, AIDAR, Bruno, LIMA LOPES, Jose Reinaldo. Dicionário histórico de conceitos jurídico-econômicos. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2021.
RIGAUD, Lucas. Cozinheiro moderno ou Nova Arte de cozinha. Lisboa: Colares, 1999.
RODRIGUES, Domingos. Arte de cozinha. Lisboa: Biblioteca de Autores Portugueses/. Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1987.
SANTANA JUNIOR. Odair Dutra. Jornais de Língua Francesa na tipografia de Pierre Plancher (Rio de Janeiro, 1827). In: Revista Non Plus, Ano 7, n.15, jan.- jun. 2019, ISSN: 2316-3976 n.
VEBLEN, Thorstein. Teoria da classe ociosa. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
NOTAS
1 Joana Monteleone é editora e historiadora, fez Pós-Doutorado na Cátedra Jaime Cortesão da Universidade de São Paulo (USP) com o tema “Açúcar e Industrialização” e na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com o título “O Almanaque Laemmert e o tempo do Império” (2015-2018). Ganhadora do prêmio Jabuti em 2017 como editora, é editora da Alameda Casa Editorial desde 2004. Fez doutorado pelo Programa de Pós-graduação em História Econômica do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP – 2013), com o título de O circuito das roupas: a Corte, o consumo e a moda (Rio de Janeiro, 1840-1889). Possui mestrado em História Econômica pela Universidade de São Paulo (2008), com o título de Sabores Urbanos: alimentação, sociabilidade e consumo (1828-1910). Atua, principalmente, nos seguintes temas: história do império, história do consumo, história da alimentação, história da moda, história e urbanismo. É autora dos livros Sabores Urbanos (Alameda, 2015), Toda comida tem uma história (Oficina Raquel, 2017), O circuito das roupas: a corte, o consumo e a moda, Rio de Janeiro, 1840-1889 (2022) e coorganizadora de A história na moda, a moda na história (Alameda 2019), Histórias de São Paulo: construções e desconstruções (Edusp, 2023) e Cachaça, história e literatura (Alameda, 2023). 2 A questão das medidas e do sistema métrico é complexa tanto em Portugal como no Brasil. Nos países o sistema métrico demorou a ser implantando e até hoje se utilizam medidas não decimais nas receitas como colheradas, bacias, xícaras e pitadas (nenhuma dessas medidas aparece na tabela de equivalências, por sinal). Para saber mais sobre a questão das medidas e da implementação do sistema métrico, ver MONTELEONE, Joana. Sistema métrico. In: SLEMIAN, Andréa, AIDAR, Bruno, LIMA LOPES, Jose Reinaldo. Dicionário histórico de conceitos jurídico-econômicos. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2021. 3 É possível ler o fac-símile em https://www.docvirt.com/DocReader.net/RealGabObras-Raras/38862 . 4 Ver a apresentação de CRUZ, Eduardo e SANTOS, Gilda. “Annona, muito além dos prazeres da mesa”. In: Annona ou misto curioso. Porto: Livraria Lello, 2023, p. 15-20.