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Livros colecção SELO DE MAR

Livros colecção SELO DE MAR

2020 EAT&ART

Eat & Art, from the people behind Lisbon’s famous Can the Can restaurant

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1988 Livros Portugueses de Cozinha

1998 - Livros Portugueses de Cozinha

TITLE: Portuguese cookery books

SUB TITLE: 

AUTHOR: Manuela Rêgo (Coordenação e pesquisa bibliográfica)

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO: José Quitério (Apresentação)

SUPORTE: Impresso/livro

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Catálogo

DATA  DE PUBLICAÇÃO: Fevereiro 1998

DEPÓSITO LEGAL:  109073/97

EDIÇÃO: 2ª Edição

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: Biblioteca Nacional

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: Oficinas Gráficas do Enclave de Reabilitação Profissional BN

ENCADERNAÇÃO: Brochado

FORMATO / DIMENSÕES: 24 x 16 cm

NÚMERO DE PÁGINAS: 216

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN: 972-564-246-0

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: 

OBSERVAÇÕES: A Biblioteca Nacional (BN) organizou o catálogo  Livros Portugueses de Cozinha em 1998,  coordenado por Manuela Rêgo, que é uma obra de referência para o estudo da gastronomia portuguesa. Além deste, a BN tem outros catálogos e documentos relacionados com a história da cozinha portuguesa, como a exposição  “Livros portugueses de cozinha [Visual gráfico]”, datada de 1989.

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1950 O Mestre Cozinheiro

1950 - O Mestre Cozinheiro

TITLE: The Master Chef

SUB TITLE: Tratado completo de culinária.

AUTHOR: Laura Santos

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1950

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 1st edition
Outras ed.:
– 2.ª ed. (C.G. 8090 V.)
– 3.ª ed. (S.A. 32000 V.)

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: Editorial Lavores

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: Capa dura

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO: Colecção Laura Santos

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE:
SELO DE MAR
Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN C.G. 7664 V.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 344

OBSERVAÇÕES: não há como ter a certeza se Laura Santos é de facto a autora e não uma marca criada pela editora original, pois as primeiras edições o nome surge entre aspas.

Capa primeira edição

346

O mestre cozinheiro: tratado completo de culinária… novas regras e novas receitas. – [1.ª ed.]. – Lisboa: Ed. Lavores, [s. d.]. – 10 vol. – (Col. Laura Santos)
BN C.G. 7664 V.

Outras ed.:
– 2.ª ed. (C.G. 8090 V.)
– 3.ª ed. (S.A. 32000 V.)

Ver também:

347

O mestre cozinheiro / fot. de José Carlos Nascimento. – Lisboa: Anagrama, 1990. – 4 vol.

BN S.A. 69095–98 V.

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Texto parcial do ESTUDO DO RECEITUÁRIO DE O MESTRE COZINHEIRO

Anabela Ferreira

ESTUDO DO RECEITUÁRIO DE O MESTRE COZINHEIRO

3ª edição – 1959

Disciplina: Alimentação Tradicional Portuguesa

Docente: Carmen Soares

Universidade Lusófona

Pós-Graduação em Património Cultural Imaterial

2020

LINK

1  – Apresentação e caracterização da obra  O Mestre Cozinheiro

Editado pela primeira vez em 1950 (1), pela Editorial Lavores, a obra de seu título completo O Mestre Cozinheiro – Tratado completo de culinária. Cozinha regional portuguesa. Cozinha francesa. Conservas de legumes e frutas. Doçaria. Licores. Novas regras e novas receitas, que se enquadra no género literário dos livros de cozinha pretendia ser, de acordo com o texto publicitário da terceira edição, um “Verdadeiro tratado de culinária.” (2) 

A obra em análise, terceira edição editada em 1959, resultou da aquisição de catorze volumes colecionáveis, com a possibilidade de encadernação após conclusão da coleção. (3)
Assim a terceira edição apresenta-se em dois volumes, o primeiro com o subtítulo de Cozinha e o segundo Doçaria inscritos na lombada, em letras douradas sob fundo azul-escuro, que se destaca da restante encadernação em vermelho escuro. Possui um total de 1062 páginas numeradas sequencialmente, com o primeiro volume a terminar na página quinhentos e sessenta. As quarenta e oito páginas do Índice não estão numeradas e devido à sua extensão optou-se, neste trabalho, por apresentar uma lista dos títulos principais num documento em anexo (4)

No que diz respeito à autoria da obra, embora em edições posteriores, inclusive na décima terceira edição em 2006, já em outra editora (5), se tenha convencionado apresentar o nome de Laura Santos como autora, não há como ter a certeza se assim é de facto e não uma marca criada pela editora original, pois as primeiras edições o nome surge entre aspas e em nenhum lugar se encontrou referência à pessoa, exceto no site da Mel Editores (6) que atualmente possui os direitos de publicação da obra. Contudo a informação ali contida não é passível de verificação, o texto foi criado pelo atual responsável (7), sem outras referências para além do conhecimento das obras editadas na Coleção «Laura Santos».

Uma investigação mais apurada pode vir a esclarecer esta questão, a qual não é fundamental para este trabalho. Seja como for na página, antes da folha de rosto, pode ler-se em baixo que “Este livro teve a colaboração de diversos cozinheiros portugueses e franceses.” (8), pelo que se deduz tratar-se de uma compilação à qual se “colou” a marca da coleção.

Trata-se de uma obra ilustrada com desenhos a traço, a maioria com representações da apresentação da receita concluída, exposta em prato ou travessa, ladeada por alguns utensílios de cozinha ou de serviço de mesa (9). Algumas ilustrações focam pormenores do preparo do alimento, vendo-se mãos femininas em ação (10). Com menos frequência podem ver-se algumas que apresentam a mulher na cozinha, como a que se apresenta na capa deste trabalho e na imagem que ilustra o primeiro capítulo da obra (11). Repare-se no aprumo da dona de casa, patente no vestuário e no penteado, na arrumação da cozinha que se advinha muito limpa, pormenores que ilustram aspetos que ao longo da obra se vão aconselhando como preceitos que as “boas donas de casa” deviam seguir, inclusive para manter a harmonia com o esposo (12). É este o público a que se destina a obra em análise: à dona de casa, independentemente do título que remete para o masculino, para o cozinheiro que enquanto mestre partilha ensinamentos sobretudo relacionados com os alimentos.

No primeiro capítulo, intitulado “A cozinha”(13), são apresentados conselhos de organização, decoração e de limpeza do espaço de trabalho, e também de fixação de tabelas de uso corrente, como se usa “lá fora”(14) para orientação regular, como seja a de “Tempo e temperaturas das várias cozeduras”15, apresentando conceitos que, tanto quanto se sabe, não seriam à época do conhecimento geral, como “[…] a gastrotécnica é uma arte culinária fundada sobre a compreensão dos fenómenos físico-químicos, aos quais são submetidos os alimentos no decurso da sua preparação.”(16)

Antes de apresentar as receitas de cozinha, a obra exibe capítulos considerados essenciais, conforme se pode observar no índice anexo (17), para o conhecimento da “dona de casa” expressão vulgarizada ao longo da obra, nos textos em que se apresentam regras de etiqueta e conduta dirigidos ao leitor, neste caso inequivocamente à leitora, seguido invariavelmente do verbo “deve”, como “[…] a dona de casa deve esforçar-se por reduzir ao estrictamente necessário as suas idas à cozinha […].”(18), isto obviamente quando recebe convidados. A propósito são estes capítulos que permitem perceber que a obra em estudo se destinava, em grande parte, à mulher oriunda de classes sociais mais abastadas, pois a generalidade da população portuguesa na década de 1950 (19) dificilmente estaria preparada para a cerimonialidade dos serviços apresentados, bem como para a recomendação do uso de copos de cristal, ou de prataria, para citar alguns exemplos20, e muito menos para cardápios que incluíam consumo de ostras, ou de “Gamembert” [Sic.] e outros queijos franceses antes da sobremesa21.

Contudo há também a preocupação de que o livro seja útil para senhoras com rendimentos mais humildes, tendo em conta alguns conselhos económicos, para que se pesasse o orçamento “de cada qual” antes de decidir executar qualquer receita, em vez de suprimir qualquer dos temperos, adiantando que “Há boas receitas, modestas, de bom efeito, prefiram-se essas, deitando-se-lhes todos os temperos nelas indicados.”(22)

Ao contrário do que pode ver-se em outras obras dentro deste género literário, sobretudo naquelas publicadas no período do Estado Novo (23), em O Mestre Cozinheiro embora se apresente um conjunto considerável de receitas regionais e locais, perfeitamente identificadas, como se verá mais em baixo, não descura, nem diminui a influência da cozinha estrangeira, sobretudo a francesa, não apenas visível em algumas receitas, como “Coelho à francesa”(24), mas também declarada quando, por exemplo, na receita de Courtbouillon, se explica que “[…] é o nome que os franceses dão à água temperada em que cozem os peixes.” (25)

Para além de conselhos domésticos, económicos, de regimes alimentares relacionados com a saúde (26) e de sociabilidade no lar, a obra apresenta milhares de receitas. No que respeita aos produtos alimentares utilizados, no primeiro volume apresentam-se receitas em que predominantemente se usam peixes, com o bacalhau a merecer título separado, mariscos, aves de capoeira, aves e outras espécies de caça, carnes – com algumas páginas dedicadas a aconselhar à preparação das mesmas, terminando com desenhos esquemáticos dos diversos cortes dos animais (27) e cujas receitas incluem borrego, carneiro, cabrito, porco, vaca e vitela –, legumes, arroz e ovos.

Em termos de culinária apresentam-se receitas de sopa – que inclui consomés (28) e sopa de favas (29), para citar alguns exemplos -, acepipes, molhos, manteigas, mousses salgadas, foie-gras, geleias, almôndegas, pudins e rolos salgados, recheios, conservas – que se inicia com um capítulo intitulado “As Conservas na Economia Doméstica”, onde se apela à necessidade de conservação de alimentos, tanto no campo como na cidade, como forma de economia e de evitar “estragar produtos excelentes”, referindo para além de compotas e licores a “carne de salgadeira”, tudo métodos de conservação que uma boa dona de casa devia conhecer e promover (30) –, guarnições, saladas, soufflés, massas, empadas, pastéis e croquetes.

O segundo volume é inteiramente dedicado à doçaria, apresentando regras, métodos e serviço (31), conselhos e receitas de decoração e recheio (32), com receituário variado de biscoitos, bolos, bolachas, bolinhos, guloseimas, sobremesa várias entre doces e pudins, gelados e sorvetes, licores e cocktails, apenas para referir os mais relevantes. Também neste volume se apresentam métodos e receitas de conservação de frutas em doces, alegando que “Estas conservas são reserva preciosas que a dona de casa deve saber preparar.”(33). São variadas as receitas de cobertura de açúcar, compota, geleias e marmeladas. Encontram-se ainda métodos de conservação (34) em álcool, por desidratação – apresentando-se o conceito e diversos métodos domésticos disponíveis, pois “O tratamento pelo vácuo ou a baixa pressão não está ao alcance dos particulares.”(35) –, por esterilização e pelo frio em ”Uma cave bem seca ou no canto de um celeiro […].”(36)

No que respeita à tradição, a análise do índice não apresentou qualquer receita designada como tradicional. Embora, como já observado, não se tenha lido a obra na íntegra, houve o cuidado de ler os textos introdutórios apresentados antes de alguns dos capítulos, onde se encontrou uma observação que remete para a tradição, na introdução aos métodos de utilização da “aparelhagem moderna” que eram na época os fogões a gás e elétricos, onde se lê: “De acordo com os métodos antigos, (37) só preparando a carne sobre as brasas se podia obter bons grelhados e o assado não seria conveniente se não fosse feito numa assadeira de espeto guarnecida de brasas ou com um fogo de lenha seca.” Mais à frente quando se aconselha sobre a escolha e preparação das carnes é referido que “[…] preparar as carnes é muito fácil, pois os processos de hoje são os mesmos utilizados pelas nossas avós que não deixaram de as transmitir a filhas e netas.” Note-se que se tratava de um conhecimento feminino, transmitido entre gerações que se enquadra nas práticas tradicionais imateriais. Para além destes aspetos, embora o receituário apresente, no seu conjunto, uma série de receitas geralmente consideradas tradicionais como o “Arroz doce”(38), a expressão não é usada no título de nenhuma receita.

