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2024 O Livro de Cozinha da Infanta D. Maria e os banquetes régios Quinhentistas 

“De viandas tão peregrinas para o regalo dos convidados”

O Livro de Cozinha da Infanta D. Maria e os banquetes régios Quinhentistas

Guida Cândido1

Mátria Digital – Nº12 – Dezembro de 2024 

 Resumo 

O designado Infanta Maria of Portugal's Cookery Book, o mais antigo receituário conhecido, escrito em português, datável do final do século XV início do XVI, contendo 61 receitas culinárias reveladoras da mesa régia quinhentista, foi levado para Itália por D. Maria de Portugal, neta de D. Manuel, aquando do seu casamento com o Duque de Parma. Constituindo o ponto de partida para desvendar o que se comia e como se comia numa época marcada pela expansão ultramarina, que mudou para sempre a gastronomia portuguesa, este estudo procura analisar desse receituário, em confronto com o estudo de um livro de despesas da casa da rainha D. Catarina de Áustria, com data crítica de 1571, permitindo conhecer o que se apresenta na sua mesa e na das suas damas, durante o mês de maio. As duas fontes revelam os alimentos raros, dispendiosos e de difícil aquisição que integram parte das viandas que compõem os banquetes régios. 

Palavras-chave: História da Alimentação; Época Moderna; Infanta D. Maria; D. Catarina de Áustria; Livro de Cozinha da Infanta D. Maria; Banquetes 

 Guida Cândido licenciou-se em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 1997. Concluiu o Mestrado em Alimentação – Fontes, Cultura e Sociedade pela mesma universidade em 2014 que lhe valeu uma Bolsa de Mérito do Ensino Superior e o Prémio de Mérito Turismo Centro de Portugal de melhor aluna no ano letivo 2012/2013. Ao abrigo de uma Bolsa de Investigação de Doutoramento da FCT, frequentou nos anos letivos 2019-2023 o doutoramento Patrimónios Alimentares: Culturas e Identidades, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo sido aprovada com louvor e distinção por unanimidade com a tese “O que não heveis de comer: Fome e Saciedade na obra de Gil Vicente”. 

É autora de livros, artigos científicos e publicações na sua área de investigação, nomeadamente editados pela D. Quixote e distinguidos com os prémio Gourmand Award, Portugal Cookbook Fair, Prémio de Literatura Gastronómica pela Academia Internacional de Gastronomia. Participa em diversos programas de TV, destacando-se um episódio do programa From Scratch (https://www.discoverfromscratch.com/the-show), com apresentação de David Mascow, com 300 milhões de espetadores em 20 países e divulgado em outubro de 2023.  

Na primavera de 1566, quando a Sereníssima Infanta D. Maria (1538-1577) se fixa com o seu Príncipe Alexandre Farnese (1520-1590) em Parma, tem consigo, juntamente com o seu séquito, um livro de cozinha, conhecido como O Livro de Cozinha da Infanta D. Maria de Portugal 2. Trata-se do mais antigo e conhecido livro de cozinha português, escrito entre fins do século XV e inícios do XVI. Embora alguns autores defendam que não se trata de um livro de receitas para uma cozinha de corte 3, também não se pode encontrar nele as receitas praticadas pelos grupos sociais com menos acesso aos alimentos de primeira qualidade. A inclusão de iguarias mais raras, dispendiosas e de difícil aquisição, na sua maioria exclusivas de reis, rainhas e aristocratas, tais como as especiarias, açúcar e a nobre lampreia, permite, contudo, apontar para uma cozinha de monarcas. O códice possibilita, hoje, conhecer os alimentos consumidos na época em apreço, as formas de os confecionar, as técnicas, os utensílios, as tendências e os gostos. Em suma, revela um receituário próprio da mesa realenga quinhentista. 

A incontornável fonte poderá ser confrontada com um manuscrito contabilístico da Casa da Rainha D. Catarina de Áustria (1507-1578), um Livro de Despesas datado de 1571 4, permitindo um exercício de reconstituição dos manjares que saem das cozinhas da corte do século XVI, concretamente da de D. Catarina de Áustria. O registo minucioso das despesas efetuadas durante o mês de maio de 1571, transporta-nos para a sua ucharia e cozinha, permitindo observar as iguarias que a rainha e seus serviçais privilegiam no seu quotidiano. Comer como uma Rainha será, antes de mais, comer o que a maioria não pode; o que os grupos desfavorecidos não alcançam; os alimentos que se revestem de importância simbólica e carácter raro, exótico e distinto 5. 

A marca da expansão ultramarina imprime-se não apenas nos objetos que as coleções da Rainha ostentam, mas também nos alimentos que sobem ao palco da sua mesa, como de resto os banquetes por ocasião do consórcio da infanta D. Maria com o príncipe de Parma refletem. D. Maria, filha mais velha do infante D. Duarte (1515-1540) e de D. Isabel de Bragança (1514-1576), neta de D. Manuel I (1469-1521), cresce com o seu primo, o herdeiro do trono português, D. Sebastião (1554-1578). Representante da dinastia de Avis, alimenta, à semelhança de outros membros da família régia, as relações entre as cortes de Habsburgo e Castela. O seu destino é o consórcio com Alexandre Farnese, filho da duquesa de Parma, D. Margarida de Áustria (1522-1586), irmã do Imperador Carlos V (1500-1558) e governadora, em nome do irmão, dos Estados da Flandres. Este enlace inicia-se a 14 de março de 1565, em Madrid, com a assinatura do contrato antenupcial com o procurador da infanta, o seu tio, D. Teotónio de Bragança (1530-1602)6. E termina com a partida de: 

«dona Maria que casou com ho Prinçipe de Parma era o que ueyo hua Armada em busca dela mto bem fornecida. de mui lustrosos soldados e o conde de Mãsfelth sñor framengo por general com sua molher e damas e todo mais necessário […] ouue aquela noute seraõ Real e foisse esta snorã aos 14 do mes de Setembro dia da tresladaçam da uera Cruz do anno de 1565.» 7 

Dois meses volvidos sobre o contrato firmado em Madrid, os desposórios celebram-se em Lisboa. No santo domingo, 13 de maio, o embaixador do rei de Castela é recebido no Paço, na presença da: 

«Rainha, nossa Senhora, com a Senhora D. Maria e com os infantes D. Maria e D. Isabel […]. Acabado o recebimento, se tornaram Suas Altezas à sala grande e se assentaram em seu estrado, e houve serão, ao qual foi presente a Rainha, nossa Senhora.» 8 

2 Manuppella 1986. O designado Infanta Maria of Portugal's Cookery Book é o mais antigo receituário, que se conhece, escrito em português. Datável do século XVI, foi levado para Parma por D. Maria de Portugal, neta de D. Manuel, aquando do seu casamento, tornando-se Duquesa de Parma. O manuscrito integrou a biblioteca da família Farnese, hoje na Biblioteca Nacional de Nápoles. Contém 61 receitas culinárias reveladoras da mesa régia quinhentista. 

3 Bertini 1995:120; Manuppella 1986.  

4 O manuscrito foi objeto de estudo numa dissertação de mestrado em Alimentação: Fontes Cultura e Sociedade, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, da autoria de Guida Cândido e com orientação de Maria José de Azevedo Santos, “Comer como uma Rainha”: Estudo de um livro da casa de D. Catarina de Áustria, disponível no repositório da UC em https://estudogeral.uc.pt/handle/10316/26408. 

5 Cândido, 2014. 

6 Veloso, 1935, p. 75. 

7 Soares, p. 11. 

8 Carvalho, 1998, p.47.  

Os festejos arrastam-se durante esse mês de maio de 1565. No dia seguinte ao recebimento, «a Infanta D. Isabel, a Senhora D. Maria, sua filha, comeram […] com a Rainha nossa Senhora». A 22 celebra o desposório o capelão-mor D. Julião de Alva (1500-1570), na Capela Real 9. Na ausência do noivo, o príncipe de Parma, representado pelo embaixador de Castela, D. Alonso de Tovar, toma D. Sebastião sua prima desposada, para uma dança no paço, durante o refinado banquete e sarau. As celebrações são acompanhadas no exterior pelo povo que, no Terreiro do Paço, festeja e aplaude esta união 10.D. Catarina toma ainda parte dos grandiosos festejos, no dia seguinte, brindando com outro banquete as suas convidadas: a agora princesa de Parma, a mãe desta e a infanta D. Maria (1521-1577), a Sempre Noiva, sua cunhada e sobrinha 11. 

Nesse verão, antes de partir definitivamente para outro reino, a princesa é agraciada com um último banquete que D. Catarina promove no sentido de receber a condessa de Mansfelt e as suas damas. Neste apresentam-se as «viandas taõ peregrinas, que até a India Oriental concorreo com a água do rio Ganges para o regalo dos convidados»12. No Paço da Ribeira, no desenrolar da refeição, presenteia os convidados com abundância de carnes vindas de vários e distantes pontos do império, tal como a água servida que se diz proveniente de muitas partes do mundo: Indo, Ganges, nascentes e lagos de África e Ásia e rio Tibre, numa tentativa de ostentar os domínios imperiais do reino português. 

Na Lisboa de 1552, descrita por João Brandão de Buarcos (?-1562), a carne «é a segunda cousa de comer». Herança de tempos medievos, em que vai todos os dias à mesa, com espécies variadas e técnicas diferentes que lhe imprimem paladares distintos, com exceção dos dias «magros», sextas-feiras, Quaresma e Advento, em que toma a dianteira o consumo de pescado, mesmo no caso dos reis e da sua corte. Este é o padrão que se verifica nesta época, na corte portuguesa, nos meios aristocráticos e nas suas congéneres europeias. O consumo de carne representa um elemento de distinção económica, social e de estratificação hierárquica, atingindo a máxima representatividade na família real e seus satélites. No Livro de Cozinha da Infanta D. Maria, o Caderno dos Manjares de Carne inclui 26 receitas,  com destaque para a galinha, mas também com receitas de perdiz, pombinhos, coelho, cabrito e outras carnes13. 

A preferência, na época em apreço, pressupõe os ovinos no zênite. De facto, o carneiro, em oposição ao porco, é considerado uma carne nobre, saudável e conotada com o Divino, numa associação direta ao “Cordeiro Pascal”. Também por isso, é preferida entre os religiosos. A tendência de consumo e predileção por ovinos arrasta-se pelo século seguinte, permitindo confrontar essa inclinação com outros estudos, em particular o primeiro livro de receitas culinárias publicado durante o ano 1680, Kitchen Art, por Domingos Rodrigues14, cozinheiro-mor de D. Pedro II (1648-1706), onde se registam 21 receitas com carneiro. A carne suína está reservada às classes e grupos menos privilegiados, por ser considerada de menor qualidade e indigesta, mas também devido à classificação que se dá ao porco, de animal sujo, tradição islâmica que perdura atualmente. Não obstante esse facto, e uma vez que o reino de Portugal é fortemente católico, os cristãos consomem-na de forma declarada, por oposição à sua interdição pelo islamismo e judaísmo, em que a abstinência do seu consumo é um sinal claro de prática religiosa contrária. As minorias religiosas, no território nacional, têm, à época, preferência pelo consumo de carne de carneiro e aves, o que não está ao alcance dos menos privilegiados, reservando-se assim, à semelhança do que se passa entre os cristãos-velhos, para os grupos de maior poder económico e estatuto social elevado. 

Consumidas, igualmente, em amplo número são as aves e a caça. Se a vaca e a vitela atingem números impressionantes que apontam para 5 vitelas e 103 arrobas e 201 arráteis de vaca, não impressiona menos o consumo de galináceos: 771 galinhas em 31 dias, a que acresce 284 frangãos. Deste número, o escrivão indica que 62 galinhas são, especificamente, para a rainha, compradas entre o segundo e o décimo dia desse mês. Na Casa da Rainha, a despesa com as galinhas atinge o valor de 7.325 reais. O preço de cada varia entre os 80 e os 150 reais15, valor nem sempre ao alcance dos que a desejam consumir, mesmo entre a fidalguia. 

No que concerne às espécies venatórias, dá-se preferência às perdizes, seguidas dos pombos. Apesar de grande variedade, não traduz a totalidade de espécies que se podem encontrar no território e que incluem, para além da já mencionada, os faisões, galinholas, pássaros, tordos, cervos, gamos e veados. 

Os modos de preparar a carne, no Portugal quinhentista, são bastante diversificados, indo desde as técnicas mais básicas como cozer, estufar, fritar e assar, até aos pratos que requerem mais complexidade. Estão, neste caso, as almôndegas, o cuscuz, os ensopados, os pastéis, a carne fumada, picada, recheada, albardada e em enchidos. Desde o século XIII que os pastéis e as empadas são receitas muito disseminadas na Europa, não se reservando o seu recheio exclusivamente à carne, mas contemplando, igualmente, o peixe. O deleite por este prato estará relacionado com o costume profundamente enraizado de comer à mão e ainda com a tendência do uso de cereais, na forma de farinhas, identicamente arreigado na nossa sociedade de então. 

Para além destas iguarias, enumerem-se outras que têm como base as massas, variando as formas e os recheios: capelas, tortas, escarramões, trouxas, fartens e cartuxas 16. No Livro de Cozinha da Infanta D. Maria constam cinco receitas de variantes de pastéis com carne que incluem vaca, carneiro, porco, fígados de cabrito, tutanos e pombinhos 17. Outra forma de cozinhar a carne, referida no livro da ucharia de D. Catarina, é assada, uma das mais apreciadas no período em análise, muitas vezes com recurso ao espeto. No último domingo de maio de 1571, compram-se três canadas de vinho pera os asados da vitela 18. Neste caso, não seria assada no espeto, mas sim em recipiente no forno. 

O pescado, tantas vezes consumido seco, salgado ou fumado, por serem essas as diferentes técnicas aplicadas na sua conservação, aparece igualmente no estado fresco. Se na costa e nas povoações vizinhas é relativamente usual o seu consumo desta forma, nas zonas interiores, a sua ingestão, para que ocorra em condições seguras, obedece aos processos de conservação usuais no tempo em análise. Quanto à sua preparação, recorre-se essencialmente aos modos de cozer, assar ou fritar. De resto, nas descrições de banquetes e de outras refeições da corte, o pescado mostra-se sobretudo frito, em empadas e as ostras cruas. Nas casas régias regista-se, sem surpresa, a predominância de peixes considerados mais nobres, com destaque para o linguado, o mais dispendioso – tendência que permanece presentemente. A expressiva variedade de pescado é consumida em função do calendário. Azevias, linguados, salmonetes e ostras constituem a variedade das espécies piscícolas mais usual na corte. De salientar a lampreia – o mais nobre pescado – e mariscos ou bivalves e moluscos. 

No livro de despesas da Casa de D. Catarina de Áustria saliente-se a omissão da lampreia e a inexistência de qualquer referência a mariscos ou bivalves bem como a indicação residual de moluscos, neste caso chocos e sibas 19. O facto deverá estar relacionado com a sua época, uma vez que, sobretudo em relação à lampreia, o período de consumo é o primeiro trimestre do ano. 

O Livro de Cozinha da Infanta D. Maria não acompanha a prática de abstinência, imposta pela Igreja e profundamente enraizada na cultura ocidental. A carne é, acima de qualquer outro alimento, o mais repudiado pela Igreja, no que respeita às práticas de jejuns e abstinências. Recorde-se que a única referência a pescado, nesse tratado culinário, é justamente uma receita de lampreia 20. Apreciada pelas classes mais privilegiadas é, no entanto, interdita entre os judeus, como de resto são todos os peixes sem escamas e barbatanas. Considerados impuros, não estão revestidos com as escamas da virtude e incapazes de resistir à força do rio, deixam-se levar pela corrente. Entre os judeus, o pescado constitui uma alimentação de baixa condição, ao contrário da tradição cristã que tem no peixe o símbolo de Jesus Cristo, fortemente demonstrada na iconografia paleocristã, sobretudo nas primitivas comunidades cristãs21. Porém, a lampreia, igualmente referida por diversos autores como sendo o pescado mais caro, chega a atingir um valor superior a 17 kg de carne. Não consta das refeições oferecidas a D. João III, aquando da sua passagem pelo Convento da Ordem de Cristo, em Tomar, a meio do século XVI, embora seja consumido por essa comunidade regrante. Enquanto governador da Ordem de Cristo, o monarca desloca-se ao convento, primeiro em finais de outubro, e uma segunda vez, nesse ano de 1550, permanecendo de 28 de novembro a 3 de dezembro. Apesar da opulência de carnes que lhe são servidas, o rei e a sua comitiva são contemplados com uma rica variedade de peixe e frutos do mar onde se inclui linguados, ostras, pargos, solhas, badejo fresco, rodovalhos e outros, numa clara inclinação por esta proteína22. Adiante, em dezembro de 1576, numa jornada a Castela protagonizada por D. Sebastião, ao encontro do seu tio Filipe II (1527-1598), no sentido de negociar uma ação militar conjunta contra o infiel no Norte de África, reúnem-se em Guadalupe, no mosteiro hieronimita. Ambos partilham refeições com os religiosos. No banquete oferecido pelos portugueses à comitiva de Filipe II, no último dia do ano, 

foy taõ grande a abundacia de peixe, e mariscos, e as diversidades deles taes, cousa estranha aos Castelhanos, que pasmavaõ da feiçaõ de muitos, que nunca tinhaõ visto, e de taõ grande quantidade, e de como hiaõ frescos de taõ longe, e guizados com tanta especialidade, e maravilhoso modo 23. 

9 Ibid., p. 49. 

10 Cruz, 2006, p. 110.  

11 Carvalho, op. cit., p. 49. 

12 Ibid., p. 50.  

13 Manuppella, 1986, pp. 9-53. 

14 Rodrigues, 2001.  

15 Comparativamente a outros locais, o preço de cada galinha é substancialmente mais elevado, em Lisboa, no período em análise. Na cidade de Santarém, o preço de uma galinha em maio de 1570 é 50 reais e, em 1572, chega aos 70 reais. Braga 1999: 245.  

16 Cruz, 1998, p. 220. 

17 Manuppella, 1986, pp. 10-11; 16-17; 38-39; 50-53 e 56-57. 

18 ANTT-NA 786, p. 56.  

19 Cândido, 2014, p. 71. 

20 Manuppella, op. cit., pp. 32-35. 

21 Lavrador, 2011, pp. 75-77.  

22 Dias, 1993, p. 156. 

23 Baião, 1737, p. 413.  

Com efeito, os portugueses, num excesso de demonstração de poder, promovem um jantar pantagruélico, apresentando 190 pratos, entre os quais diversas iguarias de peixe, tão fresco «como se o banquete se desse dentro na Villa de Setubal», de onde vem a maioria daquele peixe. Depois de distribuídas as sobras do opípero manjar, não deixa D. Filipe de afirmar que «lo cierto es que El Rey [D. Sebastião] es el señor de los mares»24. Nem mesmo nos banquetes matrimonias da corte o pescado mais nobre se ausenta. A esse propósito é sobejamente esclarecedora a passagem da Crónica de D. João II sobre os festejos do casamento do seu malogrado herdeiro, D. Afonso. Por indicação do monarca 

proveu-se nos portos de mar com dinheiro, que lá foi enviado por pessoas para isso ordenadas que fizessem sempre pescar todolos pescados d’estima e envial-os á côrte com muita pressa, uns frescos e outros em conservas 25. 

O pescado é o alimento quaresmal e monacal por excelência, sendo, em diversas ocasiões, e de forma sistemática, entregue como esmola aos religiosos. Nesta época, o calendário litúrgico determina dias de abstinência de consumo de carnes e jejuns, que se aplicam a todos os fiéis cristãos, independentemente da sua condição social, como antes ficou escrito26. Porém, o clero, impelido de forma mais direta para as normativas, naturalmente, procura refeições mais frugais e concordantes com a doutrina vigente 27. O calendário litúrgico que acompanha as prescrições de jejuns e abstinências impostas aos cristãos desde a Época Medieval, obedece a variáveis que se prendem com o espaço físico e com o grau de religiosidade vivenciado pelos crentes 28. Todavia, ultrapassa sempre a centena de dias designados “magros” ou “de peixe” a par do exercício de comedimento sexual. Cabe lembrar aqui a Regra Urbanista de Santa Clara que estabelece que «todas as freiras e serviçaaes tiradas as enfernas jejueem continuadamente des a festa da nascença da gloriosa Virgem Maria ata a Festa da Resurreiçam do Senhor salvo em os domingos e em o dia da nascença do Senhor», ou seja, desde 8 de setembro até à Páscoa, excluindo domingos e o Natal. O mesmo é dizer que as freiras estavam em privação ou redução de consumos alimentares cerca de metade do ano, naturalmente com exceções, concretamente as noviças, as freiras mais idosas, as fracas e doentes, bem como as serviçais que podem ser dispensadas destes jejuns em parte ou totalmente. Quanto às restantes, apenas nos dias em que se praticam as sangrias se podem escudar destas obrigações 29. Alimentos cárneos e gorduras animais como a banha, toucinho, tutano e manteiga de vaca estão arredados dos consumos destinados a estes períodos. Em algumas comunidades permite-se a inclusão de gorduras de mamíferos marítimos, como a baleia, durante a Quaresma, ou aves que se alimentam de pescado 30, nomeadamente o galeirão, lembrado pelo cozinheiro Lucas Rigaud, por ser um pássaro que, vivendo no mar ou nas lagoas, se alimenta de peixes miúdos e marisco e, nessa medida, é permitido nos consumos quaresmais 31. 

 

Não é com surpresa que se reconhece a identificação de peixes e seres marinhos enquanto símbolos de abstinência, porquanto a teoria humoral defende que, sendo alimentos frios e húmidos, respondem à obrigatória contenção sexual. Assim se justifica a predominância de consumos ictiófagos em múltiplas comunidades monásticas 32. O profundo domínio desta teoria, regra geral,recomenda que o pescado seja corrigido com molhos ou temperos onde exuberem especiarias, qualificadas pelo temperamento quente 33, não se adivinhando iguarias insípidas tantas vezes associadas ao magro pescado 34. O célebre códice 142 do Arquivo Distrital de Braga, conhecido correntemente por Arte de Cozinha ou Methodo de fazer guizados, espelha de forma esclarecedora e fidedigna os consumos alimentares vigentes em comunidades religiosas, sejam cenóbios ou colégios. No manuscrito identificam-se 26 receitas de pescado, com 22 espécimes diferentes, tanto de água doce como salgada, não descurando a sua preparação na versão seca, como é comum neste período, nomeadamente a pescada 35. No cabido da Sé de Coimbra, este alimento é consumido essencialmente no ciclo quaresmal, com a entrega diária de uma pescada. Nos dias de Ascensão, Epifania, S. Gião e Domingo de Ramos, os cónegos recebem quatro pescadas. Relativamente a estes dias, além deste espécime, podem arrecadar cações, ruivos, raias, congros e sardinhas 36. Quatro dúzias de pescadas à razão de quatro pescadas por mês a 120 reais a dúzia é quanto recebe, no final de Quatrocentos, Tomé Pais, clérigo de missa e com o ofício de capelão na real capela dos paços reais da Vila de Sintra 37. D. Catarina faz mercê deste pescado e de outras espécies às religiosas do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Faro. Por alvará de fevereiro de 1550 determina que se entregue anualmente à abadessa e freiras duas dúzias de «atuns dos milhores», dez dúzias de pescadas «sequas», vinte milheiros de sardinhas entre outros bens 38. 

Veja-se ainda o conhecimento que dá Nuno Martins, mordomo da Misericórdia da Vila de Santa Cruz, em como recebeu de João Gonçalves, almoxarife, 19 dúzias e 5 pescadas que Sua Alteza D. Manuel lhe mandara dar de esmola, em abril de 1518 39. Em 1502 o Mosteiro de S. Francisco de Santarém começa a receber esmola anual de uma tença 5.000 reais acrescentados aos que já auferiam, somando um total de 8.000 reais, com início de pagamento no dia de Todos os Santos desse ano, outorgados em vez de um tonel de vinho e dez dúzias de pescadas que embolsavam desde D. Fernando (1345-1383) 40. 

24 Ibid., p. 414.  

25 Resende, 1902, p. 73. 

26 Coelho ,2000, pp. 86-87. 

27 Sobre o consumo de pescado pelo clero; vid. Coelho, 1995, pp.100-101. 

28 Em 1438, nos últimos meses da sua vida, o monarca D. Duarte redige o Leal Conselheiro, conjunto de textos com reflexões pessoais que desvelam práticas e comportamentos da sociedade medieval. Entre as várias recomendações, o rei não negligencia diversos aspetos relacionados com os consumos alimentares e as regras inerentes às boas práticas visando a saúde e elevação espiritual. A propósito dos jejuns e abstinências impostos pela igreja católica, salvaguarda que os jejuns «bons e de merecimento […] são mandados por a Santa Igreja, nossos prelados ou confessores.» lembrando aos bêbedos e gulosos que «o jejum que se faz e guarda por cada uma destas cousas é bom, digno de louvor, e traz mui grandes bens para as vidas presente e que esperamos.» Leal Conselheiro… 1982, pp. 168-170.  

29 Santos, 2015, p. 47. Sobre a alimentação monástica feminina é proveitosa a leitura do estudo com base em documentação administrativa de Sousa e Gomes 1998. Tenha-se ainda em conta Beirante (1981).

30 Castro, 2021, pp. 145-146.

31 Rigaud, 1999, p. 203. Estamos em 1780 quando Lucas Rigaud dá à estampa a sua obra, Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de Cozinha, o segundo livro de culinária editado em Portugal. O próprio informa, na abertura do seu livro, sobre a extensa atividade profissional em várias cortes europeias, nomeadamente Paris, Londres, Turim, Nápoles e Madrid, onde toma conhecimento da arte de cozinha com os mais famosos artistas desse ofício. Após esse percurso de cerca de trinta anos, fixa residência em Portugal e torna-se um dos cozinheiros da corte de D. José I e, após a morte deste, de D. Maria I. 

32 Castro, 2021, pp. 146-147. 

33 Castro, 2018, p. 328.

34 A dietética em voga não defende o consumo de pescado – húmido e frio – de forma regular sem a devida correção indicada, com recurso às especiarias. Naturalmente, está arredado da dieta de doentes. É esclarecedora dessa prática o relato de Fernão Cardim (1549-1625), jesuíta português que embarca para o Brasil deixando o seu testemunho escrito no Tratado da terra e gente do Brasil. Referindo-se ao pescado que identifica naquele território, comum ao que se pesca em Portugal, conta que, por ali é saudável e pode ser dado a doentes. Vale a pena resgatar as suas palavras: «Não faltam goropas, chicharros, pargos, sargos, gorazes, dourados, peixe agulha, pescadas, mas são raras […] Todo este peixe he sadio cá netas partes que se come sobre leite, e sobre carne, e toda huma quaresma, e de ordinario sem azeite nem vinagre, e não causa sarna nem outras enfermidades como na Europa, antes se dá aos enfermos de cama, ainda que tenhão, ou estejam muito no cabo.», Cardim, 1925, p. 83. 

35 Barros, 2013, p. 49. As 26 receitas de pescado contemplam as seguintes espécies: amêijoa; berbigão; caranguejo; lagosta; bacalhau (seco); congro; eiró, enguia; lampreia (fresca e seca); mugem; pargo; peixe-espada; pescada (fresca e seca); raia; robalo; ruivo; salmão; sardinha; sável; solho; tainha; toninha e truta. O manuscrito contempla ainda alguns conselhos, nomeadamente a forma de avaliar a qualidade do peixe, referindo-se concretamente à pescada. Vale a pena ler as indicações: «para se saber qual é a melhor pescada que há para comer é a melhor tanto que sair do mar lhe darão 2 golpinhos no rabo, e se botar sangue, e este sangue há-de cair na água, e se fizer olhos de gordura a modo de graxa, esta se pode caldeirar que é a melhor, mas esta lição é boa para os pescadores, que as apanham vivas.», Barros, 2013, pp. 49, 413. 

A propósito de pescada seca, veja-se no Auto do Físico de Jerónimo Ribeiro em que estas são evocadas como forma de pagamento dirigido a um pescador: «pagai-me em pescadas secas / já que não tendes dinheiro.» http://www.cet-e-quinhentos.com/obras. Consultado em 28/02/2024.  

36 Campos, 2021, p. 80. 

37 ANTT – Chancelaria de D. Manuel I, liv. 29, fl. 17v.. 

38 ANTT – Corpo Cronológico, Parte I, mç. 83, n.º 96. 

39 ANTT – Corpo Cronológico, Parte II, mç. 74, n.º 145. As ofertas são continuas ao longo desse ano e no seguinte. 

40 ANTT – Chancelaria de D. Manuel I, liv. 4, fl. 26.  

Desde cedo que os grupos privilegiados conseguem contornar algumas dessas restrições. Basta analisar as diversas bulas e indultos que nobres e aristocratas compram à Igreja, por forma a aligeirar as questões relacionadas com a abstinência e jejuns. Mostrando-se conivente com esse princípio, beneficia os ricos, em prol da sua própria fazenda, com o intuito de alimentar alguns desígnios, nomeadamente a guerra santa 41. Não é, no entanto, a questão de fundo na análise do livro de despesas da Casa da Rainha. Efetivamente, as 54 ocorrências de despesas relacionadas com este alimento concentram-se às sextas e sábados, sustentando a convicção católica do peixe como alimento de jejum e abstinência, crença profundamente arraigada pela Igreja. A ingestão de carne, indelevelmente relacionada com o prazer sensorial, tem no consumo de peixe o seu antípoda 42. O seu consumo, ainda que moderado e preso ao preceito religioso, é ainda assim, um sinal inequívoco de distinção social, pelas espécies selecionadas, de água salgada, bem como de água doce. Um quadro semelhante decorre nas cortes europeias de Quinhentos 43. 

A acompanhar as refeições dos dias “magros” estão muitas vezes as verduras, pouco apreciadas e com reduzida expressão nos consumos das mesas régias 44. O mais das vezes encontram-se ausentes das refeições realengas. Refira-se que, na batalha alimentar entre os dias “magros” e “gordos”, as favas e lentilhas, juntamente com o alho-porro, a cebola, o pão e a água, são alimentos fortemente marcados pela associação ao período penitencial da Quaresma 45. 

A fruta para o prato, ou seja, a fruta para ser consumida durante a refeição, é uma das possíveis variações no seu consumo. Além da já referida fruta passada ou seca é possível também encontrá-la em doces, conservas, a famosa marmelada, perada, codornada, geleias e frutas cristalizadas. Para o efeito, o emprego do açúcar é crucial. Embora inicialmente o seu uso esteja associado à botica, ou seja, com uma aplicação medicinal, a expansão da sua produção, sobretudo nas ilhas atlânticas e no Brasil, permite que ultrapasse a fronteira do emprego terapêutico e alcance um lugar destacado na culinária, sobretudo nas mesas nobres. Primeiramente usado na mesma medida que os condimentos e especiarias, atinge o pódio de alimento básico no campo da alimentação da época moderna, encorajando uma indústria doceira que cresce ao longo dos séculos 46. 

O desregramento na sua utilização em doces é descrito no já mencionado banquete oferecido aos castelhanos, aquando do encontro em Guadalupe del rei D. Sebastião, com seu tio o rei D. Filipe I, em 1576. De acordo com Baião, a quantidade, a diversidade e a delicadeza das iguarias doces não foi menor do que as apresentadas com o pescado. Isso deve-se essencialmente «pela razaõ do muito açucar, que para este Reyno vem da Provincia do Brazil, Ilha da Madeira, S. Thome, e cabo Verde, onde se produz em grande quantidade» 47. 

Algumas sugestões fornecidas pelo Livro de Cozinha da Infanta D. Maria refletem as distintas aplicações do açúcar na cozinha tardo-medieval e moderna. No estudo deste primeiro livro de cozinha português, Maria José Azevedo Santos depara-se com aproximadamente 40% de receitas em que o açúcar é um dos ingredientes empregues, mormente nas receitas de carne e aves 48. É disso exemplo a receita de Alfitete: «poreis a galinha em cima e deitareis caldo, e poreis umas gemas de ovos escalfados, e deitar-lhe-eis canela e açúcar pisado por cima.»49 Ou ainda o frango para hécticos, com a indicação de açúcar rosado 50. Contudo, é nas preparações de conservas e doçaria que a inclusão do açúcar é mais expressiva. As 27 propostas de “cousas de conservas” recordam os tradicionais métodos de conservação então conhecidos, onde o açúcar tem um papel absolutamente determinante 51. 

«Vieram muitas fructas cobertas que tornaram a polvilhar d’assucar e cobriram com folhado de mel, cousa que parece não ser ordinariamente usada. »52 As palavras coevas de Venturino descrevem desta forma a utilização do açúcar. Os confeitos, preparados com esse ouro branco, erva-doce e uma qualquer água-de-cheiro, não são impossíveis de recriar na cozinha da rainha D. Catarina, em maio de 1571, uma vez que todos esses ingredientes são registados no livro de despesas da sua ucharia. O mesmo acontece com os manjares de ovos e os manjares de leite. Em relação a este último, as sete receitas apresentadas no livro da infanta, são igualmente verosímeis na cozinha de D. Catarina, neste período, onde os laticínios marcam presença, nomeadamente o leite, queijos vários e ainda natas 53. 

 

41 García, pp. 31-33. 

42 Ibid., pp. 36-41. 

43 Malacarne, 2000, pp. 228-233. 

44 Gonçalves, 1997, p. 23. 

45 Palla, 2011, p. 324.  

46 Algranti, 2005, pp. 33-37. 

47 Baião, 1737, p. 414.  

48 Santos, 1997, pp. 79-80.

49 Manuppella, op. cit., pp. 19-21. 

50 Ibid., pp. 24-27. Hécticos significa os que sofrem de tísica. Curiosa esta associação do açúcar rosado numa receita indicada para enfermos, numa clara alusão ao emprego medicinal. 

51 Santos, op. cit., pp. 84-89. 

52 Venturino, p. 350. 

53 Cândido, op. cit., p. 83.  

Tendo, na base das receitas, leite, açúcar, ovos e farinha – todos eles incluídos nas despesas do mês em análise – um dos mais simbólicos e que se destaca é o “manjar-branco”54. Presente pelo menos desde meados do século XIV em diversos receituários medievais da Europa, a historiografia da alimentação tem-lhe dado destaque, validando a sua provecta idade e a transversalidade aos diversos territórios, nomeadamente a Espanha, França e Inglaterra55. Também neste reino é relevante a frequência nos receituários, desde logo no mais antigo manuscrito de cozinha português (Rec. XXXIV) 56 e em diversos outros filiados à cozinha conventual. Efetivamente, é comum na maioria dos receituários das casas religiosas entre os séculos XVI e XVIII 57. Apesar dessa filiação, Isabel Drumond Braga esclarece que, sendo «uma receita com variações, mas bem conhecida dentro e fora de Portugal desde a Idade Média, torna-se completamente redundante para não dizer inexato entendê-la como criação conventual» 58. Não obstante, alguns cenóbios confecionam a receita com bastante regularidade, nomeadamente o mosteiro de Santa Clara do Porto, de Vila do Conde, de Évora, de Portalegre, o mosteiro de Santa Mónica e o mosteiro do Bustelo. Mas é ao convento de Celas de Coimbra que, ainda na atualidade, se associa a alva iguaria 59. A existência de um manuscrito com diversas receitas, incluindo o Manjar Branco, assinado pela conserveira Bernarda Maria, remete para aquele espaço conventual. De igual modo, a documentação relativa aos aforamentos da casa, apontam para um significativo número de galináceos que viabiliza a regular confeção daquele preparado60. As Clarissas de Santarém preparam-no no dia de Santa Clara, a 12 de agosto, para ofertar aos padres de São Francisco 61. Uma das primeiras variações desta receita veio das ordens religiosas; em dias de jejum e na Quaresma substituem a galinha por peixe cozido e peneirado. Em 1680, Domingos Rodrigues 62 sugere, ainda, a possibilidade de trocar a galinha por lagosta. Um século mais tarde, a trabalhar na corte portuguesa, o francês Lucas Rigaud, apresenta no seu livro Cozinheiro Moderno uma proposta de manjar branco que designa à portuguesa 63. Em 1841, no outro lado do Atlântico, a receita é publicada no primeiro livro de cozinha editado no Brasil, O cozinheiro Imperial. 

Se é plausível a sua presença em contexto religioso, não é menos válido o seu consumo em espaços laicos. António Oliveira não hesita em afirmar que se trata de uma vianda constante nas ementas do Colégio das Artes durante os séculos XVI e XVII 64. No anteriormente evocado dote de D. Beatriz, duquesa de Sabóia marca presença materializando-se nos quatro tachos destinados à sua confeção. Como salienta Ana Isabel Buescu, «a presença destes tachos expressamente destinados à confecção desta iguaria mostra como se tratava de um prato muito apreciado.» 65. Seguramente vai à mesa régia com assiduidade, sendo conhecido o seu apreço pelo monarca D. João III que, durante uma permanência da corte em Évora, em novembro de 1524, é beneficiado por um manjar branco exclusivamente preparado para si, como atesta o galinheiro no registo contabilístico dessa estadia 66. 

Se a rainha ou as pessoas de sua Casa degustam a tradicional receita, não se pode indicar com certeza cabal, contudo, não é do domínio ficcional situar D. Catarina a adquirir «seis queijos d’Imgalaterra […] em Bellem» 67. De resto, os queijos representam um dispêndio bastante significativo neste mês. Os 19.271 reais em despesas resultam da aquisição de queijos de várias qualidades e regiões, nomeadamente de Inglaterra, do Alentejo, queijos frescos e requeijões. Apesar do reduzido consumo de leite no seu estado natural, uma vez que a sua conservação tem uma duração bastante limitada, os seus derivados apresentam, neste período, uma expressiva representação nos hábitos do reino 68. João Brandão de Buarcos não é omisso em relação à comercialização dos laticínios. Leia-se: 

«Na Feira da Ladra de Lisboa, 20 a 30 mulheres vendiam derivados do leite, nos quais se incluíam queijos frescos, requeijões, natas, queijadas e pães de leite. Espalhadas pelo resto da cidade, 200 mulheres vendiam os mesmos produtos» 69. 

Dom António, escrivão do livro de despesas de D. Catarina, destina «a Domingos Gonçalvez leiteiro dous mill e quinhemtos sesemta e sete rs. e meio que se lhe montou aver neeste mes por cemto e vint’oito canadas e quartilho e meio de leite que deu pera a despensa a vimte rs. canada»70. 

54 Santos, op. cit., pp. 81-83.  

55 Santos, 1997, p. 50. Sobre a presença desta vianda nos receituários medievais veja-se particularmente Flandrin, 1984, pp. 75-91, Bruegel e Laurioux 2002, p. 131 e Hietta 1995. É, igualmente, oportuno ler a propósito deste prato medieval europeu o hodierno estudo de Maria José Azevedo Santos incluído na História Global da Alimentação Portuguesa, 2023, pp. 47-52. 

56 Manuppella, 1967, pp. 66-67. 

57 Braga, 2015, p. 96. Cf. com as receitas coevas do LLibre d’aparellar de menjar, 301 (receita 195) e no Libro de la Cocina, 165. 

58 Braga, 2015, p. 73. 

59 Sobre o manjar-branco de Coimbra veja-se Carta Gastronómica da Região de Coimbra, 2022, pp. 222-223; Sousa, 2011, pp. 87-91; 2013, p. 106. 

