4. “Iguarias académicas”: a presença da “culinária honorífica” na formação do património alimentar nacional.
Composta por 795 receitas, repartidas por 13 categorias distintas de preparados, a Cosinha Portugueza, na sua 2.ª edição, invertendo a disposição inicial, passa os “apêndices” para “preliminares”. Já acima comentámos que essa modificação é responsável por confrontar o leitor, antes de mais, com a missão catequética e moralizadora dos bons costumes apregoados pelos ensinamentos da doutrina cristã. Tratando‑se de um livro propriedade de uma instituição de caridade religiosa, o conjunto de “reflexões” sobre o “modo de bem viver”, longamente apresentado (pp. xv‑xxviii), serve a missão doutrinária que inspira todas as suas iniciativas. Sem entrarmos em grande detalhe, destacamos as principais lições transmitidas:
– a decadência moral que grassa a vida contemporânea decorre do desprezo pelos três alicerces do “viver honestamente”: os preceitos do Evangelho, a conduta virtuosa em sociedade, os deveres familiares (resumidos, na p. xviii, na tríade “Deus, pátria e família”, que havia de servir de estandarte às políticas moralizadoras do Estado Novo);
– educar as crianças (pois, como se depreende, são elas os futuros adultos e dirigentes do país) na observância das virtudes morais, mais importantes que a instrução, cabendo aos pais em geral um papel firme e empenhado na escolha do mais conveniente para elas;
– elogio do trabalho e da poupança, garantes de uma vida modesta e feliz;
– valores que fazem da mulher uma “senhora”: ser uma boa dona de casa 156 inteiramente dedicada aos seus entes queridos 157.
A este ponto seguem‑se mais cinco itens de preceitos, de ordem dietética prática, uma vez que cobrem domínios que, desde a criação da ciência por Hipócrates no século v a. C., não mais foram esquecidos nos discursos higienistas posteriores. O ‘modo de vida’ saudável subjacente aos ensinamentos de seguida apresentados contempla, nessa linha clássica fundadora, a habitação (lugar – com especial referência ao ar, à luminosidade e ao ambiente natural envolvente, bem como à residência, pp. xxix‑xxxiv), as águas (para beber e os banhos, pp. xxxv‑xxxvi), a comida (quer os alimentos sólidos, quer as bebidas, com referência a propriedades e ao equilíbrio que os métodos de confeção lhes imprimem 158, para além dos condicionalismos que o clima, a estação do ano, a idade, o sexo, a constituição corpórea e o trabalho impõem a cada regime alimentar individual 159, pp. xxxvii‑xlviii) e o vestuário (pp. xlix‑lxiv). Uma parte comum a todas estas rubricas e que denuncia a marca de uma tradição que encontramos presente nos livros de culinária portugueses precedentes (sobretudo os manuscritos conventuais) é a presença, no termo de cada um desses apartados, de “segredos”, i. e. “receitas” para resolver dificuldades mais comuns em cada sector (purificar o ar das habitações e a água de beber, tirar nódoas, conservar alimentos, eliminar pragas, etc.).