Apresentada que está obra, importa expor de seguida o estudo do receituário, à luz da categorização em Cozinha dos Territórios, Cozinha Honorífica e Cozinha dos Afetos, conforme proposto.

Capa terceira edição

Capa fascículos

2 – Categorização das receitas em O Mestre Cozinheiro

Numa obra vasta, como esta em estudo, é possível encontrar receitas que se podem agrupar em diversas categorias, as quais se enquadram no “valor de uso do ponto de vista emocional e económico da identidade alimentar/gastronómica”(39), mesmo que essas categorias não sejam estanques, tendo em conta algumas receitas podem ser transversais a diferentes grupos – por exemplo a receita “Perdizes da minha mãe”(40), que se enquadra naquilo que se designa por cozinha de afetos, não deixa de ser uma receita honorífica – não deixam de permitir um enquadramento do receituário de acordo com as mesmas.

A única categoria que não foi encontrada foi aquela designada como Cozinha de Autor, pois na obra em estudo não existem receitas cujo título remeta para uma criação individual, para além de que ao longo dos textos não há qualquer referência direta ou indireta a um autor específico, outro aspeto que leva a supor tratar-se de uma coletânea de receitas de autores desconhecidos, como observado em cima.

Porque os exemplos para cada categoria são muitos, apresentam-se nos Anexos “Listas por Categorização de Algumas Receitas a Partir do Índice de O Mestre Cozinheiro”(41) com o duplo objetivo de dar a conhecer outros exemplos de títulos, par além dos que se vão referir, sem alongar demasiado o texto deste estudo.

2.1. – Cozinha dos Territórios (42)

A Cozinha dos Territórios caracteriza-se pelas receitas cujos títulos e/ou ingredientes que se ligam e/ou remetem para um espaço. Podem ser territórios locais (micro), ou mais amplos (macro) (43). Na obra em apreço não são muitos os exemplos de cozinha nacional, embora um dos quais seja inevitável: a “Sopa e cozido à portuguesa”(44), receita que não inclui como ingrediente a carne de porco, embora a mesma esteja presente nos enchidos e no toucinho, e que oferece como opção à carne de vaca a de carneiro. Para além desta, são apresentadas quatro outras receitas de pendor nacionalista referidas como sendo “à portuguesa”.(45)

No que respeita a receitas regionais, os exemplos são mais variados e abarcam quase todo o território português (46) do Minho – “Cordeiro assado à minhota”(47) – ao Alentejo – “Sopa alentejana”(48) –, curiosamente omitindo o Algarve, região a que não é feita qualquer referência ao longo da obra, nem mesmo nas receitas de “Bolinhos de amêndoa imitando frutas”(49).

Ainda nesta categoria, em anexo destaca-se a receita de “Sável à moda do Ribatejo”(50), a qual se pode comparar com a receita editada pela Comissão Municipal de Turismo da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira (CMVFX), em fichas informativas distribuída à população em finais da década de 1980 (51), aquando da criação da campanha gastronómica realizada em diversos restaurantes do território concelhio e que, desde 2014, se tornou marca registada com o título de “Março, Mês do Sável”. Ambas apresentam semelhanças, embora a da CMVFX possua mais ingredientes e o modo de preparação seja mais pormenorizado. Par além disso, apesar do pão ser preparado como acompanhamento em ambas as receitas, em O Mestre Cozinheiro é-o em migas, enquanto em Vila Franca de Xira, bem como em outros locais (52), é-o em açorda à qual se juntam as ovas desfeitas e o peixe cozido esfiado.

Na categoria da cozinha de território local, as receitas cujos títulos mencionam expressamente um topónimo são ainda mais numerosas e abarcam tanto a cozinha, propriamente dita, como a doçaria. Para além de alguns exemplos listados em anexo (53), refira-se a receita de “Lagosta à Baleal”(54) e, no extremo oposto dos paladares, a de “Pastéis de Belém” (55) a qual difere muito da receita conhecida e comercializada numa famosa casa da especialidade em Lisboa, pois em O Mestre Cozinheiro o recheio é feito com miolo de pão duro, escaldado em leite, a que se junta mais leite, açúcar e gemas de ovo. Nesta subcategoria os títulos do receituário aludem a grandes cidades como Lisboa e Porto, mas também a vilas como Tramagal em Abrantes e Rio de Moinhos em Penafiel, numa variedade que inclui o arquipélago dos Açores, com a receita de “Queijadas de S. Miguel”(56), mas que exclui o da Madeira, apenas referido numa receita de imitação do vinho (57) e, mais uma vez, o Algarve.

2.2. – Cozinha dos Afetos

Entendem-se por Cozinha dos Afetos as receitas em cujo título é evidente a homenagem a um familiar (58), ou a um lugar de pertença pessoal, remetem para um sentimento de evocação das memórias individuais e dessa forma a sua presença no conjunto do receituário representa uma “fusão da memória familiar e pessoal na memória coletiva.”(59)

Na obra em apreço foram encontradas três receitas que se enquadram nesta categoria:

“Perdizes da minha mãe”(60), “Biscoitos da minha terra” (61) – sem qualquer apresentação, pelo que fica sem se saber qual seria a “terra” – e “Pescada à «avó»”(62), que embora sem o pronome possessivo “minha” e com a palavra avó entre aspas, não deixa de remeter para uma situação afetiva.

Para além das receitas, pode encontrar-se a evocação aos afetos no texto de introdução da obra, por exemplo quando se lê: “Como se sabe, desde os tempos mais recuados, a culinária representou um grande papel dentro dos lares onde o fogo eterno do amor não se apagará.” (63) Deste modo liga-se a cozinha ao amor, ao conforto do lar e embora não esteja presente na frase, bem se pode imaginar, à mulher, a dona de casa a qual “[…] com o auxílio deste bom livro, poderá apresentar à sua família, pratos que os seduzam e provoquem até alegria durante o repasto.”(64) Desta forma alia-se a comida ao prazer e será a mesma “[…] dona de casa, sempre tão afanosa, possuída pelo são desejo de agradar aos seus, de tornar o seu lar um refúgio apetecível.” (65) que faz com que a cozinha seja um espaço feminino, acolhedor de onde saem pratos concebidos com amor, que seduzem, que provocam alegria e que se fixam na memória dos afetos.

Ainda a evocar os afetos note-se a ilustração (66) da capa dos números vendidos, que felizmente a encadernação não excluiu e que podem ser vistas no início dos dois volumes da obra em estudo, onde na cozinha se veem duas mulheres, uma nitidamente mais velha, não só por ser mais alta mas também porque o penteado assim faz deduzir, a cozinhar auxiliada por uma outra mulher mais jovem. A observação da imagem remete de imediato para os ensinamentos da mãe à jovem filha, algo que envolve afetos, memória e transmissão de saberes.

2.3. – Cozinha Honorífica

Como o próprio título indica a Cozinha Honorífica é aquela que homenageia pessoas ou instituições (67). Exemplos da primeira situação, encontram-se em O Mestre Cozinheiro receitas sobejamente conhecidas, como o “Bacalhau à Brás”(68) ou “à Gome de Sá”(69), mas também na doçaria as “Argolinhas do Tó” (70), entre outras (71) que referem nomes próprios, embora também se possam encontrar receitas de homenagem a ocupações profissionais e/ou tipos sociais como “Perdiz à diplomata”(72), ou “Pudim fadista”(73).

Também na cozinha honorífica é comum em outras obras apresentarem-se receitas “conventuais”, as quais muitas vezes são uma homenagem a determinado convento, embora comumente se julgue tratar-se de receitas com origem no labor das freiras ou frades, nem sempre é assim (74). Não tendo a certeza se de facto se tratam de receitas produzidas no seio de um convento, consideraram-se como receitas de cozinha honorífica a de “Pastéis do Convento de Santa Clara” (75), cujos ingrediente para o recheio incluem, entre outros, miolo de amêndoa e gão de bico que se desfaz em puré, as “Celestes de Santa Clara” (76) que na lista de ingredientes refere trinta gramas de cidrão, que no texto da receita não é mencionado e “Raivas (Convento da Castanheira)”(77), cujo título do convento surge entre parenteses no original, tal como foi transcrito e que remete, pensa-se, para o extinto convento da Castanheira do Ribatejo, relativamente ao qual se desconhece qualquer receituário. Para além destes três únicos títulos que evocam conventos específicos é possível encontrar receitas como por exemplo “Bacalhau de abade” (78), ou “Bolo Carmelita” (79) que remetem para uma homenagem à figura maior de um mosteiro e a uma da ordens conventuais mais comuns no território português.

Conclusão

O estudo de O Mestre Cozinheiro, como aliás foi referido, permite muitas outras análises relacionadas não apenas com a culinária propriamente dita, mas também com a história social e económica, pois a leitura da obra apresenta aspetos que remetem para um tempo diferente em que, por exemplo, a utilidade e conteúdo de um frigorífico é objeto de dois capítulos (80). Contudo, no momento, este e outros aspetos não cabem neste trabalho académico. Seja como for esta é uma obra que apesar de editada na década de 1950, talvez pela quantidade de receitas, muitas delas de fácil execução, foi ainda reeditada no novo milénio.

Embora sem apresentar grandes defesas relativamente à importância da cozinha nacional, mesmo não sendo certa a sua autoria, O Mestre Cozinheiro apresenta receitas em cujos títulos foi possível encontrar elementos que permitem a categorização de diferentes tipos de cozinha, que embora à mistura com títulos internacionais que denotam a influência sobretudo da cozinha francesa, não deixam de remeter para o território nacional, do mais amplo ao mais específico, classificados como cozinha de territórios e também alguns exemplos da cozinha dos afetos, sem descurar a cozinha honorífica.

Com certeza a possibilidade de comparação com outros livros de culinária da época, bem como o aprofundamento da leitura de outros estudos semelhantes haviam de possibilitar outras conclusões, contudo a análise desta obra permitiu perceber por que razão semelhantes estudos se aplicam ao património cultural imaterial, pois evocam ensinamentos muitas vezes transmitidos oralmente, nem sempre presentes nas receitas escritas, mas que são recordados como “aquele truque usado pela mãe”, quando ensina a cozinhar determinado prato, bem como os métodos de cozinhar, que podem ser bem diferentes daqueles praticados na atualidade, mas que não deixam de conter gestos e práticas que remetem para a imaterialidade.

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1945 O Livro de Pantagruel

1945 - O Livro de Pantagruel

Cozinha - Doçarias - Bebidas

TITLE: The Book of Pantagruel

SUB TITLE: Cozinha – Doçarias – Bebidas

AUTHOR: Bertha Rosa Limpo

NOTAS DE AUTORIA: Feminino

PREFÁCIO: Bertha Rosa Limpo

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1946

DEPÓSITO LEGAL: 1945

EDIÇÃO: 1ª edição (74.ª edições)

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: Editorial O Século

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: Soc. Nac. de Tipografia

ENCADERNAÇÃO: Capa dura

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 1012, 12 p

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: SELO DE MAR 16ª edição

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN S.A. 14324 V.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 278

OBSERVAÇÕES:

278
LIMPO, Berta Rosa, ?–1981
The Book of Pantagruel / Bertha Rosa-Limpo. – Lisboa:
O Século, 1945

BN S.A. 14324 V.