60 Sousa, 2011, pp. 88-89.  

61 Beirante, 1981, p. 247. 

62 Rodrigues, op. cit., pp. 126-127. 

63 Rigaud, op. cit., p. 272. 

64 Oliveira, 1972, pp. 346-350. 

65 Buescu, 2020, pp. 112-113. 

66 Santos, 2002, p. 113.  

67 ANTT-NA 786, p. 57v.. 

68 Oliveira, 1999, p. 622. 

69 Alves, 1990, pp. 94, 212, 214. 

70 ANTT-NA, 786, p. 62v.  

Embora se desconheça a forma como os ovos são preparados na cozinha de D. Catarina, supõe-se que a sua utilização contempla tanto pratos doces como salgados. De resto, a utilização de ovos na alimentação do homem remete a tempos bem longínquos. Varrão (116-27 a.C.) ensina que para os «conservar por muito tempo,  friccionam-nos com sal moído ou põem-nos em salmoura durante três ou quatro horas e, depois de lavados, colocam-nos em farelo ou restolho» e Apício, no célebre De Re Coquinaria, indica várias sugestões de preparações culinárias com ovos que são, juntamente com o leite e seus derivados, a principal fonte de proteínas na dieta latina durante a Antiguidade Clássica 71. 

Remetendo para o Livro de Cozinha da Infanta D. Maria, verifica-se a utilização massiva de ovos nos mais variados pratos doces e salgados. Nestes últimos, surgem sobretudo nas receitas de galinha 72, mas também nos pastéis de tutanos 73 e nas morcelas 74. O caderno de manjares de ovos reúne quatro receitas 75 e nos manjares de leite são ingrediente quase sempre obrigatório 76. De acordo com tão vastas utilizações, e admitindo que as refeições da Casa da Rainha estão próximas desta realidade e com um número de refeições superiores ao da mesa de D. João III, não carece de explicação mais elaborada, o registo das 469 dúzias – a avultada quantia de 5.628 unidades de ovos de galinha. 

Na cozinha quinhentista, os condimentos usados alcançam números significativos. Gorduras, ervas aromáticas, especiarias, vinagre e sal, estão inclusos. Se a variedade das carnes e aves usadas na mesa régia são fator de distinção, idêntico peso têm os condimentos, nomeadamente as especiarias, mas também o sal e a manteiga que estão na base das diferentes iguarias cozinhadas. A gordura mais comum na cozinha da época é a manteiga, uma vez que o azeite não tem relevo nas mesas régias. A utilização desta gordura na cozinha representa uma tendência que se mantém até ao século XIX, não apenas na mesa palatina, mas igualmente nas casas aristocratas onde as gorduras usadas em permanência são a manteiga e o toucinho, e a aplicação do azeite permanece relacionada com a iluminação. O vinagre é o acidulante deste período mais utilizado na cozinha, o que aliás se legitima pela longa tradição vinícola do reino, não constituindo, no entanto, o único ingrediente com essa função. Concorrem para imprimir um gosto acre aos diversos pratos elaborados nas mesas régias e dos grupos privilegiado também os sumos de laranja azeda, limão e agraço. 

No decorrer dos séculos XV e XVI, o mundo assiste a grandes transformações culinárias e gastronómicas, fruto da expansão europeia. Produtos como a pimenta, o cravo, a canela e diferentes especiarias, já conhecidas, mas raras, no Velho Continente, tornam-se comuns, bem como novos produtos, animais e objetos de civilizações distantes e que se disseminam no contacto com os europeus. Do Oriente e do Brasil provêm alimentos como peru, tomate, cacau, batata, ananás, e tantos outros que implicam, necessariamente, mudanças na alimentação da Europa e potenciam de forma marcada sinais de poder e ostentação na corte, firmando o luxo e refinamento da mesa ocidental. De resto, o banquete, nos séculos XV e XVI, promove a mesa para ser observada na sua abundância, na qualidade dos seus pratos, na forma de apresentação dos mesmos, numa certa encenação e teatralidade que a torna cada vez mais, não um lugar de coesão social, mas sim de separação, evidenciando todas as particularidades que distinguem os privilegiados dos restantes grupos da sociedade77. 

71 Castro, 2015, pp. 30-31. 

72 Manupella, op. cit., pp. 13-17. 

73 Ibid., p. 17. 

74 Ibid., p. 21. 

75 Ibid., pp. 55-63. 

76 Ibid., pp. 68-83.  

77 Cândido, 2016, p. 51.  

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A Cozinheira das Cozinheiras de Rosa Maria: alimentação e saúde

A Cozinheira das Cozinheiras de Rosa Maria: alimentação e saúde

A autora agradece à Prof.ª Dr.ª Carmen Soares pelas suas preciosas sugestões para o trabalho inicial que originou este artigo.

Ana Branco Carvalhas é  Doutoranda em Patrimónios Alimentares, Culturas e Identidades na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Licenciada em Nutrição pela Universidade do Porto. (abcarvalhas@gmail.com)

Resumo


O livro de Rosa Maria, A Cozinheira das Cozinheiras, publicado em Lisboa no início dos anos 1930, conheceu grande sucesso. A obra, surgida numa época de enorme crise económica, compõe-se de uma parte sobre higiene alimentar e de outra com 500 receitas. Na primeira, contendo informações de saúde, são apresentadas tabelas do valor nutricional dos alimentos, tempos de preparação e regimes para diversas condições físicas e, na segunda, o modo de confecção dos pratos (salgados e doces), principalmente de culinária portuguesa, destinados à alimentação familiar. Analisamos os preceitos de higiene alimentar à luz dos conhecimentos atuais. Ajudamos a clarificar a identidade da autora, que assinou outros livros, ainda não está clara, assim como a relação do livro com um livro brasileiro de autora homónima e com capa muito semelhante. Assinalamos que várias receitas são copiadas de um livro português com um título quase igual.

Palavras-chave: A Cozinheira das Cozinheiras. Culinária Portuguesa. Higiene Alimentar. Nutrição. Rosa Maria.

Introdução

A relação da gastronomia com a dietética é antiga, mas, no início do século XX, surgiu uma nova dietética, mais convincente e com maior influência sobre as condutas alimentares: tratava-se não só de escolher bem os alimentos, mas também da melhor maneira de os preparar e de os comer (Flandrin; Montari, 2001, p. 292-293). Além disso, começaram a ser mais bem conhecidas as ligações da alimentação com a saúde: por exemplo, as vitaminas foram descobertas entre 1913 e 1948; a insulina foi isolada em 1922, feito a que se seguiram logo os primeiros tratamentos da diabetes; e as fibras alimentares foram identificadas nos anos 1930, embora essa designação só tivesse aparecido mais tarde. Na época assistia-se a um aumento do consumo de legumes e frutas, à redução dos tempos de cozedura, transformações que têm relação com as descobertas das vitaminas e depois das fibras (Ibidem, p. 293).

Por outro lado, as autoridades públicas começaram a legislar sobre higiene alimentar, com vista à prevenção de certas doenças. As primeiras décadas do século XX, marcadas pelas Primeira e Segunda Guerras Mundiais, com a gripe espanhola e a Grande Depressão pelo meio, foram de grandes carências alimentares no mundo.

Mas foi também o tempo em que surgiram os primeiros estudos para averiguar quais eram em pormenor os nutrientes e as necessidades mínimas de uma dieta alimentar saudável, enfatizando-se as vitaminas (Ibidem, p. 405-406).

Apesar do enorme atraso socioeconómico de Portugal relativamente a outros países da Europa, os avanços que se faziam no mundo iam chegando ao país. Nas primeiras décadas do século XX, foram publicados no país vários livros de culinária, muitos deles sucessivamente reeditados, sendo alguns de autoria feminina (o que era na época uma inovação, que correspondia à progressiva afirmação das mulheres na sociedade), que serviram de guia a muitas cozinheiras (Cf.: Grenha, 2011, p. 61; Braga, 2008, p. 125; Braga, 2016). Foi no início dos anos 1930, na transição da Primeira República para o Estado Novo, no período da Ditadura Militar, quando largas faixas da população passavam por grandes dificuldades económicas que Rosa Maria publicou o livro A Cosinheira das Cosinheiras (Maria, 1977).¹ O subtítulo “Higiene Alimentar” revela desde logo preocupações com a saúde, e o vocativo inicial (“Às senhoras que dirigem o lar doméstico”) mostra que as destinatárias eram as donas de casa a quem cabia a gestão da economia alimentar e a preparação das refeições familiares (Soares, 2018, p. 69-74). A obra exibe uma clara intenção pedagógica na área da alimentação e saúde (Braga, 2015, p. 6), uma vez que a autora dedica as primeiras 20 páginas a fornecer informação sobre calorias, valor nutritivo dos alimentos, necessidades calóricas de acordo com a idade, atividade física e clima, e regimes alimentares para pessoas que sofrem de diabetes, artrites, problemas de estômago, fígado e rins. Rosa Maria acentua também a necessidade de uma boa preparação culinária de alguns alimentos associando-a à respetiva digestibilidade (para ela, a cozinha era o processo preliminar da digestão). As inclusões dessas preocupações com a higiene alimentar diferenciam o livro de outros livros de receitas da época.

O livro de Rosa Maria, que veio na sequência de outras obras suas sobre cozinha económica e que haveria de ser seguido por outros livros que multiplicavam o número de receitas para cada tipo de prato (de carne, de peixe, vegetariano, doces etc.), haveria de marcar gerações de mulheres na cozinha.²

Respondia, de facto, a necessidades sentidas pelas donas de casa, decerto mais as urbanas do que as rurais, as quais, no seu dia a dia, tinham de pôr na mesa as refeições.

As receitas são descritas brevemente, sem ilustrações, divididas em salgados e doces, e seguindo a ordem alfabética do seu título. Não há uma arrumação separada para a gastronomia nacional, que constitui a maior parte do receituário. Esse conceito só estava, aliás, a emergir nessa época com a publicação, em 1936, do famoso livro Culinária Portuguesa, de António Maria de Oliveira Bello (Bello, 1936) sobre a culinária portuguesa (Fábio, 2018, p. 225). Vários trabalhos têm sido publicados sobre esta Rosa Maria portuguesa (Cf.: Braga; Oliveira, 2015; Braga; Pilla, 2018; Soares, 2018), salientando-se o de Braga e Pilla, atendendo ao pioneirismo na publicação de receituário de cozinha portuguesa para o grande público, antes de outras autoras de livros de receitas, mais cuidadas graficamente, que também conheceram grande êxito: merecem especial menção os nomes de Bertha Rosa Limpo, em 1945, Maria Odette Valente, em 1962, e Maria de Lourdes Modesto, em 1981.

Pouco se sabe sobre Rosa Maria, ignorando-se até se seria este o seu verdadeiro nome. Segundo Braga e Pilla (2018, p. 13), que creditam a informação a uma fonte oral da editora Civilização, tratar-se-ia do pseudónimo de um homem, Gaspar de Almeida. Além disso, persiste um mistério sobre a extrema semelhança no design de capa com uma obra de uma autora brasileira com o mesmo pseudónimo, mas de identidade conhecida – Marieta de Oliveira Leonardos –, que apareceu em 1931 (Maria, 1931). Analisaremos aqui a obra principal de Rosa Maria, com especial incidência nas questões de higiene alimentar, concluindo com a discussão da sua autoria e da eventual relação com a obra brasileira.

¹ Usámos para este trabalho a 2.ª edição, sem data, com capa mole, que usa “s” no título da folha de rosto (mais tarde aparecerá como título A Cozinheira das Cozinheiras, grafia hoje corrente). Na lista de Fontes está a lista completa dos livros de Rosa Maria.

² Veja-se a seguinte citação: “A Cosinheira das Cosinheiras foi a bíblia da minha mãe, que o levou para os Estados Unidos da América, quando se casou, trazendo-o religiosamente na bagagem, quando regressou, dez anos mais tarde roída de saudades, e mo ofereceu quando me casei, sabendo da minha apetência pela cozinha” (Barroqueiro, 2021, p. 114).

Descrição da A Cozinheira das Cozinheiras de Rosa Maria e da restante bibliografia da autora

Rosa Maria é o nome da autora de 15 livros de cozinha, pequenos e baratos, que foram publicados originalmente entre o início dos anos 1930 e 1964.³ O seu enorme sucesso junto do público transparece do número das sucessivas edições. O livro A Cosinheira das Cosinheiras: A Arte de Bem Comer, com o subtítulo de Higiene alimentar e mais de 500 receitas para cozinhar, fazer doces, gelados, compotas, foi publicado pela Empresa Literária Universal, com sede na Rua da Era, 17, em Lisboa, no início dos anos 1930, é a mais relevante das suas obras não só pelo seu maior tamanho (200 páginas), mas também pelo maior número de edições (32) ao longo dos anos. Contém, antes da apresentação de 500 receitas, a maioria de cozinha portuguesa, alguns conselhos de nutrição, higiene e saúde, uma vez que “a saúde da família está dependente da maneira como é alimentada” (Maria, s./d., p. 5).

A data da edição original é desconhecida: ela não existe nem na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) nem na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC), nem a conseguimos localizar em nenhum alfarrabista. Saíram reedições sucessivas até à 32.ª, em 1999 (hoje encontra-se esgotado, só existindo no mercado de livros em segunda mão). A partir da 9.ª edição, em 1955, o livro passou a sair do prelo da Livraria Civilização Editora, do Porto.

O título foi decerto inspirado pelo conhecido título de 1905 O Cozinheiro dos Cozinheiros, coordenado e ditado pelo luso-francês Paulo Plantier (ter-se-á passado do género masculino para o feminino, por as destinatárias serem as donas de casa), um volume de quase 800 páginas contendo mais de 1500 receitas da autoria de vários nomes das letras e das artes.⁴ Paulo Henry Plantier (1840-1908), filho de um francês e de uma portuguesa, foi fotógrafo, ourives e gastrónomo. Nesse volume compilou muitas receitas de escritores e artistas nacionais como Bulhão Pato, Fialho de Almeida, Ramalho Ortigão e Rafael Bordalo Pinheiro e estrangeiros como o francês Alexandre Dumas (Pai).

Não foi apenas o título que serviu de inspiração a Rosa Maria: descobrimos que várias das “suas” receitas foram transcritas de forma literal ou quase das do livro de Plantier; por exemplo, das receitas iniciais de Rosa Maria, “Açorda à Andaluza”, “Açorda à Portuguesa”, “Alfaces com Substância”, “Alfaces Recheadas”, “Arraia à Maître d’hôtel”, “Arraia com manteiga corada”, etc., são ipsis verbis do volume editado pelo luso-francês. Rosa Maria tinha decerto na mão a obra de Plantier e, pese embora não existirem direitos de autor de receitas, não teve escrúpulos em copiar algumas, sem indicar o original, ficando a ideia de que não as experimentou. O subtítulo Higiene Alimentar do livro de Rosa Maria sinaliza a sua preocupação com a saúde, o que contrasta com a obra de Plantier.

Rosa Maria publicou as obras originais essencialmente em dois períodos: o primeiro nos anos 1930 e o segundo nos anos 1950, ficando por saber a causa do hiato. As primeiras obras foram publicadas no início dos anos de 1930, todas elas na Empresa Literária Universal (ver Fontes): Como devo governar a minha casa: orçamento familiar… (s./d.); Como se cozinha bacalhau de todas as maneiras (s./d.) (uma das primeiras obras em Portugal só com receitas do bacalhau, o “prato nacional”); Como se janta por 3$00: cem jantares diferentes (s./d.); e Como se almoça por 1$50: 100 almoços diferentes (1933). Todos esses livros, pequenos, em papel de baixa qualidade e, por isso, bastante baratos, denotam uma clara preocupação com a economia doméstica, o que se justificava pela difícil situação que Portugal atravessava, mergulhado na ditadura iniciada com o golpe de 28 de maio de 1926 e que só foi definitivamente encerrada com o aparecimento do Estado Novo, que se associa à promulgação da Constituição da República de 1933 (Wheeler, 1999, p. 561-564). Na sequência da queda manu militari da Primeira República, Portugal atravessava uma época marcada por uma grave crise económica e social, sendo por isso oportunos os conselhos às donas de casa que as ajudassem a preparar refeições saudáveis com parcos rendimentos. Nessa linha de cozinha económica, Rosa Maria publicou, em 1936, um livro de receitas vegetarianas, Mais de 200 receitas de cosinha vegetariana: para uso das famílias, um título que, com ligeiras modificações, haveria de ressurgir 20 anos mais tarde.

Em 1953 editaram-se, de Rosa Maria, três volumes de uma série de livros de cem receitas, uma sobre o bacalhau, recuperando conteúdos do título sobre bacalhau atrás indicado, e as outras duas sobre peixes e carnes. Ofereciam cem receitas simples e económicas, ordenadas alfabeticamente, no modelo da Cozinheira das Cozinheiras, mas num formato de brochura. Esses livros passaram a sair na Civilização a partir de 1956, com sucessivas reedições. Continuavam a ser bastante acessíveis e, por isso, a serem procurados. Nesse ano de 1956 saíam mais quatro títulos dessa série, todos eles na Civilização: sobre sopas, sobre ovos, sobre acepipes, molhos e saladas, e sobre cozinha vegetariana.

³ A lista completa das obras de Rosa Maria encontra-se nas Fontes deste artigo.

⁴ O livro de Plantier de 1905 é uma reedição do original de 1870, saído pelo prelo da Tipografia Luso-Britânica: em 1890 tinha saído uma 2.ª edição, melhorada e acrescentada.

A última obra, 100 Maneiras de Cozinha Vegetariana, que retomava ipsis verbis o tema do vegetarianismo tratado nos anos 1930, continha, logo de início, como a Cozinheira das Cozinheiras, tabelas sobre os valores calóricos e proteicos dos alimentos. Esta obra defende a alimentação vegetariana do seguinte modo (Maria, 1956, p. 5-6):

Está provado que a cozinha vegetariana não só é a mais prática, como a mais económica e a mais saudável. O momento difícil que atravessamos, leva-nos a pensar que não só devemos ser mais económicos, como ainda procurar viver, tanto quanto possível, adaptando-nos às leis da Natureza.

É paradoxal que a autora escreva, a seguir:

Está mais do que provado que a carne e o peixe são verdadeiros venenos alimentares, devendo, portanto, ser substituídos por outros produtos que mais se adaptem ao nosso paladar e nos deem as calorias indispensáveis à vida, dando-nos saúde e alegria, porque a verdadeira felicidade tem as suas bases na alimentação (Maria, 1956, p. 5-6).

Uma vez que, em A Cozinheira das Cozinheiras, tinha louvado as virtudes da carne, em particular de boi, a que chamou “alimento soberano por natureza” (Maria, s./d., p. 9).

Talvez houvesse a preocupação de agradar ao público interessado por regimes vegetarianos, ou talvez a autora tivesse simplesmente mudado de ideias. Outra possibilidade é que os livros fossem pastiches de vários textos, colados sem preocupação de coerência. São apresentados no novo livro menus familiares apenas vegetarianos. As receitas estão aí ordenadas por almoço e jantar, havendo dois pratos em cada refeição.

Finalmente, em 1964, saiu o último livro da série de “cem receitas” económicas, sobre doces, que ficou assim com oito volumes no total. Note-se o adjetivo “económico” no título, repetindo uma preocupação da autora desde o início da sua atividade. O objetivo era decerto diferenciar o livro de outros, entretanto aparecidos, contendo sobremesas mais caras: de facto, os primeiros volumes de Rosa Maria sobre refeições económicas nem sequer incluíam sobremesas.

Análise da primeira parte do livro sobre higiene alimentar

O livro A Cozinheira das Cozinheiras destina-se diretamente “Às senhoras que dirigem a vida do lar”, numa introdução de uma só página, assinada pela autora. Esta elenca logo aí de forma clara o objetivo essencial da obra: a apresentação de receitas práticas de salgados e de doces a fim de facilitar a vida das donas de casa.

Defende a economia doméstica (Ibidem, p. 5): “É preciso não desperdiçarem a maior riqueza, a saúde, cozinhando sem método, sem organização, sem valor nutritivo e muitas vezes a par da perda da saúde, ainda a ruína da bolsa”. E expõe de seguida a ligação entre alimentação e saúde (Idem): “A arte de comer bem, não significa comer muito, mas sim comer alimentos agradáveis ao paladar e que contenham os elementos necessários à vida quotidiana” (Grifos no original). Segue-se uma exposição de conhecimentos básicos sobre a relação dos alimentos com a saúde.

A autora começa por falar da necessidade de alimentação adequada de acordo com o sexo, a idade, as estações do ano e um maior ou menor sedentarismo. Por exemplo (Ibidem, p. 7-8): “O homem e a mulher que trabalham violentamente no campo, na oficina, etc., etc., perdem forças que não consomem os que não trabalham de igual modo, e, portanto, têm obrigação de se alimentarem de maneira que as recuperem”. Na alimentação das mulheres, a preocupação é com as situações de anemia, que eram muito frequentes por causa da deficiência alimentar: Rosa Maria fala de “milhares e milhares de anemias e de outras enfermidades gravíssimas” (Ibidem, p. 7). Esses casos infelizmente ainda hoje permanecem no mundo em populações com carências alimentares, em especial de carne (Cf.: FAO et al., 2023). A autora explica, neste contexto, que não se deve irracionalmente abusar do regime de base vegetal por este estar na origem de “milhares e milhares de anemias e de outras enfermidades gravíssimas” (Maria, s./d., p. 7).

A principal preocupação da autora é a ingestão adequada de calorias e, de modo a assegurar a conservação dos tecidos orgânicos, de albuminas, termo usado, bem como “corpos albuminoides”, para designar o que hoje se chamam proteínas.⁵ Ela reduz o valor nutritivo dos alimentos apenas às respetivas calorias (Maria, s./d., p. 7): “Comer muito não é comer bem. O valor nutritivo dos alimentos, deve-se calcular pelo número de calorias que cada um contém”.

Estranhamente, não se encontra qualquer referência a vitaminas, os compostos químicos que, nos anos 1930, estavam presentes nas recomendações de saúde em numerosas publicações. Hoje sabemos que, para além do número de calorias necessário para manter o funcionamento do corpo, há que atender também à origem dessas calorias. Seguem-se considerações sobre os alimentos e determinados preparos: carnes, ovos, leite, manteiga, azeite, arroz, legumes, hortaliças, batata, pão (de trigo e milho), frutas, água, vinho e outras bebidas alcoólicas, café, chá e chocolate. O livro tem três tabelas, sem qualquer indicação das fontes de onde os dados foram extraídos.

A primeira (Maria, s./d., p. 16) contém os valores aproximados em percentagem de albumina (proteínas) e o número de calorias (estão erradas nessa página as indicações de “percentagem de albumina” e de “percentagem de calorias”, uma vez que se trata, respetivamente, de valores de massa e de energia) dos alimentos mais usados. Encontramos nela os primórdios da classificação dos alimentos por grupos:

Grupo I – Carnes, peixes, ovos; Grupo II – Cereais (sêmola, massa, arroz);
Grupo III – Legumes secos (ervilhas, feijões, lentilhas);
Grupo IV – Legumes frescos e de conserva, batatas;
Grupo V – Queijo;
Grupo VI – Frutas frescas (maçãs, peras, laranjas);
Grupo VII – Frutas secas (figos, ameixas, nozes);
Grupo VIII – Pão;
Grupo IX – Manteiga e gorduras; Grupo X – Açúcares;
Grupo XI – Leite;
Grupo XII – Vinho;
Grupo XIII – Diversos (biscoitos secos, chocolate).

Uma curiosidade é o uso do termo “elementos” para designar o que hoje chamamos nutrientes: “o indivíduo cujas faculdades nutritivas estejam enfraquecidas, como o homem idoso por exemplo, deve preferir os alimentos que forneçam sob pequeno volume o máximo de elementos úteis” (Idem). A autora faz a seguir recomendações genéricas e breves para os regimes dos artríticos, diabéticos, doentes do estômago, do fígado e dos rins.

O número de calorias para cada alimento não anda muito longe do que hoje se conhece. A segunda tabela refere-se às quantidades, albuminas e calorias de uma “ração normal” (Maria, s./d., p. 17). A terceira refere-se ao tempo de digestão dos diversos alimentos (Ibidem, p. 18).

Antes de começar com as receitas, a autora informa ainda as razões pelas quais o ato de cozinhar interfere quer na digestibilidade dos alimentos, quer na sua higiene, evitando contaminações e, no caso da carne, a propagação de parasitoses: diz que “as triquinas no porco doente só podem ser mortas quando a sua carne é muito bem cozinhada” (Maria, s./d., p. 22).

⁵ Albumina é hoje o nome genérico usado para proteínas solúveis em água, mas não inclui todas as classes de proteínas.

Note-se que a obra revela, nesta primeira parte, a atenção a situações sociais. Por exemplo, é feito o elogio do “caldo” (sopa), muito usado no ambiente rural (Ibidem, p. 8-9): “Com duas boas tigelas de caldo, dois pedaços de pão, 4 ou 6 sardinhas alimentavam-se, à falta de melhor refeição, milhares e milhares de trabalhadores rurais, que vergam nos campos de sol a sol sob a ação de um trabalho violento”.

E, sobre o vinho, escreve (Ibidem, p. 13-14. Grifos no original):

Do abuso do vinho têm resultado terríveis enfermidades, como o delirium tremens, a loucura, doenças do fígado, etc., e não menor número de desordens e desgraças de ordem moral, que têm levado muitos homens ao degredo, à penitenciária e ao patíbulo. Convém, portanto, beber-se o vinho em porção racional, unicamente às horas das refeições, pois que, deste modo, alimentando, é ao mesmo tempo um útil excitante. O seu excesso, repetimos, é que pode e tem, milhares e milhares de vezes, provocado doenças mortais, e a prática de crimes hediondíssimos.

Salta à vista que no receituário, iniciado a meio da p. 22 e não numa nova página, sob o título “A Arte de comer bem”, não são exemplificados os preceitos de saúde enunciados de início, que assim aparecem desgarrados. Braga e Oliveira (2015) realizaram um estudo muito interessante sobre o uso de vários tipos de gordura na confecção dos alimentos Oliveira.

Discussão sobre a autoria

Rosa Maria é, muito provavelmente, um pseudónimo, conforme descobriram as investigadoras Braga e Pilla (2018, p. 13): Entretanto, no intuito de obter dados concretos, entrámos em contacto com a Editora Civilização e apurámos que Rosa Maria era, na verdade, um senhor chamado Gaspar de Almeida, pai de um funcionário da filial da editora de Lisboa. Este era igualmente editor, eventualmente da Empresa Literária Universal, a quem Américo Fraga Lamares (anterior administrador da Civilização) comprava algumas edições.

A inexistência de arquivos e a ausência de colegas contemporâneos desta figura, que há muito deixara a empresa, implica a inexistência de certezas.

Aparentemente, Gaspar de Almeida também foi autor de Cartas de amor para namorados, saídas na Empresa Literária Universal, com edições em 1950, 1964 […] e 1986, sob o pseudónimo de Maria Celeste. Traduziu ainda […] do francês […] em obra intitulada Trabalha para ti: podes ganhar o dinheiro que precisas, publicada pela Empresa Literária Universal.

Apurámos que Gaspar de Almeida era, de facto, o gerente da Empresa Literária Universal, editora que existia desde o início do século, que chegou até aos anos 1980 e que se especializou em edições de grande circulação, mormente livros infantis, mas também editou alguns clássicos da literatura portuguesa e universal.

No ano de 1955 ocorreu uma troca de correspondência entre Gaspar de Almeida e os Serviços de Censura por causa de um romance que tinha sido apreendido – Vinte Anos de Manicómio, de Carmen de Figueiredo, ver Figueiredo (2021); ver também um trabalho académico que aborda a autora, no quadro da censura a escritoras: Pedrosa (2017) –, que não deixa dúvidas sobre o nome do editor da Empresa Literária Universal (Almeida, 1943).⁶ E há também uma carta dele ao Grémio dos Editores, na BNP. Parece-nos perfeitamente possível que Gaspar de Almeida tenha sido o autor, embora não conheçamos mais dados biográficos sobre ele.

Com efeito, não é inédito a adoção, por razões comerciais, do nome de uma mulher por um homem em publicações destinadas às mulheres. Sendo a autoria do editor, o segredo sobre a identidade ficaria bem guardado, como aliás ficou. O nome “Rosa Maria” foi sendo usado ao longo dos anos para assegurar proventos editoriais. Quanto ao outro hipotético pseudónimo feminino de Gaspar de Almeida, Maria Celeste, analisadas as Cartas de Amor para Namorados (1950), verificámos que, apesar das óbvias diferenças de conteúdo, há algumas semelhanças entre essa obra e A Cozinheira das Cozinheiras.

Começam por ser gráficas: capa, tamanho e qualidade do papel. E as Cartas contêm também duas partes, uma introdutória, que é basicamente astrológica embora não refira signos, mas apenas meses de nascimento (o que pertence na mesma à pseudociência), e outra, onde se listam os modelos de carta. Trata-se nos dois casos, pelo formato, tamanho e estilo, de obras com o propósito de serem populares.

⁶ Pode ler-se na nota de Informação da Direção dos Serviços de Censura, de 6 de fevereiro de 1952, nota 20, p. 2: “Veio à Censura, a meu pedido, Gaspar de Almeida, gerente da Empresa”.

⁷ Fernando da Silva Correia (1893–1966) foi um médico higienista, licenciado e doutorado na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, com vasta obra científica e pedagógica, que inclui mais de uma centena de títulos entre livros e artigos. Trabalhou sobre temas de saúde pública e termalismo, com especial preocupação nas questões ligadas à infância, à higiene escolar, à educação física e ao desporto, à medicina social e à assistência. Foi também historiador.

⁸ José Ignacio de Araújo (1837–1907), ourives de Lisboa que também foi dramaturgo e poeta.

Conseguimos localizar nos livros saídos na Empresa Literária Universal um outro volume de Rosa Maria, que não está sinalizado na literatura sobre ela, o que se explicará por não se encontrar facilmente em bibliotecas: não está nas coleções nem da BNP nem da BGUC. O título, pertencente à série “Indústrias Caseiras” (onde há várias traduções de livros sobre atividades “faça você mesmo”), é Cem Maneiras de Fazer Licores. Conhaques, vinhos licorosos, vermouts, refrigerantes, etc. Receitas para comércio e uso caseiro (não tem data, mas o Google Books dá-lhe a data de 1934) (ver Figura 1).

Na contracapa desse livro vem que Gaspar de Almeida é autor de Arte de Encadernar os Livros, saído na mesma série, não se sabe quando, uma vez que não está catalogado nem na BNP nem na BGUC.

Obtivemos num alfarrabista a 2.ª edição, sem data, desse livro, e o autor é, de facto, S. Goulet; talvez Gaspar de Almeida tenha sido o tradutor. Mas é obviamente anterior a Cem Maneiras de Fazer Licores.

Explorámos uma outra hipótese para a autoria de A Cozinheira das Cozinheiras. Ao consultar o Dicionário de Pseudónimos, de Albino Lapa (1980, p. 150), na entrada “Rosa Maria”, verificámos que esse nome é atribuído ao médico Fernando da Silva Correia.⁷

A BNP e a BGUC integraram nos seus catálogos essa atribuição de pseudónimo. Poderia A Cozinheira das Cozinheiras ser da autoria desse médico? As datas das edições encaixam com o percurso biográfico desse higienista, autor da tese de doutoramento Portugal Sanitário (Correia, 1938), que nos anos 1930 exercia a sua profissão nas Caldas da Rainha (escrevendo livros sobre águas termais e sobre cuidados maternos) e nos anos 1950 estava em Lisboa, à frente do Instituto Superior de Higiene Dr. Ricardo Jorge, lugar que ocupou entre 1946 e 1961.

A favor dessa segunda hipótese, para além da entrada no dicionário, está o facto de este médico ter uma obra imensa, tanto de ficção como de não ficção, assim como o facto de conhecer bem as questões de saúde pública e de alimentação. Contudo, contra essa hipótese está o facto de ele ter um arquivo bem organizado nas Caldas da Rainha, sobre o qual existe uma tese de mestrado (Ribeiro, 2018) (que inclui, num anexo, uma entrevista com a sua sobrinha, a historiadora de arte Natália Correia Guedes) e, nesse trabalho, não se vislumbrar que ele tenha escrito o que quer que fosse sobre culinária. Além disso, não tem qualquer publicação na Empresa Literária Universal. Sendo Correia um erudito, não faz também sentido que tenha deixado, como sendo de Rosa Maria, um poema sobre a “Açorda à Portuguesa” que surge na receita da açorda sem indicação do autor (Maria, s./d., p. 23), que é, de facto, de José Ignácio de Araújo,⁸ tal como está aliás n’O Cozinheiro dos Cozinheiros, de P. Plantier.

Avaliando as duas hipóteses, não nos parece que o médico seja o autor. Seria interessante saber em que informação Lapa se terá baseado para dizer que Correia usou o pseudónimo de Rosa Maria.

Para descartar completamente esta hipótese, faltará consultar a lista que foi feita da sua biblioteca quando foi vendida num leilão. Foi elaborado um catálogo (Oliveira, 1969), mas não conseguimos ter acesso a ele, pois não se encontra nem na BNP nem na BGUC nem em outras bibliotecas com catálogos online. A biblioteca dispersou-se no leilão, o que só se pode lamentar.

Discussão da relação com obra brasileira

No Brasil houve uma outra Rosa Maria que escreveu A Arte de Comer Bem, saído originariamente na Oficina Industrial Gráfica do Rio de Janeiro em 1931, com uma primeira reedição em 1933 (ver Maria, 1931). A capa da primeira edição⁹ é extremamente parecida com a do livro português (Figura 2). Essa capa manteve-se em muitas edições, embora não em todas, que totalizaram 21 em vida da autora (Cf.: Braga; Pilla, 2018, p. 7; Pilla, 2020, p. 270). O livro foi engrossando nessas reedições, chegando a ter 800 páginas em dois volumes. É conhecida a identidade da autora, Marieta de Oliveira Leonardos, uma senhora da sociedade do Rio de Janeiro. Em contraste com a Rosa Maria portuguesa, a Rosa Maria brasileira dirige-se às senhoras das classes mais altas, orientadas mais para questões de gosto do que para questões de economia. Trata-se de um diálogo entre mãe e filha, em que a primeira dá conselhos à segunda sobre culinária e etiqueta. A identidade do nome das autoras, a extrema semelhança do design de capa (incluindo o tipo de letras do título, o uso no livro português do título brasileiro A Arte de Comer Bem, a pose e o vestido da figura feminina,¹⁰ e ainda o retângulo de fundo) levam a concluir que houve um plágio gráfico, que foi provavelmente da edição portuguesa (a qual, curiosamente, não ostenta o nome da autora na capa – mas apenas na lombada – e inclui algumas sobremesas em baixo).

Esta nossa afirmação não alinha com a de Braga e Pilla (2018, p. 3), que sustentam que a primeira edição da obra brasileira não apresentava ilustração na capa:

A primeira edição de A arte de comer bem foi publicada pela editora Officina Industrial Graphica, localizada na rua da Misericórdia número 74 na cidade do Rio de Janeiro.

Foi apresentada em capa dura e sem ilustrações […]. No ano de 1933, o livro lançou a segunda e a terceira edições já ampliadas e com capa ilustrada. (Braga; Pilla, 2018, p. 7). Nessa base, as mesmas autoras sustentam que “a capa original terá sido da edição portuguesa” (Ibidem, p. 24), que supõem ser de 1932.

Apesar de as capas serem praticamente iguais, o conteúdo dos livros é bastante diferente: o plágio restringiu-se, portanto, à capa. A existência de plágio poderá justificar o facto de o editor português sempre ter escondido a autoria (não é, de resto, inédito que os editores usem pseudónimos quando se autopublicam), tendo, porventura, tido ajudas tanto para os conselhos de higiene alimentar, como para as receitas.

Como copiou de forma quase literal algumas receitas do livro de Plantier com título semelhante, é muito natural que tenha também copiado receitas de outros livros (e copiado ainda os conselhos de higiene alimentar, sem nexo com as receitas).

Em 1933 já tinham sido vendidos no Brasil mais de cem mil exemplares do livro brasileiro e é bastante provável que Gaspar de Almeida tenha procurado obter um êxito semelhante em Portugal. E conseguiu-o!

Só difere a substituição na edição portuguesa do bolo da bandeja por uma lagosta, o que contrasta com a intenção de economia doméstica do livro, mas pode querer projetar uma imagem de sonho de riqueza.

Capas do livro das duas Rosa Maria: respetivamente, a edição portuguesa (s./d.) e a edição brasileira.

Conclusões

O livro de Rosa Maria A Cozinheira das Cozinheiras, saído no início dos anos de 1930 em Lisboa, faz parte, pelo impacto que alcançou, da história da culinária e gastronomia portuguesa.

Dentro do espírito da época, a autora começa com algumas indicações, de cariz científico, sobre higiene alimentar. Essas indicações não se refletem, porém, no receituário que constitui a maior parte do livro.

Depois da exposição do estado da arte e de uma análise genérica da obra principal de Rosa Maria e de um resumo das suas outras obras, analisámos com mais cuidado crítico a primeira parte de A Cozinheira das Cozinheiras, com conteúdos de saúde.

Estando basicamente certa para os conhecimentos da época, tem também algumas limitações, como por exemplo a falta de referência às vitaminas que eram bem conhecidas na altura. Não são indicadas as fontes utilizadas.

Alguma informação contrasta, como não podia deixar de ser, com o que se sabe hoje. É natural que o lado científico do livro seja incipiente. As ciências da nutrição despontaram nas primeiras décadas do século XX (Cf.: Carpenter, 2003), tendo-se depois desenvolvido extraordinariamente, de modo a servir de base aos padrões da alimentação humana.

Ao contrário do que se passava nesses tempos pioneiros, hoje já se olha para a origem das calorias e não apenas para o seu número. Recentemente, tem havido uma crítica das conceções mais reducionistas da alimentação humana, designadamente o chamado “nutricionismo”, segundo o qual o valor alimentar vai muito para além da consideração dos nutrientes (Cf.: Scrinis, 2013).

No que respeita à autoria de A Cozinheira das Cozinheiras, avançamos neste trabalho com dados que permitem concordar com a hipótese das historiadoras Braga e Pilla de que Gaspar de Almeida foi o autor do livro: ele era, de facto, o editor da Empresa Literária Universal, fazendo sentido que se tenha querido esconder por trás de um nome feminino num livro dirigido às senhoras.

Por exemplo, Manuel da Mata escreveu, nos anos de 1920, na editora Figueirinhas, vários fascículos (“Biblioteca Culinária”) com o nome de Febrónia Mimoso, para chegar mais facilmente às donas de casa (Braga, 2008, p. 134).

Demos a conhecer um livro de Rosa Maria, saído na mesma editora, que não consta dos estudos anteriores sobre a autora, e em cuja contracapa é indicado um livro pretensamente de Gaspar de Almeida (de facto, ele só o deve ter traduzido). Comparámos a eventualidade de uma outra autoria, a do médico Fernando da Silva Correia, dada no Dicionário de Pseudónimos, de Albino Lapa, para o verdadeiro nome de Rosa Maria. Concluímos que é muito pouco provável que esse clínico seja o autor, prevalecendo, por isso, a hipótese de ser Gaspar de Almeida.

Finalmente, defendemos a hipótese de o editor português ter usado o nome de Rosa Maria, a inscrição “A Arte de Bem Comer” e o grafismo da capa, apenas com ligeiras modificações, de uma obra brasileira, cujo conteúdo é muito distinto, uma vez que se dirigia às classes altas e não médias.

O facto de haver este plágio de forma – que acresce aos plágios de conteúdo, designadamente do título e de algumas receitas d’O Cozinheiro dos Cozinheiros, de Plantier – é mais uma razão para a autoria ter permanecido secreta.

