DUAS PALAVRAS
Principiantes, não se assustem!
Este não é mais um tratado de exclusiva «Alta Cozinha» em que as nossas simples, corriqueiras e quotidianas dificuldades ficam sem auxílio ou resposta.
Será antes uma «Iniciação à Culinária» dirigida a todas as donas de casa, que tantas vezes se têm visto em sérios apuros, ao ter que ensinar ou mesmo preparar um peixe cozido de modo a ficar branco e durinho, um arroz solto e enxuto, um simples ovo quente. Ficará passado demais? … De menos? …
E as já iniciadas ou antes «Sacerdotisas» deste sublime culto da arte de Vatel, não nos acolham com desdenhosa comiseração!
Vamos indicar receitas de iguarias da «Alta Cozinha Portuguesa» e também mesmo da nossa simples «Cozinha Regional», as quais esperamos, não serão destituidas de todo o interesse. Certamente será ocioso frisar que certas contribuições exóticas se integraram, entre nós, na prática culinária quotidiana.
Ora, será moroso e difícil de determinar quando ou como a espécie humana, que primitivamente se alimentava de frutos e outros produtos crus, descobriu as vantagens e o prazer dos cozinhados.
O requinte e variedade que hoje possui e exige a Arte Culinária é resultado de longa experiência e, quantas vezes do mero acaso…
E, por «mero acaso», lembra-nos o engraçado e simbólico ensaio de Charles Lamb, em que nos é contada a seguinte história, passada na China:
Ardera uma casa e não tendo sido possível salvar um suíno, este foi mais tarde encontrado completamente assado no brasido. O aroma delicioso que exalava, e porque era conhecida a causa da sua morte, levaram a família a comê-lo. Foi tão grandemente apreciado que, volta não volta, já deitavam fogo à casa do porco, para poderem deleitar-se com este magnífico manjar!
Felizmente que o género humano é um ser mais evolutivo do que o apresenta este ensaísta, procurando sempre juntar o útil ao agradável — neste caso o mais prático ao apetitoso — e não se serve de semelhantes processos para satisfazer os seus desejos gastronómicos…
Com o correr dos tempos passou o «comer» de simples necessidade individual a acontecimento social em que o Homem encontrou uma das formas mais requintadas de se deleitar e obsequiar o seu semelhante. Também à medida que se tornava um ser sedentário ia exigindo uma alimentação mais leve e mais fácil de digerir.