Outras ed.:
– [10.ª ed.] – 1950 (S.A. 15663 V.; S.A. 15824 V.)
– 1952 (S.A. 16582 V.; S.A. 16976/7/8 V.)
– 15.ª ed. – 1955 (S.A. 17550 V.)
– 16.ª ed. – 1955 (S.A. 20934 V.)
– 17.ª ed. – 1955 (S.A. 20933 V.)
– 18.ª ed. – 1955 (S.A. 20932 V.)
– 19.ª ed. – 1955 (S.A. 22187 V.)
– [D. L. 1970] (S.A. 37613 V.; S.A. 37989 V.)
– [D. L. 1971] (S.A. 39616 V.; S.A. 39758 V.)
– 27.ª ed. / colab. de Jorge Brum do Canto e Maria Manuela Limpo
Caetano. – imp. 1973. – 2 vol. (S.A. 41906–07 V.)
– 28.ª ed. – imp. 1973 (S.A. 43746–47 V.)
– 31.ª ed. – imp. 1976 (S.A. 48075–76 V.)
– 32.ª ed. – imp. 1976 (S.A. 48181–82 V.)
– 39.ª ed. – imp. 1986 (S.A. 64975 V.)

16ª edição - 1955 - O Livro de Pantagruel

SELO DE MAR

Frontispício  1ª edição

“Culinária no Feminino: Os Primeiros Livros de Receitas Escritos por Portuguesas”, Caderno Espaço Feminino, vol. 19, n.º 1, Uberlândia Minas Gerais), 2008, pp. 117-141.

Isabel M. R. Mendes Drumond Braga

To mark the end of the Second World War, the lyrical singer Berta Rosa Limpo (b. 1981) published O Livro de Pantagruel in 1945, a classic that went to press in 1997 for its 63rd edition, revised and updated by Maria Manuela Limpo Caetano. This is a unique work on the Portuguese culinary publishing scene, originally containing 1,500 recipes, many of them of a distinctly international nature. Unlike almost all previous works, this cookery book was not written with the well-off in mind. In the preface to the first edition, the author confessed her passion for cookery, her first compilation of family recipes, which she carried out in 1914, and her direct contact with French and Italian chefs from the different European hotels she toured, who provided her with various recipes. He also realised that all the recipes had been tried and that they all gave good results if the instructions were followed to the letter.

Texto em BiBlioAlimentAriA

Alimentação, Saúde e Sociabilidade à Mesa no acervo bibliográfico da Universidade de Coimbra

Carmen Soares (Coord.)

Imprensa da Universidade de Coimbra
Coimbra University Press

LIMPO, Bertha Rosa,

O livro de Pantagruel (1955)

A autora (1893‑1981) é uma compiladora confessa e reconhecida a todas as “cozinheiras amadoras” que lhe foram oferecendo as suas receitas, conforme deixa claro na primeira página do livro, denominada “página de honra”, uma espécie de tabula gratulatoria com os nomes de amigas que a agraciaram ao longo dos anos com o seu saber culinário.

A máxima escolhida por Berta Rosa Limpo para “cartão de visitas” daquela que foi, dentro do género literário em apreço, a obra mais editada em Portugal ao longo de todo o século XX 35, com 75 edições, denuncia a filiação da autora na conceção de mesa como espaço de convívio e sociabilização (de raízes clássicas gregas milenares), condensada na frase: “grande sabedoria é comer e beber em boa companhia”, impressa em letras capitais na página que antecede o prefácio (pp. IX‑XIII).

Seguem‑se os prefácios, primeiro o da autora, depois o de amigos por ela escolhidos. Atentemos nas palavras de Berta Rosa  Limpo, uma vez que visam testemunhar, na primeira pessoa, a relação (inesperada, mas íntima) de uma artista do canto e do piano, senhora e dona de casa de boas famílias, com uma arte igualmente requintada, ainda que subvalorizada (ou mesmo menosprezada), a arte da (boa) cozinha. Escritas num registo de proximidade com as leitoras, essas palavras destinam‑se a cativá‑las pelo retrato que, num discurso descontraído, bem‑humorado e repleto do glamour, apresentam da autora e da obra. O público leitor, como sempre, é um coletivo feminino, que se revê no modelo de vida da escritora ou a ele aspira. De menina curiosa, criativa e aventureira – que na ausência da mãe brincava aos teatrinhos líricos e servia às amiguinhas umas “petisqueiras” confecionadas com produtos surripiados da farta despensa – Berta muito cedo (com apenas 15 anos) assume o papel de esposa e dona de casa, inexperiente é certo, mas resoluta em tornar‑se uma anfitriã afamada também pelo requinte das suas receções. A biografia que faz desses anos de aprendizagem empenhada e voluntariosa dos segredos da cozinha revela a harmonia que, neste domínio como noutros, deve haver entre conhecimento teórico e prático. É dessa sua propensão natural para acumular saber com metodologia que nasce, cedo (em 1914, aos 20 anos de idade), a Berta autora de livros de receitas. A escrita, conforme a própria revela, é fruto do seu trabalho de salvaguarda do património culinário familiar (composto pelas “boas receitas que existiam na família”, p. XI), do seu labor de colecionista (na recolha de receitas pelos lugares por onde viajava, sendo que o seu elevado nível social a colocou em contacto com a alta cozinha estrangeira então mais prestigiada, a francesa e a italiana) e da criatividade do seu génio. É com uma pitada de orgulho que Berta Rosa Limpo revela o rigor e método dessa tarefa de pesquisa (p. IX):

“Assim, por aí fora, fui enchendo cadernos, cadernos ordenados, com os seus competentes índices, de receitas experimentadas, corrigidas, aperfeiçoadas e também algumas… inventadas”.

Conhecedora da psicologia feminina, a autora revela‑se mestra na arte da captação de futuras compradoras do seu livro. Assim, conjuga na escrita “ingredientes” que persuadiriam as leitoras: deleite, eficiência, economia, simplicidade, requinte, fiabilidade e sedução. Para tal a autora garante, respetivamente: receitas saborosas, conselhos úteis e práticos, preparados a preços módicos (diferentemente das “receitas quase impraticáveis, por dispendiosíssimas” de outros livros), de fácil execução, alheios ao “vulgar” (“conhecido de toda e qualquer banal cozinheira”, p. XII), todos experimentados e excelentes trunfos na arte de seduzir os maridos (“que ficam pelo “beicinho”, se, depois de um dia de intenso trabalho, as suas mulheres lhes fizerem servir um jantar apetitoso e bem servido”, p. XIII).

Já no que se refere às receitas que foram sendo publicadas nas sucessivas edições, é de assinalar que a mudança da matriz burguesa e requintada (inicialmente marcada por uma oferta orientada para os gostos das elites, dominados pelos padrões francês e italiano) se dá em 1952, com a publicação da 11.ª edição. Introduzem‑se, então, rubricas culinárias que denunciam preocupações economicistas e orientadas para um público económica e socialmente mais diversificado. Dessas reorientações dão conta o aparecimento das seguintes novas quatro rubricas: cozidos, bacalhau, enchidos e alimentação para crianças. Também a aproximação à culinária nacional faz parte das principais renovações desta edição, com uma presença clara de cozinha portuguesa, muito em especial no setor da doçaria. Aí deparamos com títulos de exemplos da culinária dos territórios portugueses (Biscoitos de Torres Novas, Biscoitos dos Açores, Bolos de Elvas, Coimbras, Pratas de Cascais, Bolo de mel do Algarve, Bolo de mel da Ilha da Madeira, Quéques de Odivelas, Bolos algarvios, Bolos de Lisboa, Broas de Alcobaça, Queijinhos da Madeira, Rolo‑torta de Viana – com 7 receitas diferentes – Tigelas de Abrantes, Bolo Coimbra, Pasteis de Tentúgal, Nógado do Algarve), da “cozinha de autora” (Bolo de chocolate à minha moda) e da culinária honorífica (com nomes próprios de várias pessoas, como: Palitos Maria de Lourdes, Bolos da Olga, Bolo Maria Alice e Pudim Adelina, entre outros), categoria em que não está ausente a “culinária dos afetos” familiares (Argolas da prima Maria, Bolos da Tia Aniquinha, Bolos da Tia Rosa, Quadrados da Tia Anica, Bolo da prima Guiomar, Maçãs da Tia Firmina e Arroz doce à moda da minha Mãe). Importa notar que a renovação editorial da obra, ocorrida com a 11.ª edição, correspondeu a uma duplicação do número total de receitas, que passou de 1500 para 3000!

(CS)

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SEA SEAL BOOKS collection

1942 Cozinheira ideal

1942 - Cozinheira ideal

TITLE: Cozinheira ideal

SUB TITLE: 2550 receitas prácticas: 365 almoços, 365 jantares

AUTHOR: Alda de Azevedo

NOTAS DE AUTORIA: Feminino

PREFÁCIO:

SUPORTE: Feminino

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia 

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 

DEPÓSITO LEGAL: 1942

EDIÇÃO:
1ª Edição: 1942
3ª Edição – 1943 
4ª Edição – 1948 
9ª Edição – 1957 
10ª Edição – 1958 
11ª Edição –  1960
12ª Edição – 1963 
19ª Edição – 1973  
23ª Edição – 1976 
25ª Edição – 1978 

LOCAL: Porto

PUBLISHER: Livraria Civilização. 

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: Tipografia do Dicionário Corográfico.

ENCADERNAÇÃO: Capa dura

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: 4ª Edição – 1948  SELO DE MAR
Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN S.A. 13329 V.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 88

OBSERVAÇÕES:

4ª Edição – 1948 

88

Cozinheira ideal: 2550 receitas práticas; 365 almoços, 365 jantares / Aidade Azevedo. – 2.ª ed., il., completamente refundida, melhorada e anotada. – Lisboa: Emp. Literária Universal, 1942. – Receitas usadas e experimentadas pela autora. – Anunciado no República, 19 Jan. 1942, p. 7 (G-1552 G.). – BN S.A. 13329 V.

Outras ed.:
3.ª ed., il., melhorada e augmentada – imp. 1943. – (S.A. 13649 V.).
4.ª ed. – imp. 1948. – (S.A. 15368 V.).
9.ª ed. – imp. 1957. – (S.A. 18404 V.).
10.ª ed. – imp. 1958. – (S.A. 19686 V.).
11.ª ed. – imp. 1960. – (S.2. 24100 V.).
12.ª ed. – imp. 1963. – (S.A. 27450 V.).
19.ª ed. – imp. 1973. – (S.A. 42313 V.).
23.ª ed. – imp. 1976. – (S.A. 46692 V.).
25.ª ed. – imp. 1978. – (S.A. 51866 V.).
[D.L. 1980]. – (S.A. 53523 V.).
[D.L. 1989]. – (S.A. 68279 V.).

ÀS LEITORAS

Depois de ter experimentado milhares de receitas de cozinha e delas ter tirado as melhores conclusões, pelos aperfeiçoamentos introduzidos durante 30 anos de experiência, não resisti à tentação de as coleccionar e de as publicar.

Seria demasiado egoísmo da minha parte conhecer tantos segredos de culinária, muitos até hoje quase ignorados, e deixar de os dar à publicidade.

Não basta saber cozinhar, é indispensável conhecer todos os segredos da química culinária.
Não quis apresentar as minhas receitas como os vários autores as têm apresentado: quis, com elas, organizar uma ementa para cada dia, sempre diferente, de maneira que a dona de casa, não só depare já com a refeição diária organizada, como ainda com a maneira de encontrar facilmente, nos mercados, os alimentos a cozinhar.