Uma edição brasileira serviu muito provavelmente de modelo para o nome da autora, subtítulo e grafismo de um livro português de culinária que conheceu enorme circulação ao longo de décadas.

Referências

Edições d’A Cosinheira das Cosinheiras, que encontradas em bibliotecas portuguesas:

MARIA, Rosa. A Cosinheira das Cosinheiras: a arte de comer bem. Higiene alimentar e mais de 500 receitas para cozinhar, fazer doces, gelados, compotas, etc.
Lisboa: Empresa Literária Universal,

1.ª ed., s./d.;
2.ª ed., s./d., 196 p.;
3.ª ed., s./d.;
5.ª ed., 1941;
6.ª ed. 194[?];
7.ª ed., 1953;
9.ª ed., Porto: Civilização, 1955;
11.ª ed., 1957;
12.ª ed., 1958;
13.ª ed., 1959;
14.ª ed., 1962;
15.ª ed., 1966;
18.ª ed., 1967;
19.ª ed., 1969;
20.ª ed., 1970;
nova ed., 1972;
24.ª ed., 1974;
25.ª ed., 1975;
26.ª ed., 1977;
27.ª ed., 1977;
28.ª ed. 1978;
29.ª ed., 1981;
30.ª ed. 1982;
32.ª ed., 1999.

Outras obras de Rosa Maria, por ordem cronológica:

MARIA, Rosa.
Como devo governar a minha casa: orçamento familiar… Lisboa: Empresa Literária Universal, s./d. (Existe na BGUC, mas não na BNP).

MARIA, Rosa.
Como se cozinha bacalhau de todas as maneiras.
1.ª ed. Lisboa: Empresa Literária Universal, 193[?], 38 p.
(Em 1936 saiu reedição com o título acrescentado de 100 receitas de cozinhar bacalhau ao alcance de todos).

MARIA, Rosa.
Como se janta por 3$00: cem jantares diferentes.
1.ª ed. Lisboa: Empresa Literária Universal, 193[?];
3.ª ed., Lisboa: Empresa Literária Universal, 1936, 39 p.

MARIA, Rosa.
Como se almoça por 1$50: cem almoços diferentes compostos por carne, peixe, legumes, ovos, cereais, farináceos, etc.
1.ª ed., Lisboa: Empresa Literária Universal, 1933, 40 p.;
3.ª ed., 1936.

MARIA, Rosa.
Mais de 200 receitas de cosinha vegetariana: para uso das famílias. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1936, 32 p.

MARIA, Rosa.
Cem maneiras de cozinhar bacalhau.
1.ª ed. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1953, 32 p.;
2.ª ed., Porto: Livraria Civilização Ed.,
1956; 1958; 1967; 1978; 1980; 1981; 1983; 1986; 1987; 1989; 1992; 1994; 1996; 2012.

MARIA, Rosa.
Cem Maneiras de Fazer Licores: Conhaques, vinhos licorosos, vermuths, etc.: Receitas para comércio e uso caseiro. Lisboa:
Empresa Literária Universal, [1934?], 32 p. (Não existe nem na BNP nem nas BGUC).

MARIA, Rosa.
100 maneiras de cozinhar peixes.
1.ª ed. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1953, 32 p;
2.ª ed., Porto: Livraria Civilização Ed.,
1956; 1961; 1968; 1978; 1980; 1982; 1986; 1987; 1989; 1992; 1994; 1996; 2012.

MARIA, Rosa.
100 maneiras de cozinhar carnes.
1.ª ed. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1953, 32 p.;
2.ª ed., Porto: Livraria Civilização Ed.,
1956; 1970; 1977; 1980; 1981; 1983; 1986; 1987; 1989; 1992; 1994; 1996.

MARIA, Rosa.
Cem maneiras de fazer sopas: caldos, purés e sopas.
1.ª ed. Porto: Livraria Civilização Ed., 1956, 32 p.; 1983; 1986; 1992; 1994.

MARIA, Rosa.
100 maneiras de cozinhar ovos.
1.ª ed., Porto: Livraria Civilização Ed., 1956, 48 p.;
1964; 1975; 1979; 1981, 1986; 1987; 1994.

MARIA, Rosa.
100 maneiras de cozinhar acepipes, molhos e saladas.
1.ª ed. Porto: Livraria Civilização Ed., 1956, 32 p.;
1965; 1977; 1978; 1983; 1987; 1988; 1991; 1994.

MARIA, Rosa.
100 maneiras de cozinha vegetariana: para uso das famílias.
1.ª ed., Porto: Livraria Civilização Ed., 1956, 47 p.;
1965; 1977; 1980; 1982; 1986: 1988; 1989; 1993.

MARIA, Rosa.
100 maneiras de fazer doces económicos: bolos, pudins, compotas, sorvetes, etc.
1.ª ed., Porto: Livraria Civilização Ed.,
1964, 32 p.; 1969; 1977; 1980; 1981; 1983; 1986; 1987; 1991; 1994; 1996.

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“Consommé, glacé, fricassé”. Francesismos na terminologia

“Consommé, glacé, fricassé”. Francesismos na terminologia culinária em Arte de cozinha de João da Matta

Guida Cândido

Resumo

Contextualizando o valor e preponderância da culinária francesa no panorama internacional, tecem-se breves considerações sobre a influência dessa cozinha no receituário nacional dos séculos XIX e XX. Reflete-se sobre os meios de introdução dos “francesismos” culinários na língua portuguesa, analisando a terminologia francesa na obra Arte de Cozinha de João da Matta (1876). Procura-se sistematizar esse léxico em diferentes categorias: nomes culinários; nomes comuns metaforicamente usados na cozinha; nomes geográficos; nomes próprios; vocábulos exclusivos de livros de cozinha e termos caídos em desuso, observando a sua relevância na literatura culinária portuguesa. Esta análise apoia-se na tese de licenciatura em Filologia Românica com o título Francesismos na terminologia da culinária portuguesa. Apresentado em 1953 por Maria José Osório dos Santos Carvalheira à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, este trabalho pioneiro propõe uma reflexão sobre a apropriação desses vocábulos e as diferentes formas como se introduziram no quotidiano português.

Palavras-chave: Francesismos, culinária, Arte de Cozinha, João da Matta.

Guida Cândido

Bolseira FCT – SFRH/BD/146062/2019.

Universidade de Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, Faculdade de Letras

guida.silva.candido@gmail.com

https://orcid.org/0000-0002-3694-4885

Cozinha francesa: breve análise da preponderância internacional e influência na cozinha portuguesa do século XIX até ao Estado Novo

A influência da culinária francesa nas cozinhas de outras nações tem sido objeto de estudo por diversos autores (FLANDRIN 2001; HYMAN 2001; BRAGA 2004; MEYZIE 2009; BRUEGUEL ET LAURIOUX 2002, entre outros), revelando ser terreno profícuo para a investigação dos patrimónios alimentares. Um dos aspetos que desperta mais interesse aos investigadores é conhecer quais os atores na difusão e na receção do gosto alimentar francês, bem como medir a influência dessa cozinha noutras, ou seja, compreender se acontece uma adoção significativa por parte do país influenciado ou se se verifica um processo de apropriação e mestiçagem (MEYZIE 2009: 182). Flandrin defende que “em toda a Europa Ocidental, as cozinhas medievais […] apresentaram […] características comuns que as diferenciam claramente das cozinhas europeias dos séculos XIX e XX. Pratos adoçados tendem agora a concentrar-se no final da mesma” (FLANDRIN 2001: 237, 246-249). Do século XVI ao século XVIII, a influência da cozinha francesa predomina no receituário publicado. Pode-se falar de uma “modernização à francesa”, sendo que essa modernidade do gosto se manifesta tanto ao nível da escolha dos alimentos como da sua preparação. A partir da segunda metade do século XVI, aumenta o número de pratos de legumes (entenda-se hortaliças e leguminosas) nos livros de cozinha, não significando que sejam consumidos em abundância. Nos grupos privilegiados, o seu consumo é reduzido, decorrente das teorias humorais em vigor. O peru entra nos hábitos dos europeus e abandonam-se progressivamente o consumo de aves hoje consideradas excêntricas, como o alcatraz, o pavão, o cisne ou o grou, o mesmo sucedendo com mamíferos marinhos, como as focas. A partir do século XVIII, das mesas reais começam a desaparecer caprinos e ovinos, resgatando-se o interesse pelo boi, mas conservando-se o porco em clara desvalorização, à exceção do toucinho e do presunto. No que respeita à transformação das técnicas e das preparações, constata-se que “os cozinheiros franceses dos séculos XVII e XVIII, tal como os da Idade Média, sujeitaram muitas vezes as carnes a várias cozeduras sucessivas”. Porém, existe a preocupação de conservar o sabor natural dos alimentos (FLANDRIN 2001: 237-245). Mas é na transformação da condimentação que se observam as mudanças mais significativas, justificando uma verdadeira mutação do gosto. Especiarias e acidulantes perdem o protagonismo em proveito de condimentos gordos, como as natas e a manteiga, mais delicados e discretos. Ademais, desde o século XVII, a proporção de açúcar nas receitas começa a diminuir, embora a sua utilização aumente por toda a Europa, anunciando a democratização do seu consumo. Se antes se encontra nos diferentes momentos da refeição, os pratos adoçados tendem agora a concentrar-se no final da mesma (FLANDRIN 2001: 246–249).

A influência da cozinha francesa verifica-se de forma geral por toda a Europa, materializando-se na difusão de produtos alimentares, nos hábitos de comensalidade e tendências partilhadas, não tendo, todavia, a mesma expressão em todas as regiões.

Em suma, “a influência da cozinha francesa sobre o gosto das elites sociais europeias foi particularmente marcante ao nível dos tratados de culinária”, uma vez que, em diversos países, os livros de cozinha editados limitam-se a traduções ou adaptações de tratados franceses (FLANDRIN 2001: 257).

 

Esta literatura culinária constitui um dos principais pilares na disseminação da cozinha francesa, cuja dinâmica editorial, sobretudo datada da segunda metade do século XVII até ao século XVIII, é significativa face a outros territórios europeus. A par desta difusão editorial, os viajantes, nas suas mais diversas funções, exercem um papel relevante neste processo, tal como a mobilidade de diversos cozinheiros franceses pelas cortes europeias. A partir do século XIX, os restaurantes, estabelecimentos de inspiração francesa, operam uma transformação identicamente incisiva na referida preponderância da cozinha francesa. Por último, um aspeto relevante nesta dinâmica de transmissão de modas e gosto está agregado ao movimento de embaixadores entre cortes e aos próprios consórcios reais que permitem a contaminação de gostos, práticas e padrões que valorizam a mesa francesa (MEYZIE 2009: 191–195).

No contexto nacional são identificáveis diversas influências estrangeiras, sobretudo devido ao percurso pessoal dos autores dos livros de cozinha, “alguns dos quais serviram em diversas cortes antes de se estabelecerem em Portugal”, e também fruto da leitura e sucessivas cópias de receituários. Resgatando o primeiro livro de culinária escrito e impresso no território nacional, em 1680, por Domingos Rodrigues, identificam-se pratos preparados à moda de França, “tais como empadas, frangões, galinha em potagem, olha e perdizes assadas” (BRAGA 2004: 239). Não obstante, as receitas cuja nomenclatura revela a influência estrangeira não se restringem à cozinha francesa. Lucas Rigaud, em 1780, com O Cozinheiro Moderno, aponta para um maior conhecimento da culinária europeia, uma vez que refere ter exercido o ofício em diferentes cortes e casas, sofrendo a influência de Vincent La Chapelle, em cuja estada em Portugal terá eventualmente cozinhado para D. João V.

A primazia do receituário de matriz francesa mantém-se ao longo do século XIX, com destaque para as obras de Visconde de Vilarinho de São Romão que, em 1841, retoma a obra de Madame Aglaé Adanson, de João da Matta (1876) e de Paul Plantier (1870), sendo algumas preparações “à moda de França” oudesignadas com termos franceses comuns nas duas obras. A contar do século XVII, o nosso vocabulário reúne numerosos termos invulgares, alvo de estudo pela escritora e professora universitária Carolina Michaelis². Nesse domínio, será a França o país que mais influencia o nosso léxico, com centenas de vocábulos adotados, respeitantes à sua gastronomia (CARVALHEIRA 1953: 53).

As relações das cortes portuguesa e gaulesa contribuem de forma inequívoca para disseminar o gosto e o léxico francês. Os livros de cozinha daquele país constituem veículo privilegiado dessa propagação lexical e, da mesma forma, a introdução dos menus no século XIX, escritos maioritariamente naquele idioma. Entretanto, “a terminologia francesa não se estendeu a todas as classes sociais”, sendo do conhecimento dos estratos populares alguns termos de uso mais comum, como puré, omelete, creme e, em contexto citadino, filete e croquete. Nos meios privilegiados, a hierarquia estabelece-se de acordo com o grau de conhecimento dos termos, estando no domínio das classes superiores vocábulos como foie gras, hors-d’œuvre, petits fours, gratin ou consommé (CARVALHEIRA 1953: 69).

A cozinha francesa é reconhecida como símbolo de modernidade e poder, materializando o domínio de um país exportador e elitista, por ser exclusiva de um grupo restrito. Nesse particular, corresponde a um novo estilo de vida e a “uma rutura em relação à cozinha nacional regulada pela tradição e pelos costumes” (QUEIROGA 2015: 127).

Francesismos culinários na língua portuguesa: análise do léxico na obra de João da Matta

Corre o ano de 1953 quando Maria José Osório dos Santos Carvalheira apresenta à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra a sua tese de licenciatura em Filologia Românica, com o título Francesismos na terminologia da culinária portuguesa. Trata-se de um trabalho pioneiro nesta área de estudos, que propõe uma reflexão sobre o modo como nos apropriámos desses vocábulos e as diferentes formas como se introduziram no quotidiano português. Justifica a escolha do seu tema lembrando que o “estudo dos estrangeirismos que se têm introduzido em Portugal preocupou sempre todos os que se interessam por conservar a vernaculidade da língua pátria” (1953: I). Carvalheira consulta mais de três dezenas de livros de culinária e cerca de uma vintena de revistas. Nesta seleção, a maioria da obra consultada é da primeira metade do século XX, embora alguns livros não apresentem a indicação da data de edição. Nas obras, a influência francesa é manifesta, revelando receitas rotuladas em francês: “Umas vezes os francesismos são conservados sem alterações; outras vezes são aportuguesados ou traduzidos; outras ainda […] tornam-se franceses nomes genuinamente portugueses” (1953: 56–57). Nesse conjunto, destaca-se, pela busca em manter a fidelidade ao vocabulário português, a obra Tratado completo de cozinha e copa, na qual Carlos Bento da Maia procura aportuguesar os francesismos e substituí-los por expressões nossas, embora em algumas situações opte por empregar a terminologia francesa “para que os portugueses possam compreender”, como no caso de charcutaria (MAIA 1904: 137).

Na análise de Carvalheira surgem meia dúzia de títulos anteriores ao século XX, como o primeiro livro de culinária impresso em Portugal (1680), Kitchen Art, de Domingos Rodrigues³; o manuscrito de Francisco Borges Henriques, de 1715, que, de acordo com as suas palavras, atendendo à “letra pouco legível, poucas informações [conseguiu] colher”. De 1863, e sem autoria indicada, analisa Tesouro do cozinheiro, confeiteiro e copeiro e, a encerrar o século XIX, a 2.ª edição de 1877 de Paul Plantier, The seaman's seaman⁴, e Cozinha e Copa, de António de Macedo Mengo, de 1887 (CARVALHEIRA 1953: 269–273). À data da sua pesquisa, não lhe foi possível consultar duas obras relevantes, indisponíveis nas bibliotecas: Cozinheiro popular das famílias portuguesas e brasileiras, de 1890, e Kitchen Art, de João da Matta, cuja primeira edição é de 1876. Tomaremos este último como objeto de análise sobre o tema em apreço, em virtude de ser uma obra muito profícua, porquanto o cozinheiro “usou e abusou de termos franceses quer na designação das receitas, quer até nos ingredientes e nos utensílios” (BRAGA 2004: 241)⁵.

2 Para um estudo mais aprofundado deste assunto, tome-se como referência VASCONCELOS 2012.

3 A autora consultou a edição de 1693.

4 A data da primeira edição é 1870.

5 Não se considerou neste levantamento dos termos em francês o prefácio à obra da autoria de Alberto Pimentel.

Esta análise não procura biografar João da Matta, embora se apresente uma breve contextualização sobre o cozinheiro e a sua obra. O autor terá nascido em 1818 e, supõe-se, morre no final da década de 1890, já octogenário. Filho de cozinheiro, de quem herda o nome e o talento, assume, desde cedo, as suas qualidades de cozinheiro em algumas das mais ilustres casas lisboetas. Autonomiza-se com restaurantes que se tornam icónicos, o primeiro dos quais em 1848, seguindo-se outros espaços que o catapultam para o reconhecimento público. A editora Mattos Moreira, em Lisboa, edita em 1876 o seu livro com 10 jantares completos e “muitas receitas de cozinha ao alcance de todos – uma variada secção de doces, massas, molhos, caldos e compotas – maneira de pôr a mesa e de a servir”. A obra alcança extraordinário sucesso junto do público, conduzindo a várias reedições, a primeira em 1882. Na terceira, de 1888, o autor agradece essa recetividade e dá conta do acrescento de cem preparações face à edição original (MATTA 2017: V). No derradeiro ano do século XIX surge nova reedição e, na primeira metade do século XX, são conhecidas as correspondentes aos anos 1904, 1924 e 1947 (RÊGO 1989: 70). Na segunda metade desse século existem seguramente cinco reedições pela editora Vega (MATA 1993: 5). Em consonância com a tendência estrangeira nos livros de cozinha, com destaque para França, João da Matta inclui no seu livro pratos de diferentes latitudes. A obra é editada durante o reinado de D. Luís e D. Maria Pia, introdutores na mesa real do serviço à russa. Este serviço é amplamente descrito pelo cozinheiro, que lhe dedica um capítulo: Arte de Servir à Mesa.

O prefácio da primeira edição d’Kitchen Art é da responsabilidade de Alberto Pimentel que, sobre o autor, afirma: “o talento deste homem zomba do próprio nome! Chama-se Mata e restaura, conforta, avigora, vivifica! Ele tem feito de Lisboa a miniatura culinária de Paris.” (MATTA 2017: XII–XIII). Trata-se de uma inequívoca defesa da cozinha francesa, em oposição às marcas portuguesas que considera desprestigiantes. Adianta que se deve a João da Matta a possibilidade de os estrangeiros jantarem “em Portugal sem comer dobrada, orelheira e canja, o que faz com que os estrangeiros já nos não visitem receosos do porco e do arroz!” (2017: XII–XIII). No entanto, ao contrário de outros autores, como Domingos Rodrigues e Lucas Rigaud, João da Matta, embora pratique uma cozinha de matriz francesa e com receitas oriundas dessa região, não indica nenhuma receita designada à francesa⁶.

Mas voltemos ao estudo de Carvalheira. A autora procura criar uma sistematização das centenas (312) de termos que recolhe, tentando “agrupar em categorias diversas, trabalho que [verifica] ser difícil. E que não é possível estabelecer, com certeza, limites no conhecimento de cada termo”. Da análise dos vocábulos resultam “três grupos: os mais conhecidos, os menos conhecidos e aqueles que aparecem apenas nos livros. É óbvio o critério desta ordenação” (1953: II–III)⁷.

Dentro da família dos termos comuns, a autora distingue ainda quatro categorias, a saber: nomes culinários propriamente ditos; nomes comuns metaforicamente usados na cozinha; nomes geográficos; e nomes próprios. Usaremos a mesma categorização na análise da obra de João da Matta, cruzando os termos evidenciados no livro do cozinheiro, confrontando-os com o levantamento que Carvalheira realiza no seu estudo e acrescentando os que a autora não regista.

6 Domingos Rodrigues indica treze receitas “à francesa”, sobretudo para aves, como galinha, frangãos, peru e perdizes (RODRIGUES 2001: 41, 56, 67, 70 e 102), e Lucas Rigaud apresenta, igualmente, receitas “à francesa”, três sopas e uma “receita para preparar azeitonas à francesa” (RIGAUD 1999: 164, 166, 167 e 286).

7 Apesar de a autora considerar óbvio o critério na formulação das categorias apresentadas, a metodologia não é explicitada e carece de clareza. Carvalheira dedica uma secção a termos que surgem exclusivamente nos livros de cozinha, num total de 20 em comum com a obra de João da Matta. Não foi possível verificar a veracidade dessa afirmação, que se afigura inusitada. Por uma questão de coerência e sistematização, manteve-se a mesma classificação aplicada pela autora no estudo em apreço. Porém, neste particular, uma vez que não se afigura clara a utilização desta categoria, omite-se a sua análise etimológica, mantendo-se apenas a indicação quantitativa relevante para o número de termos franceses na obra de João da Matta.

Nomes culinários

Nesta secção são identificados 26 termos, encontrando correspondência com 21 na obra de João da Matta, a que se acrescentam mais cinco que Carvalheira não indica: confiture, framboise e groseille, com apenas uma referência, e relevée truffé, ambos num par de receitas. Os mais citados ultrapassam mais de uma dezena, nomeadamente consommé. De acordo com a definição de Matta, “faz-se [o consommé], estufando algumas aves, carnes e fêvera de presunto, até ficar com o caldo apurado e grosso; estando assim, tira-se-lhe a gordura” (2017: 247–248). Conquanto, em algumas receitas, o cozinheiro a ele se refira como consommé de peixe (2017: 71, 102). Por outro lado, Carlos Bento da Maia, quando enumera os diversos caldos e particulariza o caldo de vaca, indica tratar-se do “caldo a que os franceses chamam consomé” (1904: 137). Carvalheira observa que “entre nós o termo é vulgar, exceptuando a classe popular que ainda não o conhece. Simplesmente nem toda a gente lhe associa a mesma ideia”, porquanto varia de caldo apurado ou sopa, sendo que a ideia mais vulgar do termo é caldo de carne ou galinha. Nos livros que consulta, refere que apenas o identifica nas obras do século XX⁸. Acrescenta que o termo foi adotado sem modificações fonéticas, embora graficamente se verifique em alguns autores a queda de um m, e sugere que se deveria “substituir o vocábulo francês por caldo concentrado ou caldo de substância” (1953: 83–84).

Matta apresenta uma dúzia de receitas onde emprega o termo filete ou fillete (prevalecendo a primeira grafia), as mais das vezes intitulando iguarias na sua maioria de carne e aves. De resto, já aparece na obra de Lucas Rigaud, em 1780, no prato guisado de lebres em filetes (1999: 72), corroborando a ideia de que primitivamente se aplica à carne de determinados animais. Os dicionários mais antigos ainda não se referem ao termo associado à culinária. No início do século XX, o etimologista Cândido de Figueiredo, além de outros significados, remete-o para “posta delgada e frita de carne ou peixe”, considerando que se trata de um vocábulo de origem francesa, de filet (1913: 878). Paul Plantier presenteia-nos com diversas receitas de filetes de linguado, porém não é alheio à associação à carne, com uma proposta de “filetes de frango salteados com tubaras” (1905: 120). Sendo uma palavra do conhecimento geral, é usada para as postas delgadas de peixe, tendo caído em desuso a sua aceção a fio delgado e guarnição estreita, como consta nos primeiros dicionários (CARVALHEIRA 1953: 89–90).

São onze as receitas em que João da Matta introduz o termo fricassé, cinco das quais o levam no título. O original francês é do género feminino. Em português passa a masculino e é dos “que mais cedo entrou na nossa língua” (CARVALHEIRA 1953: 95), sendo possível encontrá-lo em Kitchen Art, de Domingos Rodrigues, na 2.ª edição de 1690, quando descreve um banquete que se pode servir a um embaixador, sugerindo, na segunda coberta de cozinha, entre outras iguarias, “pratinhos de fricassé de frangãos com descaídas” (2001: 174). Será uma das primeiras referências escritas, uma vez que Raphael Bluteau, no Vocabulário Português e Latino, publicado em 1712, regista a entrada como “tomado do francês fricassée, e há pouco que se começa a usar em Portugal”. Complementa que se trata de “manjares que com pressa se cozem e fringem com manteiga ou unto de porco…” (1712: 213).

Em 1715, o manuscrito de Francisco Borges Henriques propõe um “fricace de ovos para dias de peixe” (1715: 193). O termo é uma corruptela do original fricassée e é familiar a Lucas Rigaud, que apresenta algumas propostas, como “feijões verdes de fricassé”, “frangos de fricassé em agraço” ou “ovos de fricassé branco” (1999: 211, 112 e 261). Na entrada do Diccionario da língua portugueza composto pelo padre Raphael Bluteau reformado e acrescentado por Antonio de Moraes Silva, de 1789, surge o “aportuguesamento” do termo: “friquase, guisado de carne picado, ou aves em pedaço, fritas em manteiga” (1789: 637).

João da Matta inclui um “Molho de fricassé para servir em peixe”, a par das preparações com carnes de açougue e aves. A palavra surge na generalidade dos livros de cozinha portugueses, aplicada às mais diversas iguarias, tendo na base o mesmo molho com gemas de ovos, sumo de limão e salsa. Paul Plantier, em O Cosinheiro dos Cosinheiros, apresenta algumas receitas de fricassé, sendo três delas as mesmas que João da Matta partilha na sua obra, confirmando a uniformidade do receituário praticado à época, assente na matriz francesa⁹.

Resgatado para a literatura por diversos autores, o vocábulo não escapa ao romancista Eça de Queirós, que o evoca em Os Maias: “Ora sirva-se desse fricassé, ande abade, disse Afonso, que eu sei que é o seu fraco, e deixe lá o latim… o abade obedeceu com deleite, e escolhendo no molho rico os bons pedaços de ave…” (QUEIRÓS 2004: 51).

Por sua vez, Camilo Castelo Branco, no romance Carlota Ângela, usa-o com a mesma aceção dos dicionários da primeira metade do século XX, como mistura de várias coisas: “Embora travem à hervilhaca, é o que temos, e o que nos dão os Watteis dos fricassés litterarios, em menoscabo do clássico cozinhado de Domingos Rodrigues” (1874: 7).

Termos há que oferecem mais dificuldades de estabelecimento da sua origem e da aplicação na terminologia culinária. É o caso do vocábulo purée, que divide as opiniões dos etimologistas no que se refere à filiação primitiva. Na sua análise, Carvalheira refere que alguns especialistas indicam o verbo purer, que significa purificar, limpar, do baixo-latim purare. Carolina Michaelis aponta a evolução de piperata, pevrée, peurée, finalmente purée. Foneticamente é uma alegação razoável, mas semanticamente está distante, uma vez que piper é pimenta e purée, na sua origem, é uma massa obtida pela passagem de legumes ou carnes pelo passador, sobretudo para preparar sopas (CARVALHEIRA 1953: 112).

Bluteau refere-se a porêa como sendo uma “potagem que fazem as religiosas da Madre de Deus” (1720: 620). Da mesma forma, Cândido de Figueiredo filia o termo no baixo-latim, referindo a pureia como “uma espécie de sopa, feita de legumes, carnes ou outras substâncias raladas, formando caldo grosso”. Adita, ainda, a “iguaria análoga, mas mais consistente em forma de pão ou pudim”.

À semelhança de Bluteau, remete para ligações conventuais, referindo que é mais “usual o francesismo puré, o que não invalida a nossa pureia que eu li, pelo menos, num antigo documento conventual” (FIGUEIREDO 1913: 1649). Entretanto, Carvalheira indica a sua ausência em livros anteriores ao século XX, insistindo que, embora os franceses tenham preparações de purés de legumes, carnes e crustáceos, a sua aplicação na culinária portuguesa restringe-se “aos legumes, quer em sopas, quer em outros pratos” (1953: 113).

Apesar disso, refuta-se essa afirmação, uma vez que na obra culinária oitocentista de João da Matta apresentam-se 16 receitas que incluem o termo purée, metade das quais são sopas, mas também preparações com carnes, particularmente com caça, vitela e carneiro. Acresce a sua inclusão na obra de Plantier, definindo-o no dicionário de termos culinários como: “polme. Certos legumes cozidos, esmagados e passados por peneira ou por passador. Chamam-se também purés às iguarias preparadas com lagostas, aves ou caça, pisadas e passadas pela peneira” (1905: 765).

O vocábulo sopa, do germânico suppe, terá entrado no nosso vocabulário através do francês soupe. No Elucidário de Joaquim Viterbo, a entrada para o termo sopa, remetido pelo autor para “refeição comum e ordinária nas Comunidades Religiosas”, vem acompanhada de uma citação epistolar do Bispo de Lamego a D. Afonso das Astúrias, sobre as ofertas das Salzedas no ano de 1306: “Mandamos que toda las cousas, que Ihis foram mandadas pola alma dos Passados, pera Pitanças, pera Sopas, que ayam livres, e sen outro embargo” (VITERBO 1865: 220).

João da Matta oferece ao leitor 21 receitas de sopa. Com massas, carnes, pescados ou legumes, são diversas as suas propostas, em conformidade com o receituário da época, distinto e sofisticado, a que as elites estão acostumadas. Maria Amália Vaz de Carvalho, no seu manual de civilidade e etiqueta, editado em 1895, evoca os costumes de sociabilidade do século XIX, revelando regras de conduta à mesa e sublinhando a importância do bom senso nas práticas de bem servir. Nas suas palavras: “mais vale uma pequena quantidade de pratos bem feitos do que uma longa lista de manjares que apenas se distinguem pela pomposa aparência e pelos nomes franceses que laboriosamente engendrou a fantasia dos cozinheiros” (2004: 88). A sopa inicia a refeição e deve ser acompanhada com pelo menos duas variedades de vinho, de preferência Madeira e Xerez (CARVALHO 2004: 84). Algumas das iguarias de Matta estão patentes na obra de Plantier, tais como a “sopa de purée de ervilhas verdes”, a “sopa de rabo de boi” ou a “sopa de Julianne” (1905: 33, 34, 37).

8 A obra de Paul Plantier faz parte do corpus da autora. Plantier introduz o vocábulo na sua receita de Supreme de frango(PLANTIER 1905: 237). Não foi possível verificar se esta estaria ausente da 2.ª edição de 1877, a utilizada no estudo em apreço.

9 As receitas que se encontram nas duas obras são Cabeça de Vitela Recheada, Língua de Fricassé e Mãos de Carneiro em Fricassé (PLANTIER 1905: 150, 124 e 184).

Nomes comuns metaforicamente usados na cozinha

Encontrando correspondência com o levantamento apresentado por Carvalheira, nesta secção apontam-se onze termos na Kitchen Art, sendo glace e omelette os mais citados por João da Matta. Além de glace, o cozinheiro emprega as variações enquanto verbo glaçar e glaçado. Glace ou glacé é um francesismo que se torna corrente no século XX, embora a sua utilização na literatura culinária portuguesa seja anterior. Aplica-se para designar uma substância com que se cobrem bolos, uma espécie de creme utilizado como enfeite, diferente do significado francês que remete para “um líquido açucarado e aromatizado, tornado espesso pela congelação”. Como observa a autora, formou-se o verbo glaçar, usado na mesma aceção de cobrir de glace, verificando-se uma menor utilização do verbo do que do substantivo (1953: 129–130), o que corrobora o seu emprego na obra de Matta, onde o verbo surge em apenas cinco ocasiões.

Porém, a utilização do termo glace na obra do cozinheiro está associada a um molho e não a esse preparo de açúcar, excetuando as três receitas de doçaria, designadamente o “Gateau de plom à la Parisienne”, onde descreve a operação glaçar nos seguintes termos: “batem-se umas claras d’ovos com açúcar e 1 pitada de baunilha, até ficarem bem grossas; cobre-se este bolo com o auxílio de um pincel de penas” (2017: 88–89). Também Plantier refere no seu dicionário de termos que cobrir corresponde ao francês glacer e consiste em “aplicar camadas de açúcar sobre bolos e outras peças de pastelaria que voltem ao forno, bem como em passar o pincel […]. É ainda na confeitaria mergulhar diversos frutos em calda de açúcar” (1905: 761).

Anteriormente, Lucas Rigaud utiliza para a mesma operação o termo giaça e giaçado, ostentado no preparado de “pão-de-ló ou bolo de Sabóia”, onde o autor sugere que se pode servir ao natural ou “cubra-se com uma giaça feita de açúcar fino, clara de ovos e sumo de limão” (1999: 226). Consta que o termo omelette deriva da alteração amelette, por sua vez “alterada de alemette, alumette, provindas do antigo francês alemelle, com mudança do sufixo, sob a influência de oeuf”, reforçando a origem latina do termo ova mellita. A designação deriva da comparação de omelette a uma lâmina (CARVALHEIRA 1953: 132). São onze as receitas de omelettes na Arte de Cozinha, três delas na categoria de doçaria. A versão doce é também evocada pelo escritor Camilo Castelo Branco: “são moda agora uns fofos vaporentos/ omelettes soufflés denominados omelettes sucrées.” (BRANCO 2017: 183) e servidas na mesa real, como a “omelette au rhum”, nos “entremets sucrés” (MONGE et al. 2019: 187). Ao contrário de João da Matta que usa invariavelmente o termo omelette, um século antes, Rigaud “aportuguesa” o vocábulo, designando omeletas, remetendo para trouxas-de-ovos (1999: 218). Segundo Carvalheira, “trouxa ou torta é a omelete doce dos livros de cozinha” (1953: 133), ao invés do que se verifica em Rigaud que, na receita onde utiliza ambos os termos, apresenta uma preparação salgada. Os etimólogos mais puristas como Cândido de Figueiredo procuram impor como forma nacional o termo omeleta (1913: 1416). Nos dicionários mais recentes são possíveis ambas as grafias, remetendo para a origem francesa e relacionando com o vocábulo fritada, já enunciado por Bluteau como “fritada de passarinhos ou bocados de carne com ovos”, a que acrescenta “fritada de amor chamão em Lisboa as Freiras do Calvário & outras, humas fatias de pão torrado, com manteiga e ovos” (1712: 217-218). Morais Silva é mais restritivo, definindo apenas como “fritada de ovos.” (1789: 639).

Nomes geográficos

Na obra de João da Matta estão registados doze vocábulos de nomes geográficos, os quais apenas encontram correspondência com dois identificados por Carvalheira no seu levantamento. Trata-se de chantilli e merengues. O cozinheiro desvia-se da grafia original chantilly, para designar a “Charlotte au Chantilli”. Esta especialidade é bastante popular na época, constando em diversos menus da Casa Real Portuguesa (MONGE et al. 2019: 214). Entra no vocabulário português como chantili, embora com a referência à sua origem francesa, designando “creme feito à base de natas de leite batidas até ficarem firmes, a que se junta açúcar e baunilha” (PEREIRA; PERICÃO 2015: 160). Apesar da sua associação a este creme, é provável que a primeira referência em literatura culinária no nosso território surja em Lucas Rigaud na “popietas de vitela à Chantilly”, que remete para a localidade francesa (1999: 50). Paul Plantier utiliza-o nos mesmos moldes referindo-se à inclusão numa receita de “um queijo de Chantilly” (1905: 757). Na opinião da autora, o termo culinário tem origem no Castelo de Chantilly, também popular pelas rendas que aí se faziam (CARVALHEIRA 1953: 143). De acordo com o estudo de Carvalheira, o termo francês merengue deriva do nome da cidade suíça do cantão alemão Meiringen e corresponde ao bolo preparado com claras de ovos batidas com açúcar. Complementa que “no século XX aparece sempre merengue, e esta forma é a conhecida para designar uns bolos semelhantes a suspiros” (1953: 143). Esta teoria assenta na eventual criação, em 1720, por parte de um pasteleiro local chamado Gasparini, desta preparação culinária10. Todavia, será mais provável que o pasteleiro tenha “aperfeiçoado a forma de fazer o merengue clássico uma vez que a receita e o nome já tinham sido publicados em 1691” no livro Le cuisinier royal et bourgeois, por François Massialot, cozinheiro de Luís XIV (CÂMARA 2013: 90-91).

10 Uma das técnicas desta preparação é designada “merengue suíço”.

Merengue e suspiros estão ausentes em Bluteau (1712), Morais Silva (1789) e Viterbo (1865). Cândido de Figueiredo refere de forma sucinta na entrada de suspiro “espécie de bolo tenro” e para merengue “bolo de claras com açúcar”, porém, sem qualquer indicação da origem do vocábulo (1913: 1896 e 1279). José Pedro Machado, em dicionário mais recente, indica que a origem é do castelhano, “talvez com origem no fr. meringue, de origem obscura” (1995: 109). Sem embargo, Lucas Rigaud já emprega termo semelhante em 1780, apresentando uma “crema meringada” com as claras batidas em neve e com “duas ou três mãos cheias de açúcar fino” (1999: 233). Nos menus da Casa Real constam diversas referências a meringues (MONGE et al. 2019: 222), uma corruptela do termo merengue.

Quanto aos restantes seis nomes geográficos, não se encontram na categoria de termos culinários, remetendo para bebidas que ficaram associadas às regiões de produção, como Champagne, Cognac, Rheno, Sauternes, Chateau-Yquem e Chateau-Barsac, estes menos vulgarizados, referidos por João da Matta no capítulo dedicado à “Arte de servir à mesa”, indicando serem os apropriados para servir na entrada da refeição “com ostras cruas na casca”. Acrescenta que, depois da entrada fria serve-se o ponche á la Romaine, em copos ou taças semelhantes às do vinho de Champagne ou em canecas de cristal. Conjuntamente com o ponche costuma servir-se vinho de Chateau-Yquem ou Chateau-Barsac fresco. Em seguida, entra o assado, com vinho de Champagne bem nevado (2017: 257).

Contudo, em Lucas Rigaud já consta Champagne, remetendo para a região e não para a bebida. Trata-se da iguaria dita “salsichas de Champagne” (1999: 267).

A receita de “pastel de fígados gordos de Strasbourg” é reveladora da qualidade do foie gras desta região, uma vez que aparece na mesa da família real seguramente em meia dúzia de menus (MONGE et al. 2019: 219). Refere-se igualmente como uma região e não uma técnica culinária.

Nomes próprios

Identificam-se 13 nomes próprios no livro de João da Matta, a maioria apenas com uma referência. Béchamel, Charlotte, Julianne e Reine são de igual modo identificados no estudo de Carvalheira (1953). Estamos perante exemplos da dita cozinha honorífica. Béchamel deriva do apelido Bechameil, marquês de Nointel, mestre-de-cerimónias de Luís XIV. Não terá sido o inventor da preparação culinária, mas, antes, homenageado com o nome de uma receita por ser uma figura de prestígio. À época, o cozinheiro da corte é François Pierre de La Varenne, autor do livro Le Cuisinier Français, de 1651, onde surge “o molho aveludado para carnes […] mais complexo do que o actual” que estará na base do preparado que entretanto se dissemina como “Molho à Béchamel” (CÂMARA 2013: 218-9). O vocábulo entra na nossa literatura culinária com Lucas Rigaud, embora com grafia diferente, Bexaméla, julgamos que numa tentativa de “aportuguesar” o termo, o mesmo que se verifica com crema e gelantina. O cozinheiro apresenta a descrição do molho e também o “bacalhau á Bexaméla”; “camarões á Bexaméla”; “ovos á Bexaméla”; e “trouxas á Bexaméla” (1999: 245, 196, 202, 217, 220). “Molho feito de gorduras e legumes” é a definição de Cândido Figueiredo (1913: 266), mais próxima da descrição que João da Matta faz deste molho do que a versão de Lucas Rigaud, que inclui diversas carnes na sua base. Porém, no “peito de vitela recheado á Macedoine”, Matta indica o “preparo do molho á Macedoine chamado béchamel”, semelhante ao preparado anterior a que acrescenta batatas cozidas (2017: 14-15). Por sua vez, no “lombo de vacca lardeado á la Macedoine”, o molho é semelhante ao béchamel omitindo as gemas de ovos e o queijo parmesão (2017: 35-36).

