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1916 Limonada das Romarias / Severo Portela

Limonada das Romarias

1916

TÍTULO: Limonada das Romarias

SUB TÍTULO: 

AUTOR: Severo Portela

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1916

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: Lisboa

EDITORA: Terra Portuguesa, revista ilustrada de arqueologia artística e etnografia

A. 1, n.º 2, Março 1916

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO: 

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN J. 2402 B.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 812

OBSERVAÇÕES:

812

PORTELA, Severo, 1875-1945

Limonada das Romarias / Severo Portela
Terra Portuguesa. — Lisboa. — V. 1, p. 57-58

BN J. 2402 B.

LIMONADAS DAS ROMARIAS

Nas tardes vermelhas de maio, sol, poeira, vento, as romarias dos arrabaldes portuenses eram, há vint’anos, uma aguarela cantante de movimento e de colorido. Gritavam papoulas nos campos, regatos retiniam espertos, violas zeniam estrídulas, os morteiros ecoavam pimpantes. Senhora da Hora e Senhor de Matosinhos, Senhor da Pedra e S. Bento das Peras, impossível relembrar agora a arraialada que, cada domingo, ora num ponto, ora noutro, por Paranhos, por Quebrantões, por Ermezinde, por Valadares — eu sei lá! — azoavam a alegre alma do norte, farfalhante que nem vinho verde, buliçosa que nem fresca de melros…

Toda a série de bailaricos rodeiros sobre o chão trigueiro, todo o folk-lore lusitano, melodisado em gargantas sadias, toda a grita bárbara de assobios e cornetas da olaria de Vila Verde e Molêros, a romaria era o que-quer-que fosse a nos estremecer os nervos, numa emoção bizarra.

— Limonada, limonada doce de cavalinho!

Com a estampa benta do orago pregada no chapeiroz braguez, jaqueta ao ombro, onde sobressaía a manga da camisa alvíssima, na dextra o cacete de lodão, brunido e vigoroso, o romeiro saracoteava-se nessa pompa feita de abelhas de ouro, de que só o norte conhece a origem máscula e insigne. A banda, no coreto de tábuas pintadas, alternava, ao acaso, a polka janota e o hino da Carta, e pela mancha glauca dos pinhais o sol estendia colgaduras de ouro, e pelas estradas os char-à-bancs iam formando bicha, e pelos combros toca a distender toalha, onde a merenda de sável frito, obrigado a rascante, vai começar…

— Limonada de cavalinho! Limonada fresca!

Entre a poeira sangrenta, que torvelinhava sobre o lugar como a fumarada dum saque, entre o vozerio das cantigas e dos doestos, que estrugia como as imprecações dum assalto, o pregão das limonadas assemelhava-se a um refrão ameno, que nos obrigasse mui suavemente a nele atentar. Os mendigos lamuriam a sua historiela de dramáticos lances, a desordem no arraial estoura numa trabuzanada de varapaus mugindo, o baile rodeiro prime-se de novos pares, que, ligeiros, se sarabandeiam.

Não importa! O pregão fino e docil penetrava ainda a nossos ouvidos, sugerindo a fresca verdura recante, a par que o suor transcorria dos pescoços, engorditados de sol, das cantigas e da folia!

— Limonada doce, limonada de cavalinho!

É uma garganta sonora de cachopa, vestida, como, de resto, todas as vendilhonas na romaria, da mais entusiástica côr e graça, quem o emite, dando-nos a ilusão dum balançar de ramo verde sobre a calma que já nos oura a cabeça. Típicos os copos em que a limonada reluz na sua frescura longínqua, típico o modo de haurir a poção em tais copos, exposta à poeira rude e às goelas sedentas.

Dir-se-iam a estilisação duma flôr de liz, esses copos moldados, de vidro esverdinhado, que passam dum a outro arraial, desencalmando os devotos de algumas dezenas de figuras do Flos-Sanctorum. Raiados de cima a baixo, largos de boca e largos na base, o colo terá, em regra, a espessura dum dedo polegar, aso concedendo a serem erguidos, como uma taça, para um brinde ofertado à coral magnífica que era, em tardes vermelhas, uma romaria nos arrabaldes portuenses. A prumo e mergulhado no líquido louro, um tubo de lata, em regra patinado do uso e do tempo, terminava, da parte liberta, por outro menor, formando ângulo recto. Simples, deveras simples.

Um tal aparelho, que dava nome especial à limonada — limonada de cavalinho — foi, sem dúvida, o ancestral brioso da palhinha brunida e branca que as brasseries do boulevard haviam, mais tarde, de disseminar pelo mundo. O líquido decorria com lentidões mitigantes, entre o copo gemado e a guela sequiosa, sorvia-se a pausados goles saboreantes, imprimia com requintes a fresquidão que perdura e estimula e desnerra.

— Limonada doce! Limonada de cavalinho!

A não ser propriamente no termo portuense, não me lembra haver topado com artifício assim característico. Os copos esverdinhados, talvez a estilisação da flôr de liz heráldica, passaram das mesas de pinho dos arraiais para o bric-à-bracdos antiquários, na sua menor parcela, e a maioria deles foi feita em estilhas, na desordem enorme em que se anda a dar cabo das coisas lindas da nossa terra.

Acaso sei dalguns, poucos. Guarda-os uma família das mais ilustres de Portugal e servem em festas regionais, dadas num dos mais belos solares do norte, a serem erguidos por dedos gentilíssimos, enquanto um côro entoa cantigas do povo e as violas trinam saudades, que fazem cismar, dolorosas…

Severo Portela.