Eis, pois, queridas leitoras, o livro:

COZINHEIRA IDEAL

que vos apresenta a vossa
ALDA DE AZEVEDO

in
BiblioAlimentaria

1. Memória gastronómica

27. AZEVEDO, Alda de,

Cozinheira ideal 

A edição consultada é a 9.ª (1957), que se anuncia na folha de rosto como uma versão melhorada e aumentada, com ilustrações incluídas, tudo razões para potenciar o interesse de compra das leitoras. Estas continuam a ser as donas de casa, a quem a Autora se dirige na nota de abertura, intitulada “Às Leitoras” (p. 5). Nessas breves palavras, Alda de Azevedo apresenta os “ingredientes” que fazem do seu livro um objeto desejado e credível. Os argumentos avançados nessa verdadeira operação de charme e marketing editorial são, pela ordem em que lhes alude: a confiança do produto e a novidade do receituário, do método culinário e do conceito de livro de culinária. Repare‑se que o esforço de cativar compradoras é particularmente pertinente numa obra que, pelo seu volume de páginas, o seu formato A4, o acabamento em capa dura e as 40 gravuras a cores, custava 100$00. Ou seja o correspondente a 1/6 do escalão mais baixo das rendas familiares mensais apresentadas por Rosa Maria (em Como devo governar a minha casa) e 20 vezes mais caro do que os livros de Clara T. Costa (com um preço unitário de 5$00) ou 40 vezes superior aos opúsculos de Rosa Maria sobre as 100 maneiras de… (vendidos ao preço de 2$50)36. 

Mas atentemos na argumentação usada para persuadir as potenciais compradoras a adquirirem este livro de culinária de luxo. As receitas são credíveis porque foram testadas e aperfeiçoadas durante 30 anos. A originalidade do cardápio depreende‑se da menção a que se publicam “segredos de culinária, muitos até hoje quase ignorados”. Nova é, igualmente, a abordagem à arte culinária, que não se restringe (como, segundo se depreende, noutras obras concorrentes) ao “saber cozinhar”, mas passa, antes de mais, pelo conhecimento da química básica dos alimentos. Essa primazia da “ciência” face à “técnica” quis a Autora deixá‑la bem nítida, quando, na rubrica com que abre a obra (“É preciso escolher bem os alimentos”, p. 7), apresenta o valor nutritivo (em calorias) e proteico (em albuminoides) dos alimentos. Já a novidade da obra enquanto coletânea de receitas reside em assumir a forma de propostas diárias de almoço e jantar. Não se trata de uma novidade absoluta no panorama editorial português, pois, como vimos atrás, a ideia já estava presente no livrinho de economia doméstica de Rosa Maria, Como governar a minha casa. Sucede que Alda Maria alarga o projeto de menus diários à totalidade dos dias do ano, distinguindo o cardápio de almoço do de jantar, “novidade” que alardeia no subtítulo que dá à sua Cozinheira ideal, a saber: 2550 receitas práticas. 365 Almoços – 365 Jantares. 

Como sucede com os livros de culinária da primeira metade do século xx, também a obra de Alda de Azevedo perfilha uma clara linha formativa da dona de casa, reservando as 31 páginas que antecedem os menus diários a questões que cobrem o conhecimento diversificado que a “gestora do lar” deve ter da “mesa”. Sob uma perspetiva higiénica (em sentido literal respeitante à hygieia, palavra grega para ‘saúde’), a dona de casa tem de estar informada sobre a importância de cozinhar os alimentos enquanto ato facilitador da digestão, da boa conservação dos alimentos (elimina micróbios e prolonga a validade de consumo) e do apetite (estimulado quer pelo paladar conferido aos pratos quer pela sua apresentação). Estas são considerações reunidas na p. 8, sob as rubricas “Porque são cozinhados os alimentos” e “Tempo que dura a digestão dos alimentos mais usados na alimentação”. 

Ciente do desconhecimento que muitas das suas leitoras poderiam ter em matéria de linguagem técnica culinária e mesmo no campo da etiqueta à mesa, a Autora contempla, nas pp. 9‑10, um glossário com “Alguns termos de cozinha, muito usados na organização dos cozinhados”, seguido de uma página de conselhos sobre a disposição dos convidados à mesa, o serviço dos pratos pelos criados e criadas (incluindo indicações sobre o seu fardamento), os talheres adequados a cada serviço, os vinhos a combinar com os diferentes pratos (branco para peixe, tinto para assados e licores ou espumantes para doces), sem esquecer a diplomacia à mesa, revelada na escolha de assuntos menos passíveis de gerar polémica, pois:

“A conversação deverá recair sobre o tema de viagens, literatura, arte e teatro, evitando sempre que recaia sobre política ou religião, salvo se todos professarem iguais maneiras de ver” (p. 11)

Seguem‑se 19 páginas de “Conselhos práticos”, estes relativos à confeção propriamente dita, cobrindo assuntos mais gerais ‑os métodos de cozedura (que variam entre carnes, legumes e pescados vários), a compra, a conservação e a preparação dos ingredientes frescos, os graus de assadura e a cocção com gorduras (estufados e fritos) – e atentando em matérias que exigem a descrição de métodos de preparação, nalguns casos mesmo ilustradas (como sucede, na rubrica das “Massas”, pp. 16‑20, com a Massa tenra e a Massa folhada). Também os “Pontos de açúcar” são alvo de uma extensa lista de métodos de preparação. Verificamos, ainda, que há um único instrumento de pastelaria a merecer uma apresentação em particular, destaque que decorrerá da introdução recente do mesmo nas cozinhas particulares: o “Saco de pasteleiro” (p. 21). 

36 Estes valores e obras vêm publicitados na contracapa destas pequenas obras, muito distintas daquela publicação de luxo, já que apresentam formato de bolso, capa mole, folhas grosseiras e sem ilustrações coloridas.

Certamente que a decoração dos pratos tinha de ser contemplada, já que, como volta a enfatizar a Autora na rubrica “Arte de bem apresentar os pratos” (pp. 21‑22), “A boa apresentação das travessas, não só estimula o apetite, como é agradável à vista e dá ao serviço a elegância indispensável” (p. 21). As três últimas secções dos “Conselhos práticos” incidem, por um lado, de novo em receitas (agora de “Manteigas compostas”), por outro, em formas de preparar e apresentar à mesa as “Entradas” ou “hors d’oeuvre” (primeiro as frias, pp. 24‑28, depois as quentes, pp. 28‑31). Estas indicações são tanto mais necessárias pois contêm numerosas especialidades de origem estrangeira, proveniência denunciada na nomenclatura e na necessidade da Autora em explicar, por exemplo, o que são mousses (categoria onde aparece a Geleia de “aspic”, p. 27), volauvent (seja ele de linguado, lagosta ou camarão), as cassollettes de peixe, as bouchées, as croustades, o soufflé (que pode ser de salmão, de espinafres ou de foie gras) e os ravioli (de aves e presunto ou de ervilhas e fiambre). Aliás a presença de receitas de origem francesa é transformada em trunfo publicitário, como se pode constatar da promoção feita à obra de Alda de Azevedo na contracapa, por exemplo, nos livros de Clara T. Costa (cat. nº 28 e 29), onde se lê: “Contém as melhores receitas dos grandes autores da Cozinha Portuguesa e Francesa”.

O grosso da obra diz respeito ao receituário proposto para os 365 dias do ano (pp. 33‑397). Refira ‑se que a estrutura a que obedecem os menus diários é sempre a mesma, ou seja: almoço com dois pratos (o de peixe seguido do de carne), podendo vir discriminado um acompanhamento ou molho necessário a um deles 37; jantar de quatro pratos, invariavelmente sopa, prato de peixe, prato de carne e sobremesa doce.

Antes do índice final, Alda de Azevedo fornece um conjunto de receitas que não tiveram lugar no seu cardápio anual, mas que a boa dona de casa deve servir à sua mesa: desde bolachas, biscoitos e pãezinhos para o chá, a coberturas de doces e molhos de pudins, passando por xaropes, gelados e sorvetes, sem esquecer bebidas preparadas (sem ou com álcool, a saber: águas de frutas diversas – ananás, morangos, laranjadas, limonadas, etc. – cups e cocktails). 

37 Veja‑se, no almoço do dia 1 de janeiro, a presença de Salada de alface (com os pratos Pregado frito e Bifes à inglesa) e, no dia 9 do mesmo mês, Molho de maionese e molho tártaro (ambos possibilidades para acompanhar a receita de peixe indicada para esse almoço: Atum de maionese).

38 O mesmo que ‘quifufutila’, doce tradicional angolano feito com farinha de mandioca torrada, açúcar, canela e amendoim.

39 O pirão, prato feito à base de farinha de mandioca, é tradicional tanto da cozinha angolana, como da brasileira (neste caso uma influência dos escravos levados de África).

40 Mais uma iguaria de origem africana introduzida na gastronomia brasileira, feita à base de feijão e farinha de mandioca.

Sobre o receituário diário tenhamos em conta o sentido que lhe era reconhecido de veículo de identidades, sejam elas de natureza territorial (contida nos títulos de receitas com denominações de nacionalidades, regiões e localidades), afetiva (presente nas autorias atribuídas a familiares e amigos) ou pessoal (quando no título deparamos com a afirmação de uma cozinha de autor/a). A afirmação dos nacionalismos culinários, que remonta no panorama editorial português à obra do início do século xx, Cosinha portugueza (cat. n.º 10), sobressai também nesta obra ainda maioritariamente marcada por influências estrangeiras (mais evidentes em pratos a exibirem títulos que remetem para a cozinha francesa, italiana, espanhola, inglesa e americana). Atentemos na presença de receitas referentes ao território português (que incluía as colónias africanas) e ao Brasil, país lusófono independente, mas com um diálogo cultural e migratório intenso com Portugal. Aliás, do conjunto de 14 preparados com ressonância transatlântica, apenas dois remetem para a África portuguesa (Cafufutila 38 de Angola, p. 207; Carne guisada com pirão 39, p. 375). Todos os restantes evocam a cozinha típica do Brasil ou com ela conotada, quer nos títulos (Feijoada à brasileira, 259; Carne seca à brasileira, p. 161; Sopa à brasileira, p. 232; Sopa de abóbora à brasileira, 157; Pudim à brasileira, p. 43; Tutu 40 à brasileira, p. 346; Pudim de laranja à Tijuca, 130; Babá di moça, p. 34; Cangica, p. 227), quer nos ingredientes (Sopa de tomate com tapioca, p. 66; Caldo de tapioca, p. 86; Filetes de farinha de pau, p. 155). 

Na categoria de culinária nacional portuguesa, surgem tanto pratos de matriz identitária geral (denominados à portuguesa), como regional e local. Relativamente ao primeiro contingente (de 16 receitas), a presença significativa de pratos de peixe, é o reflexo da importância da fauna piscatória na gastronomia de um território com uma extensa e rica costa marítima. À portuguesa temos receitas de lagosta (p. 102), besugos (p. 388), lampreia (p. 267), rodovalho (p. 286), linguado (de filetes, p. 244) e sortido de peixes (na Caldeirada, p. 146 e 259). De presença obrigatória numa culinária económica e de aproveitamento das partes menos nobres das carnes, registam‑se duas receitas de Mãozinhas (de carneiro, p. 271; de vitela, p. 60) à portuguesa. Mas o brio da cozinha portuguesa também ombreia com as congéneres europeias, apresentando receitas para os cortes nobres das carnes bovinas (Lombo de vaca à portuguesa, p. 287; Tornedos à portuguesa, p. 46; Escalopes de vitela à portuguesa, p. 298). Aliás, daqui depreende‑se que a titulação à portuguesa, mais do que traduzir um preparado da tradição portuguesa, é uma criação que reclama “direitos” de variante culinária relativamente a um prato de origem estrangeira. Este é o princípio da busca do prestígio com base na imitação da cozinha reconhecida. Essa pode ser a explicação para uma receita de “Roastbeef” à Portuguesa (p. 228). 