Nos livros mais modernos maioritariamente deixou-se cair o prefixo “à”. Não obstante, alguns autores “cientes de que se trata de um nome próprio, escrevem a palavra com maiúscula; outros há que perderam já a noção da origem e tratam-no como um nome comum” usando a minúscula (CARVALHEIRA 1953: 146). Verificam-se alguns equívocos designando-o como “molho branco”. Apesar das semelhanças, a diferença mais evidente prende-se com a substituição neste do leite por água, como já indica João da Matta (2017: 240).

Outro dos nomes próprios que surge várias vezes em Arte de Cozinha é Charlotte, em consonância com a popularidade desta iguaria nas mesas sofisticadas do período em apreço. O nome da sobremesa está associado a dois pratos distintos. A original, provavelmente do século XVIII, é inglesa e remete para os “bread puddings”. Trata-se de um aproveitamento de sobras de pão, maçã e “custard”, o “crème anglaise” ou “creme de pasteleiro”. Contudo, o carismático cozinheiro Antonin Carême, revolucionário da culinária da primeira metade do século XIX, distancia-se desta versão e apresenta uma receita transformada e requintada, tendo palitos de la Reine a forrar a forma e com um recheio usualmente de creme de natas, próxima das que encontramos em João da Matta (CÂNDIDO 2018: 204), respetivamente a “Charlotte á la Russe” e a “Charlotte au Chantilli”. O cozinheiro deverá estar familiarizado com o receituário inglês pois a “Charlotte de maçãs” não segue a técnica das anteriores, aproximando-se mais do que poderá ser a versão inglesa deste preparo (MATTA 2017: 9, 79 e 80). Também o etimólogo Cândido de Figueiredo terá conhecimento da receita britânica, uma vez que no dicionário indica para o termo adaptado ao português “charlota: pastelão de creme, cercas de lascas de pão-de-ló” (1913: 424), não fazendo qualquer referência à origem francesa do vocábulo. Conforme Carvalheira, o termo Charlotte terá origem em 1804 (1953: 147).

Vocábulos de uso restrito

Chegados aos vocábulos de uso restrito, identificam-se 28 na obra de João da Matta, encontrando 23 correspondências com o estudo em análise. Da totalidade, mais de metade surgem apenas com uma referência isolada, como bisque, no caso “sopa de bisque de camarões”. A designação é de origem francesa e corresponde a uma sopa cremosa que tem por base um puré de crustáceos ou então de cogumelos, ligada com natas e temperada com vinho ou conhaque. Trata-se de uma corruptela de biscuit, que significa “cozido duas vezes” e que remete para a ideia de “engrossar” a sopa. Durante a centúria de Setecentos, as bisques são feitas de aves de caça, tradição que se perde, sendo as de marisco as que prevalecem. A mais famosa bisque é a de lagosta e de camarão (CÂNDIDO 2016: 214).

No extremo oposto de termos que são mais referenciados por João da Matta encontram-se, com onze receitas cada, aspic e sauté, o primeiro empregue para designar uma técnica, mas também o resultado dessa preparação. O segundo remete para um método e para o utensílio da bateria de cozinha usado nessa preparação. Carvalheira, na entrada aspic, lembra que não é termo conhecido da generalidade das pessoas, no contexto temporal do seu estudo, porque se trata “de uma guarnição que não é usada na cozinha vulgar. É por vezes servida nos hotéis”. De acordo com a autora, em França o termo serve apenas na cozinha.

O vocábulo tem origem em “aspis – idis, víbora, que em português resultou em áspide. O c provém de uma contaminação com espic”. Assegura que se trata de um francesismo desnecessário na literatura culinária portuguesa uma vez que corresponde à geleia de carnes (CARVALHEIRA 1953: 158). Na descrição apresentada por João da Matta, assemelha-se a uma gelatina preparada com caldo de carne ou aves e “serve para guarnecer diversas viandas” (2017: 249). O cozinheiro apresenta “pequenos aspics de salpicão” (2017: 38).

Quanto ao termo sauté, Paul Plantier refere que “á falta de vocábulo portuguez que exprimisse o verbo sauter dos francezes, adoptamos o saltear”, sendo que saltear é definido como “sacudir dentro da frigideira” (1905: 765). Matta define sauté como “frigideira com cabo” e saltear “cozer ligeiramente qualquer iguaria, ou melhor será fritar ligeiramente em manteiga qualquer cousa, mexendo sempre para que não se pegue nem fique frita” (1876: 247). Surge apenas no título de dois pratos, “cabrito sauté para entradas” e “fígado de vitela sauté” (1876: 150, 168). Também nos menus da Casa Real vai aparecendo nos títulos de pratos de carnes e aves (MONGE et al. 2019: 39, 49, 100, 133, 173, 206 e 305).

Vocábulos em desuso

Maria José Carvalheira reserva uma secção onde coloca os termos que considera caídos em desuso na época em que realiza o estudo. Salienta que “os livros de cozinha antigos citam muitos termos que não se encontram no nosso tempo”. Dos 21 vocábulos que reúne nesta categoria, quatro estão presentes na obra de João da Matta. O termo barigoule é de origem provençal, sendo as “alcachofras à la Barigoule” comum em ambas as obras (PLANTIER 1905: 395; MATTA 2017: 29). Quanto ao vocábulo chartreuse, atualmente é conhecido como referência a uma bebida, um licor preparado por monges de Chartres desde 1764. Todavia, nas receitas com essa expressão, indicadas por Matta e Plantier, não se inclui qualquer bebida alcoólica. Plantier finaliza a descrição de “Chartreuse de perdizes” nos seguintes termos: “na occasião de servir vire-se um prato sobre a torteira, volte-se com ligeireza a torteira e o prato, tire-se aquella e o papel, e deite-se sobre a chartreuse o molho da cocção das perdizes” (1905: 288). A palavra Chevalier encontra-se presente nestas duas obras culinárias coevas, associada a frangos (MATTA 1876: 4; PLANTIER 1905: 248). Finalmente, o termo rabioli. Figueiredo indica os ravióis, vocábulo de origem italiana (ravioli), definido como “sopa seca de rodelas de massa, com recheio fino e saboroso” (1913: 1677). João da Matta apresenta uma sugestão de “sopa de rabioli á la Tivoli” (2017: 20), em tudo semelhante à descrita no Cosinheiro dos Cosinheiros (1905: 42).

Considerações finais

Analisada do ponto de vista etimológico, com o levantamento e sistematização dos vocábulos de origem gauleses, a obra de João da Matta, Arte de Cosinha, é reveladora da grande expressividade e preponderância desses francesismos nos livros de cozinha da época, em consonância com a análise levada a cabo por Maria José Carvalheira em 1953. Importa sublinhar que João da Matta, não sendo tão prolixo, ultrapassa a centena de termos franceses, seja na identificação de receitas, técnicas, utensílios, produtos e regiões. Ademais, identificam-se na sua obra 30 termos omissos no estudo de Carvalheira, uma dezena dos quais respeitantes a regiões. Tomando as 443 propostas culinárias de João da Matta, são relevantes a frequência e a percentagem de iguarias com recurso a francesismos, estando nesta categoria 279 registos, ou seja, 63% do total. Nessa medida, escora um traço muito expressivo na cozinha que pratica e divulga, fruto do contexto social, cultural e económico onde se movimenta.

Não obstante a inscrição cosmopolita, o livro reflete, do mesmo modo, algumas marcas identitárias com dois jantares à antiga portuguesa com ementas que se aproximam do que se convencionou designar de tradicional na nossa cozinha, como “cabeça de porco com feijão branco”, “vitela assada e batatas” e os célebres “pastéis de nata”, ou um prato de “carne cozida com toucinho, paio, chispe de porco e hortaliças, e à parte arroz de substância” (MATA 1993: 354) que não está distante do famoso “cozido à portuguesa”. As receitas que designa à portuguesa correspondem em parte a um receituário que se mantém fiel a essa matriz, tais como as “favas à portugueza” ou a “dobrada guizada à portugueza” (MATA 2017: 139, 133). Acrescem outros pratos que remetem para o imaginário da cozinha tradicional portuguesa como o “cabrito assado”, o “coelho à caçadora” e as “ervilhas com ovos escalfados”, ainda hoje a marcarem presença na mesa de muitas famílias portuguesas.

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Garum Publications and studies

Geoponics

Geopónika

Geoponia é o nome de uma coleção de cerca de vinte livros sobre agronomia e agricultura escritos em grego e compilados no século X em Constantinopla pelo imperador bizantino Constantino VII.

A palavra grega geoponica significa “empresas agrícolas”.

A coleção do século X é algumas vezes erroneamente atribuída em sua totalidade ao autor do século VII de Cassian Baso Casianus Basso Scholasticus, cuja coleção, também chamada de Geoponica, foi integrada na compilação existente.

O Baso foi baseado no trabalho de Vindonio Anatolio Vindonius Anatolio, s. IV: outro compilador agrário.

A última compilação inclui contribuições de Plínio, o Velho, do agrônomo cartaginês Mago e até mesmo do profeta Zoroastro.

O trabalho cobre todo tipo de informação agrícola, como clima, celeste e terrestre, assim como presságios, viticultura, oleocultura, apicultura, medicina veterinária, construção de tanques e muito mais, sendo que parte que aqui reproduzimos tem a ver com o fabrico de garum.

Geopónica o Extractos de agricultura de Casiano Baso;
traducción y comentarios de María José Meana, José Ignacio Cubero, Pedro Sáez;
Instituto Nacional de Investigación y Tecnología Agraria y Alimentaria 1998

Geoponica (XX, 46, 1 e seguintes) – séc. IX, bizantino.

Pôr num recipiente as vísceras de peixes e peixes pequenos com sal e deixar ao sol mexendo frequentemente. Terminada a maceração por efeito do calor, retira-se o garum introduzindo um cesto. O garumescorre para dentro do cesto e é filtrado através dele, podendo-se recolher o chamado liquamen. A parte sólida que fica é o alex. Alguns misturam duas medidas de vinho velho por cada medida de peixe.
  Se se precisar de usar o garum sem o ter tanto tempo ao sol , coze-se rapidamente pondo o peixe em água do mar concentrada de modo a que um ovo bóie (…). Mas a flor do garum obtém-se com as entranhas, o sangue e o suco dos atuns sobre os quais se deita sal e se deixa macerar durante dois meses.

Capítulo 46

Fabrico de garum, 23

1. O denominado liquame 24 é obtido da seguinte forma: colocam-se as vísceras do peixe numa tigela e salgam-se;
também os pequenos peixes como o peixe-rei (Pejerrey), pequenos salmonetes, chuclas, anchovas ou mesmo todos aqueles que sejam muito pequenos, todos são igualmente salgados e preservados em salmoura ao sol, mexendo com frequência.
2. Depois de terem permanecido na salmoura durante um verão, o garum é retirado desta forma: um grande cesto espesso é colocado no recipiente cheio destes peixes e o garum é infiltrado no cesto e, assim, passado pela peneira da cesta, o chamado liquamen é retirado; os restantes resíduos tornam-se em hallec 25.
3. Mas os bitinianos preparam desta forma: utilizam-se as Spicara maena, (o picarel manchado), melhor os pequenos do que os grandes, ou na falta destes, anchovas, chicharros, cavalas, ou mesmo hallec, ou uma mistura de todas elas. Coloca-se esta mistura na mesa de um padeiro onde a farinha seja geralmente amassada e amassa-se adicionando dois sextários* de sal a cada tipo de peixe, de modo que se misturem com o sal; Depois de deixar durante a noite, coloca-se num recipiente de barro e mete-se destapado ao sol por dois ou três meses, mexendo periodicamente com uma vara, depois cobre-se e guarda-se.
4. Alguns também acrescentam para cada sextário de peixe dois de vinho
5. Além disso, se quiser consumir o garum imediatamente, isto é, não para o pôr ao sol mas para o ferver, fará o seguinte: Verifica-se a salmoura para que ao lançar um ovo na água este flutue  (se afundar ainda não tem sal suficiente); Em seguida, coloca-se o peixe com a salmoura numa panela, acrescentando orégãos, e leva-se ao fogo até ferver, ou seja, até começar a evaporar um pouco; alguns também adicionam xarope; depois, quando estiver frio, despeje em uma peneira, repetindo o processo duas ou três vezes até que o liquido saia limpo, cubra e guarde.
6. Mas o melhor garum, o chamado haimation, é feito assim: as vísceras do atum são misturadas juntamente com as guelras, o sumo e o sangue e o sal de que precisam é aspergido sobre as mesmas; São deixados num recipiente e após dois meses no máximo, este é perfurado e sai o garum chamado haimation 26.

23. Garum era um molho de peixe resultante da auto-maceração de certos peixes na presença de um anti-séptico, neste caso o sal. Era um condimento muito apreciado nos tempos antigos.
Veja a este respeito:
P. Grimal e Th. Monod, “Sur la véritable nature du Garumm” REA, 54 (1952), pp. 27-38; J. Andre, L´alimentation … pp.195-198;
R. Curtis, Garum e Salsamenta. Produção e Comércio em Matéria Médica. Leiden, 1991.
Para o garum hispânico, um dos mais famosos:
M. Ponsich e M. Tarradell, Garum et Industries antiques de la salaison dans la Mediterranee occidentale. Paris, 1965
e
M. Ponsich, Azeite e peixe salgado. Fatores geoeconômicos de Bética e Tingitânia. Madrid, 1988.

24. O liquamen aparece mencionado pela primeira vez no meio do séc. I A.D. (Col. 6,2,7) embora a mesma palavra também seja usada para se referir a líquidos. É o molho de peixe mais romano, sendo este o termo mais utilizado para designar estes molhos, embora isso não signifique que o termo garum tenha desaparecido. Parece que a única diferença está no uso, no processo de produção, de peixes diferentes, geralmente menores. Neste texto, o processo de fabricação do liquamend parece diferenciar-se do garum, sendo o segundo produto do primeiro, embora a passagem seja um tanto confusa.
Ver R. Curtis, cit. pp. 7 e 135. 25 · Hallec, como vemos, é um subproduto do garum, do qual não conhecemos sua forma nos tempos clássicos gregos. A sua avaliação é geralmente pejorativa.
Ver R. Curtis, cit. pp. 7-8 e 14. 26 ·
Sobre o garum da qualidade, ver R. Curtis, cit pp. 135  173. CURTlS, R. Garum e Salsamenta. Produção e Comércio em Matéria Médica. Leiden, I 991.

 

*Sextário é uma medida para líquidos usada pelos romanos. Equivalente a 0,5468 litros. Era dividido em doze partes iguais que eles chamavam de ciatos.

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The garum of Pompeii

El garum de Pompeya y Herculano (2008-2012)

Síntesis de la primera campaña del proyecto hispano-italiano

D. Bernal Universidad de Cádiz D. Cottica
A. Zaccaria Università Ca’ Foscari di Venezia

We present in this paper the project named “From Fishing to Garum at Pompeii and Hercolaneum. Exploitation of marine resources in the Vesubian area”, carried out by the University of Cádiz (south Spain) and the University Ca’ Foscari of Venice (Italy) from 2008 to 2012. The lack of knowledge on this topic in Campania in the last decades is shown by modern scholars who have to use literature dating back to the seven-ties in the 20th century. The three main aims of the project are: gathering all evidences on ancient fishing in these campanian cities, trying to reconstruct ancient fishing gear and the spcies fished and eaten daily (by the compilation and study of fishing equipment –hooks, weights, etc.-, archaeozoological data –fish bones and marine shells- & pictorial evidence –mosaics, etc.-); secondly, studying all data related to fishprocessing, such as regional garum amphorae and related vessels as the well known Scaurus’ urcei, as well as analysing their paleo-contents, and the buildings inside the city related to those activities, such as the House of A. Umbricius Scau-rus (VII, Insula Occidentalis, 12-15) and the so called “Garum Shop” (I, 12, 8). At last a medium-term synthesis on the ma-ritime economy of Pompeii and Hercolaneum should be pre-sented. All activities developed during the first archaeologi-cal season in 2008 are presented, showing the first results of the project and other complementary activities such as the collaboration in the Venetian Regio V project (archaeological trench named Saggio 3 placed in V, 4, 3) and the making of a documentary on methodology of the archaeological research.

Antecedentes. De la pesca y la industria en ámbito campano
El entorno vesubiano es un ambiente especialmente sensible y bien atendido por la investigación arqueológica, que desde el siglo XIX se convirtió en epicentro de la investigación internacional, por el excepcional estado de conservación de sus evidencias. Dicha tónica científica se ha mantenido de manera prácticamente constante hasta la actualidad, gozando en la última década de una especial vitalidad, como denotan los dos Congresos Internacionales en los cuales se han dado a conocer las principales novedades de la investigación (Guzzo y Guidobaldi, 2005 y 2007). No obstante, las tendencias “historiográficas”, como se puede documentar a vuelaplu-ma en los dos volúmenes citados, han focalizado la atención en los principales temas por los cuales estas ciudades del entorno campano son excepcionales, sobre todo su topogra-fía y urbanismo, la pintura/musivaria y aspectos diversos de tipo socio-económico y de la vida cotidiana. Adicionalmente, los proyectos internacionales en curso de desarrollo tienden a centrarse en uno o varios inmuebles de la ciudad de Pompeya (normalmente una “casa” o una insula completa), procediendo a su contextualización e interpretación histórica, ya que son múltiples los ambientes excavados de antiguo necesitados de una revisión científica en profundidad.

Figs. 1A y 1B Casa de A. Umbricius Scaurus según Curtis (1991, 93, fig. 5), con los conocidos mosaicos del atrio, actualmente en las dependencias de la Soprintendenza (nº inv. SAP 15190).

A pesar del elevado nivel de conocimientos sobre múltiples aspectos de Pompeya y Herculano, hay otras parcelas de Historia Económica que se encuentran aún en estado embrionario. Tal es el caso de la Historia Marítima del golfo napolitano, de su vinculación con el mar y de la problemática de la implicación de estas comunidades en las actividades haliéuticas. En este contexto encontramos mínimas referencias a estudios centrados específicamente en la pesca en la Antigüedad, habiéndose centrado los trabajos precedentes en la valoración general de los registros ictiológicos y malacológicos conservados de las antiguas excavaciones y su conexión con la información iconográfica, procedente básicamente de la pintura y de los mosaicos, como se puede comprobar en los trabajos más recientes sobre el yacimiento (Genovese, Cocca, Russo, 2001; Reese, 2002 a y 2002 b; Carannante, Chilardi, Della Vecchia, 2009). En múltiples estudios sobre la ciudad campana y su entorno se han dado a conocer piezas relacionadas con la pesca y la explotación de recursos del mar —anzuelos o restos de fauna marina normalmente—, como en la monografía Cibi e sapori a Pompei e dintorni (AA.VV., 2005, fichas 89-91, 96-100, 102, 120, 121), si bien los mismos se han tratado siempre de manera aislada y puntual. Respecto a la elaboración de garum y otras conservas de origen piscícola, contamos con numerosos trabajos de R. I. Curtis, realizados especialmente en los años setenta e inicios de los ochenta del siglo pasado (1979 a, b y c; 1984 a y b), aunque matizados con posterioridad en otras síntesis (Curtis, 1988-89; 1991, 90-96). Y evidentemente sin olvidar la aportación de la anforología al conocimiento del comercio de salsas de pescado en Pompeya, procedentes mayoritariamente de Hispania (Manacorda, 1977), y el excepcional corpus de inscripciones pintadas —tituli picti— recuperadas en las antiguas excavaciones (Schöne, 1871; Mau, 1909), que junto al volu-men del C. I. L. de Roma siguen constituyendo las colecciones epigráficas más nutridas para la caracterización del garum y de las diversas variedades de salsas de pescado confeccionadas y consumidas en el Mare Nostrum. Tampoco debemos olvidar los trabajos en torno a A. Umbricius Scaurus, uno de los comerciantes conserveros más conocidos de la Antigüedad precisamente gracias a los mosaicos que ornamentaban el atrio de su casa sita en el civico 15 de la insula Occidentalis (Fig. 1A), en los cuales se representaron urcei con inscripcio-nes alusivas al liquamen y a la “flor del garum de escómbrido” (Fig. 1B) elaborado según una “receta” singular —ex officina scauri—, sobre lo cual han corrido ríos de tinta (Etienne y Mayet, 1991; Curtis, 1991), ya que no existen ejemplos simi-lares en todo el Mundo Antiguo. A pesar de la cantidad de información disponible, los estudios más recientes denotan la escasez de evidencias empíricas sobre la industria conservera local/regional (Bernal, 2007), y la constante recurrencia a tópicos en la interpretación de la economía de las ciudades campanas en los análisis de las industrias haliéuticas de la Italia romana (Marzanno, 2007). En este contexto, se iniciaron una serie de colaboraciones científicas en el año 2007 entre la Università Ca’ Foscari de Venecia (en adelante, UNIVE) y la Universidad de Cádiz (en adelante, UCA), plasmadas en la colaboración de esta última en el estudio de las ánforas del proyecto “Impianto Elettrico”, un singular proyecto de catalogación patrimonial liderado por los colegas venecianos de las primeras excavaciones estratigráficas realizadas en Pompeya en los años ochenta del siglo pasado (Cottica y Curti, 2007). Dicha colaboración internacional ha generado unos vínculos estables de investigación, que se han concretado recientemente en la firma de un Convenio de Colaboración rubricado por los Rectores de ambas instituciones para los próximos seis años, con el objetivo de desarrollar “Excavaciones arqueológicas e investigaciones interdisciplinares en Pompeya y en el área vesubiana”.

En este contexto de colaboración se sitúa el proyecto que presentamos a continuación, que aúna a un equipo de investigación español (integrado en el Grupo HUM-440 del IV Plan Andaluz de Investigación de la Junta de Andalucía) especializado en arqueología marítima; y un equipo italiano con muchos años de experiencia en Pompeya, responsable actualmente de varios proyectos centrados en el estudio de las transformaciones del paisaje urbano y del ambiente económico en la Regio V y en la Regio VI (Zaccaria Ruggiu, 2006; Zaccaria y Maratini, 2007). Una de las especificidades de este proyecto hispano-italiano es el intercambio de docentes y de estudiantes —a través del Programa Erasmus, activado entre ambas universidades desde el año 2008— y de la transferen-cia tecnológica y el intercambio de experiencias. El equipo de investigación español constituye uno de los más consolidados en España en Arqueología de la Pesca y en la problemática de la industria pesquero-conservera en el Mundo Antiguo, con más de una década de trabajos y estudios histórico-arqueoló-gicos en torno a esta temática (recientemente Bernal, 2006 y 2009, ed.; Lagóstena, Bernal y Arévalo, 2007, eds.), con directa implicación en la dirección de las excavaciones excavaciones arqueológicas y en los estudios de algunos de los yacimientos pesquero-conserveros mejor conocidos de Hispania, como es el caso de las factorías de salazones de Baelo-Claudia (Arévalo y Bernal, 2007, eds.), el barrio conservero urbano de Iulia Traducta (Algeciras), los alfares y factorías salazoneras de Villa Victoria/Carteia (San Roque) en la orilla norte del Estrecho de Gibraltar; o las cetariae de Septem Fratres (Ceuta) y algunos yacimientos marroquíes como Metrouna en la Mauretania Tingitana. Las perspectivas de análisis y de comparación de los modelos económicos potencialmente aplica-bles al área campana son notables a través del proyecto de investigación planteado. 

Un singular proyecto italo-español. Planteamiento y objetivos

El formato de colaboración elegido ha sido un proyecto de investigación bilateral, que aúne investigadores de ambas instituciones, y con un plazo de ejecución quinquenal, iniciado en el año 2008. La temática, “Pesca y garum en Pompeya y Herculano. La explotación de recursos del mar en ámbito vesubiano”, trata de desarrollar tres objetivos generales: — Recopilación y estudio arqueológico de todas las evidencias sobre la pesca en Pompeya y Herculano, con el objetivo de realizar una aproximación histórico-arqueológica precisa sobre las técnicas de pesca y los productos obtenidos del mar. — Recopilación y estudio arqueológico de todas las evidencias sobre la elaboración de conservas de pescado (Garum, salsamenta y otros derivados) en ambas ciudades, con el objeto de rastrear la repercusión de los mismos sobre la paleodieta y el comercio de dichos productos piscícolas en el Imperio por parte de las ciudades vesubianas. — Realizar una síntesis a medio plazo sobre la economía marítima de Pompeya y Herculano y de todos los aspectos relacionados con la explotación de los recursos marinos por ambas ciudades campanas. Para acometer los objetivos anteriormente esbozados y una vez obtenido el pertinente permiso de la Soprintendenza Archeologica di Pompei (en adelante, SAP) se plantean las si-guientes actividades científicas, vinculadas a cada uno.

Objetivo 1 (Pesca)
1.- Inventario y estudio del instrumental pesquero (básicamente anzuelos, pesas de red de plomo/cerámica/piedra, agujas para la reparación de redes y cualquier otro instrumental asociado, incluidos restos de redes).

2.- Inventario y estudio arqueozoológico de los restos de fauna marina existentes (ictiológicos, malacológicos y de otra naturaleza —corales, etc…—).

3.- Inventario y estudio de los restos muebles e inmuebles con iconografía marina, como complemento al estudio de la fauna (mosaicos, pinturas, etc…).

4.- Inventario de las piscinas utilizadas en los ambientes domésticos para el mantenimiento y posible engorde del pescado, es decir para tareas de acuicultura. Contamos con casi una decena de ejemplos recogidos recientemente, incluyendo algunas piscinas con oquedades para permitir guarecerse a los peces, como la del jardín de la casa VIII, 2, 14 (según Reese, 2002 a, 274-275 y figura 225).

Objetivo 2 (Salazones y salsas de pescado)

1.- Inventario y estudio de las ánforas y otros elementos cerámicos o de otra naturaleza (vítreos o metálicos) utilizados para envasar las salsas de origen local campano. Básicamente las denominadas ánforas del tipo Dr. 21/22, recientemente sistematizadas (Botte, 2007, 2008, 2009 a y b), los urcei del grupo de Umbricius Scaurus y otros con restos de preparados piscícolas —dolia o vasijas diversas, algunas con conservas en su interior— (AA.VV., 2005, 87 y 92).

2.- Inventario y estudio de los ambientes pompeyanos relacionados con el procesado/venta de pescado y con los responsables de la comercialización. Al menos, contamos apriorísticamente con dos ejemplos, que son la Casa de A. Umbricius Scaurus (VII, Insula Occidentalis, 12-15) y la denominada “Tienda del Garum (I, 12, 8), esta última de especial interés.

El tercer objetivo se desarrollará a medio plazo, cuando se ultime el proyecto y una vez que se disponga de los resultados científicos del mismo. En cuanto a la metodología de investigación arqueológica, y además de las estrategias tradicionales en el estudio de materiales arqueológicos muebles —el dibujo, la documentación gráfica y la toma de muestras—, está prevista la realización de estudios arqueométricos, especialmente en los que se refiere a la caracterización de restos físicos de paleocon-tenidos (como es el caso de los estudios arqueozoológicos, como por ejemplo de los restos de conserva de peces en un ánfora precisamente de la Tienda del Garum, ambiente 13; AA. VV., 2005, 87), así como analíticas orgánicas en envases relacionados potencialmente con conservas de origen piscícola, caso de los conocidos urcei de Umbricius Scaurus (AA.VV., 2005, 88, ficha 100) o los dolios utilizados aparen-temente para las conservas. El estudio de los ambientes inmuebles, adaptado a las exigencias habituales de la arqueología moderna, incluirá la topografía detallada de los ambientes, el estudio paramental y arqueo-arquitectónico y, en caso necesario, sondeos estratigráficos para la datación de los ambientes, todo ello bajo autorización expresa de la SAP. Ello ha conllevado la conformación de un equipo permanente conformado por arqueólogos, arqueozoólogos —ictiólogos y malacólogos—, arqueobotánicos, químicos.

La campaña del año 2008. Actividades y resultados preliminares

La campaña del año 2008 ha contado con la financiación por parte española del Ministerio de Cultura, a través del programa de Proyectos Arqueológicos en el Exterior, así como con la colaboración de la Fundación Pouroulis (Contrato OT2007/ 130 de la Universidad de Cádiz); asimismo a través de diversos proyectos PRINN financiados por el gobierno italiano.

Las actividades se han desarrollado entre mediados de junio y mediados de julio del año 2008, habiendo trabajado conjuntamente los investigadores italo-españoles. El equipo de trabajo ha estado coordinado por los tres codirectores—Dr. D. Bernal, Profesor Titular de Arqueología del Departamento de Historia, Geografía y Filosofía de la UCA y las Dras. D. Cottica y A. Zaccaria, Profesoras de Arqueología del Departamento de Ciencias de la Antigüedad y del Próximo Oriente de la UNIVE— Además de la colaboración puntual de otros investigadores y alumnos, han formado parte del equipo permanente las doctorandas italianas C. Acqua y E. Cappelletto, de Venecia. Por parte de la UCA han partici-pado la Dra. A. Arévalo, Profesora Titular de Arqueología, y los doctorandos y Becarios de Investigación de esta institución M. Bustamante, J. J. Díaz, J. Lagóstena y A. M. Sáez, así como los licenciados M. Lara y J. Vargas. Han participado asimismo investigadores de otras instituciones españolas, concretamente J. Bermejo, doctorando y Becario de Investigación de la Universidad de Huelva, F. Villada Paredes, Arqueólogo Municipal de la Ciudad Autónoma de Ceuta, R. Jiménez-Camino, Arqueólogo Municipal de la ciudad de Algeciras (Cádiz), L. Lorenzo, Gerente de Figlina, Gabinete de Arqueología, Desarrollo y Servicios del Patrimonio Cultural S. L. y A. Pouroulis, por parte de la Fundación Pouroulis. Agradecemos muy especialmente a P. G. Guzzo, Superintendente de la SAP de Pompeya, y a M. P. Guidobaldi, responsable de Herculano, su amabilidad y predisposición para el avance del proyecto. Asimismo, en Pompeya, a A. D’Ambrosio y al restante personal de la SAP por su eficaz gestión y ayuda en todo momento, muy especialmente a G. Di Martino y al Sr. Cesarano por su permanente disponibilidad, así como a los conserjes y responsables de la tutela de los bienes muebles e inmuebles. En Herculano, la amabilidad del Sr. Sirano ha permitido que el trabajo fuese muy cordial y agradable y, adicionalmente, tremendamente operativo.

Indicar, por último, que las actividades realizadas han constituido una primera toma de contacto con las instituciones gestoras del patrimonio y, especialmente, con los diferentes departamentos, laboratorios, almacenes y dependencias en las cuales se articula la SAP. Como se verá a continuación sucintamente, dicha atomización ha complicado el proceso de rastreo documental, por lo que buena parte de las actividades iniciadas en la primera anualidad deberán ser continuadas en futuras campañas del proyecto.

Las actividades realizadas pueden ser divididas en dos grandes grupos. De una parte, una serie de actuaciones vinculadas con la obtención de documentación sobre la industria pesquero-conservera en ámbito vesubiano, que han permitido una toma de contacto con los dos yacimientos objeto de estudio (Pompeya y Herculano) y con su problemática científica y el volumen de documentación disponible. De todo ello trataremos de dar cuenta sucintamente en las páginas que siguen. Sí queremos indicar que esta primera campaña ha constituido un acercamiento preliminar, habiendo testado la potencialidad de las líneas de trabajo previstas en el proyecto de investigación aprobado por la SAP, y, especialmente, la correcta valoración de las líneas de investigación y actuaciones a desarrollar en el futuro. Sí se ha podido valorar in situ tanto la viabilidad del proyecto como el interés científico del mismo, por lo que se ha decidido llevar a buen término la programación planteada inicialmente, que es quinquenal (2008-2012). Por otro lado, y de manera complementaria, la parte española del equipo ha desarrollado una colaboración en el proyecto Regio V de la Universidad de Venecia, materializada en la ejecución de una actividad arqueológica puntual —sondeo estratigráfico— en una de las insulae objeto de estudio por el equipo italiano, con el objetivo de generar un documental didáctico sobre metodología de investigación arqueológica, como veremos más adelante.

Actividades arqueológicas en Pompeya

El material arqueológico mueble de Pompeya está depositado en diversas dependencias aisladas, así como la documentación administrativa relativa a las excavaciones arqueológicas y la bibliografía publicada relativa a temas campanos. De ahí que se hayan tenido que arbitrar diversos grupos de trabajo paralelos que han desarrollado su actividad tanto en las dependencias administrativas de la SAP en Pompeya (Biblioteca y Archivo) como en los Laboratorios (Ciencias Aplicadas), en los almacenes (Casa de Bacco y Graneros del Foro) y en algunos de los inmuebles del propio yacimiento (Tienda del Garum y Casa de Umbricius Scaurus). Ha sido necesario incluso desplazarse a almacenes e instalaciones situadas fuera del propio yacimiento, como sucede con el Antiquarium de Boscoreale. De ahí que logísticamente la obtención de la información haya sido más compleja de lo habitual y su homogeneización será difícil, al encontrarse la misma dispersa, no sistematizada y con diver-so gradiente de accesibilidad. A continuación presentamos un balance sucinto de cada una de las actividades desarrolladas.

En relación a la documentación en la Biblioteca de la SAP, la ingente actividad científica en esta ciudad vesubiana desde el s. XVIII ha generado un caudal informativo copiosísimo. Una buena parte del mismo no está inserto en los canales de distribución científicos debido en parte a su antigüedad, como sucede con trabajos como el de Helbig (1868), que necesitan de una atenta lectura y escrutinio de cara a la obtención de datos sobre la explotación de recursos marinos. En otras ocasiones la publicación de las Notizie degli Scavi o de informaciones diversas en foros de difusión local/regional han provocado su desconocimiento por parte de la comunidad científica internacional. A esta tarea se han dedicado tres investigadores en turnos rotativos, que han realizado un vaciado sistemático de la Biblioteca de Pompeya, con interesantes resultados, pues en ocasiones constituyen las únicas referencias disponibles sobre hallazgos de instrumental pesquero, ánforas de transporte o iconografía marina que no se conocen por otro tipo de fuentes. Esta actividad ha sido iniciada, si bien la amplitud de la información editada requiere futuros acercamientos en detalle a esta problemática. Se ha procedido a realizar una primera Base de Datos exhaustiva de títulos bibliográficos de interés para el proyecto, más allá de los monográficos sobre la pesca o las conservas de Pompeya/Herculano ya conocidos previamente, escaneando/fotografiando el material más significativo, al tratarse en muchos casos de obras de difícil acceso. Las múltiples referencias obtenidas son de gran interés para la reconstrucción de los ambientes objeto de estudio como la “Tienda del Garum” y, en otras ocasiones, claves para la identificación de la procedencia topográfica de mucho material mueble, actualmente descontextualizado, conservado en los almacenes de la SAP. Se ha llevado a cabo un Diario de Trabajo con el control de todo el proceso de documentación, procediendo a la ejecución de visitas de campo puntuales destinadas a verificaciones diversas. Algunos de los trabajos consultados han sido de gran interés en relación al inicio de la línea de rastreo iconográfico, tratando de sistematizar todo el instrumental o la musivaria/pintura con temas marinos y/o pesqueros, como sucede con el conocido trabajo de Della Corte (1955). Por último, se ha iniciado el vaciado documental de los expedientes informatizados de la SAP, con interesantes resultados. La valoración del escrutinio bibliográfico ha sido altamente satisfactoria, habiendo permitido una primera aproximación a las temáticas objeto de estudio y habiendo aportado mucha información para contextualizar materiales arqueológicos vinculados con la pesca desconocidos previamente y, en algunos casos, no localizados actualmente en los inventarios de la SAP. En los Archivos de la SAP se han acometido labores análogas. Dispersos por varias instituciones, básicamente en la zona de oficias del yacimiento y en el interior de los “Uficci Scavi” se ha procedido a la revisión del material documental de diversa naturaleza, especialmente los libros de inventario y/o diarios de excavación inéditos y manuscritos (Fig. 2). Algunos de los diarios de excavación se encuentran informatizados y transcritos, mientras que en otras ocasiones la con-sulta de los mismos es manual, siendo un proceso lento y muy detallado. El vaciado sistemático de algunos de los libros de inventario ha proporcionado información de primera ma-no, como sucede con los diversos taxones de fauna marina —especialmente malacológicos— y restos de instrumental pesquero referidos en el Libro 4 del Anticuario Pompeiano (Vetrina 14, pp. 186-199, nº inventarios 1349-1519). Otro de los resultados interesantes del trabajo en los archivos ha sido la documentación de multitud de material gráfico y fotográfico de las antiguas excavaciones acometidas en los ambientes objeto de atención por parte del proyecto. Un buen ejemplo es el de la “Tienda del Garum”, inmueble del cual se ha podido rescatar parte del material fotográfico de las antiguas excavaciones en los años sesenta del siglo pasado así como de diversas intervenciones posteriores de la SAP en este ambiente (Fig. 3), que permiten contextualizar los hallazgos de ánforas y dolia en su interior. 

Fig. 2 Detalle del proceso de revisión y transcripción de la documentación original de los diarios de excavación (Casa di Bacco, Pompeya).

Fig. 3 Fotografía del Ambiente 9 de la “Tienda del Garum” (I, XII, 8), con los dolia y ánforas in situ (Archivo de la SAP).

Especialmente interesantes son una serie de bocetos, realizados por M. Oliva, cuyo estudio en curso permitirá en su momento la reconstrucción del ambiente arqueológico inmediatamente tras la finalización de las excavaciones en este inmueble por A. Maiuri (Fig. 4).

Se han realizado los contactos pertinentes con la Directora del Laboratorio de Ciencias Aplicadas de la SAP, Dra. A. M. Ciarallo, de cara a iniciar vías de colaboración. Además de una serie de visitas de cara al conocimiento de la colección de biofactos, se iniciaron los contactos con diver-sos colegas arqueozoólogos y biólogos de Nápoles para futuros trabajos conjuntos. Especialmente significativa es la colección de malacofauna procedente de las antiguas excavaciones (Fig. 5), en parte accesible desde la red, si bien las referencias topográficas y contextuales de una buena parte de los ejemplares son mínimas o inexistentes.

Asimismo, se iniciaron los estudios de localización, inventario y estudio preliminar del material arqueológico depositado en los almacenes de Pompeya, De una parte, se comenzaron los trabajos en la denominada “Casa di Bacco”, donde actualmente se encuentra la Dirección de las Excavaciones y otras dependencias administrativas, así como los ficheros con la información del material mueble inventariado preliminar mente. En primer lugar se ha procedido al vaciado selectivo de las fichas de inventario (“schede”), tratando de aislar ma-teriales objeto de interés por las descripciones temáticas y/o las ilustraciones. Especial interés se ha demostrado hacia el utillaje de pesca, las ánforas de producción local/regional, los restos de fauna o los elementos musivos o de otra naturale-za depositados en estas dependencias —como los conocidos mosaicos de la casa de A. Umbricius Scaurus— Debido a las características de los depósitos/almacenes, en los cuales el material custodiado es el especialmente relevante/selecto, los resultados positivos han sido los relacionados con materiales metálicos, destacando especialmente los anzuelos, las agujas de reparar redes/lanzaderas, las pesas plúmbeas, algunas relacionables con redes/artefactos pesqueros (Fig. 6).

