Que o desejo de cativar o leitor para um género novo determinou que, ao contrário do projeto inicial, o editor não siga à risca a tradicional segmentação dos livros de cozinha, percebe‑se desde o primeiro folheto. Chegamos a esta suposição a partir do facto de incluir sempre, em cada número, a rubrica “Doce”, tradicionalmente reservada à segunda parte dos manuais de culinária. Não esqueçamos, todavia, que a própria lógica do “programa” da obra impunha essa obrigatoriedade, pois, é durante a sobremesa que ao anfitrião‑leitor é dada ocasião de explanar e pôr em prática os ensinamentos fornecidos na rubrica “recreação” do folheto.
Sobre o elenco de receitas publicado, importa reter duas notas reveladoras do convívio entre uma culinária de origem nacional e outra de influência estrangeira. Da presença que se fazia sentir na literatura culinária portuguesa da cozinha de origem francesa (de forma mais acentuada desde o século xviii, conforme atesta a obra do cozinheiro francês Lucas Rigaud, Cozinheiro moderno ou Nova Arte de Cozinha, 1780) nos dá declaradamente conta o editor, quando, no anúncio de mais uma edição de 12 folhetos, declara que já encomendou:
“livros de França, donde deve vir o Novo Diccionário de Cosinha, publicado este anno em Paris, que deve merecer a geral aceitação; assim como tambem os que tocam ao artigo de Recreação, o que melhor se explicará no Prospecto que se vai publicar” (n.º 11, p. 269)
Em suma, as modas eram ditadas de França, não só para a cozinha, como para o convívio cultural que se gera em torno da mesa. No entanto, quer no que se refere às “provisões para a boca” quer as destinadas a animar o espírito, a Annona revela interessantes afloramentos da história e cultura portuguesas. A título exemplificativo destacamos receitas doces como “Ovos moles de Aveiro” (n.º 5, p. 104), “Compota de pessegos á Portugueza” (n.º 8, p. 178) e “Fartes de especies” (n.º 11, p. 249) e um prato salgado de “Gallinhas com arroz á Portugueza” (n.º 29, p. 102). Nem mesmo a cozinha luso‑brasileira foi esquecida, conforme se depreende da presença do “Doce do Brasil” (n.º 5, p. 104), iguaria cuja identidade vem desvendada no folheto seguinte, no qual o editor revela tratar‑se do que habitualmente se chama de “canjica” (n.º 6, p. 130). Na parte da recreação o leitor é contemplado com textos de cariz mais lúdico (anedotas, adivinhas e charadas), outros de pendor literário (poemas, contos e fábulas) e ainda narrativas históricas. Sendo a mesa a temática agregadora entre a parte técnica e a artística deste periódico, não nos surpreendemos com a inclusão, logo no folheto n.º 2, na rubrica recreação, de uma reflexão sobre “Estilos da Mesa dos Romanos” (pp. 46‑48).