Das carnes provenientes da capoeira merecem a distinção de iguarias nacionais o coelho (p. 236) e a galinha (corada, p. 125). Repare‑se que remonta pelo menos ao século xviii, mais precisamente ao livro do cozinheiro francês Lucas Rigaud (Cozinheiro moderno ou Nova Arte de Cozinha, 1780 – cat. n.º 5), a distinção dos preparados de coelho com o título de iguaria nacional 41. Na categoria dos acompanhamentos, apenas uma verdura recebe o título nacional: Feijão verde à portuguesa (p. 92). Indispensável no serviço mais completo do jantar, a sopa – que Oliveira Bello reconhecera na sua obra Culinária portuguesa (de 1936, cat. n.º 14) como preparado identitário português 42 – também vem distinguida com o selo da nacionalidade. Esta Sopa à portuguesa (p. 40) tem por base o caldo em que se cozeu carne de vaca e batatas 43, a que se acrescentam folhas de couve portuguesa, cenouras e nabos e é servida com as indispensáveis sopas de pão. Aproxima‑se, por conseguinte, muito da “Sopa de caldo do cozido à portuguesa” do livro de culinária nacional de Bello (p. 53 e 160‑163).

Uma última referência cabe a um prato que, não sendo nesta obra galardoado com a distinção de prato nacional, já fora por Bello merecedor desse galardão: o cozido. O que Alda de Azevedo regista sob a denominação de Cozido tradicional (p. 357) é o que Bello registou como “Cozido português”. Na verdade, o prato de cozido apresentado na Cozinheira ideal mais não é do que as carnes e hortaliças cozidas para a chamada Sopa tradicional de porco, cujo caldo resulta da cozedura de carnes da cabeça, entrecosto, toucinho, presunto e chouriços (de carne e de sangue), acompanhadas de batatas, couve lombarda e cabeças de nabo cozidas. Estes legumes e carnes são servidos à parte do caldo, que, por ser acompanhado de pão ensopado, recebia o justo nome de sopa, e constitui o prato de Cozido tradicional. 

41 Nesse caso, são duas receitas: Coelhos de cebolada á portugueza (pp. 101‑102) e Coelhos de molho vilão á portugueza (p. 102).

42 Estatuto atribuído à canja, ao caldo verde, à “sopa de cozido nacional” e às “sopas de peixe dos portos portugueses” (p. 20).

43 A carne e as batatas cozidas são reservadas e aproveitadas para preparar o Pastelão de carne, que é o que hoje se chama de Empadão de carne, composto de puré de batata com carne picada refogada a servir de recheio.

44 Uma versão intermédia ou variante deste cozido parece ser o prato Cabeça de porco com feijão branco e hortaliça à portuguesa, publicada na p. 18 do Guia da cozinheira familiar de Clara T. Costa (cat. n.º 28). Aí também temos as carnes de porco e chouriço de sangue, além do feijão branco, das hortaliças e da sugestão de fazer uma sopa com o caldo

45 Aqui já se associa a carne frita às ameijoas, cozinhadas num refogado de tomates. O acompanhamento era de hortaliça cozida, grelos.

46 O entendimento geográfico, político e administrativo de “Beira” evoluiu desde o século xiii aos nossos dias. O sentido genérico com que é usado, leva‑nos a pensar que se referiria à “Beira Histórica” (abrangendo o centro do país) e não à sua divisão em três províncias autónomas (em pleno Estado Novo, com o Código Administrativo publicado a 1 de dezembro de 1936). Sobre a evolução do entendimento da região da Beira, vd. Amaro, A. F. (2008), “Regiões e regionalismo: a região da Beira”, Máthesis 17: 9‑35.

A confirmação de que daqui se evolui para a denominação de Cozido à Portuguesa encontramo‑la na receita publicada com este nome no vol. ii da Cozinha Portuguesa de Maria Helena Tavares de Crato (cat. n.º 31, p. 106) 44. Aí se estabelece a relação primordial do “cozido” com uma “sopa” de carnes (agora já contemplando vaca), dando‑se precisamente a mesma indicação quanto ao preparado publicado n’A cozinheira ideal, ou seja: “O caldo pode servir‑se como uma sopa, com uma folha de hortelã e algumas fatias de pão”.

A conceção de identidade nacional admite (e resulta da soma da) diversidade regional e local. Neste domínio, a hegemonia cabe à gastronomia do Alentejo, com 10 pratos, seguida de Trás‑os‑Montes (com seis), Algarve e Beira (cada um com três) e o Minho (só com um). A presença, para a quase totalidade das regiões (exceto o Algarve), de uma sopa típica reforça a ideia de ser este um prato reclamado como marcador identitário transversal na cultura culinária portuguesa. Assim, a Autora regista: Sopa à alentejana (p. 50), Sopa da Beira (p. 346), Sopa de migas à transmontana (p. 244), Sopa do Minho (p. 231). No grupo dos pratos dados como típicos do Alentejo encontram‑se uma Açorda de batatas à alentejana (p. 236), dois pratos de peixe (Bacalhau de cebolada à alentejana, p. 51; Peixe de cebolada à alentejana, p. 124), três de porco (já então a Carne de porco à alentejana, p. 389 45; Lombo de porco, à alentejana, p. 314; Rijões de porco à alentejana, p. 168) e duas de partes internas do porco (as vísceras ou fressura, no prato de Cachola à alentejana, p. 324; e os Miolos à alentejana, 323), a que se soma um doce (Bolos à alentejana, p. 83). Da gastronomia transmontana fazem parte um prato de uma das leguminosas de cultivo mais ancestral, a fava (Favas à transmontana, p. 307), sendo os restantes só pratos de carne: bovina (Bifes à transmontana, p. 194), ovina (Carneiro à transmontana, p. 53) e de capoeira (Galinha à transmontana, p. 206; Coelho à transmontana, p. 216). Já no Algarve, marca presença o peixe (Carapaus à algarvia, p. 84) e, na categoria dos doces, duas iguarias que se valem da produção local de amêndoas (Amêndoas à algarvia, p. 217; Nógado algarvio, p. 345). À região da Beira, aqui tomada com o sentido de região centro de Portugal (da costa à raia) 46, vêm atribuídas duas especialidades de carne: Bifes da Beira (p. 237) e Costeletas à moda da Beira (p. 235). A finalizar, do Portugal atlântico Alda de Azevedo regista uma sobremesa: biscoitos Açoreanos (p. 202).

No receituário com títulos remissivos para localidades há que registar a inusitada (por comparação com outros livros de culinária publicados até ao final do Estado Novo) abundância de receitas ditas de Bragança. Aliás, além desta cidade (com oito pratos), só o Porto tem mais do que uma receita, número que inclui as restantes contempladas, mais precisamente cinco. Embora nada tenhamos conseguido apurar sobre a biografia da Autora, julgamos que esta insistência em receituário bragantino possa indiciar, se não a sua naturalidade, pelo menos a sua proximidade com a culinária atribuída a essa cidade transmontana. Se em Bragança predominam as carnes (Cabrito à bragantina, p. 306; Cabrito à bragantina com molho de tomate, p. 369; Cordeiro recheado à bragantina, p. 220; Leitão à bragantina), o peixe também marca presença (Congro ensopado à Bragantina, p. 217; Empada de sardinhas à bragantina, p. 221), sem se esquecer um recheio (Recheio à bragantina, p. 220) e uma sobremesa (Rosquilhas de Bragança, p. 337). Do mais breve rol de iguarias do Porto, fazem parte dois pratos salgados – as incontornáveis Tripas à portuense (p. 110) e o Bacalhau à moda do Porto (p. 48) – e três sobremesas (Doce do Porto, p. 155; Doce encharcado à moda do Porto, p. 159; Especialidade do Porto, p. 89). Das restantes cidades contempladas com um prato típico, quatro delas (todas com zonas piscatórias) destacam‑se por pratos de peixe, a saber: Dourada à moda de Lisboa (p. 157), Salmonetes à setubalense (p. 274), Sardinhas de Cascais (p. 287) e Bacalhau à Ericeira (p. 345). 

As demais localidades merecem destaque por via da sua afamada 

doçaria: Ovos moles de Aveiro (p. 396), Pão de ló de Ovar (p. 373), Queijadas de Sintra (p. 379), Arrufadas de Coimbra (p. 323), Cavacas das Caldas (p. 286), Coalhada de Portalegre (p. 353), Torrão de ovos de Évora (p. 264) e Biscoitos de Alcanena (p. 134). 

A prática de recuperar de livros mais antigos as receitas atesta‑se, de forma inequívoca, na coincidência de alguns títulos. Em comum com os Doces e cozinhados de Isalita (cat. n.º 13), temos os Tornedos á Portugueza (p. 98), o Coelho á Portugueza (p. 228) e o Pudim Brazileiro (p. 211, ou à brasileira, como sucede aqui). Por certo que uma análise aos preparados revelará um muito maior número de coincidências do que a mera titulatura.

Por fim, consideremos os títulos que denunciam uma cozinha dos afetos e de autor. A memória e homenagem a familiares denunciam o papel da culinária na construção das identidades gastronómicas, que na presente obra se revelam em dois pratos de sopa: Sopa da minha tia (236) e Sopa da tia Chinda (307). Por ser um processo de criação individual, a confeção de alimentos não é mera execução de receitas de outros (de um saber transmitido), mas também produto do conhecimento de quem cozinha. Essa consciência de que as receitas são veículos de afirmação/fama dos seus autores revela‑se na presença de termos alusivos ao “eu” criador, como é caso de: Lagostins como eu gosto (p. 304), Bacalhau à minha moda (p. 369), Os meus bifes (p. 279), Entrecosto à minha moda (p. 45) e Sopa da minha aldeia (p. 278). 

(CS) Carmen Soares

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1934 Guia da Doceira em sua casa

1934 - Guia da doceira em sua casa

TITLE: Guia da doceira em sua casa

SUB TITLE: Dedicado aos artistas do teatro português

AUTHOR: Maria Margarida

NOTAS DE AUTORIA: (pseud. Bernardino Alves Lopes?)

PREFÁCIO: João Gaspar (actor)

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1934

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 1ª Edição

LOCAL: Cartaxo

PUBLISHER: Papelaria e tipografia treze

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: Papelaria e tipografia treze. Cartaxo.

ENCADERNAÇÃO: Brochado 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 94-I págs.

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: SELO DE MAR
Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
BN S.A. 20393 P.
S.A. 20395 P.
S.A. 20727 P.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 319

OBSERVAÇÕES: Obra dedicada aos artistas do teatro português. As receitas apresentadas têm os nomes dos artistas associados, como por exemplo: Figos à Antonio Rosa; Broinhas à Adelina Abranches;…

Capa com Beatriz Costa e Vasco Santana, pasteleiros na “Canção de Lisboa”.

319
MARGARIDA, Maria

Guia da doceira em sua casa / Maria Margarida. – 1.ª ed. –
(Cartaxo: Pap. e Tip. Treze, [1934])

Dedicado aos artistas do teatro português

BN S.A. 20393 P.
S.A. 20395 P.
S.A. 20727 P.