Debido a la ingente cantidad de materiales y especialmente a la dificultad de acceso a los mismos, se decidió proceder a una primera selección de cara a su estudio, que ascendió a unos 50 ejemplares entre anzuelos y lanzaderas, procedentes en su mayor parte del ámbito periurbano (Pago Marittimo). Por su parte, en los almacenes conocidos como “Granai del Foro” se realizó un escrutinio de las procedencias del material mueble procedente de la “Tienda del Garum”, pues contábamos con información oral y gráfica del inventariado de parte de las ánforas de estas dependencias en los años noventa del siglo pasado. Especialmente interesante fue la documentación de parte del material de la “pila” de ánforas procedentes del Ambiente 13 de la “Tienda del Garum”, cuyo proceso de reubicación en los ambientes de procedencia pudo ser iniciado. Como ya se ha indicado anteriormente, se realizó el vaciado del Antiquarium de Boscoreale, un Museo de Sitio en el entorno periurbano de Pompeya en el cual la exposición permanente gira en torno a las relaciones hombre-medio, documentándose diversas evidencias relacionadas con los temas marinos. De una parte una interesante colección malacológica y en menor medida ictiológica, que ha sido debidamente inventariada y estudiada por nuestro equipo. Además de ello, se han estudiado aparejos de pesca broncíneos procedentes de diversas localizaciones y, especialmente, se han muestreado algunas ánforas que aún conservaban restos de sus paleocontenidos originales, concretamente el tercio inferior de una Dr. 21/22 (Fig. 7) y un ánfora oriental, cuya importancia es capital, ya que no superan la cifra de 50 las ánforas con este tipo de evidencias procedentes del Mediterráneo. Estos restos están actualmente en proceso de caracterización arqueozoológica por parte de los colegas C. G. Rodríguez Santana y R. Marlasca. De excepcional interés ha sido la localización de 13 fragmentos de una posible red de pesca, procedentes de la “Casa dell’Albergo” de Herculano, ya que son escasísimos los restos físicos de redes romanas conservadas, que no llegan a una decena en ámbito mediterráneo, cuyo muestreo de cara a la determinación del tipo de fibra utilizada ha sido realizado.

Fig. 4 Boceto a plumilla del Ambiente 13 de la “Tienda del Garum” (I, XII, 8), con una acumulación de ánforas mayoritariamente vinarias in situ, ac-tualmente en los almacenes de la Soprintendenza (Archivo de la SAP).

Fig. 5 Selección de malacofauna conservada en el Laboratorio de Ciencias Aplicadas de Pompeya.

De todos los ambientes pompeyanos, el más significativo para el proyecto es la conocida como “Garum Shop” o “Bottega del Garum” (Figs. 3 y 8), ya que su relación con la industria conservera es evidente según confirma el hallazgo en su interior de diversos dolia y algunas ánforas que aún preservaban restos de sus paleocontenidos originales. En este inmueble se realizaron durante la campaña del año 2008 una serie de actividades, consistentes básicamente en la localización en los archivos de la SAP de toda la información relativa a las excavaciones en este inmueble, transformada en ambiente industrial con posterioridad, posiblemente en época neroniana; en el inicio del estudio del material mueble conservado actualmente en su interior. Se trata de los restos en posición primaria —ánforas y especialmente dolios— como restos muebles de pequeñas dimensiones —fundamentalmente pondera— almacenados en diversos ambientes de la casa; y, por último, en la búsqueda y estudio en almacenes y otras dependencias de la SAP de materiales procedentes de este inmueble, desplazados con posterioridad. El resultado ha sido muy esperanzador, ya que la cantidad de documentación existente permitirá en el futuro reposicionar buena parte de los objetos en su ambiente, restituyendo la situación inmediatamente posterior a las excavaciones de Maiuri, y aportando un caudal de información que permitirá en su momento superar las apreciaciones contenidas en los estudios realizados en los años setenta (Curtis, 1979 a). De especial interés ha sido el muestreo de los siete dolios conservados en la tienda de cara a futuros estudios arqueozoológicos y pali-nológicos, estos últimos a cargo de las Dras. B. Ruiz Zapata y M. J. Gil de la Universidad de Alcalá de Henares.

Se ha procedido asimismo a la valoración in situ de la po-tencialidad de la casa de Aulus Umbricius Scaurus (VII, Insula Occidentales, 12-15), que apriorísticamente constituía unos de los ambientes arquitectónicos de mayor interés, dada la notable literatura editada y el conocido pavimento de su atrium con los urcei y las recetas alusivas a las conservas de pescado. No obstante, tras los trabajos de prospección visual en la misma, totalmente excavada, se ha decidido no focalizar la atención a esta cuestión, ya que constituye únicamente la casa de un rico comerciante o negotiator salsamentarius, en la cual la información existente sobre la industria conservera es mínima. No obstante, sí se considera conveniente para el futuro la necesidad de profundizar en el conocimiento de los ambientes cercanos (Casa del Marinaio e inmuebles adyacentes), procurando verificar la existencia de un posible barrio portuario en esta zona en torno a Porta Marina y las Termas Suburbanas.

Fig. 6 Instrumental pesquero de Pompeya conservado en la “Casa di Bacco”.

Fig. 7 Tercio inferior de un ánfora Dr. 21/22 con paleocontenido piscícola in situ, muestreada durante la campaña del año 2008 (Antiquarium de Bos-coreale).

Por último, una de las tareas prácticamente culminada du-rante el año 2008 ha sido el estudio de las ánforas de las primeras excavaciones estratigráficas en el foro de Pompeya, realizadas en 1980-1981, con motivo de la instalación de la acometida eléctrica en la ciudad, a cargo de P. Arthur. El ya mencionado proyecto de catalogación y estudio de todas las clases cerámicas de estas excavaciones a cargo de la UNIVE y la Universidad de Mattera incluye como primera entrega el volumen dedicado a los envases de transporte, el cual será editado en los próximos meses. En el marco del proyecto se ha procedido a la caracterización de residuos orgánicos adheridos a las paredes de las ánforas, a cargo de A. Pecci, de la Universidad de Siena, así como al estudio arqueométrico de las pastas cerámicas de los talleres del Círculo del Estrecho de los cuales podrían proceder algunas de las series anfóricas púnico-gaditanas detectadas en estas excavaciones arqueológicas.

Fig. 8 Planimetría esquemática de la “Tienda del Garum” según Curtis (1991, 94, fig. 6).

Actividades arqueológicas en Herculano

El proceso de documentación y estudio en Herculano ha sido similar al acometido en Pompeya, incluyendo una concatenación de actividades consecutivas (estudio bibliográfico; vaciado de archivos; inventario y estudio en almacenes….), por lo que en general las mismas consideraciones metodológicas aplicadas en el caso de Pompeya son válidas para esta otra ciudad vesubiana. Sí es cierto que los trabajos no han sido tan complejos como en Pompeya, debido a la centralización de los almacenes y dependencias administrativas en este caso. La cantidad de datos bibliográficos recabados y las informaciones procedentes de los Giornali dei Nuovi Scavi di Ercolano han sido notables, documentando como la zona más interesante de todas la parte baja de la ciudad en contacto con la línea de costa, en la cual se recuperaron restos de una embarcación y restos óseos de una treintena de individuos, algunos de ellos posibles pescadores. Se realizó un inventario preliminar de un conjunto aproximado de 500 piezas de interés, incluyendo especialmente pesas —buena parte de telares—(233 ejemplares), anillos plúmbeos (117), restos malacológi-cos (77), anzuelos (55), urcei cerámicos (31), ánforas (19), lanzaderas (18) y en menor medida arpones, agujas o elementos con representaciones iconográficas de tipo marino. De especial utilidad ha sido la consulta de la base de datos y de los archivos gráficos existentes en Herculano, con 4435 registros inventariados en las fechas de consulta. Se ha podido iniciar el estudio arqueológico de parte del material conservado, consistente básicamente en lanzaderas, anzuelos, pesas de red plúmbeas y algunos urcei completos, catalogación preliminar que deberá ser continuada en sucesivas fases del proyecto. De especial interés ha sido la localización de un palangre o “coffa”, conocida en ámbito vesubiano (Pappalar-do, 1990, 202, Fig. 5 A) pero cuya trascendencia en ámbito científico había sido nula. Se trata por el momento del único palangre conocido en todo el Mediterráneo, correspondiente con una cesta circular con tapadera, en cuyo interior se han documentado multitud de anzuelos broncíneos y restos físicos de las fibras que los unían (Fig. 9).

A través del estudio radiológico se ha confirmado la existencia de multitud de anzuelos de pequeñas/medianas dimensiones, que se encon-traban fijados al cabo madre y plegados en el interior de la cesta en el momento de la erupción. Debido a su interés se han muestreado todas las fibras y los restos orgánicos existentes, además de haber procedido al dibujo, pesado y descrip-ción de esta singular arte de pesca, en proceso de estudio actualmente.

Documental “Aprendiendo a excavar en Pompeya”

De manera complementaria al proyecto, se consideró de interés realizar un audiovisual sobre metodología de investigación arqueológica, dada la práctica inexistencia de este tipo de productos multimedia en el mercado actual, al menos documentales bien estructurados desde el punto de vista académico y científico. Su ejecución permitiría disponer de un recurso audiovisual en material arqueológica para ser utilizado por instituciones universitarias, máxime en unos momentos en los cuales el Espacio Europeo de Educación Superior requiere la continua y progresiva implantación de este tipo de recursos auxiliados por las TIC (campus virtual, etc.). Para ello se diseñó un guión tratando de valorar las principales facetas del trabajo de campo —excavación— y de las diversas fases del proceso de investigación arqueológica, desde el planteamiento de la hipótesis a la edición de los resultados. Se aprovechó la ejecución de un sondeo estratigráfico en la Regio V—del que hablaremos sucintamente a continuación— al tratarse de una actividad nueva, ya que no se había excavado en la zona con antelación. Se contó para ello con la empresa BIG THINGS-Colores Virtuales, debido a su dilatada experiencia en temas de museografía y a su intenso contacto con el gremio arqueológico en los últimos años. Un grupo de rodaje de cinco técnicos estuvo con el equipo arqueológico durante dos semanas. Actualmente se dispone de varias horas de filmaciones de materiales arqueológicos diversos, habiendo implicado a diversos técnicos de la SAP para todas las actividades, desde el Superintendente hasta los diversos laboratorios (Restaura-ción, Archivo, Ciencias Aplicadas, etc…) así como a todos los especialistas que colaboraron durante el proceso de investiga-ción arqueológica (sedimentóloga, vulcanólogo, etc…) y, evi-dentemente, a todos los miembros del equipo de investigación hispano-italiano, a cada uno de los cuales se le adjudicó un contenido específico a desarrollar. El trabajo de rodaje ha sido complejo desde el punto de vista logístico, y más aún lo está siendo la producción del documental, que aspira a ser trilingüe (español, italiano e inglés). Se realizó un tráiler del mismo, que fue presentado en octubre de 2008 en la UCA y en noviembre en la Escuela Española de Historia y Arqueología en Roma. Actualmente está en proceso de montaje, estando previsto disponer de la versión definitiva en un futuro cercano.

Fig. 9 Palangre de Herculano en el interior de una cesta carbonizada, con múltiples anzuelos y de los cabos de unión entre ellos.

Fig. 10 Vista cenital del Saggio 3 realizado en el marco de la colaboración en el proyecto Regio V (V, 4, 3), con el sistema de drenaje del viridarium (izda.) y las fosas de vertidos (dcha.).

Colaboración en el proyecto Regio V. Resultados del Saggio 3 (V, 4 , 3)

Como se ha comentado en la introducción, se ha ejecutado una intervención arqueológica de excavación en el Civi-co 3 de la Insula 4 de la Regio V, como una colaboración de la UCA en un proyecto dirigido por la UNIVE, centrado en el estudio topográfico-urbanístico y en la valoración de las transformaciones en estos inmuebles pompeyanos en clave diacrónica. Adicionalmente, esta excavación arqueológica ha permitido generar un recurso audiovisual con fines docentes para tratar de explicar de manera didáctica la metodología de investigación arqueológica, potenciando la recurrencia a cola-boraciones multidisciplinares. El sondeo estratigráfico se ha ejecutado en la parte trasera de la casa, ámbito utilizado como huerto/viridarium en los últimos momentos de vida de la vivienda.

Se han definido cinco Fases Históricas muy bien determinadas por los horizontes estratigráficos excavados (Bernal et alii, 2008). Tras momentos geológicos (Fase I), documentados por varios ni-veles de génesis volcánica y otro de matriz arcillosa —asociado a una posible inundación del río Sarno— se detectaron varios paleosuelos de tierra con numerosos restos orgánicos vinculados a áreas de huerto o campos para cultivos. Las evidencias de poblamiento más antiguas (Fase II) se corresponden con materiales cerámicos a mano y elementos de bucchero nero en posición secundaria en estratos posteriores, que denotan una ocupación de esta zona septentrional de Pompeya entre los ss. VI-III a. C., sin que sea por el momen-to posible avanzar más datos ante la ausencia de estructuras o áreas de ocupación bien definidas. La Fase III, fechada entre la segunda mitad del s. II a. C. y finales de dicha centuria o inicios de la siguiente es la mejor documentada, y a ella se asocian diversas actividades: desde la ejecución de una fosa de más de 2,5 mts. de profundidad en el geológico para la extracción de materia prima, a la construcción de la vivienda y del sistema de drenaje de la misma, al tiempo que se utilizó la parte trasera de la casa como área de vertido, como evidencian las múltiples fosas excavadas (Fig. 10), algunas de ellas con restos de malacofauna resultado del consumo de recursos marinos en época tardosamnítica. En época posterior la parte trasera de la vivienda fue utilizada como hortus/jardín, ya en el s. I a. C., y así permaneció hasta la fecha de la erupción (Fase IV). De estos últimos momentos han sido excavados y localizados diversos huecos de raíces, así como un parterre que confirma el uso de la zona para la plantación de vegetación, árboles y arbustos que fueron carbonizados en el 79 d. C., como ha podido ser confirmado por la localización de las oquedades totalmente colmatadas por lapilli volcánicos. Actualmente se encuentra en fase de estudio el estudio arqueobotánico de estas evidencias a cargo de A. Staracce, de la Universidad de Lecce. De época contemporánea (Fase V) se han localizado evidencias relacionadas con la excavación de esta insula en las primeras décadas del s. XX así como indicios de un sondeo estratigráfico realizado en el jardín en la segun-da mitad del s. XX, no referenciado en la documentación de la SAP, y restos muebles de las restauraciones acontecidas en estos inmuebles —especialmente en la colindante casa de Lucrecio Frontón— en la segunda mitad del s. XX (Bernal et alii, 2008). Los resultados de la excavación arqueológica han sido muy satisfactorios, y serán publicados conjuntamente con los resultados del proyecto Regio V de la UNIVE, actualmente en fase de redacción.

Difusión y diseminación del proyecto

Durante el mes de octubre del año 2008 se han realizado una serie de actividades para fortalecer los lazos institucionales entre las dos universidades implicadas en el proyecto, ya que el mismo constituye una acción bilateral entre ambas instituciones en Italia. Para ello se realizó un Acto Protocolario oficial en el Rectorado de la UCA en Cádiz para proceder a la firma del Convenio de Colaboración específico entre ambas instituciones, al cual asistieron el Rector de la UCA, Excmo. Sr. D. Diego Sales Márquez y la Excma. Sra. Da. Elide Pita-rello, Prorettore Vicario de la UNIVE, además del Decano de la Facultad de Filosofía y Letras de la UCA y los codirectores del proyecto.

Aprovechando la presencia de las Drs. Cottica y Zaccaria con motivo de dicho evento, se organizó una Jornada de Presentación del proyecto “Pesca y Garum en Pompeya y Herculano”, así como de los resultados científicos de la campaña del año 2008. Todo ello en un acto público en el Salón de Grados de la Facultad de Filosofía y Letras de la UCA, en el cual tuvieron lugar varias presentaciones científicas por parte de los codirectores del proyecto y, al final, la proyección del tráiler del documental. Con una nutrida asistencia, el evento tuvo una notable repercusión en la comunidad universitaria y en el colectivo de investigadores sobre estas temáticas de Historia Económica, algunos de los cuales se trasladaron monográficamente a Cádiz para el evento, que fue oportunamente difundido por los medios de comunicación.

Asimismo, se han realizado algunos avances del proyecto de investigación en diversos foros, españoles e italianos. Inicialmente se presentaron los resultados preliminares tanto en la reunión Excavaciones Españolas en Italia, Diez años de investigación (EEHAR, 18-19 de noviembre de 2008) como en el nº 3 del Boletín Noticias de la Escuela Española de Historia y Arqueología en Roma (Bernal, Cottica y Zaccaria, 2008). Y en ámbito regional se ha incluido una síntesis del proyecto y de su problemática en el nº 55 de la revista Andalucía Investiga, editada por la Consejería de Innovación, Ciencia y Empresa de la Junta de Andalucía. Asimismo, se ha remitido una reseña al nº 6 de Caetaria. Revista del Museo Municipal de Algeciras, de próxima edición. En Italia se publicó una noticia similar en el volumen denominado VI Giornata di Studio. Misioni Archeologiche e Progetti di Recerca e Scavo que tuvo lugar en la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Venecia (Cottica, 2008). Con estas actividades, noticias preliminares y con la difusión on line (www.circulodelestrecho.es) se considera bien difundido el proyecto de investigación, en-contrándose el equipo actualmente ultimando diversos traba-jos de investigación específicos para foros científicos especializados.

Valoración y perspectivas de futuro 

Durante el año 2008 se ha realizado el rodaje y complementación del equipo de investigación hispano-italiano, que con anterioridad no había tenido la ocasión de colaborar conjuntamente en trabajos de campo más que en ocasiones puntuales. Las numerosas actividades realizadas han confirmado la viabilidad del proyecto y la compenetración del equipo, que actualmente se encuentra totalmente engranado y con un óptimo clima de trabajo. Se han podido cubrir con creces las expectativas planteadas, ya que ha sido posible un primer contacto con la realidad pompeyana-herculanense, lo que se ha traducido en un conocimiento de primera mano de las fuentes documentales disponibles y del grado de accesibilidad de las mismas, además de las fundamentales cuestiones logísticas. Para la segunda campaña de trabajo de campo se tratará de profundizar en una serie de aspectos que a continuación resumimos: — Estudio iconográfico. Continuar y dedicar amplio esfuerzo a la compilación del corpus iconográfico relacionado con temáticas marinas. — Estudio de las potenciales evidencias de acuicultura. Iniciar el estudio de las cubetas, piscinas y otras estructuras negativas potencialmente relacionadas con el mantenimiento del pescado vivo y/o su engorde. — Documentación de materiales muebles en Pompeya y Herculano. Sendos equipos destinados a continuar las tareas de localización, inventariado y estudio arqueológico del material mueble relacionado con la industria pesquero-conservera en dichas ciudades. — Inicio del estudio arqueológico integral de la “Bottega del Garum” (I, XII, 8), que se ha revelado como el ambiente vesubiano de mayor interés para el proyecto, por el momento. En dicho inmueble las prioridades planteadas son las siguientes:

a- Documentación de la acumulación anfórica del patio trasero (Ambiente 13), incluyendo su desmontado, muestreo para analíticas orgánicas, documentación gráfica, restauración y remontaje. Asimismo, intervención en las áreas adyacentes, para valorar la potencialidad de la cubierta sedimentaria y los restos aún en posición primaria.
b- Limpieza a techo de muro y estudio de las estructuras emergentes del Primo Cortile (Ambiente 9) y muestreo de las canalizaciones.
c- Continuación de los estudios arqueo-arquitectónicos (finalización de la planimetría y ejecución de secciones y alzados).
d- Analíticas geoquímicas de pavimentos/estructuras, de cara a la determinación de la atribución funcional de los espacios.
Concluir, por último, indicando que entre las prioridades del proyecto, al emanar de instituciones universitarias, se encuentra la vertiente docente, por lo que la formación se convierte en un elemento clave del mismo. De ahí que hayan sido integrados como miembros del equipo permanente diversos doctorandos y estudiantes españoles e italianos, que han colaborado eficazmente en los trabajos de investigación y han tenido el privilegio de iniciarse en tareas de investigación en este marco geográfico inigualable.

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El garum de Pompeya y Herculano (2008-2012).
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Garum Publications and studies

Roman Fish Sauce

Roman Fish Sauce: Fish Bones Residues and the Practicalities of Supply

SALLY GRAINGER
Timberua Glen road. Grayshott Hindhead. Surrey GU266NB, UK sallygrain@aol.com
(Received 2 November 2012; Revised 14 May 2013; Accepted 22 May 2013)

ABSTRACT: In this paper I will report on the results of experiments, conducted from 2009 through to 2011, to manufacture Roman fish sauce, using the ancient recipes. More specifical- ly, it will consider the nature of the fish sauce residue, known as allec, observe its formation and assess its qualities. The paper concludes that many shipwrecks currently identified as having transported amphorae that contained a salted fish product made from mackerel may in fact be shipping a semi processed fish sauce which will go on to produce a quality liquamen type sauce at its destination. This paper offers a new interpretation of the archaeological remains found in ancient transport amphorae and provides new insights into the commerce of processed fish products in the Roman Mediterranean.

RESUMEN: En este trabajo se exponen los resultados de experimentos realizados entre 2009 y 2011 para manufacturar salsas de pescado romano siguiendo las recetas antiguas. En concreto, se considerará la naturaleza del residuo de salsa de pescado conocido como allec, y se detalla- rán su génesis y sus características. El trabajo concluye que muchos pecios, actualmente rese- ñados como portadores de ánforas que contenían una salazón de caballas, podrían de hecho haber contenido una salsa de pescado a medio procesar que habría servido de base para produ- cir una salsa de calidad tipo liquamen en destino. Este trabajo ofrece por tanto una nueva inter- pretación de los restos arqueológicos de peces recuperados en antiguas ánforas de transporte al tiempo que proporciona nuevas perspectivas en torno al comercio de productos procesados de pescado en el Mediterráneo romano.

INTRODUCTION

In this paper I report on the results of experiments, conducted from 2009 through to 2011, to manufacture Roman fish sauce, using the ancient recipes. More specifically this study examines the nature of the fish sauce residue, known as allec, observes its formation and assesses its qualities. Currently, our ability to recognize evidence of fish sauce through its residues in the archaeological record is limited by a lack of basic empirical knowledge of the products themselves. Van Neer & Ervynck (2002: 208) consider that fish sauce can only be identified where «fish bones are present» which is clearly a limiting factor for fishbone specialists interested in finding fish sauce in the archaeological record. The fish sauce associated with these residues of bone is perceived to be of lower status, while the fish sauce of quality is understood to be a clear free-flowing liquid and therefore largely invisible in the archaeological record (Desse-Berset & Desse, 2000: 75). In archaeology, we also continue to consider garum as a luxury fish sauce, and refer to classical archaeologists such as Curtis who necessarily use ancient «elite» perspectives from Rome to define the sauces (Corcoran, 1962; Curtis, 1991, 2009). The archaeological evidence for fish sauce, however, provides the sub-elite and even lower status perspective as the residues we find are largely identified as either the bulk commonplace sauce or the bony fish paste which is considered a slave ration. It has been difficult to reconcile and inte- grate the two worlds, the elite perspectives derived from literature and the lower status perspective from the archaeological record, to form a coherent picture of the ancient trade in fish sauce (Van Neer & Ervynck, 2002: 208). This paper offers a close study of the preparation of various fish sauces along with their residues in order to offer a new interpretation of the archaeological remains found in ancient transport amphorae and to understand more clearly Roman commerce of processed fish products1.

My approach has been multi disciplinary exam- ining and analyzing information from a variety of sources: the archaeological record for processing sites, the amphorae trade and the fish bone studies from ship wrecks and urban deposits, as well as ancient and modern literature pertaining to fish sauce production and use. My backgrounds are ideally suited to this study as I am a trained chef, have an ancient history degree, a published Roman food historian with a specialty in the Apicius recipe text where fish sauce is a commonplace ingredient, and I am trained in archaeology, having earned a MA in this discipline (Dalby & Grainger, 1996; Grainger, 2006; Grocock & Grainger, 2006). Thus I was able to integrate all the available evidence for fish sauce, both ancient and modern, in order to attempt to answer some of the more perplexing questions about this product and how it was traded.

1 My research forms part of a MA dissertation on fish sauce conducted at Reading University.

FISH SAUCE: THE BASICS

Both ancient and modern fish sauce is a liquid derived from the maceration and liquefaction of whole fish with salt. The process is known as enzyme hydrolysis. The enzymes are present in the viscera in large quantities, particularly the liver and spleen, and it is their action that converts the solid protein in the muscle tissue into amino acids and peptides dissolvable in the water (Mciver et al., 1982: 1017; Curtis, 2009: 712). The «sauce» is effectively the water contained within the fish, enriched with protein, as well as additional brine which takes on the same characteristics. The protein causes the fluid to be stained in various shades of yellow to brown. The sauces are often considered fermented, but, strictly speaking, fermentation requires bacterial action in relatively low salt conditions which are not mentioned in the ancient recipes (Owens & Mendoza, 1985: 273). There are various methods employed by modern South East Asian manufacturers which we find mirrored in the ancient recipes. The small Clupeidae and Sparidae commonly used are either, on a small scale, contained in sealed vessels, or, on a large scale, covered in concrete-lined tanks, which expose the product to the heat of the sun and some evaporation. Sometimes the fish are compressed in sealed barrels, which allow the fluid to drain from the bottom of the vessel while the residue remains intact. This compressed residue is then re-brined, often many times to extract all the potential nutrients before the residue is finally discarded or used for fertilizer, in contrast to ancient fish sauce residues which are used as another food source. Modern fish sauce is also produced in levels of salt considered excessive, 25-40% by weight. These levels of salt, which are acceptable in South East Asia, actually reduce enzyme activity and there- fore the potential nutritional value of the sauces (Crisan & Sands, 1975: 106; Lopetcharat, 2001: 65-68).

Ancient recipes for fish sauce survive in late Imperial Greek and Latin texts, though they are considered problematic for many reasons. The key text, the manuscript of the Geoponica is from Greek-speaking Byzantium and has been consid- ered too far removed in time from the manufacture of fish sauce envisioned in the western Mediterranean of the 1st century AD to be considered accurate (Comis & Re, 2009: 35). It is rarely suffi- ciently acknowledged, however, that fish sauces were Greek in origin in terms of the textual evidence, and their origins geographically were obscure 2. The cuisine we think of as Roman was originally devised and initially recorded in Greek texts during the 3rd and 2nd centuries BC. It subsequently spread and became an international Mediterranean cuisine rather than simply «Roman». Nevertheless, there remained key differences between the two culinary cultures, while, at the same time, a complex linguistic culinary crossover developed3. In fact, it is recognized in classical studies that the knowledge associated with all practical preparations was predominantly of Greek origin and found in veterinary, medicinal and culinary literature. The Romans in the western Mediterranean did not value practical skills and considered the labour associated with preparing fish sauce as demeaning, and, therefore, frequent- ly relied on the skills of Greek practitioners (Cicero de off. 1.150; Adams, 1995: 1-209; Dalby, 1996: 179; Grant, 2000: 3). The Geoponica was a farming manual preserved in a 10th century AD manuscript but containing material dated to the 6th century AD. It has recently been re-evaluated and correctly recognized as a manual preserving knowledge from the agricultural tradition of the entire Roman period rather than from the later periods and as such would, in fact, provide a reli- able account of fish sauce manufacture (Dalby, 2011: 13).

2 The process itself has either been attributed to Greeks via colonies in the Black Sea or a Phoenico-Punic one in Spain (Trakadas, 2004: 47).

3 The language of the kitchen was Greek in the same way as French dominated the professional kitchen of 19th/20th century. Cooking as a skill was dominated by Greek speaking/under- standing Romans who might be bilingual in the kitchen but not elsewhere and many terms were simply transliterated and a «culinary syntheses» emerged (Dalby,1996: 179).

There are three recipes that survive in the literature: two in the Geoponica, and one attributed to Gargilius Martialis, a 3rd century AD Latin writer. This text, however, is considered a medieval gloss and is not included in the recent Les belle Lettres series. It is also clear that a number of ingredients listed in the recipe were unavailable in Roman times, and, as a result, it is far less reliable in illustrating classical Roman practices (Curtis, 1984: 148; Maire, 2002). The texts are sited in full in the appendix. The recipes suggest that two basic types of sauce existed, though many different species of fish and different methods were used.

1 A mixture of small whole fish of the Clupeidae and Sparidae families considered small enough with the addition of extra viscera from other fish and salt added, allowing the mixture to liquefy in the sun until pickled. Liquid is then taken when the sauce flows through a basket and can be ladled out (Geo- ponica). This is a liquamen in Latin and garon in Greek4.

2 A mixture of somewhat larger fish, dominated by Scombridae as well as Clupeidae and Sparidae. These are cut up with salt and also the residue from previous fish sauce production known as allec 5 added. Apparently, no additional viscera was needed. Extra liquid (wine) could be used. This is pickled for 2-3 months (Geoponica). This is also liquamen in Latin and garon in Greek.

3 A similar variety of fish but the whole process is made in a sealed vessel and on a smaller scale (Gargilius Martialis). This is liquamen.

4 A quick and clearly domestic method where whole fish are boiled in brine until all flavour and nutrients are transferred to the liquid. The mixture is then fully strained (Geoponi- ca). This is also liquamen in Latin and garon in Greek.

5  A luxury sauce made with viscera and blood from tuna (though clearly other fish, such as mackerel, were used) and salt. This is allowed to ferment for two months and then removed by piercing the vessel and the sauce flows out from below (Geoponica). This is garum in Latin and either garon haimation (bloody) or melan (black) in Greek (Galen: Kuhn, 1965: 637)6.

6 A fish brine derived from the salting of cleaned fish. This is also a type of fish sauce seasoning and was considered cheaper or more commonplace (Ausonius Epis.21). As a fish brine, it actually seems to have been val- ued too (Olsen & Sens, 2000: 159). This is muria in Latin and halma/yris in Greek. Some modern scholars also considered it a form of garum 7.

The recipes suggest that there were many different ways to make fish sauce. In fact, from a literary study, which will be published elsewhere, it is clear that there were multiple qualities of fish sauce and defining them in terms of expensive or cheap is too simple; each variety could exist in varying qualities. It is clear that the perception of the quality of the product consumed depended on so many factors: taste; the use(s) of the sauce as different sauces do seem to have different roles within the cuisine; choice; income; and the consumer’s social position and where he viewed him- self/ herself within the social order. The sauce considered an expensive garum made from just blood and viscera will not be further discussed here.

4 The term is later transliterated into garum and the distinction between the two terms depends on the apparent early use of garum and the apparent later Latin usage of liquamen (Ettienne, 2006: 6; Curtis, 2009: 713). It is clear, however, that liquamen had a distinct and separate meaning from garum in the 1st century AD which I believe was maintained into the late empire (Grainger, 2013 forthcoming).

5 Curtis (1984) believes this usage of allec refers to its other meaning as a generic term for small fish of the Clupeidae and Sparidae families. As anchovy is specifically named in this recipe, such a definition seems to me unfounded.

6 It is my belief that garos and garum are not in fact equivalent (liquamen is equivalent to garos, garos melan/haimation is equivalent to garum. For a detailed discussion of this theory see Grainger (2013 forthcoming). For other references to «bloody» and «black» garos see papyri: P. Anst. inv. no 44; Aetius 3.83.

7 I have elsewhere published that I doubt that these elite ref- erences to muria (Martial Epigrams 13.103) being a form of blood/viscera sauce, with reference to the use of tuna viscera in the Geoponica, are correct. It is unlikely that tuna would make a whole-fish sauce but rather a blood/viscera sauce or a brine as a secondary product from salted fish (Grainger 2010: 25; Grainger, 2013, forthcoming). But see Corcoran (1963: 206) and Studer (1994: 195) for a different view.

THE ARCHAEOLOGICAL EVIDENCE FOR FISH SAUCE: THE FISH BONE REMAINS

The apparent residues of an ancient fish sauce have been found throughout the Roman Mediterranean, northern Europe and Roman Britain in the form of large amounts of discarded small-fish bones. The most important sites are listed in Table 1. The bones were dominated by poorly preserved small Clupeidae and Sparidae, 5-20 cm in length (Van Neer & Ervynck, 2002: 208). These residues were often inside or near the discarded amphorae, at ports or trading sites in the Mediterranean where the sauces were processed or sold. They were also identified inside the cetaria at processing sites in Southern Spain, North Africa and Portugal. These bone residues are generally interpreted as a form of allec, i.e., the fish sauce residue described in the Geoponica after the desirable sauce had been taken (Dalby, 2011: 349, l. 7). This was also considered a marketable product in its own right, i.e. a bony fish paste not unlike a gentlemen’s relish or pissalat with a potential market among the poor and slaves (Delaval & Poignant, 2007: 59-66). It has been pointed out by Van Neer & Ervynck (2002: 208) that it seems economically irrational to widely transport a residue which was perceived to be of low quality. The fish bone residues found at Masada that have been identified as allec by Cotton et al. (1996: 231) were derived from very small sardines (3-5 cm in length) from the Western Mediterranean, probably Spain, and, according to a passage in Pliny which will be discussed below, were identified as a luxury product traded into Palestine. These tiny bones may have been con- sumed along with the paste but I doubt such a product could have been considered elite or even remotely desirable. It is also important to note that the Geoponica actually states that the residue «makes allec» not that the residue is allec, which implies the bones were not an integral part of this product. Other examples of allec were derived from much more substantial Clupeidae and Spari- dae bones. Ultimately one has to imagine the bones being removed from the paste by the con- sumer as and when required which is not a simple procedure. Of course, had this in fact been the case, the bones would not be found in one discrete place, but rather would be distributed all over the archaeological record and be unrecognizable. It is only because the discarded bones have been found in large quantities that we can recognize them as some sort of fish sauce residue. It is not really clear what process was involved in discarding the sauce represented by the bones in or near amphorae. It has been suggested that spoilage of the sauce caused these events but this does not seem to be an adequate explanation for all the evi- dence (Hamilton-Dyer, 2001: 4).

Urban sites
• Saltsberg Clupeidae and Sparidae 4-12 cm (Lepsikaar, 1986)
• Masada Clupeidae 4-5 cm (Cotton et al., 1996)
• Cerro del Mar, Málaga multiple samples including Clupeidae and Sparidae 10-20 cm (Driesch, 1980) • Olbia 1 Clupeidae and Sparidae 15-20 cm (Bruschi & Wilkins, 1996; Dellusi & Wilkins, 2000)
• Olbia 2 Clupeidae and Sparidae 5-10 cm (Bruschi & Wilkins, 1996; Dellusi & Wilkins, 2000)
• London Peninsula house Sprattus sprattus and Clupea harengus – 8 cm (Bateman & Locker, 1982)
• York, Dorchester Sprattus sprattus and Clupea harengus 7-10 (Hamilton-Dyer, 2008)
• Tienen Clupeidae 5 cm (Van Neer et al., 2005)
• Setubal Clupeidae and Sparidae 8-19 cm (Desse-Berset & Desse, 2000)
Ship wrecks
• Randello c.300AD, Almagro 50, sardine 10-17 cm (Wheeler & Locker, 1984)

TABLE 1
Fish sauce residues considered allec from urban and shipwreck sites.

The ancient literature on allec is very confusing and therefore needs to be re-examined. Pliny the Elder is the text most often cited:

«Allec is the sediment of garum, the dregs neither strained nor whole. It has, however, begun to be made separately from tiny fish, otherwise of no use. The Romans call it apua, the Greeks aphye, because this tiny fish is bred out of rain. …….. Then allex became a luxury and its various kinds have come to be innumerable…… Thus allex has come to be made from oysters, sea urchins, sea anemones, and mullet’s liver, and salt to be cor- rupted in numberless ways so as to suit all palates».

Pliny the Elder HN. 31.96

The passage is neutral about the value of allec made from «apua» and the luxury tag is only really associated with the bone-free fish pastes made from sea food such as sea urchins and oysters. The evidence from amphorae tituli picti and elite literary references also make it clear that, in fact, the best fish sauces was made specifically from mackerel. We may assume that the best allec would have been derived from this meaty fish too. Curtis (1991: 195) records one tituli picti designating the allec from mackerel.
The artisanal fish paste known as pissalat made in the region of France between Nice and Marseille was made from anchovies of various sizes. The bones were not removed from those tiny anchovies used to make pissalat in Antibes, Figure 1; «Born of rain» seems particularly apt (Delaval & Poignant, 2007: 62). I had a conversation with an artisanal pissalat maker at a Nice market who told me that, if the sardines are any bigger, the bones are sieved out. It seems clear that the reference by Pliny to allec becoming a luxury was not concerned with fish sauce or its residue at all. Rather, this allec that was a smooth fish paste did not generate a sauce. The nutrients were retained in the paste, it did not hydrolyze into a liquid, and the bones were sieved out while the fish were soft but not dissolved. It appears that the most commonplace and non-elite fish sauce that we know was traded so widely was in fact represented by bones from the Clupeidae and Sparidae family in a 5-20 cm size range, as noted by Desse-Berset & Desse (2000: 91), and which, in fact, we find associated with amphorae across the Roman Empire and at processing sites.

The evidence for the best fish sauce made exclusively from mackerel has not been easy to find. There is, however, extensive evidence from imperial Roman shipwrecks for the transporting of mackerel stored in amphorae that, though appearing to be designed for a liquid fish sauce, have been identified as transporting a salted Spanish mackerel. The shipwreck sites are listed in Table 2. The identification of the product as salted fish has been largely due to the comparatively large size of the Spanish mackerel and other Clupeidae and Sparidae when compared to those associated withallec, and to the extremely high quality of its preservation (Desse-Berset & Desse, 2000: 91). The theory has been that a fish sauce product would result in fragmentary bone, and this, in fact, does seem to be the case in some of the land-based evidence for allec. All the shipwreck bone evidence, however, is quite unique in being so well-preserved, and this may be due to the specific anti-bacterial environmental conditions of the sea.

FIGURE 1 Sardine used to make pissalat which are aptly described as «born of rain» by Pliny (HN 61.95; Delaval & Poignant, 2007: 62).

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Sud Perduto II. Dressel 7/9, 1st Century AD, Scomber japonicus 40-48 cm (Parker, 1992: 1121; Desse- Berset, 1993: 343, Desse-Berset & Desse, 2000: 76-79)
Cape Bear III (Port Vendres) Dressel 12, Scomber japonicus 28-40 cm (Parker, 1992: 171; Desse-Berset & Desse, 2000: 80)
Port Vendres II Dressel 7, Scomber japonicus size unknown (Colls et al., 1977: 40-43; Parker, 1992: 331; García Vargas, 1998; Desse-Berset & Desse, 2000: 81)
St Gervaise III, Beltran 2b, Trachurus trachurus 40-50 cm (Parker, 1992: 373; Desse-Berset & Desse, 2000: 81)
Anse Gerbal (Port Vendres 1) c.325 AD, Almagro 50/51 Sardina pilchardus 22-25 cm (Parker, 1992: 874; Desse-Berset & Desse, 2000: 92)
Elba II (Chiessi), mid 1st century AD, Scomber japonicus 30 cm (Bruschi & Wilkins, 1996: 167; Dellusi & Wilkins, 2000)
Grado , 2nd century AD, Scomber japonicus 30 cm and Sardina pilchardus size unknown (Auriemma, 2000: 31-49; Dellusi & Wilkins, 2000: 53-65).
Cala Reale al Asinara, 4/5th century AD, Almagro 51, Sardina pilchardus size unknown (Dellusi & Wilkins, 2000; Desse-Berset & Desse, 2000).

TABLE 2 Ship wreck evidence currently considered salted fish.