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1932 A cosinheira das cosinheiras

1932 - A cosinheira das cosinheiras

TITLE: A cosinheira das cosinheiras

SUB TITLE: A arte de comer bem. Higiene alimentar e mais de 500 receitas para cosinhar, fazer doces, gelados, compotas etc

AUTHOR: Rosa Maria (Gaspar de Almeida)

NOTAS DE AUTORIA: Pseudónimo

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1932

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: Empresa Literária Universal

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: Brochado

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: SELO DE MAR

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: 

OBSERVAÇÕES:

32 edições até 1999. As primeiras ficaram a cargo da Empresa Literária Universal, com sede em Lisboa, e, pelo menos a partir da nona, de 1955, da Civilização Editora no Porto.*

Edições d’A Cosinheira das Cosinheiras, que encontradas em bibliotecas portuguesas:
MARIA, Rosa. A Cosinheira das Cosinheiras: a arte de comer bem. Higiene alimentar e mais de  500 receitas para cozinhar, fazer doces, gelados, compotas, etc. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1.ª ed., s./d.; 2.ª ed., s./d., 196 p.; 3.ª ed., s./d.; 5.ª ed., 1941; 6.ª ed. 194[?]; 7.ª ed., 1953; 9.ª ed., Porto: Civilização, 1955; 11.ª ed., 1957; 12.ª ed., 1958; 13.ª ed., 1959; 14.ª ed., 1962; 15.ª ed., 1966; 18.ª ed., 1967; 19.ª ed., 1969; 20.ª ed., 1970; nova ed., 1972; 24.ª ed., 1974; 25.ª ed., 1975; 26.ª ed., 1977; 27.ª ed., 1977; 28.ª ed. 1978; 29.ª ed., 1981; 30.ª ed. 1982; 32.ª ed., 1999.

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A Cozinheira das Cozinheiras de Rosa Maria: alimentação e saúde

The Cook of the Cooks by Rosa Maria: food and health

Ana Branco Carvalhas
Universidade de Coimbra
Coimbra, Portugal

1.ª ed., s./d.;
2.ª ed., s./d., 196 p.;
3.ª ed., s./d.;
5.ª ed., 1941; (S.A. 23226 P; S.A. 26201P)
6.ª ed. 194[?]; (S.A. 23209 P)
7.ª ed., 1953; (S.A. 26638 P)
9.ª ed., Porto: Civilização, 1955; (S.A. 27018 P)
11.ª ed., 1957; (S.A. 27775 P)
12.ª ed., 1958; (S.A. 28240 P)
13.ª ed., 1959; (S.A. 28837 P)
14.ª ed., 1962; (S.A. 29706P)
15.ª ed., 1966; (S.A. 30285 P; S.A. 30080 P; S.A. 29839 P)
18.ª ed., 1967; (S.A. 30791 P)
19.ª ed., 1969; (S.A. 32001 P)
20.ª ed., 1970; (S.A. 32290 P)
nova ed., 1972; (S.A. 32482 P; S.A. 32520 P)
24.ª ed., 1974; (S.A. 32971 P)
25.ª ed., 1975; (S.A. 33300 P; S.A. 33105 P)
26.ª ed., 1977; (S.A. 33496 P)
27.ª ed., impresso 1977; (S.A. 33739 P)
28.ª ed. 1978; (S.A. 34105 P)
29.ª ed., 1981; (S.A. 34601 P)
30.ª ed. 1982; (S.A. 34970 P)
32.ª ed., 1999.

ROSA MARIA PARA A ELITE, ROSA MARIA PARA O POVO. CULINÁRIA BRASILEIRA E CULINÁRIA PORTUGUESA NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX

ROSA MARIA TO THE ELITE, ROSA MARIA TO THE PEOPLE. BRAZILIAN AND PORTUGUESE CUISINES IN THE FIRST HALF OF THE 20TH CENTURY

Isabel Maria Mendes Ribeiro Drumond Braga * isabeldrumondbraga@hotmail.com
Universidade de Lisboa, Portugal
Maria Cecilia Barreto Amorim Pilla ** ceciliapilla@yahoo.com.br
Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Brazil
ROSA MARIA PARA A ELITE, ROSA MARIA PARA O POVO. CULINÁRIA BRASILEIRA E CULINÁRIA PORTUGUESA NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX

Revista de História (São Paulo), núm. 177, a03217, 2017

Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de História

3. Em Portugal, as informações acerca da biografia de Rosa Maria são paupérrimas. O desconhecimento do verdadeiro nome da autora tem impedido que se conheçam alguns traços biográficos e que se faça a necessária contextualização. Na obra que aqui se estuda, a própria referiu acerca dos doces que eram receitas experimentadas, presume-se que por si mesma, e, acerca dos pontos de açúcar, confessou não ser especialista.24 Ao longo do livro, mencionou diferenças de preparação de determinados pratos em Portugal e no estrangeiro, conhecimento que poderá ter sido obtido por experiência em viagens ou por mera leitura de receituários estrangeiros, mas nada acrescentou que permitisse vislumbrar a sua formação.

Entretanto, no intuito de obter dados concretos, entramos em contato com a Editora Civilização e apuramos que Rosa Maria era, na verdade, um senhor chamado Gaspar de Almeida, pai de um funcionário da filial da editora de Lisboa. Este era igualmente editor, eventualmente da Empresa Literária Universal, a quem Américo Fraga Lamares (anterior administrador da Civilização) comprava algumas edições. A inexistência de arquivos e a ausência de colegas contemporâneos desta figura, que há muito deixara a empresa, implica a inexistência de certezas. Aparentemente, Gaspar de Almeida também foi autor de Cartas de amor para namorados, saídas na Empresa Literária Universal, com edições em 1950, 1964, 1967, 1969, 1970, 1971, 1972, 1973, 1974, 1976, 1978, 1980, 1981 e 1986, sob o pseudônimo de Maria Celeste. Traduziu ainda Arte de encadernar os livros e Fabrico de inseticidas.25 Estas e outras traduções do francês foram dadas ao prelo em obra intitulada Trabalha para ti: podes ganhar o dinheiro que precisas, publicada pela Empresa Literária Universal em 1939. Sob o pseudônimo de Maria Celeste encontram-se ainda Histórias de Bertoldo e Bertoldinho, da Civilização, com edições em 1953, 1954 e 1955 e a adaptação de As mil e uma noites contadas às crianças (1955 e 1957).

Rosa Maria ignorou o bom gosto como virtude social no âmbito da vida mundana 26 e publicou diversos livros de cozinha, todos eles pautados pela ideia de permitir às donas de casa realizar pratos econômicos. *A obra de maior sucesso foi a referida A cosinheira das cosinheiras, com 32 edições até 1999. As primeiras ficaram a cargo da Empresa Literária Universal, com sede em Lisboa, e, pelo menos a partir da nona, de 1955, da Civilização Editora no Porto. A mesma autora, tendo em conta as dificuldades econômicas e a necessidade de simplificar as refeições, procurou divulgar a elaboração de menus simples e baratos, através de livros de baixo custo, vendidos a 1$00. No prefácio de um deles, Como se almoça por 1$50: 100 almoços diferentes, a isso mesmo se referiu em 1933. O mesmo aconteceu na obra Como se janta por 3$00. 100 jantares diferentes, publicada no mesmo ano. Ambos conheceram três edições até 1936. As receitas apresentadas eram naturalmente simples e econômicas, sendo de destacar que entre elas não se contaram sobremesas, entendidas como um luxo, e que apareceram sempre os preços dos gêneros, tendo em conta o mercado de Lisboa.27 Em 1956, Rosa Maria publicou oito livros cada um dos quais com 100 receitas (100 maneiras de cozinhar…) agrupadas por acepipes, molhos e saladas; bacalhau, carne, doces, ovos, peixe, sopas e cozinha vegetariana. Mais uma vez o público-alvo foi a comunidade de leitoras pouco abastadas, mas preocupadas com as refeições diárias das famílias.28

No que se refere à Cosinheira das cosinheiras, se excetuarmos a atualização ortográfica e o tipo de papel, as edições mantiveram-se sem alterações. Consequentemente, o conteúdo da obra não sofreu nem revisões nem adendas. Rosa Maria pretendeu aliar higiene, ideias sobre nutrição, sobriedade alimentar, saúde, receitas práticas e economia. Abriu com uma página dedicada “Às Senhoras que dirigem o lar doméstico”, na qual patenteou os seus objetivos, a saber, a apresentação de receitas práticas de salgados e de doces para facilitar a vida das donas de casa. Em seguida, tornou clara a ligação entre alimentação e saúde, um tópico muito corrente desde a Época Moderna, acrescentando que havia fornecido receitas específicas para determinados quadros clínicos. Entendendo que comer bem não era sinônimo de comer muito, ressaltou a necessidade de consumir alimentos agradáveis ao paladar e com o valor calórico adequado. A referência a matérias de economia doméstica apareceu disseminada: “É preciso não desperdiçarem a maior riqueza, a saúde, cozinhando sem método, sem organização, sem valor nutritivo e muitas vezes a par da perda da saúde, ainda a ruína da bolsa”.29 Porém, as matérias relativas ao gosto que, como Flandrin chamou a atenção, foram sempre objeto de modas criadoras de distinções sociais e de novas sociabilidades,30 acabaram por ser mais do que secundarizadas, ficaram praticamente omissas.

As páginas seguintes, sob o título “A cosinheira das cosinheiras”, foram ocupadas a dissertar sobre a necessidade de alimentos de acordo com o sexo, a idade, as estações do ano e um maior ou menor sedentarismo. Seguiram-se considerações sobre os alimentos, na realidade, sobre estes e determinados preparos, considerando-se que o caldo era o primeiro prato de todas as mesas. Em seguida, caracterizou as carnes, designadamente as de boi, cavalo novo e burro, carneiro, vaca, vitela, peru e pato, galinha e finalmente porco, de acordo com o que entendeu a melhor hierarquia em termos de qualidade. Os peixes foram objeto de curtíssimas observações, sendo entendidos como pouco alimentícios, embora se tenham ressalvado pescadas, linguados e pargos, “pratos do meio de muita estimação”, para quebrar a monotonia das carnes. Mariscos, ovos, manteiga, azeite, arroz, considerado um produto econômico; legumes, hortaliças, batata, pão de trigo, de milho, frutas, água, vinho, bebidas brancas, cerveja, café, chá e chocolate, particularmente relevante para pessoas de constituições fracas e anêmicas, foram também objeto de atenção. Esta seção terminou com a apresentação de diversos quadros nos quais se podem ver informações sobre o valor calórico dos alimentos, o tempo de digestão e o que deveria ser a alimentação “normal” de uma pessoa, a qual deveria consumir 2.405 calorias por dia.31

Antes de iniciar as páginas dedicadas às receitas, Rosa Maria referiu-se brevemente aos diversos regimes alimentares para doentes e explicitou as razões para se cozinharem os alimentos, ou seja, tal prática permitia um processo preliminar de digestão, eliminar organismos nefastos e tornar os alimentos mais agradáveis. Ao longo destes preâmbulos foi mostrando ser conhecedora da realidade envolvente, designadamente da pobreza rural ao escrever: “Com duas boas tigelas de caldo, dois pedaços de pão, 4 ou 6 sardinhas, alimentam-se, à falta de melhores refeições, milhares e milhares de trabalhadores rurais, que vergam nos campos de sol a sol, sob a ação dum trabalho violento”32 ou “o pão de milho, a batata, a hortaliça, a sardinha e o bacalhau constituem quase exclusivamente a alimentação dos aldeões portugueses”.33 Se face a estas realidades nada propôs, em relação aos de médios recursos, assinalou a carne de carneiro como uma boa opção, uma vez que era superior às de vaca e de vitela e “pelo seu preço nos talhos, muito inferior ao da carne vacum, oferece a muita gente das classes menos abastadas um recurso precioso, pois que, além de mais barato, é um grande reparador das despesas do organismo e um alimento saboroso quando bem preparado na cozinha”.34

Num país vinhateiro como Portugal, a questão do alcoolismo era um problema sério. Se bem que o Estado Novo não tenha definido uma política vinícola, não deixou de promover diversas medidas para incentivar o aumento do consumo do vinho e das uvas, chegando, através da Junta Nacional do Vinho, a promover um concurso de cartazes. Ficaram famosos slogans como “Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses” e “Comam uvas, bebam vinho”. Os cartazes foram distribuídos por tabernas, mercearias, casas de pasto e barbearias. O vinho era apresentado como um complemento ou um substituto de refeição e, apesar de alguns médicos se mostrarem preocupados com os efeitos do consumo excessivo, outros, bem como as autoridades, entendiam que o alcoolismo era resultado do consumo de bebidas brancas e nunca da ingestão de vinho.35 Rosa Maria esteve relativamente bem enquadrada nesta questão, ao considerar o vinho um alimento, o qual deveria ser consumido em “porção racional”, durante as refeições. Em excesso, levava a doenças mortais e à “prática de crimes hediondíssimos”.36 Já as bebidas brancas eram “um veneno”, que davam “aos hospitais, aos cemitérios e às prisões um contingente horroroso”.37 Poderiam ser toleradas em circunstâncias específicas, como no mar ou após a chuva, quando não se podia mudar de roupa.

Em alguns passos da obra, Rosa Maria forneceu às leitoras informações genéricas acerca do significado de esparregado, maionese, papas, sopa e carapinhada além de ter esclarecido a complicada arte dos pontos de açúcar.38 Explicou ainda com pormenor o modo de amanhar peixe, abrir crustáceos, limpar moluscos e arranjar vísceras.39 No primeiro caso, atente-se no que escreveu acerca da maionese: “é um prato frio importado da cozinha francesa em que entra o molho do mesmo nome ou o molho tártaro, prato geralmente complexo e que, bem preparado, apresenta não só um sabor delicado como um aspeto muito agradável”.40

Como em qualquer livro de cozinha, houve que fazer escolhas no que se refere à disposição das receitas: a sucessão dos pratos em cada refeição, de acordo com uma ementa diária ou semanal, ou por ordem alfabética dentro de cada tipologia. No caso da obra em estudo, a opção recaiu na forma de organização em várias seções: receitas para cozinhar, isto é, pratos salgados; doces práticos, carapinhadas, compotas, geleias e queijadas. Como qualquer outra tentativa de organização dos receituários, esta oferece alguns problemas, designadamente uma imprecisão geral no capítulo dos salgados e uma subdivisão peculiar dos doces. Mas as questões não ficaram por aqui. A obra foi sendo impressa com pouco cuidado, em papel de má qualidade, embora tenha conhecido capa dura e em cores. Nem sempre os títulos das seções corresponderam aos do índice ao mesmo tempo em que há receitas como, por exemplo, “Feijão verde panado ou à milanesa (vagens)”,41 que não constam do referido índice.42 Dentro de cada seção, o receituário foi organizado por ordem alfabética, embora, em alguns casos, se encontrem exceções, ao mesmo tempo que apareceram receitas com a mesma designação, com conteúdos distintos e nem sempre em sequência, caso, por exemplo, de “Bife à inglesa”.43 Ou seja, estamos perante uma autora que domina o português básico não particularmente cuidado e edições sem revisão e de baixa qualidade formal e material, na maioria dos casos das mais antigas.

Tentemos uma arrumação das receitas que se pretende mais clara, o que não nos deve fazer esquecer a presença de carnes e de peixes diferentes na mesma receita ou de sopas que contêm carne ou peixe, ou ainda de saladas com aves ou com crustáceos, por exemplo. Por outro lado, importa fazer referência à presença de ingredientes para vários bolsos. Se bem que Rosa Maria, nas considerações que traz antes das receitas, tenha dado pouca importância ao peixe, o número de preparados deste gênero foi o mais significativo, atingindo os 139, isto é, 27% do total das receitas e 39% das receitas salgadas, sendo de salientar que as receitas de bacalhau, então um alimento barato, ultrapassaram a centena.44 No reino da carne, tenha-se em conta que, além de algumas receitas de vaca e de vitela, encontram-se muitas com partes não nobres das carnes. Ou seja, o receituário salgado é predominantemente econômico, composto essencialmente por peixes como bacalhau e sardinha e por carnes diversas, incluindo aves, contando-se ainda algumas receitas de vísceras de vaca e de porco. E note-se que, mesmo assim, carnes vermelhas e aves representaram apenas 18% do total. Açordas, caldos e outras sopas, pratos genericamente econômicos, tal como os de vegetais, estiveram igualmente bem representados. O grande investimento parece ter sido no capítulo dos doces (30%). Nestes encontram-se bolos grandes e pequenos, compotas e geleias de frutos, carapinhadas, gelados, pudins e outros doces de colher. O açúcar reinou, bem como os ovos e as amêndoas secas, sem esquecer os frutos frescos.

Tal como nos mais antigos livros de cozinha publicados em Portugal desde o século XVII,45 a autora optou por não fazer a separação entre ingredientes e modo de preparação, no que se referiu aos salgados, com exceção das receitas de “Bacalhau panado e frito” e de “Massa tenra sem ovos para frituras recheadas”.46 Já no que se referiu aos doces, essa separação foi prática corrente em cerca de metade das receitas, o que parece evidenciar a cópia de receitas de obras muito diferenciadas e de épocas diferentes. Por outro lado, tal como no passado, na maior parte das receitas de salgados, as indicações sobre quantidades ou estão omissas ou são parciais ou, mais raramente, definem-se em termos de proporções. Tais foram os casos, por exemplo, de “Arroz de pato”, de “Bacalhau à portuguesa” e de “Bacalhau verde”.47 Em consonância, o número de porções que cada receita proporcionava esteve igualmente omisso, com exceção da receita de “Sopa de tomates”.48 Quando um preparado necessitava de um molho, nem sempre se remeteu para a seção e para a página em que a receita do mesmo se encontrava.49

Na impossibilidade de exemplificar todas as questões, veja-se o caso da receita de “Arroz de amêijoas”: “Lavam-se em água corrente as amêijoas de maneira a tirar toda a areia que estas têm. Põem-se a cozer e logo que estejam abertas, deitam-se num refogado de cebola, azeite, salsa picada, pimenta, sal, cravo-de-cabecinha e uma pitada de colorau doce. Depois de todas bem refogadas, junta-se-lhe a água e deixa-se ferver, e logo que ferva, lava-se o arroz e deita-se dentro até cozer. Prova-se, e manda-se servir uma vez que esteja ao vosso paladar. Se for tempo de tomates, não vos esqueçais de lhe deitar alguns depois de lhe tirardes a casca e a semente”.50

Como se compreende, na primeira metade do século XX, a questão da sazonalidade dos alimentos tinha um peso bastante diferente do da atualidade. Apesar da conservação de gêneros ser uma realidade desde tempos recuados, está bem patente a dependência de alguns alimentos na estação própria. Veja-se o caso do tomate, na receita supracitada e em outras. Por exemplo, em “Arroz de camarão”, pode ler-se: “tomates se os houver”; em “Cação de caldeirada” esclarece-se: “à falta de tomate fresco, pode empregar-se a conserva de calda, ou a massa, mas esta em geral, quando comprada no mercado, não é de confiança”. Já em “Molho de tomate”, a opção é pacífica: “no tempo em que não há tomates frescos pode empregar-se massa de tomate ou calda de tomate em conserva”. Finalmente, em “Sopa de grão com arroz ou com massa”, uma possibilidade passava por juntar ervilhas ao preparado “no tempo” delas, pois ficava “muito gostosa”.51 Rosa Maria mostrou reservas acerca do consumo de tomate em conserva produzido industrialmente, como se verificou. Porém, nas receitas de doce, oscilou entre a preparação de geleias a partir da mão de vaca e o seu uso em folhas, ou seja, o consumo de um produto já processado, o que pode, de novo, evidenciar a cópia de receitas de épocas e proveniências diversas.

Sendo um livro de receitas básicas, pensadas para o dia-a-dia e para pessoas com recursos médios, não se verifica uma preocupação constante com os aproveitamentos das sobras, ou com chamadas de atenção para os pratos econômicos. Mesmo assim, em “Ovos com carne cozida” pode ler-se: “um dos bons processos de aproveitar a carne cozida que sobra dos jantares é cozinhá-la com ovos”;52 em “Sopa de carne à portuguesa”, dá-se uma opção mais acessível: “estas sopas também se podem, por espírito de economia, substituir a carne por ossos de vaca ou vitela, que dão muito bom gosto e saem muito baratos”53 e em “Sopa à alentejana”, pode ler-se que é “muito rápida e econômica”.54 De alguma forma, semelhante foi a preocupação em preparar pratos rápidos e econômicos para visitas inesperadas. Na receita de “Atum em maionese” aconselhou:

…as donas de casa previdentes e que dispõem dalguns meios têm sempre a sua despensa fornecida de elementos com os quais, à última hora, preparem uma iguaria, quando a chegada de um comensal inesperado torna necessário o acrescentamento do jantar. É manjar clássico para esses acrescentamentos o chouriço com ovos, mas os elementos a aproveitar são vários, e entre eles, figura o atum de conserva em azeite, com o qual, num quarto de hora, se prepara uma boa maionese.55

A autora salientou alguns produtos locais que lhe pareceram particularmente bons: azeite de Santarém e couves tronchudas do Douro; e apresentou alguns pratos regionais: “Açorda à alentejana”, “Bacalhau à moda do Porto”, “Bacalhau à portuense”, “Bacalhau de cebolada à alentejana”, “Bacalhau à Ericeira”, “Bacalhau albardado à moda de Águeda”, “Bacalhau com couve-flor à transmontana”, “Bacalhau em açorda à alentejana”, “Bacalhau em arroz à moda do Crato”, “Bacalhau à moda de Lamego”, “Carneiro à transmontana”, “Coelho à transmontana”, “Rosbife à portuense”, “Sopa à alentejana”, “Tripas à moda do Porto”, além de muitas outras receitas “à portuguesa”. Encontram-se ainda muitos pratos que remetem para uma proveniência estrangeira,56 tais são os casos de “Açorda à andaluza”, “Ameijoas à espanhola”, “Arraia à valenciana”, “Bacalhau à alsaciana”, “Bacalhau à espanhola”, “Bacalhau à aragonesa”, “Bacalhau à biscainho”, “Bacalhau à Cádis”, “Bacalhau à Chantilly”, “Bacalhau à inglesa”, “Bacalhau ao gratem à provençal”, “Bacalhau à parisiense”, “Bacalhau à provençal”, “Bacalhau à sevilhana”, “Bife à inglesa”, “Brócolos à italiana”, “Costeletas à milanesa”, “Dobrada à milanesa”, “Feijão branco à italiana”, “Frango à inglesa”, “Linguado à valenciana”, “Macarrão à italiana”, “Massa folhada à francesa”, “Molho à espanhola”, “Peru recheado à brasileira”57, “Pudim de peixe à francesa”, “Repolho fresco à alemã” e “Salada de tomate à italiana”. No capítulo dos doces, a inspiração mais recorrente parece ter sido o Brasil, não apenas nas designações como também em diversos doces com coco: “Baba de moça”, “Baba de moça com coco”, “Biscoitos de coco à sinhazinha”, “Compota à sinhazinha”, “Corações de moça”, “Pudim à Tijuca”, “Pudim de pão à brasileira” e “Queques de coco”. Refiram-se ainda “Pudim francês”, “Queques parisienses” e “Tigelinhas espanholas”. Em termos regionais, apresentaram-se: “Fatias doces de Braga”, “Fidalguinhos de Braga”, “Maneizinhos de Elvas”, “Mulatos de Torres”, “Ovos-moles de Aveiro”, “Palitos de Oeiras”, “Pudim de ovos à moda de Coimbra”, “Queijadas de Estremoz”, “Queijadas da Madeira e “Queijadas de Sintra”. Neste último caso, deu a fonte: “esta receita foi-me dada por uma criada que se dizia sobrinha da queijadeira sintrense Matilde e confirmada por pessoas da terra”.58

Rosa Maria, em “Tripas à moda do Porto”, fez saber as diferenças do modo de preparar este prato em casa e nos restaurantes, considerando que neles “suprime-se em geral o trabalho de passar o feijão e juntam-se vários temperos, como cebola e louro, com os quais conseguem um prato muito mais indigesto”.59 De resto, nunca se preocupou muito com a apresentação das iguarias, tendo só pontualmente dado sugestões.