Only one Roman shipwreck has been tentatively identified as carrying a fish sauce allec and that is Randello (see Table 1; Wheeler & Locker, 1984). This is due to the large number of fishes represented relative to the size of the amphora, and their very small size. There are two key shipwreck sites that require discussion. Grado, a 2nd century AD wreck in the northern Adriatic is exceptional in having large quantities of well-preserved mackerel and sardine bones in numerous different types of large African amphorae as well as small but empty amphorae with a tituli picti stating the product as a liq(uamen) Flos. The bones are currently identified as a salted fish (Auriemma, 2000: 31-49; Dellusu & Wilkens, 2000: 53-65). The 1st century AD wreck at Cape Bear III at Port Vendres contained Dressel 12 amphorae, and the mackerel apparently transported in them were up to 40 cm in length. I do not think it is possible for mackerel this large to be put inside such an amphora even in pieces: it would have been impossible to get them in or get them out as can be seen from their shape (Desse-Berset & Desse, 2000: 79-81).

The Dressel 12 amphorae (Figure 2) are clearly a liquid container and it is my contention that these shipwrecks as well as many others transporting mackerel (or uniform Clupeidae and Sparidae of a similar nature) were actually carrying a form of mackerel allec.
I was unsure for what economic purpose this served until my experiments demonstrated the logic behind this practice.

http://archaeologydataservice.ac.uk/archives/ view/amphora_ahrb_2005/drawings.cfm?id=67&CFID=2827207&CFTOKEN=41216567.

FIGURE 2 Dressel 12 amphora.

THE EXPERIMENTS

Over the last three years, I made 10 different sauces, sticking closely to the basic recipes but adjusting the variables each time in order to determine the perfect conditions required to maximise speed of liquefaction as well as nutritional and culinary quality in the bulk process indicated by the large cetaria (salting tanks) found in Southern Spain and North Africa. I processed my fish in a green house in fish tanks which allowed me to duplicate Mediterranean temperatures quite closely. Most of the data I used to determine these ideal conditions were based on an early observational study which was both complex and time-consuming to relate in detail here. The variables were as follows:

SALT LEVELS: These are stated to be 15% or 7 parts fish to 1 part salt in the Geoponica. The Gargilius recipe is estimated at 3:1 which is much closer to modern fish sauce salt levels and has also been demonstrated to reduce nutritional yield (Klomklao et al., 2006: 443).

PRESENCE OR ABSENCE OF ADDITIONAL VISCERA: In one recipe, smaller fish were pickled with extra viscera, while the other two made no mention of additional viscera. As a bulk catch of Clupeidae and Sparidae could not sensibly be individually processed, this may suggest that the extra viscera was designed to aid the liquefaction process where the viscera cavity was not exposed.

PRESENCE OR ABSENCE OF ADDITIONAL LIQUID: One Geoponica recipe calls for wine at a ratio of 1 fish to 2 wine. This was assumed to be a later stage in production, i.e. the oenogarum sauces mentioned in recipes (Grainger, 2007: 106) and also excessive. The other two recipes, however, made no mention of extra liquid.

FISH VARIETY AND SIZE: I used sprat (5-10 cm) caught and frozen on board ship, sardine (8-24 cm) caught the night before in Scottish waters and mackerel (25-35 cm) caught and salted by myself in the Solent near Portsmouth.

TEMPERATURE: The air temperature of the coastal regions around Cádiz and Gibraltar during the summer range from 15-35°C with an average midday temperature in June, July and August of 30°C. These temperatures were mirrored inside the green house over the duration of the experiments. The liquid temperature of the sauce during the hottest period of the day never reached above 20°C.

CLOSED OR OPEN VESSEL: If the vessel or salting tank was open to the sun, as suggested in the Geoponica, then evaporation will eventually result in a gradual reduction in volume. Either the
sauce was taken before this can happen or extra liquid was added.

OPEN OR CLOSED ABDOMINAL CAVITY: Small fish were left whole. From the Gargilius recipe, it appears that larger fish were cut into pieces, thus exposing the viscera. The Geoponica does not stipulate cutting but implies pieces by the instruction to kneed the fish with salt.

COOKING OR NOT: One of the suggested ways to make fish sauce was to boil the fish in brine and strain the liquor. The text made it clear that this was certainly a separate domestic and small-scale process and that fermentation and cooking were not combined in the bulk process. Modern fish sauce production considers that excessive heat destroys the enzymes that hydrolyse the protein (Geoponica 20.46; Klomklao et al., 2006: 444).

LENGTH OF PROCESSING TIME: The recipes in the Geoponica suggested 2-3 months for the whole fish sauce and 2 months for the blood and viscera sauce. A further Geoponica recipe did not stipulate a time limit, and the Gargilius Martialis recipe appeared to suggest just a few weeks.

SUMMARY OF RESULTS AFTER 3-YEAR OBSERVATION

The exposed and/or extra viscera initially maximized the brine yield. Without one or the other of these and ideally both, the yield of natural water from the fish was too small in volume to dissolve the salt, resulting in a crunchy fish mash. Similar findings were reported by Commis & Re (2009).

As I conjectured, the brine that was generated steadily evaporated, and the sauce yield was limited in the thick gray paste that formed. I lost up to 15% of volume over the first 2 weeks in the first sardine and sprat sauces. I found that when sufficient digesting enzyme activity was present (exposed and/or additional viscera), the skin begun to disappear in the liquid and the muscle tissue appeared to «explode in slow motion» within a few days, i.e. the tissue softened and separated into small particles which floated free within the liquid. This was what formed the dense paste. These particles could rapidly saturate the limited liquid that was present, and, when this happened no further disintegration could take place. It was the smallest fish that dissolved first, while the majority of larger sardine and mackerel pieces remained undissolved, most likely due to the lack of sufficient liquid for the process to take place. The ratio of extra liquid suggested in the Geoponica, (wine but brine was more likely) was 1 fish: 2 liquid. This seemed likely to dilute the sauce too much, and so early experiments used a reversal of this ratio, i.e. 2 fish: 1 brine in sauces with and without additional viscera. The process of disintegration restarted in this new liquid and the thick grey paste became an emulsion. Initially, the dark clear sauce emerged on the top of the tank, while the particles sank and merged with the remaining fish pieces. But as the process of stirring continued, this was reversed, and the particles rose to the surface causing the desirable sauce to be trapped underneath. It is con- jectured that the liquid had become enriched in protein as the density was increased, forcing the particles to float over the heavier liquid. At this point evaporation ceased.

The sauce made from sardines (8-24 cm), without the additional viscera but with 2 fish: 1 extra brine, generated a copious emulsion after three months of processing. At least 40% of the sardine in the 15-24 cm size range, however, remained structurally intact though the viscera cavity was eroded as can be seen in Figure 3.

FIGURE 3

Sardines over 15 cm after 3 months of fermentation with their cavity eroded but the majority of muscle tissue intact. This sauce had sufficient liquid but did not contain extra viscera and therefore did not have enough enzyme activity to dissolve the larger fish.

It was possible to re-brine this volume of remaining fish flesh and generate a second sauce which was by no means of second quality. In order to determine whether extra viscerae or more brine or both were necessary to ensure more of the fish were dissolved, an experiment was developed using a batch of mackerel sauce made with the fish cut into 3 pieces and with additional viscera at 10% and the original ratio of brine at 1 part fish to 2 parts brine.

This recipe resulted in a dramatic liquefaction. It took from one week to ten days to liquefy and disarticulate up to 8 kg of mackerel. This was clearly too fast, and, as it was accompanied by fairly rapid spoilage of the sauce in the following months, it was determined that this ratio of extra liquid resulted in a weak and unstable sauce. It also seemed likely that the manufacturer would not want to dilute the sauce in the early stages any more than necessary, particularly as a concentrated fish sauce would be more economical to transport. Further experiments using more viscera and a liquid ratio of 2:1 continued to leave 25-30% of the fish flesh un-liquefied. See Figure 4 for the bony allec from this mackerel sauce.

It seemed likely that the enzymes could not liquefy any more fish in these conditions. A ratio of 2 parts fish to 1 part brine with 10% extra viscera proved the most effective in producing a sauce efficiently liquefied with maximum nutrition while leaving sufficient remaining fish to generate a good second sauce. One may imagine that it would be highly profitable for fish sauce manufacturers to generate two equal sauces in terms of nutrition and taste from one batch of fish.

FIGURE 4

A residue (allec) of unliquefied mackerel, having been cut into pieces and processed with sufficient extra viscera and extra liquid to generate a saturated emulsion after 2 months fermentation.

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THE SAUCE ITSELF AND ITS NATURE

In ideal conditions of high enzyme activity (provided by the extra viscera, sufficient liquid, and heat), the cartilage is also digested by the enzyme action, and this results in complete disar- ticulation of the smaller fish skeletons (5-10 cm). In these ideal conditions, many of the larger pieces or whole fish still did not fully liquefy in the increased volume of fluid. All the fish pieces and disarticulated bone initially remain suspended if small and then fell to the bottom throughout the majority of the process. With an extended processing time (over 2 months), however, the sauce became so rich in protein that the density of the sauce increased. The bones and even large pieces of undissolved fish rose through the thick layer of fish particles to the surface. Prior to this while the bones were still largely at the bottom, the tank was full of a thick emulsion which could be easily removed with minimal bone contamination. This emulsion constituted the unfiltered sauce. I have been able to demonstrate through laboratory test- ing that the nutritional value of the final sauce was greatly improved by storage in this unfiltered state. After discussing this product with Robert Curtis, he agreed that this unfiltered sauce could well be identified with the tituli picti «flos». When these identifying labels signify flos flos or floris, it is possible that a filtered sauce, i.e a sauce derived from the flos («flower of the flower»), was intended, though we can also see from tituli picti that other ways to signify a filtered sauce were possi- ble [CIL 4.7110: liquamen optimum saccatum «the best filtered fish sauce»; Curtis (1991: 195), Grainger (2010: 69)]. Had this product been put directly into an amphora, it would continue to set- tle out with the desirable sauce in the base spike while the paste forms a plug near the top. Figure 5 shows a mackerel flos liquamen after it has settled.

Currently, I am experimenting with the possibility that this emulsion was diluted at this stage (with reference to common tituli picti for lymphatum) to reduce the specific gravity and cause the bone-free allec to settle into the spike and free up the sauce so it can be accessed. This would then constitute the bone-free allec valued as a fish paste.

WHAT HAPPENED TO THE BONES

When larger fish such as mackerel (20-40 cm) are used, I estimate that as much as 40% of the fish can remain undissolved and clearly constitute a potential second sauce. When smaller and very small fish (5-10 cm) are used such as Sprattus sprattus, the majority of the flesh is dissolved and the bones disarticulate, but the layer of bone is thick and rich in allec and able to generate a second sauce of lesser quality if diluted. In both scenarios, re-brining could occur either in situ or, as I would like to suggest, once the allec has been put into other amphorae. This would free up the processing tank for another batch of fish while they are in abundance during the summer months and allow the second sauces to be generated in transit.

The small-scale recipes recommended using a basket to filter the sauce of bone when it was removed. On a large scale, this seems both unwieldy and hard to envision. Without a bone filter, as the emulsion was removed, more of the thick sauce will be contaminated by the bone. In fact, it is likely the process of removal of the sauce did not stop, i.e. as the bone was revealed, it sim- ply went into other amphorae. In this way, early amphorae used for the flos product would have small amounts of bone, while later ones, probably of a different shape, contained larger amounts. In each case, it was the liquid fish sauce that was the final product. The bones were transported because they still retained flesh or were in a thick paste and could not be easily removed if disarticulated. We have been looking for a rational economic reason why what appears to be a very bony fish sauce residue was shipped so widely. We believe we now have a logical reason. Rather than the bony allec being a fish paste of limited value, it was simply a semi-processed fish sauce waiting further processing. In transit, the sauce developed its protein levels, and, at the port, market, or place of use, the new flos emulsion would be poured off the bones remaining in the amphora. It is very likely that many of the urban sites with evidence of allec will undoubtedly represent this discarded bone (see Table 2).

One of the defining characters of the fish sauces» residues found on land, first identified by Desse-Berset & Desse (2000: 91), was the quality of the preservation. The bones were often fragmentary, even described as fish bone flour. This damage was judged to be caused by the fermentation process and decomposition. Also, it was assumed that, as cooking is considered to be part of the process, this would have also damaged the bone (Desse-Berset & Desse, 2000: 93). It is important to note that there was no apparent dam- age to the bones caused by the fermentation process (Figure 6 shows mackerel opercula after a successful fermentation).

There was also no evidence of digestion in the form of acid etching. As already noted, cooking of a fish sauce appeared to be a separate and domestic process that was unlikely to have been used in conjunction with fermentation, and modern fish sauce techniques confirm this (Klomklao et al., 2006: 444). It is therefore possible to demonstrate that a shipment of mackerel allec subsequently ship-wrecked in the Mediterranean only a few weeks after processing would contain substantial amounts of flesh on articulated skeletons. In these circumstances, it would be impossible to distinguish between a salted fish product and one intended to be a fish sauce, using the current criteria identified by Desse-Berset & Desse (2000: 93). It seems like- ly that the defining factor in a case like Cape bear III would be the shape and size of the amphorae. In this case, the Dressel 12 amphorae, with their narrow elongated body and narrow neck, would clearly suggest semi-liquid rather than solid pieces. The Grado wreck is also of great significance. Many of the sardines remained articulated, and organic matter was present which suggest the ship may have gone down very shortly after departing. We can now see that the empty amphorae labelled as liquamen flos may have held the first sauce while the fish bones, placed in whatever amphorae were available, represented the second sauce being generated in transit.

FIGURE 5
The sauce in the form of an emulsion removed from fermented sardine, demonstrating the particles of muscle tissue in the liquid. We may considered this a «flos liquamen».

FIGURE 6
Mackerel opercula from an efficient mackerel liquamen demonstrating little damage or acid erosion.

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CONCLUSIONS

It has been possible to demonstrate that the residue of ancient fish sauce known as allec probably existed in two forms: the bone, and semi-digested fish mash which constituted a fish sauce concentrate being generated in transit and a runny bone free fish paste. The latter was likely found in the spike of fish sauce amphorae and was probably consumed as a relish or even re-brined to generate the genuine second-quality sauces that we find on amphora tituli picti. I believe it can also be demonstrated that, when whole fish sauce was manufactured, a «second sauce» from the same batch of fish may also have been shipped alongside the first sauce, and this constituted the allec currently identified as a separate bony fish paste. Both products may have needed further processing by traders and merchants before being ready for sale. The fish bone evidence associated with shipwrecks and discarded amphorae from urban sites needs re-evaluating in light of these findings. It may be possible, when finding in the future new shipwrecks, to compare the shape of amphorae with the fish bone evidence inside the vessels and determine just what was being shipped. Many of the fish bones currently considered a salted fish product were shipped in the Dressel 7-14 forms which amphorae specialists consider a fish sauce vessel rather than a salted fish vessel. One may imagine that liquids and solids would ideally be shipped in vessels designed for this purpose as Opait (2007: 117) has pointed out. The choice of vessel would clearly depend on circumstances and availability, and the re-use of amphorae make the whole issue very much more complex. The fact of re-use may render any firm conclusions about the products inside impossible. These preliminary conclusions have opened up the issue of the trade in fish across the Mediterranean. In turn, they may have profound consequences not only for our interpretation of the fish bone evidence associated with fish sauce but also much wider implications for our interpretation of the ancient economy and more particularly the relationship between Spain and Italy in terms of the trade in fish and other products.

APPENDIX 1

The Geoponica 46. Making gara

The so-called liquamen is made thus. Fish entrails are put in a container and salted; and little fish, especially sand-smelt or small red mullet or mendole or anchovy, or any small enough, are all similarly salted; and left to pickle in the sun, stirring frequently. When the heat has pickled them, the garos is got from them thus: a deep close woven basket is inserted into the centre of the vessel containing these fish, and the garos flows into the basket. This, then, is how the liquamen is obtained by filtering through the basket; the residue makes alix.

The Bithynians make it thus. Take preferably small or large mendole, or, if none, anchovy or scad or mackerel, or also alix, and a mixture of all these, and put them into a baker’s bowl of the kind in which dough is kneaded; to one modios of fish knead in 6 Italian pints of salt so that it is well mixed with the fish, and leaving it overnight put it in an earthenware vessel and leave it uncovered in the sun for 2 or 3 months, occasionally stirring with a stick, then take [the fluid?], cover and store. Some add 2 pints of old wine to each pint of fish.

If you want to use the garon at once, that is, not by ageing in the sun but by cooking, make it thus. Into pure brine, which you have tested by floating an egg in it (if it sinks, the brine is not salty enough) in a new bowl, put the fish; add oregano; place over a sufficient fire, until it boils, that is, until it begins to reduce a little. Some also add grape syrup. Then cool and filter it; filter a second and a third time until it runs clear; cover and store. A rather high quality garos, called haimation, is made thus. Take tunny entrails with the gills, fluid and blood, sprinkle with sufficient salt, leave in a vessel for two months at the most; then pierce the jar, and the garos called haimation flows out.

Translation: Andrew Dalby (2011), The Geoponica Prospect Books.

(Pseudo) Gargilius Martialis, Medicinae ex holeribus et pomis 62.

A confection of liquamen which is called oenogarum.
Naturally oily fishes are caught/ taken, such as are salmon and eels and shad and sardines or herrings, and an arrangement of the following kind is made of them along with dried fragrant herbs with salt/ they are put together with fragrant died herbs and salt in this way. A good, sturdy vessel. well pitched, with a capacity of three or four modii, is got ready, and dried herbs with a good fragrance are taken – these can be garden or field herbs – namely dill, coriander, fennel, celery, sicareia, sclareia?, rue, mint, sisymbrium (?wild thyme), lovage, pennyroyal, oregano, bettony, argemonia, and the first layer is spread out at the bottom of the vessel using these. Then the second layer is laid down using fish –whole if they are small, cut in pieces if they are larger – over this is added the third layer of salt two fingers deep, and the vessel is to be filled right to the top in this, with succes- sive triple layers of herbs, fish and salt. It should then be closed up with a lid fitted and put aside as it is for seven days.

When the seven days are over, the mixture should be stirred right to the bottom, using a wooden paddle shaped like an oar, twice or three times every day. When this process is complete, the liquor which flows out of this mixture is collected. And in this way liquamen or oenogarum is made from it. Two sextarii of this liquor are taken and are mixed with half a sextarius of wine, then single bundles of (each of) four herbs – viz. dill, coriander, savoury and sclareia. A (one) little handful of fenugreek seed is also thrown in, and of the aromatics thirty or forty grains of pepper, three pennies of costum by weight, the same of cinnamon, the same of clove, and when pounded up finely these are mixed with the same liquor.

Then this mixture should be cooked in an iron or a bronze pan until it reduced to a sextarius in volume. But before it is cooked half a pound of purified honey ought to be added to it. When it has been cooked it ought to be strained through a bag like a medicine until it is clear – it needs to be boiling when it is poured into the bag. When clarified and cooled it is kept in a well-pitched vessel in order to give flavour to opsonia.

Translation Dr C. Grocock

Categories
The Atlantic Diet Publications and studies

The Atlantic Diet – Origin and features

The Atlantic Diet – Origin and features

Manuela Vaz Velho and Rita Pinheiro and Ana Sofia Rodrigues

Abstract
Despite globalization there still are food patterns which are clearly dierentiated from one region to another in Europe and elsewhere. In this study the Atlantic Diet is considered as the traditional diet in Portugal and Galicia, a region in northwest Spain.
This paper aims to contribute to a better understanding of the Atlantic Diet food pattern in order to fully exploit the potential of this Atlantic gastronomical heritage.
The background of the Atlantic Diet concept, the characterization of Atlantic Diet foods and a compilation of scientic ndings related to the consumption of these foods are covered.
A brief description of the Mediterranean Diet, the primitive pattern and the updated Mediterranean pyramid are also included in order to aid understanding of the globalization of this previously local health food pattern.
Final remarks and suggestions for further studies are made.
Keywords: Atlantic Diet; Food patterns

1 Introduction

The Atlantic Diet concept originated some years ago when the Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC), University of Santiago de Compostela, Spanish Nutrition Foundation (FEN) and Galician Association for the study of the Atlantic Diet (ASGAEDA) joined forces with the objective of placing the Atlantic Diet as a worldwide reference for a healthy diet. As a result of discussions between scientists from the Spanish and Portuguese Atlantic regions, the European Center for the Atlantic Diet (CEDA) was founded in 2003 in Portugal. Subsequently the\Atlantic Diet Foundation” was created in 2007 in Galicia, Spain by the University of Santiago de Compostela.

In 2006 these institutions and organizations committed to the Atlantic Diet signed the \Baione Declaration on the Atlantic Diet” with the aim of developing a strategy for the promotion and maintenance of the Atlantic Diet at dierent levels, and having the following objectives:
. The promotion of the Atlantic Diet as a source of health and pleasure;
. The promotion of research, development and innovation on the Atlantic Diet, with respect to health in the area of sheries, aquaculture, agriculture, livestock, viticulture and natural resources;
. The involvement of the food industry, tourism and catering sectors to develop and apply the main elements of the Atlantic Diet within principal and supplementary foods, through both traditional and innovative cooking preparations and supply for consumption at home and outside it;
. The involvement of the educational sector at various levels to educate consumers about the cultural heritage of the Atlantic Diet;
. Ensure that public and private institutions recognize the values of the Atlantic diet, lifestyle and the accompanying environmental commitments, and are committed to their protection and promotion as a functional diet;
. Assess the potential environmental impact in its broadest sense (urbanization, transportation, environmental pollution, etc.) of maintaining the values of the Atlantic Diet.
For the above purposes, two International congresses, one seminar and three international meetings, specically dedicated to the Atlantic Diet, were organized.
The 1st International Congress on the Atlantic Diet, organized by CEDA, took place in Viana do Castelo, Portugal from 17 to 19 July, 2003.
Two years later a seminar entitled: \Atlantic Diet, Benets for your Health and Well-Being” took place in Santiago de Compostela, Spain from 29 to 30 April, 2004. The 2nd International Congress on the Atlantic Diet, organized by University of Santiago de Compostela, took place in Baiona, Spain, from 16 to 18 November, 2006.
Three international meetings, organized by the Fundacion Española de la Nutricion (2003, 2005 and 2008) were also focused on the Atlantic Diet.
Furthermore, in many other scientic and technical events, not restricted to the Atlantic Diet, the subject of the Atlantic Diet was also incorporated, for example:
The XVII Congresso de Gastronomia do Minho and V Congresso Luso-Galaico, with a Session II \A Dieta Atlântica na Euro região Galiza-Norte de Portugal”, took place in Vila Nova de Cerveira, Portugal, 26-29 April 2007; The 1st International Congress of Gastronomy and Wines Portugal, with a session III \The gastronomy and wines in Europe – Atlantic Diet”, took place in Matosinhos, Portugal, 24-26 November 2011; and the Atlantic Stakeholder Platform Conference, with its Session A4 \Atlantic Tourism – Atlantic Diet: Why include food from the sea in your diet”, took place in Porto, Portugal, 20 January 2015.

2 Atlantic Diet Features 

Since 2000 there have been many attempts to establish the Atlantic Diet features. At the creation of the European Center for Atlantic Diet (CEDA), the Instituto Politecnico de Viana do Castelo ordered a study to compile general features of the Atlantic Diet. In this first study (Leslie, 2000) the author chose countries which were representative of three regions of Europe, with dierent types of climates, geographic environments and lifestyles: Atlantic, Mediterranean and Central European countries. The countries considered were as follows:

. Atlantic region: Portugal, Spain, France, Ireland, United Kingdom, Belgium, Netherlands, Denmark, Norway and Iceland. The results concerning Spain and France have to be taken with caution as they also belong to Mediterranean countries;
. Mediterranean countries: Italy and Greece;
. Central European countries: Germany, Czech Republic, Poland, Austria and  Switzerland.
The precise characterization of the Atlantic Diet was not the objective of this study but rather to provide an overview of the diferent dietary intake patterns found in the European Atlantic countries. This covered eating habits, the main ingredients used and the typical dishes found in
each country (Table 1), as well as a comparison between diets in Central, Mediterranean and the Atlantic regions of Europe which allowed the identification of some general features of the Atlantic Diet.
The strategic plan for the European Center for Atlantic Diet (CEDA) was developed by Sociedade Portuguesa de Inovação, S.A. (SPI, 2001). Based on the 1999 version of the nutrition database of the Food and Agriculture Organization of the United Nations, a few features were compiled that were still valid in 2011 and are therefore presented in this chapter.
The consumption of seafood (including sh) is higher in the Atlantic countries than in the Central European countries. Countries close to the sea consume more sea products than landlocked countries because of the easy availability of fish.

For the two Mediterranean countries, their consumption of fish is more or less the same as in Denmark, Netherlands, Belgium, United Kingdom and France. The northern and southern Atlantic countries differentiate themselves from all the other countries by their very high consumption of fish, although Iceland has a sh consumption significantly higher than other Atlantic countries. The limited agricultural production in Iceland, due to its soil and climate characteristics (Johannesson, 2010) together with the easy availability of fish might justify this high consumption of fish products. After Iceland (annual per capita sh supply of 90 kg), comes the southern and northern countries of the Atlantic: Portugal, Norway, Spain, France and Denmark with 56.8, 53.4, 42.4 and 34.6 kg, respectively (FAOSTAT Food balances, 2011). The data refers to per capita sh supply and not per capita sh consumption as the former includes losses through distribution and food preparation.
It can be observed that the countries in the center of Europe have the largest diference in the consumption of meat and sh; they eat much more meat than fish. Their physical environment is more favorable to the breeding of livestock than to access to fish.
A second observation is that the Atlantic countries in the central region of the Atlantic Corridor (Spain, France, United Kingdom, Belgium, Netherlands and Denmark) have more or less the same meat/sh ratio than the countries representing the Mediterranean countries. The three extremities of Atlantic European countries (Portugal, Norway and Iceland) have a different ratio from the other countries. For Iceland, as mentioned before, sh is more important in the diet than meat. Concerning Portugal and Norway, fish is almost eaten in the same quantity as meat.
There is a large difference in the consumption of potatoes and vegetables between Mediterranean and Atlantic countries. In Atlantic countries, people eat in general more potatoes and fewer vegetables than in Mediterranean countries. This follows the assumption that potatoes are one of the characteristics of an Atlantic Diet. Comparing the Central region of Europe and the Atlantic region, the difference is not so marked.
Nevertheless, it can be noticed that southern Atlantic countries are larger consumers of vegetables than Central regions. There is a gradient`South North’ for the consumption of vegetables: countries that are located in the South region eat more vegetables than in the North. The natural conditions, due to the sunnier climate of the southern Atlantic countries, favor the cultivation of vegetables.
There are no major differences in the consumption of milk among the three regions: Atlantic, Mediterranean and Central region of Europe but Norway can be distinguished by its higher consumption of milk. This fact is not a surprise upon considering the nutritional characteristics of this product and the European Agricultural Policies.
Europe has an excess of milk production and its consumption has been promoted throughout the European Union. Types of milk, other than cow milk, can be more specific to some regions; however the consumption of other types of milk is very low when compared with cow milk.
The European Atlantic region includes Portugal, some regions of Spain, some regions of France, Ireland, United Kingdom, Belgium, Netherlands, Denmark, Norway and Iceland, which is not an EU country. However, geographical location is not enough to determine a common food pattern as diet is influenced by many other factors,  including income, culture, religion and lifestyle. In the last century, the globalization of diets, sometimes for health reasons, sometimes for its convenience, and other factors, such as world wars, resulted in dramatic changes to the consumption of traditional foods in European Atlantic regions. There is evidence of the impact of the First World War on food consumption and nutrition in Britain (Gazeley & Newell, 2013). In Portugal and Galicia, traditional foods, many of which have a Celtic influence (for example, broths with meat and cabbage) are still eaten every week at home and can be found in the majority of restaurants. Whereas the Irish colcannon and the Welsh cawl traditional dishes, with meat and cabbage, are only consumed on festive days or more recently in a few new traditional restaurants. Scientists from Galicia and Portugal, at the time of formation of CEDA in 2003, considered that the Atlantic Diet food pattern is still “alive” in those regions and the Atlantic Diet was defined as the traditional diet of Portugal and Galicia.
A relevant book entitled “La Dieta Atlantica, el pescado y las algas – Su importancia en el neurodesarrollo y la funcion cerebral” parenciteTojo2009 was edited by the University of Santiago de Compostela in 2009. The authors compiled anthropological and historical information about the nutritional characteristics of diets from prehistory to recent days, together with information about food patterns in the Northwest of Spain and in the Spanish Mediterranean border regions, which enabled comparisons to be made. They defended the role of the Atlantic Diet as a health counterpoint to the recent Western Diet.
The type of foods associated with the traditional Atlantic Diet of Galicia identified by Tojo and Leis (2009) are as follows:
High intake of seasonal foods, locally fresh and minimally processed; High intake of vegetables, fruits, potatoes, bread and cereals, chestnut, whole nuts, legumes and honey; Use of olive oil for seasoning and olive oil and pork lard to cook; High consumption of sh, mollusks and crustaceans; Moderate consumption of milk and cheese; Moderate consumption of meat (cow and pork); Moderate consumption of eggs; Moderate consumption of wine usually with meals; Consumption of sauces with a healthy fat prole; Moderate consumption of simple sugars, desserts based on cereals, dried fruits and eggs; High intake of mineral water, with a healthy mineral prole; Cooking methods mainly by boiling, stewing, roasting and grilling. Authors stated these foods will ensure an abundant intake of complex sugars and beer; an abundant intake of PUFAs (LCPUFAs omega-3 with a good ratio of omega6/omega3, oleic acid and linoleic CLA; adequate vitamin and mineral intake; and abundant intake of functional food components (such as antioxidants, sterols,  avonoids, carotenoids, lycopene and indols).
The Atlantic Diet pyramid built by Tojo and Leis (2009) (Figure 1) is placed in all refectories of the University of Santiago de Compostela. The types of food and cooking methods used for everyday student meals at the University of Santiago de Compostela are based on it (Tojo, 2008). No major differences were found in Portuguese and Galician food patterns in 2000 by Leslie (2000) but a feature of the Portuguese diet should be emphasized – the daily intake of vegetable soup with Brassica species and the presence of rice in most of the meals already mentioned in Table 1. It is important to mention that under the designation “Vegetables” of FAOSTAT food balances (2011), tomatoes and onions are discriminated but the remaining vegetables are placed together as an item named “Other vegetables” of which Portugal presents the higher supply of 113.9 kg per capita compared to the other Atlantic countries. However, it can be assumed that Brassica species (cabbage) constitute a significant proportion of this supply as it is the second most consumed vegetable after potatoes in Portugal (Gevers et al., 1998). The consumption of dierent vegetables in 13 European countries for 1998 is shown in Table 2.
It is curious, despite the international reknown of Spanish paella or Italian risotto, that Portugal has a higher rice supply per capita in Europe- 16.3 kg/year whereas Spain and Italy have 9.4 and 5.2 kg/per capita/year respectively.
The European average rice supply is only 4.9 kg per capita/year (FAOSTAT food balances, 2011). In Portugal, rice and potatoes are consumed daily within main meals. The most traditional food dish throughout Portugal is Cozido a Portuguesa, similar to Galician Cozido and containing various meats, boiled potatoes and cabbage, but is also accompanied with rice. Another very traditional dish is Feijoada a Portuguesa, a pork meat stew with beans, which is also accompanied with rice and furthermore, in the north of Portugal this dish also contains cabbage. Finally, the best known Portuguese dish that is present in all Portuguese houses on Christmas Eve, the Bacalhau Cozido com todos, contains boiled dry salted cod with potatoes and cabbage, and fresh garlic and olive oil to season it.

3 Atlantic Diet and Health

The term diet refers to a person’s pattern of eating and drinking. Diet is influenced by many factors, including income, culture, religion, geographic location, and lifestyle.
Most of the so-called western countries have dietary guidelines. One of the most reported is the USA Dietary Guidelines, first published in 1980, and reviewed, updated and released by U.S. Department of Health and Human Services (HHS) and the U.S. Department of Agriculture (USDA) every five years. These Dietary Guidelines contain the latest, science-based nutritional and dietary guidance for the general public. They are the foundation for federal nutrition education and promotion programs, as well as the basis for the federal food assistance programs. The Scientific Report of the 2015 Dietary Guidelines Advisory Committee (Advisory Report) was submitted to the Secretaries of the U.S. Department of Health and Human Services (HHS) and the U.S. Department of Agriculture (USDA) in February 2015 and underwent a Public Consultation Period until May 8 http://www.health.gov/dietaryguidelines/2015-scientic-report/ accessed on 2 April 2015).
A balanced diet contains food from several food groups and supplies the body with the energy and essential nutrients it needs (United States Department of Agriculture (USDA) Center for Nutrition Policy and Promotion (http://fnic.nal.usda.gov/dietary-guidance), accessed on 31 March 2015).
The European Food Safety Authority (EFSA) provides up-to-date and comprehensive scientific advice to support EU policy makers in their decision making process in the field of nutrition for the setting of diet-related public health targets and the development of consumer information and educational programmes on healthy diets.
In March 2010, EFSA’s Panel on Dietetic Products, Nutrition and Allergies established dietary reference values for the intake of carbohydrates, dietary fibre, fats and water http://www.efsa.europa.eu/en/topics/topic/drv.htm accessed on 1 April 2015).
Epidemiological, experimental and clinical trial evidence have demonstrated over the last 50 years a relationship between diet, nutrients and blood lipid levels (Van Horn et al., 2008).
Nowadays, foods consumed worldwide include ice cream, candy, pastries, potato chips or other salted and fatty snacks (Haber, 1997). These fast food and other processed convenience foods, together with more meat and other animal products, fewer fresh fruits and vegetables, are considered to be responsible for burgeoning rates of heart disease, obesity, diabetes, and other chronic diseases.
One of the key concerns of nutritionists is to establish relationships between the type of diet consumed by the population and the existence of non-transmissible chronic diseases. Nutritional interventions that have been applied worldwide are multiple and involve different aspects that contribute to improved food and nutrition patterns worldwide (Rand, Windham, Wyse, & Young, 1987; Araya, 1997). Arising from a meeting of representatives of the Federation of European Nutrition Foundation no identication of bad or good food should be indicated to consumers in a regular balanced diet (La Place, 2004). A daily diet is not only food but also taste and pleasure.
Epidemiological studies point out that about 75% of human cancers are related to extrinsic factors, the most important smoking and diet (Fahey & Talalay, 1995). Prevention of cancer by naturally occurring substances in foods is an area of growing interest to the scientific community.
Several scientific studies have already demonstrated the health benefits of Atlantic Diet food components. In particular, fish consumption and other seafood, vegetables, low alcohol content beverages, and the Atlantic Diet’s preventive value in heart disease, metabolic and some cancers. Vitamin B, omega 3 fatty acids and iodine are three components of the Atlantic Diet which may bring health benefit to consumers residing in the Atlantic area.
The association between fish consumption and risk of cardiovascular disease (CVD) has been extensively studied. Epidemiological and clinical trial evidence suggests that omega-3 polyunsaturated fatty acids (PUFAs) might have a significant role in the prevention of coronary heart disease. Dietary sources of omega-3 PUFA include fish oils rich in eicosapentaenoic acid and docosahexaenoic acid along with plants rich in alpha-linolenic acid. Evidence suggests that increased consumption of n-3 FAs from fish or fish oil supplements, but not of alpha-linolenic acid, reduces the rates of all-cause mortality, cardiac and sudden death, and possibly stroke (Wang et al., 2006).
Randomized clinical trials (RCTs) with fish oils (eicosapentaenoic acid and docosahexaenoic acid) and alpha-linolenic acid have demonstrated reductions in risk that compare favorably with those seen in landmark secondary prevention trials with lipid-lowering drugs. The results of prospective cohort studies indicate that consuming fish or fish oil containing the n-3 fatty acids eicosapentaenoic acid (EPA) and docosahexaenoic acid (DHA) is associated with decreased cardiovascular death, whereas consumption of the vegetable oil-derived n-3 fatty acid a-linolenic acid is not as efective. RCTs in the context of secondary prevention also indicate that the consumption of EPA plus DHA is protective at doses <1 g/d. The therapeutic effect appears to be due to suppression of fatal arrhythmias rather than stabilization of atherosclerotic plaques. At doses >3 g/d, EPA plus DHA can improve cardiovascular disease risk factors, including decreasing plasma triacylglycerol’s, blood pressure, platelet aggregation, and inflammation, while improving vascular reactivity.
Mainly on the basis of the results of RCTs, the American Heart Association recommends that everyone eat oily fish twice per week and that those with coronary heart disease eat 1g/d of EPA plus DHA from oily fish or supplements (Breslow, 2006).
There is little doubt that omega-3 long-chain polyunsaturated fatty acids (n-3 LCPUFAs) in fish are the key nutrients responsible for the benefits and are important for CVD prevention. Although fish is valued as a source of these fatty acids, it also provides other nutrients that may have cardioprotective effects. It is likely that the beneficial effects of fish consumption on the risk of CVD are the synergistic effects among nutrients in fish, and the integrative effects of fish consumption may effects the interactions of nutrients and contaminants in fish (He, 2009). Shell fish species such as shrimps are rich in omega-3s and low in mercury (Smith & Guentzel, 2010).
Regular fish consumption before the age of 1 appears to be associated with a reduced risk of allergic disease and sensitization to food and inhalant allergens during the first 4 years of life (Kull, Bergstrom, Lilja, Pershagen, & Wickman, 2006).
A study using unsaturated fat-enriched diets with virgin olive, sun-flower and sh oil enhances hepatic antioxidant defense system; with the virgin olive and fish oil diet providing the best results (Aguilera, Mesa, Ramirez-Tortosa, Quiles, & Gil, 2003).
A nationwide case-control study in Norway with 545 cases of childhood-onset type 1 diabetes and 1668 population control subjects concluded that the use of cod liver oil during the first year of life is associated with lower risk of childhood-onset type 1 diabetes (Stene, Joner, & Norwegian Childhood Diabet Study G., 2003).
Data compiled on the relationship between diet and incidence of certain diseases concluded that a diet rich in fruit and vegetables is strongly associated with a lower risk of contracting degenerative diseases, including cardiovascular disease, brain dysfunction and cataracts, and proliferative diseases such as neoplasms (cancer) (Negri, La Vecchia, Franceschi, D’ Avanzo, & Parazzini, 1991; Steinmetz & Potter, 1991; Block, Patterson, & Subar, 1992; Verhoeven, Godbohm, van Poppel, Verhagen, & van den Brandt, 1996; Gold, T.H., & Ames, 1997; Ames & Gold, 1998).
The health benefits of onion intake, a major food component of the Atlantic Diet, were reported by several authors (Kumari, Mathew, & Augusti, 1995; Goldman, Kopelberg, Debaene, & Schwartz, 1996; Teyssier et al., 2001; Grifths, Trueman, Crowther, Thomas, & Smith, 2002). The annual consumption of onions in Portugal was estimated at 13.8 kg per capita in 2011 (FAOSTAT food balances, 2011) and it is the third most consumed vegetable after potatoes and Brassica species.
Regional varieties of onion from the Northwest of Portugal were studied. Results indicate that the red variety has higher nutritional value (minerals and protein) and higher potential health benefits related to the presence of antioxidant compounds (Rodrigues et al., 2003).
A broad array of healthy properties have been attributed to Brassica species in recent years such as anticarcinogenic, protective actions against cardiovascular diseases and ageing processes, prenatal pathologies and cataracts. These benefits have been related to their high content in health-promoting phytochemicals namely glucosinolates (and their hydrolysis products, isothiocianates), phenolic compounds (hydroxycinnamic acids and  avonoids), carotenoids, vitamins (ascorbic acid (AA), tocopherol, and folic acid) and minerals (Dominguez-Perles, Mena, Garcia-Viguera, & Moreno, 2014).
The low incidence of coronary heart disease associated with moderate consumption of red wine and other alcoholic drinks have been reported (Renaud & Delorgeril, 1992). In a review study, Bertelli (2007) reported that white wine is given less importance than red wine as it contains lower quantities of polyphenols. However, the same study underlined several other epidemiological surveys showing that wine “colour” was not found to have different e effects with respect to coronary artery diseases, modulation of the release of plasma interleukin-6 and platelet function.
Furthermore, both white and red wine improved the LDL/HDL cholesterol ratio and enhanced the LDL clearance rate from blood. Wine, red or white, is drunk at meals in the Atlantic Diet region.
Based on a case control study (n=820) of patients hospitalized with acute myocardial infarction (AMI), adherence to the Southern European Atlantic Diet (SEAD) was associated with lower odds of nonfatal AMI (Oliveira, Lopes, & Rodriguez-Artalejo, 2010). The authors concluded that some but not all food components of the SEAD may contribute to the very low coronary mortality in northern Portugal and Galicia. As far as we know this was the first epidemiological study examining the association between adherence to the Atlantic Diet and the occurrence of non-fatal acute myocardial infarction in Portugal. A cross-sectional study from the same authors and Spanish authors (Guallar-Castillon, Oliveira, Lopes, Lopez-Garcia, & Rodriguez-Artalejo, 2013) was conducted in 2008-2010 among 10,231 individuals representative of the population aged 18 years and older in Spain. Diet was assessed with a validated computerized diet history. SEAD adherence was measured with an index including 9 food components (fresh fish, cod, red meat and pork products, dairy products, legumes and vegetables, vegetable soup, potatoes, whole-grain bread, and wine), which ranged from 0 (lowest adherence) to 9 (highest adherence). This study identified possible mediators of the effect of SEAD on myocardial infarction, because SEAD was found to be associated with a lower concentration of markers of in ammation and with reduced triglycerides, insulin, insulin resistance and systolic blood pressure. Several other studies have pointed out the benefits of food components typical of the Atlantic Diet but not grouped as a meal nor aggregated under the concept of an Atlantic Diet Food pattern.
There is a continuous move from dietary traditions which are local, low in technological input and based on empiricism to diets that are global, high in technological input and science based.
Over the last century societies have the ability to improve their diet based on a better scientific understanding of the health benefits of such diets but innovations are often not achieved due to commercial considerations. This will require that all sectors of the food industry to work towards healthy and economically affordable diets.
In addition, there is a continuing demand by consumers to ascertain that traditional foods are not only healthy but also convenient and easy to prepare (Heinrich & Prieto, 2008).
On current evidence the concept of the `Atlantic Diet’ appears to be as well founded as the concept of the `Mediterranean Diet’, but the major challenge is to dene whether there is a traditional Atlantic Diet as healthy as the Mediterranean Diet when consumed as part of a healthy lifestyle (Lindsay, 2003). This will require urgent action given the rapid changes that are occurring in European dietary habits (Lindsay, 2003). There is a continuous move from dietary traditions which are local, low in technological input and based on empiricism to diets that are global, high in technological input and science based.
Over the last century societies have the ability to improve their diet based on a better scientific understanding of the health benefits of such diets but innovations are often not achieved due to commercial considerations. This will require that all sectors of the food industry to work towards healthy and economically affordable diets.
In addition, there is a continuing demand by consumers to ascertain that traditional foods are not only healthy but also convenient and easy to prepare (Heinrich & Prieto, 2008).
On current evidence the concept of the `Atlantic Diet’ appears to be as well founded as the concept of the `Mediterranean Diet’, but the major challenge is to define whether there is a traditional Atlantic Diet as healthy as the Mediterranean Diet when consumed as part of a healthy lifestyle (Lindsay, 2003). This will require urgent action given the rapid changes that are occurring in European dietary habits (Lindsay, 2003).

5 Concluding remarks and further suggestions

The objective of this paper was not to compare the Atlantic Diet with the Mediterranean Diet. More than 50 years of studies separate both concepts. As mentioned previously a wide variety of fish and shell fish is now placed in the updated Mediterranean Diet Pyramid with advice to eat fish and shell fish at least twice a week. There are no doubts that the residents of the Atlantic Diet region have traditionally a higher intake of fish and shell fish than the Mediterranean countries.
Enjoy meals with others, recently placed in the base of the Mediterranean Diet Pyramid, is a common practice in Portugal and Galicia, where mealtimes are regarded as leisurely affairs to share with family and friends.
Diversity is also a key word. It is not only the type of food but also the frequency of their intake which makes a food component healthy or unhealthy.
As mentioned before, no identification of bad or good food should be indicated to consumers in a regular balanced diet. A daily diet is not only food but also taste and pleasure. A combined balance of those elements, food and taste, is characteristic of the Atlantic Diet. Also, it is well known that food components interact, thus it is important to analyze a whole meal rather than the separate food components.
The Atlantic Diet is considered strategic by the Food-cluster Portugal Foods which has as major objectives: the surveillance and characterization of Atlantic Diet by identification, systematization and validation of products and recipes under the concept – Atlantic Diet – a Portuguese way of being”. The continuing move from dietary traditions traditions which are local to diets that are global, as the Mediterranean Diet now is, requires high technological input and a science base, therefore companies and public and private R & D institutions must join together in efforts to validate and make global another regional healthy diet the Southern European Atlantic Diet or Atlantic Diet.
The previously reported epidemiological studies, showing higher adherence to the Atlantic Diet (Southern European Atlantic Diet) and its inverse association with the occurrence of non-fatal AMI and its association with a lower concentration of coronary disease markers, are a beginning for consolidation of the healthfulness of the Atlantic Diet pattern but more epidemiological and experimental nutrition research is needed to corroborate these findings.

The Atlantic Diet – Origin and features
Manuela Vaz Velho a*, Rita Pinheiro a*, and Ana Sofia Rodrigues b*
a* Escola Superior de Tecnologia e Gestão, Instituto Politecnico de Viana do Castelo, Av. Atlântico, 4900-348 Viana do Castelo, Portugal
b* Escola Superior Agrária, Instituto Politecnico de Viana do Castelo, Refoios, 4990-706 Ponte de Lima, Portugal
*Corresponding author mvazvelho@estg.ipvc.pt
Tel: +351-258819700  Fax: +351-258827636  Received: 6 April 2015;  Published online: 18 April 2016

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Garum Publications and studies

In Search of Garum

In Search of Garum

The “Colatura d’alici” from the Amalfitan Coast

Atti del 4o Convegno Nazionale di Etnoarcheologia, Roma, 17-19 maggio 2006
Proceedings of the 4th Italian Congress of Ethnoarchaeology, Rome, 17-19 May, 2006
Edited by
Francesca Lugli
Alessandra Assunta Stoppiello
Stefano Biagetti
BAR International Series 2235
2011

Published by Archaeopress
Publishers of British Archaeological Reports
Gordon House 276 Banbury Road Oxford OX2 7ED England
bar@archaeopress.com
www.archaeopress.com

In Search of Garum. The “Colatura d’alici” from the Amalfitan Coast

(Campania, Italy): an Heir of the Ancient Mediterranean Fermented Fish Sauces.
Alfredo Carannante, Claudio Giardino, Umberto Savarese

Em Cetara, uma pequena aldeia da Campânia, na costa Amalfitana (Fig. 1), a tradição alimentar de produção de um molho obtido a partir da fermentação de anchovas em conserva (Engraulis encrasicolus) ainda sobrevive. Os molhos de peixe fermentado tiveram uma grande importância na gastronomia e na economia dos antigos povos mediterrânicos.

O objetivo deste trabalho é avaliar se o molho moderno da Campânia pode ser comparado aos produtos antigos e se é derivado dos mesmos. Para este fim, foram analisadas as características comuns dos vários molhos de peixe e as técnicas antigas e modernas de produção foram descritas e comparadas;

No final, reconta-se de forma suncinta a história dos molhos antigos. Foram recolhidas informações sobre molhos de peixe, particulatmente na Campânia, nos locais onde esta tradição antiga é ainda presente.

Fig. 1. Map of the mentioned sites.

O garum e os molhos de peixe fermentado

A designação genérica GARUM é normalmente utilizada para definir uma série de produtos de composição e consistências diversas, como molhos e pastas obtidas através da fermentação em salmoura, através das enzimas, de parte de peixes ou da sua totalidade.

Altamente proteico, o GARUM, aumenta a intensidade do sabor e era muito apreciado no passado. O GARUM podia ser feito apartir de diversos tipos de peixe, anchovas, cavala, atum, moreias e outros tipos de pescado, que determinavam a sua qualidade e o seu preço.

Apicius, o famoso gastrônomo romano, tem as suas receitas, compiladas no livro De Re Coquinaria, temperadas com garum, ao qual ele apelida de liquamen.

O facto do garum ter sido tão apreciado nos tempos antigos deveu-se provavelmente à alta concentração de glutamato monossódico, o sal sódico do ácido glutâmico, um dos aminoácidos não essenciais mais abundantes que ocorrem na natureza, que é encontrado naturalmente em alimentos como tomate e cogumelos.

O glutamato monossódico é utilizado em alimentos com o objetivo de proporcionar o gosto umami, também denominado de quinto gosto básico. (salgado, doce, ácido, amargo, umami)

O glutamato monossódico melhora o sabor dos vegetais e alimentos de origem animal que o contenham em diferentes concentrações. Alguns alimentos onde esse efeito é particularmente melhorado são, por exemplo, queijo, salame, cogumelos e tomates secos.

A comparação com os principais potenciadores de sabor modernos, mostra como é a concentração de glutamato monossódico, particularmente rico em molhos produzidos pela fermentação em salmoura de organismos marinhos, como pasta de anchova, amplamente usado nos países do Mediterrâneo, molho de ostras, muito apreciado na gastronomia chinesa, e diferentes molhos, geralmente preparados a partir de anchovas, sardinhas etc., usados na culinária asiática do sudeste (Nuocnam no Vietnã, Nam-plam na Tailândia)

mg/100g
Anchovy paste 630
Stock cube 498
Oyster sauce 900
Soja sauce 782
Nam plam (fish sauce) 950
Free glutamate in seasonings

Além do glutamato monossódico, o garum continha peptídeos semelhantes aos neuropeptídeos, ácidos graxos polinsaturados (complexo ômega-3), um protetor anti oxidante de membranas celulares) e vitaminas A e E.

Garum é frequentemente imaginado como um molho produzido por meio de putrefação do peixe, portanto inaceitável para um palato moderno.

Para compreender a importância e o sucesso das conservas de peixe nas dietas antigas e modernas e para dissipar preconceitos sobre o seu gosto, devemos mencionar os complexos processos bioquímicos e enzimáticos que os produzem.

Após a morte, o peixe, como todos os outros animais, passa por uma série processos de decadência cujo primeiro passo é a autólise: a degeneração das células e órgãos através de substâncias químicas, processos desencadeados por enzimas intracelulares. A velocidade do processo autolítico aumenta com o aumento da temperatura ambiente, mas podem ser interrompidos se as texturas forem rapidamente congeladas ou desidratadas.

Em consequência da degeneração autolítica dos órgãos do trato gastrointestinal, a flora bacteriana espalha-se pelo resto do cadáver, iniciando um processo chamado putrefação, a segunda fase da decomposição.

A atividade bacteriana produz inicialmente gases como dióxido de enxofre, dióxido de carbono, amônia, metano etc .e continua com a destruição das proteínas musculares e a produção de complexos tóxicos de aminas, como a cadaverina e putrescina.

A verdadeira salga, aquela usada para produzir peixe salgado e carne, produz uma desidratação dos tecidos que bloqueiam a autólise, mas precisa de uma grande quantidade de cloreto de sódio (NaCl). Um ambiente com menos, ainda que alto teor de salinidade – como picles a 10-20% de NaCl – não impede o avanço dos processos autolíticos, mas é o suficiente para impedir o início da putrefação parando o desenvolvimento bacteriano.

Depois de um tempo, o resultado da decomposição em salmoura produz a formação de um liquido perfeitamente comestível, muitas vezes de cor âmbar, muito salgado e cheio de proteínas, iodo e flúor, istadina e vitaminas A e D (lat. garum, liquamen). Obtem-se uma substância pastosa muito salgada (lat. allec) com excelente valor nutricional.

A “colatura d’alici” de Cetara: métodos de produção

Hoje, na vila de Cetara, na costa de Amalfitan, é produzido um molho de peixe que apresenta fortes semelhanças com o  antigo garum: a “colatura d’alici”, cujo nome significa “filtragem de anchovas”.

A colatura é um líquido de cor âmbar obtido de o processo de maceração das anchovas em sal, seguindo um procedimento antigo transmitido de pai para filho pelos pescadores da vila.

O produto primário inicial são as anchovas (Engraulis encrasicolus) pescada com a chamado técnica “cianciòlo” no Golfo de Salerno na primavera, do final de março ao início de julho.

As anchovas, recém-pescadas, são decapitadas e evisceradas (“Scapezzate”) à mão; são então colocadas num recipiente e revestidas (“inzuscate”) com muito sal marinho. Depois de ser mantido de 12 a 24 horas nesta salga chamada “Increscatura” , com o objetivo de remover o sangue.

As anchovas são depois recolhido e colocado num recipiente, dispostas de acordo com a técnica “rabo e cabeça”, em camadas alternadas de sal e peixe. Uma vez terminadas as camadas, o recipiente é coberto com um disco de madeira (o chamado “tompagno”), no qual são colocados pesos, geralmente rochas do mar. Nas primeiras 48 horas, é exercida uma pressão mais forte, aliviando-se depois o peso diminuindo o número e a dimensão das rochas.

Devido à prensagem, o líquido, começa a chegar à superfície, à medida que o “amadurecimento” das anchovas continua. Neste processo tradicional o líquido é eliminado, considerando que este processo é a base da produção da colatura.

O líquido é depois filtrado usando panos de linho especiais, os chamados “cappucci” ou “lambicchi” . O resultado é um destilado límpido de cor âmbar, que pode ser filtrado por várias vezes. No total, o processo dura 2-3 meses. Em algumas famílias, o resultado da filtragem é tradicionalmente mantida em garrafas contendo orégãos.

Segundo alguns estudiosos das tradições locais, a maceração ocorreu originalmente numa espécie de recipiente chamado “terzigno”, obtido reutilizando o terço de um barril.

Além do que está no terzigni, outro tipo de maceração ocorre num vaso de vidrado, que foi e ainda é amplamente utilizado na produção doméstica em pequena escala. Neste caso, o processo segue as mesmas fases, mas a quantidade produzida é bem mais pequena.

Presentemente, embora a produção doméstica em vasos ainda exista, os “terzigni” são geralmente substituídos por recipientes de plástico para alimentos, de acordo com os regulamentos da CE.

Fig. 2. The liquid raw sauce starts coming up to the surface.

Fig. 4. The filtered product is an amber-coloured limpid liquid quite different from the raw soaked sauce.

Fig. 3. The filtering of the “colatura” trough the “lambicco”.

A origem do garum: a era pré-romana

Originalmente realizado com espécies e partes de peixe não bem identificadas, cujo nome grego era garos (de onde veio o nome do molho garon, em grego) , o garum romano foi produzido a partir de diferentes espécies de peixes. Isidore afirma: “Ex infinito genere pisciorum”.

Os géneros mais apreciados foram obtidos de anchova, sardinha etc: o melhor garum, nigrum foi produzido a partir de cavala (Scomber scombrus),  muria foi produzido a partir de atum (Thunnus thynnus), mas também anchovas (Engraulis encrasicolus) que estavam na base de um valioso tipo de garum.

De acordo com alguns autores, o garos grego é identificável com anchovas. Plínio afirma que o garum mais antigo era produzido a partir de um “peixinho pequeno e insignificante” que os gregos chamavam de “aphye” (afiado), que corresponde ao biqueirão.

No entanto, muitas outras espécies, entre as quais moreias, enguias, tainhas, eram usadas para produzir garum, às vezes realizado através da fermentação de diferentes espécies juntas.

Outras vezes, o garum era produzido apenas com entranhas de peixe, como as do atum, misturando algumas entranhas com sangue e a fáscia abdominal gorda, o chamado “Buzzonaglia”. A origem deste garum baseava-se na reciclagem de rejeitos de peixe, como entranhas, partes de sangue e gordura, e peixes menores inteiros, mais difíceis de conservar.

O aparecimento da salmoura de peixe no Mediterrâneo Oriental, anterior à sua propagação no mundo romano, está, portanto, relacionado com a necessidade de manter grandes quantidades de peixes perecíveis para abastecimento durante longas viagens ou para exportação.

Os gregos tinham duas maneiras de preservar os peixes: os tarichos (lat. salsamentum): a desidratação de peixes sem cabeça, eviscerados, peixes desfeitos, por meio de salga e / ou a secagem ao sol ,e o garon (lat. garum): fermentação de peixes em salmoura que, comparados com a salga, permitiam uma menor utilização de sal.

As fábricas mais antigas de garon localizavam-se em Corinto e na ilha de Delos, na Grécia, embora este molho se espalhe mais tarde sobretudo em Cartago e em Roma.

É ainda mais difícil datar a introdução das técnicas de salga de peixe no Mare Nostrum, devido à falta de vestígios arqueológicos no Mediterrâneo Oriental.

O garum pode ter sido introduzido pelos fenícios já nos séculos IX-VIII a.C., talvez importados diretamente do Oriente, ou a partir dos gregos, que poderiam conhecê-lo desde o século VII a.C. , durante suas viagens de abastecimento ao longo da costa do Mar Negro, região muito rica em peixe.

No mundo grego, a mais antiga evidência arqueológica remonta a meados do século V a.C. Pesquisas realizadas na cidade de Corinto encontraram o que deveria ter sido o armazém de produtos alimentares de um comerciante abastado, mais tarde reconvertido para armazenamento de vinho e peixe, apelidado pelos arqueólogos de  “Casa das ânforas púnicas” por causa da grande presença de ânforas fenícias aí encontradas.

Foram encontrados pedaços de peixe, sobretudo pargos (Pagrus pagrus) e atum – cortados em pedaços de cerca de 6 x 4,5 cm, misturado com fragmentos de ânforas; não foi possível, no entanto, determinar se o peixe foi colocado em salmoura ou salgados e se o processo tivesse sido ali realizado.

Foram descobertas em Cádiz, a antiga Gades, fábricas púnicas para o fabrico de peixe referentes ao mesmo período. O fabrico de peixe floresceu na cidade espanhola entre 430 e 325 a.C., para desaparecer após 200 a.C. Esse declínio deveu-se provavelmente às consequências que a segunda guerra púnica tiveram na economia cartaginense.

A presença de centros cujos nomes estiveram ligados à indústria do peixe são significativos: Cetaria, hoje Getares, e Tarichea, hoje Tarifa).

Fig. 5. The “terzigno”: the traditional container for the“colatura” production. A stone is put on the top to press the soaking anchovies.

Fig. 6. The typical varnish pot used for domestic production of the “colatura”

Fig. 7. Small quantities of “colatura” are produced in clay
vessels.

O garum no mundo romano

O mundo romano foi com certeza influenciado pelos dois polos produtivos, gregos e púnicos, e aprendeu tanto as suas técnicas de fabricação como a tipologia de estruturas onde o fabrico ocorria. A procura deste tempero, que se tornou muito apreciado, aumentou entre os Romanos e isso favoreceu o nascimento da produção em escala industrial em diversas áreas do Mediterrâneo, Mar Negro e ao longo das costas ibéricas no Oceano Atlântico e no norte da África.

Esses centros foram estritamente associados às áreas de captura de atum e com a necessidade de preservar uma enorme quantidade de peixe; não é por acaso que, na área do Estreito de Gibraltar, muitos centros, que certamente exploraram a migração do atum, o representavam nas suas moedas.

As estruturas produtivas

O fabrico acontecia geralmente  no próprio local de pesca, em tanques especiais de fermentação revestidos com opus signinum (chamado taricheai em grego ou cetariae em latim).

Eram geralmente quadrados ou retangulares, com bordas arredondadas, o que garantia uma estrutura mais forte e fazia com que circulação da água e limpeza fosse mais fácil; variaram em tamanho de acordo com o uso: os maiores foram utilizados para a salga de peixe, e os menores para produzir garum.

De acordo com a morfologia da costa, os tanque eram construídos na praia, em opus caementicium coberto de louça de barro ou nas colinas em frente à costa, escavadas na rocha; também poderiam ser construídos na cidade, em edifícios especiais destinados a esse tipo de produção.

NOTA: podemos visitar as diferentes tipologias de locais de fabrico em Setúbal, na cidade, na praia do Creiro e em Tróia.

Em regra geral, estas estruturas produziam peixe salgado, garum e allec: de facto, os últimos constituíam produtos secundários da indústria de salga.

Até há algum tempo atrás, antes do relançamento turístico do “Colatura”, o que também aconteceu em Cetara, o interesse primário da indústria era a produção de anchovas, para serem comercializadas no exterior. Já a filtragem foi um subproduto da salga e o seu uso era estritamente local.

Além das fábricas para a fabrico de peixe em salga, existiam tanques para a criação de peixes, que davam uma constante reserva de pescado durante todo o ano, mesmo quando o clima era adverso e se tornava perigoso pescar por barco.

Os tanques de peixes marítimos floresceram desde o final do período republicano (meados do século I a.C.) e desenvolvidos imensamente durante o Império (até o século II d.C.).

Inicialmente espalhado na Campânia e depois em Lácio e na Etrúria, provavelmente funcionaram até o século IV d.C., quando o ataques dos bárbaros tornaram as costas inseguras forçando a abandonar ou a fortalecer as estrutura produtivas na costa.

Técnicas de produção do garum

O fabrico do garum durava dois ou três meses sob o calor do sol, mas podia ser acelerado através de fornos artificiais.

O sal marinho era essencial para o funcionamento das fábricas de produção de garum e era necessária a mesma quantidade de sal e de peixe. Por esse motivo, as fábricas eram geralmente construído perto de salinas.

No século I d.C. , em Columella, (Lúcio Júnio Moderato – escritor romano, reconhecido pelos seus tratados sobre agronomia) no livro De Re Rustica, após descrever a técnica de conservação de carne de porco através do sal, afirma que era semelhante à utilizada para peixe:

“… A carne é então cortada em pedaços de uma libra cada; depois é necessário um pote ou um barril, e é colocada uma camada de sal, espalhada no fundo: os pedaços de carne são depois postos de modo a ficarem muito próximos uns aos outros e é colocado sal em cima de cada camada. Quando se atinge o topo do recipiente, a última parte é totalmente preenchida com sal e o mesmo é tapado e coberto com pesos. Pode-se utilizar esta carne em qualquer altura; é mantida em picles como tal peixe com sal ”.

Neste texto, Columella utiliza a palavra “seria“, que pode ser traduzida como “vaso” ou “barril”; o significado “barril” tem analogia com o uso do “terzigni” na produção da “Colatura“.

Qualidade e variedade do garum no mundo romano

No século I d.C, o garum sociorum, produzido em Espanha a partir da maceração de cavala, era considerado o melhor garum. O seu custo era comparável apenas ao dos melhores perfumes (com mil sestércios, compram-se dois congi, o equivalente a cerca de seis litros)

Marcus Valerius Martialis (Século I d.C.) elogia o luxo do garum produzido desde que o primeiro sangue jorrou da cavala recém cortada, considerado um particularmente luxuoso e apreciado presente.

Uma passagem no livro Satyricon, de Petrónio, escritor romano, mestre na prosa da literatura latina, satirista notável, no capítulo “O Banquete de Trimálquio”, descreve a apresentação de um dos cursos mais célebres no jantar de Trimálquio, uma das personagens do livro, conhecido pela pompa e ostentação dos seus banquetes, nos quais serve pratos exóticos e extravagantes.

Trimálquio disse: “Vamos comer! Este é o melhor dos banquetes”. Quatro escravos […] tiraram a tampa da bandeja colocada na mesa […]. Nos cantos da bandeja, quatro estátuas de Marsias estavam a derramar garum piperatum de pequenas bolsas de couro. ”

Esta passagem mostra como o garum não era apenas um tempero sempre presente na gastronomia da época (e obviamente líquido), mas que era também um símbolo de status exibido durante os banquetes mais luxuosos.

O Edictum de pretiis, (Édito máximo) de Diocleciano (301 d.C.), foi um decreto promulgado a fim de combater o aumento da inflação no Império, estabeleceu um tecto máximo para os custos do garum e separou o liquamen primum, cujo preço chegava a atingir dezesseis denários por sextário (cerca de 3072 sestércios por ânfora), do liquamen secundário, de segunda opção, que não poderia exceder doze denários.

A qualidade do garum derivada não apenas das espécies de pescado e das partes utilizadas, mas também do processo de filtragem.

No final da maceração, o garum era filtrado através de cestas e era obtidas diferentes qualidades:

O flos gari límpido (“flor” do garum) obtido a partir do primeiro líquido filtrado e liquamen gari, líquido menos valioso, por vezes com elementos sólidos, obtido a partir da filtragem dos depósitos mais rudes.

Linquamen, mesmo que originalmente diferente do garum, foi usado genericamente para definir o molho de peixe desde o século III d.C.

Além destas duas qualidades, ainda outra deve ser adicionada: a “flos flos gari”, “nata”, cuja origem e espécies usadas, geralmente cavala ou atum, sempre foram especificados.

A pasta recolhida nos filtros, geralmente contendo espinhas e restos de peixe, foi chamada allec (com as variações de hallec, hallex, allex), palavra que originalmente significava “putrefação” ou “resíduos” e representava o pior produto, frequentemente dado a os escravos.

O allec, no entanto, também poderia derivar da produção das melhores qualidades de garum; Neste caso, o produto resultante da filtragem após a maceração das entranhas, sangue ou pedaços de cavala ou atum, foi considerado valioso e servido temperado com sal e pimenta, vinho e cenoura, para estimular o apetite antes das refeições.

Existiam variações luxuosas de allec, produzidas a partir de ostras, ovas de ouriço-do-mar, anêmonas-do-mar e fígado de tainha.

O melhor garum era obtido sem adicionar outros ingredientes, mas havia várias variedades obtidas com a adição de vinagre (oxygarum), óleo (oleogarum), vinho (oenogarum), água (hydrogarum) e mel (melligarum / mellogarum).

No seu famoso tratado sobre cozinha, Apício, fornece uma receita de oenogarum para temperar tubérculos, composto por especiarias, liquamen, mel, um pouco de óleo, e outra receita de oxygarum usada como molho digestivo, composto por uma mistura de especiarias amassadas com mel e diluída com liquamen e vinagre.

Foram frequentemente adicionadas especiarias aromáticas (potherbs) ao peixe e ao sal.

O Garum e liquamen foram produzidos de forma caseira e industrial.

A produção em massa em tanques, pelo menos na era imperial, é certificado paralelamente ao potes. Gargilius Martialis (Século III dC) no De Medicina et de Virtutae Herbarum fornece uma descrição:

“Deve-se usar peixes, como salmão, enguias, sardinhas e anchovas; A estes peixes deve -se adicionar sal e potherbs como endro, hortelã, coentro, levístico, e tomilho selvagem. Devem-se dispor as ervas numa primeira camada no fundo de uma panela. A seguir coloca-se uma camada de peixe inteiro, se for pequeno, caso contrário, se for peixe maior, cortado em pedaços. Cobre-se com uma camada de sal de aproximadamente dois dedos e a repetição destas três camadas deve ser feira até que o pote esteja cheio.

O pote deve ser fechado e assim ficar por sete dias. Depois é necessário mexer tudo e descansar outros vinte dias. Em seguida, deve ser coado o líquido,  filtrando-o cuidadosamente usando um pano. ”

Esta receita corresponde perfeitamente à utilizada ainda hoje para a produção da

Colatura” num  vertente familiar em Cetara, onde são utilizados vasos cilíndricos especiais para esse objetivo. Ollae cilíndricas de cerâmica comum, uma espécie de potes, muito semelhantes às modernas usados em Cetara, foram encontrados ligadas à produção de garum no oeste Mediterrâneo . Muitos desses recipientes vêm de Cotta (Marrocos); o diâmetro varia entre 22 e 24cm e são datados entre os séculos I B.C. e III A.D.

O seu uso está correlacionado com a produção do garum, talvez para facilitar a concentração do molho através do calor; de facto, os sistemas de transformação através do calor foram descoberto em Cotta.

O “Colatura d’alici”: um valioso garum

A partir das informações apresentadas até agora, é evidente como os processos na base da produção deste molho são semelhantes aos usados ​​hoje para a “Colatura di alici” em Cetara, Itália.

A matéria-prima – as anchovas – é semelhante; segundo Plínio as anchovas estão desde o início presentes na produção de garum; os métodos de produção através da fermentação do peixe em conserva; os recipientes utilizados na produção em escala familiar são semelhantes, assim como alguns dos produtos obtidos.

O garum piperatum que jorra das estauetas Marsii  com “garrafas de couro” na bandeja de Trimálquio é o melhor testemunho escrito de que a melhor qualidade do garum era perfeitamente líquida, como a “Colatura”.

Outro paralelismo importante entre o molho antigo e o produto moderno da região da Campânia pode ser encontrado em Plínio, que diz que o garum mais valioso é

“Aquele que assume a cor do vinho envelhecido ou do mel”: esta é a descrição perfeita da cor âmbar da “Colatura”. Portanto, o “Colatura di alici” de Cetara pode ser definido como um garum muito refinado e em particularmente como um “flos gari”.

No entanto, molhos muito semelhantes aos antigos garum podem ser encontrados no Extremo Oriente, mesmo que não haja  conexão histórica com o antigo molho mediterrânico e que induz a verificar se o produto Cetara continua uma tradição romana ou é uma invenção moderna.

Portanto, será possível reconhecer uma filiação direta entre o “Colatura” e o garum?

Para responder a esta pergunta é necessário examinar a história do garum na Campânia e verificar a continuidade da produção na região.

O garum em Pompéia

Diversas fontes confirmam a existência, nos tempos antigos, de um flos gari feito de anchovas e Plínio sustenta que a origem do próprio garum deve ser pesquisada na conservação desse peixe muito pequeno; é notável que tal é certificado arqueologicamente na própria região de Campania.  Foram encontrados na casa de Marcus Fabius Rufus em Pompéia, no fundo de uma pequena olla, milhares de pequenas espinhas de peixe.

Todos os restos são atribuíveis a Engraulis encrasicolus e a presença de vértebras e de apenas alguns elementos postopercoular, atestam o uso em Pompéia de um garum obtido apartir da imersão de anchovas.

Plínio afirma que Carthagena, Clazomenae, Leptis Magna e Pompéia eram centros de produção de garum tão famoso como Baetica e Mauritânia. Pompéia era, certamente, um dos principais pólos da produção de garum no Mediterrâneo.

Os principais centros de produção do garum na Campânia ainda não foram encontrados, mas certamente estavam na costa. Um dos lugares mais importantes para a venda deste produto, foi localizado em meio urbano, no perímetro de Pompéia, a chamada “loja Garum”.

Descoberta entre o final de 1960 e o início de 1961, está situada no lado oeste do anfiteatro e tem uma pequena entrada perto da Via dell’Abbondanza. Dentro o peristilo (a galeria de colunas que rodeia um edifício ou parte dele) foram encontrados seis dolii que estavam destinados à conservação do garum e continha espinhas de peixe.

No jardim foram encontradas inúmeras ânforas viradas ao contrário, provavelmente destinados ao transporte entrega de garum.

Nas ânforas foram encontrados restos semelhantes aos contidos nos dolii, e no fundo de uma delas havia um funil para transferir o garum. Algumas tinham as iniciais VR (vinum rubrum – vinho tinto) pintadas, para indicar o seu conteúdo inicial.

Como confirmação do papel predominante que Aulus Umbricius Scaurus teve no comércio de garum, calcula-se que cerca de 29% das ânforas e urceis encontrados em Herculano, Pompéia e Boscoreale tiveram seu nome inscrito. Uma magnífica casa encontrada em Pompéia (VII, 15 Ins. Occ., 12-15) que pertenceu a Alvo Umbricius Scaurus, o rico comerciante decorava o átrio com mosaicos representando, nos quatro cantos, os urceis, bilhas de barro típicas do garum, para mostrar que sua riqueza vinha do comércio deste precioso condimento.

figura9colatura

Fig. 9. Plan of the “Garum shop” in Pompeii (from CURTIS 1979, modified).

Fig. 8. Ancient and modern: a Roman clay olla from Cotta (Morocco) used for garum (in the box: from Ponsich, Tarradell 1965), compared to the typical modern clay vessel used in Cetara.

O garum no final da antiguidade clássica e na Idade Média

Nos primeiros séculos da nossa era, a produção e o comércio de garum foram elementos muito importantes para a economia; após o Império Romano cair o cenário econômico no Mediterrâneo mudou. A menor procura, já não globalizada, tornou a indústria de produção em tanques de garum menos rentáveis. Essa situação causou a deterioração em todos os locais das grandes fábricas equipadas com cetárias.

No entanto, a produção em pequena escala continuou em locais diferentes, como pode ser visto em todas as realidades culturais herdeiras dos costumes romanos.

Temos ainda de levar em conta que o garum não era apenas empregado na culinária, mas foi usado para tratar diferentes patologias devido à sua alta concentração de cloreto de sódio e na presença de enzimas proteolíticas que produziam qualidades desinfetantes s comparáveis ​​a um anti inflamatório. Plínio dá uma grande relevância ao uso médico do garum, e sugere a sua utilização como remédio para vários tipos de inflamações.

Aconselha a utilização a pasta de allec para tratar doenças de pele e mordidas de cães, e a usar garum líquido em queimaduras recentes ou para enxaguar a cavidade oral inflamada, ou para curar inflamações intestinais. Também sugere medicamentos à base de garum: como vinagre para curar picadas de insetos, com óleo de linhaça e vinagre para curar picadas de escorpião, e com água morna com mel e hissopo para colocar em olhos inflamados.

Também Columella, em De Re Rustica, menciona o liquamen, administrado através das narinas, como um remédio eficaz contra Pestifera Lebes, doença que leva os cavalos à morte em poucos dias.

Como medicamento ou ainda como integrador de alimentos, pode ser encontrado no sul do Mediterrâneo na Idade Média. O Médico andaluz Ibn-Razīn, no século X, recomenda-o contra varíola.

Na cozinha islâmica medieval, embora presente em muitas receitas de Apicius e na cozinhadesde os tempos romanos, o garum era substituído por um novo produto amplamente mencionado pelos gastrônomos iraquianos desde o início do século IX: o murri.

O murri era muito diferente do garum: consistia num pó de peixe seco ao sol e salgado, diluído em vinho doce com orégão e colocado em fermentação numa ânfora oleada com marmelo e pedaços de cebola. Também existia um tipo de murri produzido a partir de cereais tostados, com um processamento mais rápido.

O uso de garum, como se fazia à moda antiga, sobreviveu no mundo bizantino, que se manteve com fortes ligações com a tradição helênica-romana. As fábricas estavam na Grécia, em Bizâncio e na costa leste de a região do Adriático (Ístria), como sabemos, graças a uma carta escrita por Cassiodoro no século VI.

Em Bizâncio, no século XX, o Geoponica, foi elaborada uma importante coleção de livros sobre agricultura, promovida por Constantino VII Porphyrogennetos (913-959 A.D.)

Neste trabalho é dada uma receita para a produção de garum, “em panela”:

  • Coloque num recipiente as entranhas de peixe e peixe pequeno com sal e deixe-os ao sol misturando-os com frequência.
  • Quando o picles tiver sido obtido, filtre tudo numa cesta, onde permanece a parte sólida, o allec.
  • Quem quiser usar esse garum de imediato, sem o deixar ao sol, pode-o ferver, filtrando cuidadosamente dois ou três vezes, até que o filtro esteja limpo.

O melhor granum é chamado de “haimation” e é feito com entranhas, brânquias, soro e sangue de atum.

A mistura é deixada a fermentar num recipiente, com sal ,por cerca de dois meses. Então a e recipiente é aberto e o garum é estabilizado. ”

Uma prova significativa sobre o uso tardio de garum vem da corte imperial bizantina: o bispo Liutprand Cremona, que serviu Otto I da Saxônia, fundador do Sacro Império Alemão, foi enviado a Constantinopla em 968, sob o reinado de Nikephoros II Phokas (963-969).

O embaixador, descreveu no seu relatório, depreciativamente o mundo bizantino em contraste com o mundo ocidental.  Também criticou os hábitos alimentares daquele local.

Definiu “vergonhoso e indecente” um jantar oferecido pelo Imperador durante o qual a comida foi “embebida em óleo e, ainda mais, mergulhado em um certo líquido de peixe da pior qualidade ”. Outro jantar é definido como “odioso” porque “Cheirava a alho e cebola e embebido em óleo e garum ”.

Embora tenha reclamado sobre a cozinha bizantina, para ele demasiado condimentada, Liutprand pronuncia-se sobre um “cordeiro gordo … generosamente temperado com alho, cebola e alho-porro e embebido em garum “, que é chamado, em grego, garon, que considerou excelente.

O uso de garum, ou de molhos de peixe, foi preservado no Leste também depois dos bizantinos. Pierre Belon (1547-1549), um viajante europeu durante o império otomano, relata:

“Existe um líquido […] que eu verifiquei estar muito na moda na Turquia […]. Todos os dias preparam peixe fresco que vendem já frito […]; molham-no no picles e transformam em garum ”.

É um bom exemplo de como este hábito local em relação à comida do mar foi transmitido aos turcos.

Contudo, a utilização de garum com peixe frito na Turquia tem raízes antigas. Um poeta, provavelmente um monge, que viveu no idade do Comnemi, menciona o garum entre os alimentos servido durante um elegante banquete de dois padres superiores num convento em Constantinopla.

O garum permaneceu na tradição da alta gastronomia medieval também nos países ocidentais.

Liutprand, um rei Longobard (712-744), deu a um seu oficial como salário, um solidus de ouro, um litro de óleo, um litro de garum e duas onças de pimenta.

Também no século VIII, os comerciantes de Comacchio, empreenderam o comércio do garum ao longo do rio Po. Os soberanos Longobard compravam-lhe o produto, no porto fluvial Parmisano. Ainda no século IX, o mosteiro de Bobbio, nos Apeninos Piacentino, comprava o garum no mercado de Gênova, como está registrado nos  arquivos monásticos.

O garum era ainda usado em França; o produto é mencionado num diploma de 29 de abril de 716, emitido pela Abadia de Corbie.

Confirma-se assim que nas idade média o uso de garum sobreviveu na Europa Ocidental, especialmente em âmbito monástico.

O regime beneditino proíbe os monges da Ordem de comer carne vermelha, exceto em caso de doença grave. Permite apenas peixes, ou outros animais aquáticos e aves; os recursos marinhos são portanto, muito importantes na dieta monástica.

A continuidade do uso e a provável produção de garum no âmbito beneditino é certificado no século X por um presente oferecido pelos monges de Santa Maria dos Amalfitanos

Quando visitam Santo Atanásio de Athos ,no mosteiro por ele fundada no Monte Athos. Embora os ortodoxos do mosteiro terem garum na sua despensa, durante o jantar o santo ordenou que trouxessem para a mesa o presente, descrito como “Precioso”.