Os utensílios de cozinha referidos foram muito pouco sofisticados. Num caso, a alusão remeteu para o passado, com o uso da sorveteira e a explicação acerca do funcionamento da mesma,60 objeto que só se tornará obsoleto na segunda metade da centúria, quando o frigorífico começou a ser divulgado entre os particulares.61 Em “Bife à inglesa”, Rosa Maria considerou ser necessário um fogão e uma grelha com disposições especiais e, em “Ovos estrelados à portuguesa”, informou acerca da existência de frigideiras para estrelar ovos separados uns dos outros,62 o que parece evidenciar uma novidade para a época, uma vez que explicou as características da peça.

A análise das receitas, como se verificou, pode colocar em perspectiva domínios diferenciados, tais como os ingredientes, os utensílios, as técnicas culinárias e o produto final obtido. Ao identificar os gêneros alimentares e os objetos que foram referenciados vão desfilando permanências e mudanças, quer na própria obra quer quando se procede à comparação com outros receituários semelhantes de anos próximos. Basicamente, em Rosa Maria para o povo, predominou esmagadoramente o uso de produtos in natura desconfiando-se, mas não as excluindo, da calda de tomate e da gelatina industriais, o que evidencia a compilação de receitas de várias épocas. Não há referências a novidades para a cozinha, em especial no que se refere aos eletrodomésticos, cuja expansão se dará nos anos seguintes à II Guerra Mundial. A designação dos pratos remeteu para o nacional, para o regional e, mais modestamente, para o estrangeiro, o que está em consonância com a preparação de refeições comuns e pouco sofisticadas, com escasso investimento na apresentação dos pratos.

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BiblioAlimentaria

1. Memória gastronómica

16. MARIA, Rosa, A Cosinheira das cosinheiras (19‑‑?)

Quanto à sua estrutura, a obra é composta por dedicatória, uma série de preceitos de governo doméstico e o receituário por ordem alfabética. O subtítulo Higiene alimentar e a denominação da dedicatória Às senhoras que dirigem o lar domestico denunciam de forma inequívoca os papéis tradicionais da dona de casa no âmbito da vida doméstica: gestora da economia alimentar e cuidadora de uma alimentação saudável do seu agregado familiar. A obra tem, por isso, o desígnio de auxiliar as leitoras a governar (não a executar, função que cabia a serviçais da casa) a alimentação, esfera de ação de suma importância na vida doméstica, como se depreende das palavras que encerram o parágrafo de abertura da dedicatória: “facilitando às donas de casa a direcção mais importante do «menage», a alimentação”. A autora confessa ter, por isso, norteado a redação da sua obra pelos princípios do não desperdício, do valor nutritivo dos alimentos e do prazer que estes dão ao palato. Economia, saúde e gastronomia surgem, logo nas palavras de introdução à obra e de estímulo (implícito) à sua compra, como pilares fundadores da escrita de Rosa Maria.

A primeira parte do livro (pp. 7‑20) destina ‑se a indicar princípios gerais sobre a relação direta entre a natureza dos consumidores (idade e género), o ambiente a que estão expostos (diferenças climatéricas, de acordo com a estação do ano), as atividades físicas que desenvolvem (pois implicam absorção de nutrientes e consumo de calorias diferenciados) e os alimentos que ingerem (com propriedades nutritivas e higiénicas distintas). Estas páginas, além do teor pedagógico inerente ao desígnio de instruírem sobre “os alimentos que mais nos convêm, e os que devem ser retirados das nossas mesas” (p. 8), contêm interessantíssimas observações sobre matéria sociológica e moral. A título ilustrativo recordamos o comentário que, sob a entrada “Pão de milho” (p. 12), se faz à alimentação (pobre e monótona, por comparação com a apresentada às donas de casa a que se destina a presente obra) das camadas rurais da população portuguesa nessa 1.ª metade do século xx. Aí se escreve: “O pão de milho, a batata, a hortaliça, a sardinha e o bacalhau, constituem quase exclusivamente a alimentação dos aldeões portugueses”. Já o parágrafo de abertura da entrada “Bebidas brancas” (p. 14) é bem o espelho da condenação dos excessos alimentares e comportamentos desviantes a ele associados: 

a batata, a hortaliça, a sardinha e o bacalhau, constituem quase exclusivamente a alimentação dos aldeões portugueses”. Já o parágrafo de abertura da entrada “Bebidas brancas” (p. 14) é bem o espelho da condenação dos excessos alimentares e comportamentos desviantes a ele associados: 

“Se o vinho, bebido em condenável excesso, pode e tem produzido frutos desgraçados da ordem física e moral, as bebidas brancas, por seu turno, têm dado aos hospitais, aos cemitérios e às prisões um contingente horroroso.

Num segundo momento, Rosa Maria procede à apresentação, por ordem alfabética, das receitas propriamente ditas: primeiro os pratos cozinhados ou crus (as saladas) a que contemporaneamente chamamos “salgados”; depois os doces (agrupados em cinco rubricas independentes: Dôces práticos, Carapinhadas, Compotas, Geleas, Queijadas). Note‑se, no entanto, que a intenção didática da obra continua a marcar presença mesmo nesta parte, uma vez que é antecedida por página e meia de observações da autora sobre os efeitos favoráveis da cocção dos alimentos, que, numa linha ancestralíssima (remontante, como sabemos, aos escritos gregos de dietética da Escola Hipocrática, no século v a. C., herança a que não se alude na presente obra), entendia o cozinhar “como um processo preliminar da digestão” (p. 21).

Os benefícios da ação do fogo sobre os alimentos são de ordem química (produzindo a transformação dos seus componentes), higiénica (eliminando parasitas) e gastronómica (promovendo o apetite, através do estímulo dos sentidos do paladar e da vista). Que estes princípios, e em particular o estético e gustativo, foram tidos em conta na redação das receitas comprovam‑no, por exemplo, as recomendações finais da receita de arroz à Valenciana (p. 27): “Para dar melhor apresentação deve‑se pôr tiras de malagueta, que não só dá bom paladar como também são aperitivo para o vinho”. 

Mas há anotações no pé das receitas que abordam assuntos bem diversos, como é o caso da descrição de um utensílio da bateria de cozinha que seria pouco conhecido. Refere‑se a “umas frigideiras especiais para estrelar ovos separados uns dos outros”, efeito que se consegue devido ao fundo apresentar depressões onde se colocam, sem se tocarem, os ovos a estrelar (mencionadas na receita de Ovos estrelados à portuguesa, pp. 118‑119).

No que se refere à presença de um receituário internacional, observamos que continuam a marcar presença várias receitas de títulos de origem europeia (francesa, espanhola, italiana, inglesa e alemã). Atentemos, porém, com algum detalhe na presença da gastronomia declaradamente portuguesa neste livro de receitas. O nosso levantamento é apenas ilustrativo e tem por critério a presença no título de uma origem nacional (a), regional (b) e local (c):

a) Açorda à Portuguesa (p. 23, em verso); Bacalhau à portuguesa (p. 30), Cabeça de vitela à portuguesa (p. 65), Carne assada à portuguesa (p. 71), Carne estufada à portuguesa (p. 72), Leitão assada à portuguesa (p. 99), Molho de vilão à portuguesa (p. 112), Ovos estrelados à portuguesa (p. 117), Papas de milho à portuguesa (p. 118), Sopa de carne à portuguesa (p. 139);

b) Açorda à alentejana (p. 23), Bacalhau de cebolada à alentejana (p. 35), Bacalhau em açorda à alentejana (p. 55), Sopa à alentejana (p. 144), Bacalhau com couveflor, à transmontana (p. 44), Carneiro à transmontana (p. 74), Coelho à transmontana (p. 78); Queijada da Madeira (p. 189);

c) Bacalhau à moda do Porto e Bacalhau à portuense (p. 33); Tripas à moda do Porto (p. 146), Rósbife à portuense (p. 132), Bacalhau à Ericeira (p. 37); Bacalhau albardado à moda de Águeda (p. 39), Bacalhau em arroz à moda do Crato (p. 55), Bacalhau à moda de Lamêgo (p. 58), Fatias doces de Braga e Fidalguinhos de Braga (160), Maneiszinhos de Elvas (p. 162), Mulatos de Torres (p. 162), Sopapos de Torres (p. 194), Ovos moles de Aveiro (p. 163), Palitos de Oeiras (p. 164), Pudim de ovos à moda de Coimbra (p. 174), Queijada de Sintra (p. 189), Queijada de Estremoz (p. 190).

Destacamos ainda, por corresponder a uma atenção especial que o universo culinário brasileiro teve no contexto editorial desta primeira metade do séc. XX, receitas cujo nome denuncia essa origem e/ou público de matriz cultural lusa: Perú recheado à brasileira (p. 123); Pudim de pão à brasileira (p. 174) Baba di moça (p. 152), Baba di moça com côco (p. 152), Biscoitos de côco à Sinhazinha (p. 154), Compota à Sinhazinha (p. 180), Corações de moça (p. 158), Pudim à Tijuca (p. 172).

(CS) Carmen Soares

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Indústrias caseiras – Conservas de frutas e gelêas

Home industries - Fruit preserves and jellies

TITLE: Home industries

SUB TITLE: Conservas de frutas e gelêas

AUTHOR: Aguilar Lozano

NOTAS DE AUTORIA: Masculino. Antigo chefe confeiteiro da Confiteria y Pasteleria Visconti.

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia em série

DATA  DE PUBLICAÇÃO: circa 1930

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 1st edition

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: Emprêsa Literária Universal. 15, Rua da Era, 17.

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: Brochado

FORMATO / DIMENSÕES: 13×19 cm

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO: Indústrias Caseiras

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: SELO DE MAR

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: 

OBSERVAÇÕES:

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1928 O Doce Nunca Amargou

O Doce Nunca Amargou - 1928

TITLE: The Sweet Never Turned Bitter

SUB TITLE: Doçaria portuguesa. História. Decoração. Receituário.

AUTHOR: Emanuel Ribeiro

NOTAS DE AUTORIA: Masculino

PREFÁCIO:

SUPORTE:  Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia 

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1928

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 1st edition

LOCAL: 139 págs

PUBLISHER: 

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: Imprensa da Universidade

ENCADERNAÇÃO: Brochado

FORMATO / DIMENSÕES: 21x13cm

NÚMERO DE PÁGINAS: 139 págs

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: SELO DE MAR

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: 

OBSERVAÇÕES:

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Gastronomy collections SEA SEAL BOOKS collection

Biblioteca Culinária (colecção)

Colecção Biblioteca Culinária

TITLE: Culinary Library

SUB TITLE: 

AUTHOR: Febrónia Mimoso

NOTAS DE AUTORIA: Pseudónimo literário

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia em série
Colectânea de 12 fascículos encadernados em 1 tomo de 17×12 cm. Com 56 págs.

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1924

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 1st edition

LOCAL: Porto

PUBLISHER:
Casa editora de A. Figueirinhas, Lda.

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: Brochados

FORMATO / DIMENSÕES: 17×12 cm.

NÚMERO DE PÁGINAS: 56 páginas

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: 

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: 

OBSERVAÇÕES:
Fascículos de uma colecção culinária iniciada cerca de 1925, por Manuel da Mata, que assinava como Febronia Mimoso, eventualmente para chegar mais facilmente às donas de casa com um pseudónimo feminino.

Segue uma abordagem popular, destinada a apelar a um público mais modesto, apresenta receitas económicas, por oposição aos livros de receitas baseados nas cozinhas francesa e italiana, de que são representantes nomes como Alinanda, Berta Rosa Limpo ou Auronanda.

Cem maneiras de…

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Viagem à volta do mundo em Cem receitas culinárias.