O garum na região de Amalfi nas idade média

As informações mencionadas são testemunha significativa do uso de garum no principio da Idade Média, no âmbito monástico a leste e oeste e mostra que em Amalfi esse molho era ainda importante e precioso no século X.

Amalfi foi fundada pelos romanos em 553 d.C., tornou-se diocese e castrum bizantino após a vitória de Narsetes sobre os Godos. No altura das lutas entre Bizantinos e Longobards, no século VIII-IX, fazia parte do Ducado de Nápoles e ambos eram dependentes de Constantinopla.

Benevento foi conquistado pelos Longobards em 838 e em Amalfi rebelaram no mesmo ano criando um governo autônomo tendo à cabeça de um Comes. O poder marítimo de Amalfi começou neste tempo e a cidade de mar enriquecia com os seus negócios de navegação, estendendo o seu poder no território entre o Ducado de Nápoles e o Principado de Salerno.

Sérgio I apoiado por Constantinopla foi proclamado Dux em 958. Nesse período, Amalfi estendeu seu controle comercial até o Oriente Próximo chegando a possuir colônias em Constantinopla, Síria, Palestina e em Alexandria. A forte relação entre os monges Beneditinos em Amalfi e os ortodoxos do Monte Athos data do mesmo período.

Entre o século VIII e o século XII, Amalfi teve relações próximas com o mundo bizantino.

Os eventos históricos de Cetara nas idade média são bastante misteriosos. A vila foi um enclave sarraceno durante cerca de um século, desde 879.

No início do século X, Cetara, que delimitavaa fronteira entre a República de Amalfi e os Longobard, Principado de Salerno, teve uma importante função estratégica e foi enganada pelo mosteiro de Santa Maria de Erchie. Cetara era naquele tempo uma aldeia de pescadores da República Marítima de Amalfi e a salga do biqueirão representou uma importante atividade econômica, como atestam fontes medievais. É possível que o mencionado “precioso” garum dos Monges amalfitanos fossem produzidos em Cetara para os religiosos da comunidade de Amalfi.

Em 1092, Cetara passou a estar sob o controle dos poderosos da Abadia da Santíssima Trindade em Cava. A Abadia Beneditina cobrou o dízimo do pescado e adquiriu os direitos de ancoragem determinando uma contração da atividade marinha tradicional em Cetara.

O poder beneditino em Cetara, tanto econômico quanto territorial, tornou-se absoluto após a anexação definitiva do mosteiro de Erchie para a Abadia de Cava em 1128.

O atestado mais antigo da produção de um molho de anchovas fermentadas na costa de Amalfi remonta ao século XII, em que o nome “colatura di alici” aparece em St. Peter na reitoria de Tozcolo em Amalfi pela primeira vez.

Nessa época os monges Amalfitanos possuíam uma frota utilizada sazonalmente para a pesca do biqueirão.

É muito provável que os monges de Amalfi tivessem sido uma das as comunidades monásticas medievais que preservaram a conhecimento sobre a preparação do garum e a tradição do seu uso.

Os contínuos ataques de piratas na costa de Amalfitan tornou incontrolável e obsoleto o antigo sistema de salga em tanques (lat. cetaria), e fosse mais fácil para esse fim reutilizar os barris que já não tinham utilidade para guardar o vinho produzido na Reitoria.

Além disso, a tradição bizantina documentada pelo Geoponica, atesta a recusa do setor industrial da continuidade de produção em tanques, a favor de um sistema mais simples que tinha sido mantido por toda a antiguidade, embora utilizado principalmente para uso doméstico.

O próprio nome Cetara, relacionado com as ainda existentes redes de pesca de atum, pode se tornar mais compreensível considerando que, na antiguidade clássica, todas oas redes dos pescadores de atum estavam associadas a uma área de salga de atum equipada com tanques, cetarias, destinadas à produção de garum. Esta hipótese parece confirmada pela toponímia medieval na qual a vila atual aparece com o nome de Cetaria (como é certificado em alguns documentos 980 e 982).

Os centros medievais de pesca de atum com redes de pesca, tomaram conta dos antigos centros de produção de garum.  É provável que na era romana um centro de captura de peixes, com seus tanques (cetariae) tivesse surgido na área de Cetara.

Geralmente as estruturas para a produção de garum foram fundidas após a queda do Império Romano, embora a pesca em Cetara e as suas tradições alimentares do molho de peixe continuaram.

Portanto, é provável que a tradição de anchovas na Campânia, atestada em Pompéia, tenha sido preservada na península de Sorrento durante a idade média através dos Bizantinos.

A comunidade monástica em Amalfi, de forma a suprir as suas necessidades, teria permitido e ajudado à sobrevivência de uma técnica para preservar peixes que se tornaram, com o tempo, patrimônio da cultura popular da comunidade em Cetara.

É possível dizer que a “colatura di alici” moderna é um verdadeiro “fóssil vivo” de um dos mais importantes produto gastronômico da antiga região do Mediterrâneo.

Este processo de preservação cultural pode ter sido ajudado por um relativo isolamento geográfico das aldeias da península de Sorrento, ainda não facilmente alcançáveis por terra.

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The “Colatura d’alici” from the Amalfitan Coast
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Propriedades fisíco químicas e compostos bioativos em Camarinhas

Estudo das propriedades físico químicas e avaliação de compostos bioativos em camarinhas, Corema Album L. D. Don

Sónia da Conceição Andrade
Dissertação
Mestrado em Qualidade e Tecnologia Alimentar Trabalho efetuado sob orientação da Prof. Doutora Raquel Guiné.
Trabalho co-orientado por Prof. Doutor Fernando Gonçalves (ESAV)
Julho, 2016

RESUMO
As camarinhas (Corema album L. D. Don) são pequenos frutos selvagens que se desenvolvem em arbustos dunares ao longo das costas da Península Ibérica. Apesar de serem ainda pouco conhecidas, as camarinhas são pequenos frutos que podem pertencer ao vasto grupo dos frutos vermelhos, vulgarmente conhecidos pelos seus efeitos benéficos na saúde. Desta forma, neste estudo foram realizadas várias análises às camarinhas no que respeita a propriedades de natureza física e química e em particular a alguns compostos com efeitos bioativos.
Com a realização deste trabalho pretendeu-se avaliar as propriedades físico-químicas das camarinhas, bem como dos compostos bioativos com potenciais benefícios para a saúde. Nesse sentido, as bagas de camarinha foram avaliadas quanto às suas propriedades físicas (dimensões, peso, cor e textura), propriedades químicas (humidade, acidez, ºBrix, fibra, açúcares totais, açúcares redutores e vitamina C) e propriedades fenólicas (compostos fenólicos totais, orto-difenóis, flavonóides, taninos e atividade antioxidante, por DPPH e ABTS), em diferentes extratos de amostras de polpas e de grainhas liofilizadas. Os primeiros extratos ainda foram submetidos a uma simulações das condições do trato digestivo, para avaliar a bioacessibilidade dos compostos fenólicos e da atividade antioxidante. Este trabalho teve ainda como objetivo conhecer a bioacessibilidade dos compostos fenólicos totais e da sua atividade antioxidante, através do método da simulação “in vitro” das diferentes etapas do trato gastrointestinal.
No que diz respeito às propriedades físicas analisadas, as camarinhas frescas demonstraram uma altura média de 8,6 mm, um diâmetro médio de 9,4 mm e uma massa média de 0,7 g. Relativamente à caraterização da cor, estas apresentavam uma cor clara (L*=79,8). Quanto à textura apresentaram alguma elasticidade média (2,9 mm) e uma baixa dureza (1,9 N).
Nas análises químicas as camarinhas revelaram ser compostas, maioritariamente, por água (87,9%), por açúcares totais e fibras. Para além disso, apresentavam um teor em sólidos solúveis totais de 6,3 ºBrix, uma acidez de 1,4 g ácido tartárico/100 g e um teor de vitamina C de 2,8 mg de ácido ascórbico/100 g.
Na quantificação dos compostos fenólicos totais e flavonóides, os extratos de acetona:água das amostras de polpas de camarinha branca apresentaram os valores mais elevados, 1614,1 mg EAG/100 g e 143,7 mg EQ/100 g, respetivamente. Relativamente à quantificação dos orto-difenóis e dos taninos os extratos de metanol e de acetona:água das amostras de grainhas de camarinha branca registaram os valores de 23,4 mg EAG/100 g e 915,7 mg/100 g, respetivamente. Na atividade antioxidante por DPPH e ABTS os extratos de acetona:água das amostras de polpas de camarinha branca apresentaram, respetivamente, os valores de 40,1 µmol ET/g e de 79,6 µmol ET/g.
Na avaliação da bioacessibilidade verificou-se que ocorreu uma maior percentagem de compostos fenólicos disponíveis para absorção e uma maior preservação da sua atividade antioxidante nos extratos das grainhas, comparativamente aos extratos das polpas.
Com este estudo concluiu-se que as camarinhas são pequenos frutos portadores de um grande potencial em diversos compostos bioativos benéficos para a saúde dos consumidores.

ENQUADRAMENTO GERAL
As camarinhas (Corema album L.D. Don) desenvolvem-se em arbustos dunares em zonas costeiras de forma selvagem (León-González et al., 2012). Embora estas sirvam regularmente de alimento para animais (Oliveira & Dale 2012), estas também são próprias para o consumo humano (León-González et al., 2012), podendo ser consumidas ao natural, como aperitivo, ou então transformadas/processadas sob a forma de biscoitos, limonadas, geleias e licores (León-González et al., 2013).
As camarinhas são pequenos frutos, de cor branca ou rosada e com uma forma esférica (Santos et al., 2009). Estas possuem uma polpa muito rica em água e um sabor muito agradável, levemente ácido (Oliveira & Dale, 2012).
A ação dos compostos antioxidantes está relacionada, com a prevenção de efeitos oxidativos que levam ao aparecimento de diversas doenças crónicas e degenerativas (Chia-Jung, 2013). Os compostos bioativos das camarinhas podem estar correlacionados com a presença de determinados fitoquímicos, tais como os flavonóides e ácidos fenólicos (León-González et al., 2012 e 2013). Estes compostos têm despertado interesse pelos seus efeitos biológicos e benéficos na saúde, provenientes de uma ação antioxidante e atuando, desta forma, como agentes de defesa contra os radicais livres (Sánchez-Salcedo et al., 2015).
Em Portugal, a produção extensiva das camarinhas é uma prática que não existe, devido às condições próprias e necessárias para o crescimento e desenvolvimento desta espécie (Costa, 2011; Oliveira & Dale, 2012).
No que diz respeito à comercialização, as camarinhas não têm um nicho de mercado organizado, comparativamente com outros pequenos frutos (mirtilos, groselhas, framboesas, entre outros). No entanto, a geleia de camarinhas começa a despertar um crescente interesse, em mercados internacionais, o que intensifica a importância de adquirir um maior conhecimento sobre estes novos pequenos frutos.
Dada a importância que se faz sentir perante as camarinhas foram determinadas diferentes propriedades físico-químicas e feita a uma avaliação dos compostos bioativos, em polpas e em grainhas em dois graus diferentes de maturação.

OBJETIVOS
Com a realização deste trabalho pretendeu-se avaliar as propriedades físico-químicas das camarinhas, bem como dos compostos bioativos com potenciais benefícios para a saúde. Nesse sentido, as bagas de camarinha foram avaliadas quanto às suas propriedades físicas (dimensões, peso, cor e textura), propriedades químicas (humidade, acidez, ºBrix, fibra, açúcares totais, açúcares redutores e vitamina C) e propriedades fenólicas (compostos fenólicos totais, orto-difenóis, flavonóides, taninos e atividade antioxidante, por DPPH e ABTS). Este trabalho teve ainda como objetivo conhecer a bioacessibilidade dos compostos fenólicos totais e da sua atividade antioxidante, através do método da simulação “in vitro” das diferentes etapas do trato gastrointestinal.

 

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
1.1. Camarinhas – Corema album L D. Don
As camarinhas são pequenos frutos que se desenvolvem nos arbustos selvagens da Corema album L.D. Don. A Corema album L.D. Don (Empetraceae) é uma das espécies mais importantes dos sistemas dunares do ocidente. Esta espécie endémica é um arbusto dioico adaptada a solos arenoso e encontra-se localizada na costa atlântica da Península Ibérica (Marques, 2007; Oliveira & Dale, 2012; Guitián et al., 1997).
1.1.1. Espécie e caraterização
O nome Corema tem uma origem grega (“Korema”), que significa “vassoura”. Este nome reflete uma das principais funções atribuídas aos ramos destes arbustos, ao longo de várias décadas (Gil-López, 2011). Atualmente esta espécie encontra-se em extinção, devido à elevada degradação ou destruição dos habitats costeiros (Calviño-Cancela, 2005).
A Corema album L.D. Don é um arbusto dioico que pertence à família das Empetraceaes tem a particularidade de adquirir comportamentos típicos das espécies subdióicas, quando os arbustos do sexo masculino desenvolvem inflorescências características das plantas hermafroditas (Zunzunegui et al., 2005). Por esta razão, por vezes, torna-se difícil encontrar um mecanismo adequado para a determinação do sexo desta espécie (Álvarez-Cansino et al., 2010).
Os arbustos desta espécie são caraterizados por apresentarem uma estatura baixa (30-75 cm) e numerosos ramos sempre verdes (Oliveira & Dale 2012). Os arbustos do sexo feminino tendem a criar estratégias de adaptação que os diferenciem dos arbustos do sexo masculino. Essas estratégias são evidenciadas na morfologia e fisiologia desta espécie e, neste sentido os ramos dos arbustos do sexo feminino são caracterizados como curtos e curvilíneos e os do sexo masculino como longos e eretos (Zunzunegui et al., 2005).
As flores dos arbustos do sexo masculino (Figura 1 (a)) são constituídas por três sépalas, com três pétalas vermelhas. Por outro lado, as flores dos arbustos do sexo feminino (Figura 1 (b)) apresentam as mesmas características morfológicas, no entanto com menores dimensões (Zunzunegui et al., 2005).
O período de inflorescência desta espécie decorre de fevereiro a abril. Após esse período, os arbustos do sexo feminino começam a produzir pequenos frutos esféricos semelhantes a bagas (Costa, 2011; Álvarez-Cansino et al., 2012). A maturação destes frutos, em Portugal, tem início durante o verão, entre os meses de junho a julho nas regiões costeiras a sul e de agosto a setembro nas regiões costeiras mais a norte (Álvarez-Cansino et al., 2012; Oliveira & Dale, 2012). O pico de maturação decorre normalmente, entre agosto e setembro (Pimpão et al. 2013), no entanto as camarinhas podem permanecer nos arbustos até outubro ou dezembro, dependendo da zona geográfica onde se encontrem localizadas (Larrinaga, 2009; Álvarez-Cansino et al., 2012).

Figura 1: Inflorescência da Corema album : (a) masculina; (b) feminina; (c) hermafrodita; (d) bagas (adaptado Costa, 2011)

1.1.2. Distribuição Geográfica da Corema album 

A espécie Corema album L.D. Don desenvolve-se ao longo da costa atlântica da Península Ibérica em habitats costeiros, como falésias, pinhais e

dunas (Hellmann et al., 2011). Por outro lado, no caso da subespécie C. album subsp. Azoricum Pinto da Silva do Arquipélago dos Açores, esta desenvolve-se em locais rochosos e em campos de lava ou de cinza vulcânica (Calviño-Cancela, 2004). 

As populações mais importantes desta espécie, em Portugal (Figura 2), encontram-se distribuídas a sudoeste (Sines a Tróia) e a norte-centro (Nazaré a Ovar) (Oliveira & Dale, 2012). Em contra partida, em Espanha as populações mais importantes encontram-se localizadas em Aspeillo, a oeste do Parque Nacional de Doñana (Zunzunegui et al., 2005). 

Figura 2: Distribuição da espécie Corema album na Península Ibéria. Adaptado de Zunzunegui (2005).

Figura 2: Distribuição da espécie Corema album na Península Ibéria. Adaptado de Zunzunegui (2005).

1.1.3. Caraterização da Área Geográfica em estudo 

As dunas da praia de Mira pertencem à Região Centro (NUT II) do distrito de Coimbra e ocupam uma área total de 124,1 Km2 (INE, 2016). O concelho de Mira é composto por quatro freguesias (Mira, Praia de Mira, Seixo e Carapelhos). 

A praia de Mira (Figura 3) é formada por uma faixa litoral aplanada, constituída por areia e um cordão dunar com orientação de norte para o sul. 

Os meios dunares são de difícil sobrevivência para algumas espécies de plantas, pois a disponibilidade de água é fraca e o teor em elementos nutritivos e essenciais é escasso (Ferreira, 2013). 

As espécies dunares apresentam uma grande resistência a diversos fatores relacionados com as condições edafoclimáticas, tais como, a instabilidade térmica, ventos fortes carregados de partículas de sal e solos de drenagem rápida e com baixa disponibilidade em matéria orgânica (Alvarez-Cansino et al., 2010; Ferreira, 2013). . 

O clima da região da praia de Mira é caraterizado por apresentar um inverno com temperaturas baixas e um verão seco e pouco quente, embora de longa duração. O concelho de Mira, de forma geral, no verão apresenta uma temperatura máxima de 24,5 ºC, (mês de agosto) e uma mínima de 4,2 ºC, (mês de janeiro). A temperatura média anual ronda os 14,1 ºC. 

Figura 3: Imagens da praia de Mira. 

1.2. Morfologia e caraterização das camarinhas 

As camarinhas são pequenos frutos de cor branca ou rosada a translúcida (León-González et al., 2013). Morfologicamente, as camarinhas têm uma forma esférica e compreendem uma largura de 6-12 mm, um comprimento 5-12 mm e um diâmetro entre 5-8 mm (Alvarez-Cansino et al., 2010; Oliveira & Dale, 2012). 

O interior destes frutos é constituído por polpa e habitualmente três grainhas (sementes) (Calviño-Cancela, 2002). No entanto, devido às variações do genótipo, as camarinhas podem conter duas a nove grainhas (Costa, 2011). Estas grainhas são descritas como sendo alongadas, de espessura grossa e com um endocarpo duro e lenhoso (Larrinaga, 2009; Zunzunegui et al., 2005). 

1.3. Produção e comercialização das camarinhas em Portugal 

A produção extensiva das camarinhas ainda é uma prática não realizável, talvez devido às condições particulares e propicias dos solos dunares e às condições edafoclimáticas das regiões onde estes tipos de frutos se desenvolvem. No entanto, já existem estudos direcionados à investigação cujo objetivo passa por criar condições controladas para a reprodução desta espécie (Costa, 2011; Oliveira & Dale, 2012). 

Atualmente, ao contrário de outros pequenos frutos, as camarinhas não são comercializadas nas grandes cadeias de distribuição do setor Agroalimentar. Apesar de não existirem dados do Instituto Nacional Estatística (INE) ou de outras entidades, durante décadas as camarinhas foram vendidas em mercados (Figura 4) das zonas costeiras portuguesas. Na atualidade, este hábito mantém-se, sendo ainda, a única forma de comercialização (León-González et al., 2013). As camarinhas são vendidas “avulso” utilizando para o efeito copos de plástico ou vidro como forma de “medida”. O valor destas pode variar entre 0,50 cêntimos a 1 euro, dependendo do tamanho do copo ou então das camarinhas. 

As camarinhas são consumidas, frequentemente, ao natural como aperitivo, ou então transformadas/processadas sob a forma de biscoitos, limonadas, geleias e licores (Figura 5) (León-González et al., 2013). 

Artigos recentemente publicados em revistas do setor alimentar, referem que a geleia de camarinha é um produto com um “sabor único que já levou, inclusive, a despertar muito interesse em grandes nomes de chefes da cozinha internacional, um pouco por todo o Mundo (Amesterdão, Barcelona, Belo Horizonte, Londres e Paris)” (Anónimo, 2015), 

figura4

Figura 4: Comercialização das camarinhas 

Figura 5: Vários produtos derivados das camarinhas 

1.4. Propriedades físico-químicas e nutricionais dos pequenos frutos 

A caraterização química e física dos pequenos frutos e a quantificação dos seus componentes tem atraído o interesse da comunidade científica, sendo estas essenciais para a compreensão do seu valor nutricional. 

1.4.1. Propriedades físicas 

As propriedades físicas, incluindo o estudo biométrico, representam um fator de enorme importância na caraterização dos pequenos frutos, pois estas podem indicar as diferenças existentes numa dada variabilidade, dentro da mesma população ou então entre populações da mesma espécie (Zuffo et al., 2014). 

A textura nos pequenos frutos é definida como sendo um padrão da qualidade, interligada a um conjunto de características intrínsecas com evidências claras de suculência, firmeza e dureza (Ferreira, 2015). 

A cor resulta de um conjunto de pigmentos naturais presentes nos frutos e vegetais, dos quais, são classificados como corantes lipossolúveis e hidrossolúveis. Os corantes lipossolúveis estão presente nas clorofilas (verde) e nos carotenóides (amarelo, laranja e vermelho). Os hidrossolúveis encontram-se presentes nas antocianinas (vermelho, azul) e nos flavonóides (amarelo) (Ferreira, 2015). 

1.4.2. Propriedades químicas, nutricionais e sensoriais 

Os pequenos frutos contêm macronutrientes e micronutrientes, incluindo fibras, minerais, vitaminas e compostos bioativos (Jeong et al., 2014; Charoenkiatkul et al., 2016). 

A porção comestível destes frutos é constituída maioritariamente por água (cerca de 80%) e por hidratos de carbono. A água é uma molécula que possui a capacidade de unir-se a outras substâncias, tais como açúcares, taninos, pigmentos, sais minerais, ácidos, entre outros. Os hidratos de carbono podem ser classificados em monossacarídeos, quando constituídos por uma molécula, oligossacarídeos (compostos por 2 a 9 monossacarídeos), ou então polissacarídeos (compostos por 10 ou mais monossacarídeos). A glucose, frutose e sacarose constituem os principais açúcares encontrados nos frutos (Barros, 2012). 

As vitaminas e minerais são micronutrientes que, para além de desempenham um papel nutricional e fisiológico importante, cooperam no aroma, textura e na ativação/inibição de determinadas reações enzimáticas. As vitaminas são obtidas essencialmente através da alimentação, com exceção das vitaminas B, D e K, as quais podem ser sintetizadas pelo organismo. No caso particular da vitamina C (ácido ascórbico), esta desempenha funções como conservante, estabilizador antioxidante, entre outras (Barros, 2012). 

A composição físico-química das camarinhas é um tema pouco estudado, no entanto segundo alguns estudos, já realizados, descrevem estes pequenos como sendo portadores de um sabor doce levemente ácido, semelhante a mel e a limão, muito ricos em água, açúcares e fibras. Estas também são portadoras de uma importante fonte em vitamina C e fitoquímicos, nomeadamente, ácidos fenólicos e flavonóides (Cancela, 2002; León-González et al., 2012; Pimpão et al. 2012; Santos et al., 2014). 

Os compostos bioativos naturais denominados “fitoquímicos” ou “fito nutrientes”, detêm de um papel importante numa alimentação equilibrada. Estes compostos orgânicos, biologicamente ativos, são os que conferem a cor, o sabor, o aroma e a proteção às plantas (Du et al., 2014). 

1.5. Composição fenólica dos pequenos frutos 

Os pequenos frutos são amplamente conhecidos por conterem grandes quantidades em compostos fenólicos. Os compostos bioativos, presentes nestes frutos, abrangem substâncias nutricionais e não nutricionais, que detêm uma ação metabólica ou fisiológica específica, melhorando as condições de saúde, promovendo o bem-estar e prevenindo o surgimento precoce de algumas doenças degenerativas (Jeong et al., 2014). Segundo as indicações de vários estudos, o consumo destes frutos pode promover efeitos benéficos sobre a saúde humana, atuando como agentes antibacterianos, anti-inflamatórios e anticancerígenos (León-González et al. 2013; Jeong et al., 2014). 

1.5.1. Compostos fenólicos 

Os compostos fenólicos são os produtos resultantes do metabolismo secundário, provenientes das diferentes reações de defesa das plantas contra as agressões ambientais (Kylli, 2010). Estes compostos fazem parte de um vasto grupo de fitoquímicos derivados de fenilalanina, contendo apenas um ou mais grupos hidroxilo ligados a um anel benzénico (Garcia-Salas et al., 2010). 

Os orto-difenóis são compostos fenólicos resultantes das reações de hidroxilação dos monofenóis procedentes, da primeira fase da reação enzimática da polifenoloxidase (enzima intracelular) (Fronk et al., 2015). A hidroxilação dos compostos fenólicos na posição orto do anel B (orto-difenol), proporciona aos frutos uma elevada capacidade antioxidante (Roussos et al., 2009). Por outro lado, as orto-quinonas são resultantes da oxidação dos orto-difenóis (Fronk et al., 2015). 

Os compostos fenólicos podem ser agrupados em diferentes classes e subclasses (Figura 6) de acordo com a sua estrutura química básica ou então com o tipo de ligações. Estes compostos podem ser encontrados ligados a açúcares ou então a derivados funcionais, tais como, ésteres ou ésteres metílicos (Garcia-Salas et al., 2010). 

Os compostos fenólicos podem ser divididos em compostos flavonóides (polifenóis) e não-flavonóides. Os principais representantes destes compostos são os flavonóides (C6-C3-C6), subdivididos em flavonóis, flavonas, flavanóis, flavanonas, antocianinas e isoflavonas. Os não-flavonóides subdividem-se em ácidos fenólicos (ácidos hidroxibenzóicos ou ácidos hidroxicinâmicos), estilbenos (C6-C2-C6), cumarinas (C6-C3) e taninos hidrolisáveis e complexos (Oliveira, 2014). 

Figura 6: Classificação dos compostos fenólicos nas diversas subclasses (adaptado de Oliveira, 2014). 

1.5.1.1. Não flavonóides 

Os ácidos fenólicos são divididos em dois grupos principais: ácidos hidroxibenzóicos (Figura 7), contendo 7 átomos de carbono (C6-C1) e ácidos hidroxicinâmicos (Figura 7), com 9 átomos de carbono (C6-C3). 

Os ácidos hidroxibenzóicos resultam diretamente do ácido benzoico. Estes ácidos encontram-se, normalmente, ligados a açúcares ou então a ácidos orgânicos (Kylli, 2010). Dos principais compostos derivados dos ácidos benzoicos, destacam-se os ácidos salicílico, gálico, elágico, protocatéico e vanílico (Jakobek et al., 2007; Garrido & Borges, 2013). 

Os ácidos hidroxicinâmicos são biossintetizados a partir da fenilalanina. Os ácidos hidroxicinâmicos mais recorrentes são os ácidos p-cumárico, cafeico e ferúlico (Jakoberk et al., 2007). 

Os taninos hidrolisáveis e complexos são compostos fenólicos capazes de provocar a precipitação das proteínas e proporcionar propriedades adstringentes em diferentes alimentos (Soares et al., 2012). Os taninos hidrolisáveis podem ser suscetíveis à degradação desencadeada pela hidrólise enzimática ou não enzimática, ou então pelas alterações do pH (Garrido & Borges, 2013). Estes compostos encontram-se ligados ao ácido gálico (Figura 8 B) e ao ácido elágico (Figura 8 A) dando origem, de forma respetiva, aos galotaninos e aos elagitaninos (Nunes, 2012). 

Os taninos complexos são constituídos, tanto por elementos estruturais do grupo dos taninos hidrolisáveis, como por elementos estruturais do grupo dos taninos condensados. Por exemplo, no caso das procianidina-elagitaninos, estas contêm unidades (+)-catequina ou (-)-epicatequina ligadas a glicosídeos e a uma unidade de elagitanino. Após uma reação de hidrólise, os taninos complexos dividem-se em (+)-catequina ou (-)-epicatequina e em ácido gálico ou ácido elágico (Garrido & Borges, 2013). 

Os estilbenos possuem um esqueleto C6-C2-C6, contendo o 1,2-difeniletileno como grupo funcional. O membro mais abundante da família dos estilbenos é o resveratrol, que pode aparecer sob a forma livre ou então ligado a açúcares (Jakoberk et al., 2007; Oliveira, 2014). 

As cumarinas contemplam compostos derivados de latonas dos ácidos o-hidroxicinâmicos, presentes de forma abundante na classe das plantas. Os compostos cumáricos mais conhecidos são as benzo-a-pironas, a umbeliferona, a herniarina e o esculetol (Jakoberk et al., 2007; Ruivo, 2012). 

Figura 7: Estruturas básicas dos ácidos hidrobenzóicos e hidroxinâmicos (adaptado de Garrido & Borges, 2013). 

Figura 8: Estrutura do ácido elágico (A) e ácido gálico (B) (adaptado de Oliveira, 2014) 

1.5.1.2. Flavonóides 

Os flavonóides constituem um dos maiores grupos de compostos fenólicos. Existem mais de 8000 estruturas fenólicas atualmente conhecidas, das quais 4000 foram identificados como flavonóides (Tsao, 2010). Estes compostos podem ser subdivididos em subclasses (Figura 9), tais como, flavonóis, flavonas, flavanonas, isoflavonas, flavanóis e antocianidina (Garrido & Borges, 2013; Jorjong et al., 2015). 

Os flavonóis são amplamente distribuídos na natureza. As aglíconas mais comuns, destes compostos, são o canferol, a miricetina e a quercetina, sendo a quercetina e o canferol os encontrados em maiores quantidades nos frutos (Tsao, 2010; Jorjong et al., 2015). 

As flavonas têm uma estrutura semelhante às flavanonas, no entanto estas apresentam insaturações entre as ligações de C-2 e C-3 no anel C. As aglíconas mais comuns são a apigenina e a luteolina (Tsao, 2010). Por outro lado as agliconas, mais comuns das flavanonas são a hesperedina, hesperitina e naringenina (Oliveira, 2014). 

As isoflavonas são isómeros estruturais das flavanonas. Estes isómeros existem em grandes quantidades, sendo muitas vezes confundidos, com hormonas e esteroides. As isoflavonas mais comuns aparecem sob a forma de aglíconas, glicosídeos, acetil-glicosídeos e malonil-glicosídeos (Tsao, 2010; Garrido & Borges, 2013). 

Os flavanóis possuem um anel C saturado com um grupo hidroxilo ou galoil. Os compostos mais comuns são a (+)-catequina e (-)-epicatequina (Tsao, 2010). Os taninos condensados (proantocianidinas) fazem parte do grupo dos flavanóis, podendo estes serem oligoméricos ou poliméricos solúveis ou insolúveis em água. O termo proantocianidinas surge devido ao mecanismo que estes taninos dispõem, em libertarem antocianinas quando aquecidos em meio fortemente ácido e alcoólico, através da rutura das ligações estabelecidas entre as unidades monoméricas. As proantocianidinas, também são muito conhecidas por serem responsáveis pela adstringência característica em alguns alimentos (Nunes, 2012). 

As antocianinas são compostos hidrossolúveis responsáveis pela grande diversificação de cores atrativas dos pequenos frutos (Tsao, 2010). Estes compostos são muito instáveis e suscitáveis a degradação resultante de diversos fatores, tais como, o pH, a temperatura, a atividade enzimática e a interação entre outros componentes alimentares (ácido ascórbico, iões metálicos, açúcares, entre outros). Apesar das antocianinas estarem associadas às diferentes cores, estas também podem surgir sob a forma incolor, dependendo do pH (Kylli, 2010). Desta maneira, as antocianinas sob a forma de estrutura de oxónio (que vai do laranja ao roxo) predominam a pH 1, no entanto as antocianinas sob forma hemiacetal (incolor) predominam a pH 4,5 (León-González et al., 2012). Nestes compostos quanto maior o número de grupos hidroxilos e glucósidos mais intensa é a cor azul, por outro lado quanto maior for o número de grupos metóxilos mais intensa é a cor vermelha (Garrido & Borges, 21013). 

1.5.2. Atividade antioxidante e protetora dos compostos fenólicos 

Os pequenos frutos são muito conhecidos pelas suas propriedades antioxidantes provenientes dos diferentes compostos bioativos (vitaminas, carotenóides, compostos fenólicos, entre outros). Diferentes estudos, em matrizes de pequenos frutos, têm vindo a demonstrar a existência de uma forte relação entre o tipo de composto bioativo e a sua atividade antioxidante, com o objetivo de promover os efeitos benéficos na saúde dos consumidores (Chia-Jung, 2013; Sánchez-Salcedo et al., 2015; Charoenkiatkul et al., 2016). 

Os antioxidantes podem ser classificados como enzimáticos/endógenos (sintetizados pelo organismo) ou então como não-enzimáticos/exógenos (provenientes da dieta alimentar) (Figura 10) (Oliveira, 2014). 

Por definição, a atividade antioxidante é a capacidade que um composto tem em inibir e/ou diminuir a degradação oxidativa dos vários constituintes dos alimentos, particularmente dos lípidos. 

Nos últimos anos tem-se observado um interesse crescente no estudo de substâncias antioxidantes devido, principalmente, ao conhecimento sobre o efeito dos radicais livres no organismo. Sendo a oxidação é uma parte fundamental da via aeróbia e do metabolismo parece evidente que os radicais livres sejam produzidos espontaneamente ou por alguma disfunção biológica. 

Esses radicais livres, cujo eletrão desemparelhado esta centrado nos átomos de oxigénio ou azoto, são denominados espécies reativas de oxigénio (Reactive oxygen species, ROS), ou espécies reativas de azoto (Reactive nitrogen species (RNS)) ambas radicalares (com um ou mais eletrões desemparelhados) ou não. No organismo, os radicais livres quando em quantidades baixas (fisiológicas) encontram-se envolvidos na fagocitose, na regulação do crescimento celular, na sinalização intercelular e na síntese de substâncias biológicas. No entanto, quando em excesso acarretam efeitos prejudiciais por conduzir à morte celular. Assim, as células possuem mecanismos de defesa e sistemas antioxidantes para eliminação de ROS e RNS quando estes são insuficientes ocorre o stresse oxidativo. O stresse oxidativo é pois, o resultado do desequilíbrio entre moléculas antioxidantes e oxidantes, causado por perturbações na produção, distribuição ou por excesso de ROS ou RNS a partir de fontes endógenas ou fatores ambientais da qual resultam efeitos nocivos sobre as células (Jeong et al., 2014). Devido a isso, o stresse oxidativo tem sido relacionado com a patogénese de doenças cardiovasculares, neurodegenerativas, alguns tipos de cancro, bem como no processo de envelhecimento. De ressaltar que as espécies reativas em geral podem ser ao mesmo tempo causa e consequência de patologias humanas associadas ao stresse oxidativo (Sánchez-Picó et al., 2014; Wu et al., 2015). 

Os flavonóides desempenham um papel relevante na redução do risco da aterosclerose e no fortalecimento do sistema imunológico (propriedades anti-inflamatórias e anti-alérgicas) (Nunes, 2102; Koirola et al., 2016). 

As antocianinas para além de possuírem efeitos anti-inflamatórios e antissépticos, estas também têm a capacidade de neutralizam os radicais livres responsáveis por doenças cardiovasculares, levando desta forma, à redução do risco do acidente vascular cerebral (AVC) (Jeong et al., 2014). 

1.5.3. Bioacessibilidade dos compostos fenólicos 

A bioacessibilidade dos compostos fenólicos é definida como sendo a quantidade que fica disponível para absorção no intestino delgado após um processo de digestão. Por outro lado, o termo biodisponibilidade é utilizado numa visão mais alargada, pois contempla a quantidade disponível no local de ação e aquela que é assimilada pelas células. 

A biodisponibilidade dos nutrientes é normalmente determinada pela medição da sua concentração plasmática (ensaio “in vivo”). Tanto a bioacessibilidade como a biodisponibilidade dependem das características dos compostos, da matriz alimentar, do pH, da temperatura, da presença de inibidores ou potenciadores de absorção, da presença de enzimas, entre outros fatores relacionados com a variabilidade individual (a acidez do estômago, atividade enzimática e estado fisiológico) (Bouayed et al., 2011; Pereira, 2014; Stanisavljević et al., 2015). O pH do meio é um fator importante que interfere diretamente na bioacessibilidade dos compostos fenólicos. Neste sentido, as antocianinas são compostos estáveis a valores de pH baixos (entre 1 a 3) o que explica a redução da bioacessibilidade, destes compostos perante as condições alcalinas do intestino delgado (Stanisavljević et al., 2015) 

O conhecimento da bioacessibilidade dos compostos fenólicos constitui um fator chave para afirmar que os antioxidantes presentes nos alimentos conferem uma maior proteção contra o “stress oxidativo”. Efetivamente, para que estes compostos possam apresentar efeitos “in vivo”, estes têm que chegar aos tecidos na sua forma nativa ou então sob a forma metabolizada e em quantidades suficientes para poderem exercer o seu efeito (Stanisavljević et al., 2015). 

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Estudo das propriedades físico químicas e avaliação de compostos bioativos em camarinhas, Corema Album L. D. Don
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1889 Á Beira Mar

By the Sea

TITLE: By the Sea 

SUB TITLE: ‘Com 200 gravuras desenhadas por A. Xavier pinheiro, J. d’Almeida, Juillerat, Mutzel, Prêtre, etc. 20 planchas de specimens naturae e 10 phototypias segundo clichés da Ex.ma Snr.ª D. Marianna Relvas e dos Exc.mos Snrs. Carlos Relvas, J. M. Rebello Valente, Anthero d’Araujo, Emílio Campos e J. G. Peixoto.’

AUTHOR: Eduardo Henrique Vieira Coelho de Sequeira

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO:

SUPORTE: 

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: 

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1889

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 

LOCAL: Porto

PUBLISHER: Livraria Cruz  Coutinho

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: Brochado

FORMATO / DIMENSÕES: 15×22 cm

NÚMERO DE PÁGINAS: 182 páginas

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: SELO DE MAR

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: 

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”:

OBSERVAÇÕES:

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Eduardo Henrique Vieira Coelho de Sequeira, foi um naturalista, herpetologista, botânico e jornalista dos finais do século XIX e início do século XX.

Nasceu no Porto em 1861 e morreu em 1914.

Livro com 200 gravuras desenhadas por A. Xavier Pinheiro, J. d`Almeida, Juillerat, Mutzel, Prêtre, etc.

20 planchas de specimens e 10 phototypias segundo clichés da Exc. ª Snrª D. Marianna Relvas e dos Exc. Snrs. Carlos Relvas, J.M.Rebello Valente, Anthero d`Araujo, Emilio Campos e J.G. Peixoto.

Livro profusamente ilustrado, com todas as páginas impressas em policromia com motivos marinhos em fundo.

Litografias a cores de A. Lydon.

Fotogravuras em extra-texto de grande qualidade gráfica com motivos da etnografia do litoral (impressas na litografia Von J. Löwy, Wien, Viena de Aústria).

Inclui importante herbário marinho intercalado em extra-texto com os espécimens acondicionados em suportes e envelopes apropriados impressos com o seu nome cientifico, o local e a data da sua recolha.

De 15×22 cm (formato oblongo). Com 182 páginas.

Livraria CRUZ COUTINHO, editora

18, Caldeireiros, 20, Porto

1889

INDICE DOS TEXTOS

Dedicatória  5
Divagando 9
Banhos do mar 25
Natação 33
Soccorros a naufragos  39
As praias 43
Algas 71
lnfusorios 83
Foraminiferos 85
Polipeiros 87
Esponjas 93
Actinias 95
Medusas 99
Asterias 103
Echinodermes 107
Briosoarios  109
Molluscos 111
Cephalopodes 121
Annellideos 127
Cirripedios  131
Rotiferos 133
Crusfaceos 135
Aracnideos 143
Insectos 147
Peixes 151
Reptis 159
Aves 167
Mammiferos 173
Declaração 175

COLECÇÃO SELO DE MAR