Tag: LIVROS SEC XX 1900-1950
1936 Olleboma
Portuguese cuisine and tourism
TITLE: Olleboma
SUB TITLE: Portuguese cuisine and tourism
AUTHOR: António Maria de Oliveira Belo
NOTAS DE AUTORIA:
PREFÁCIO:
SUPORTE: Impresso
GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia
DATA DE PUBLICAÇÃO: 1936
DEPÓSITO LEGAL:
EDIÇÃO:
LOCAL: Lisbon
PUBLISHER:
TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR:
ENCADERNAÇÃO:
FORMATO / DIMENSÕES:
NÚMERO DE PÁGINAS:
COLECÇÃO:
ISBN/ISSN:
COLECÇÃO DE:
Biblioteca Nacional (de Portugal).
REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
BN H.G. 1505823 V.
NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 95
OBSERVAÇÕES:
95
BELO, António Maria de Oliveira (1872–1935)
Portuguese cuisine and tourism / António Maria de Oliveira Belo. — Lisboa: [s. n.], 1936.
Trabalho que se destinava ao I Congresso Nacional de Turismo, não chegando a ser apresentado por morte do seu autor.
BN H.G. 1505823 V.
Outra ed.:
— Lisboa: Assírio & Alvim, 1994 (S.A7. 8718 V.)
1936 Olleboma
Culinária Portuguesa
TITLE: Olleboma
SUB TITLE: Culinária Portuguesa
AUTHOR: António Maria de Oliveira Belo
NOTAS DE AUTORIA:
PREFÁCIO: prólogo de Albino Forjaz de Sampaio
SUPORTE: Impresso
GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia
DATA DE PUBLICAÇÃO: 1936
DEPÓSITO LEGAL:
EDIÇÃO:
Outra ed.:
— Lisboa: Assírio & Alvim, 1994 (S.A7. 8718 V.)
LOCAL: Lisbon
PUBLISHER: Edição do autor
TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR:
ENCADERNAÇÃO:
FORMATO / DIMENSÕES:
NÚMERO DE PÁGINAS:
COLECÇÃO:
ISBN/ISSN:
COLECÇÃO DE:
SELO DE MAR
Biblioteca Nacional (de Portugal).
REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
BN S.A1. 1544 V.
S.A2. 7503 V.
NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 94
OBSERVAÇÕES:
94
BELO, António Maria de Oliveira (1872–1935)
Culinária portuguesa / Olleboma; prólogo de Albino Forjaz de Sampaio. — Lisboa: Ed. do Autor, [1936?]
BN S.A1. 1544 V.
S.A2. 7503 V.
Outra ed.:
— Lisboa: Assírio & Alvim, 1994 (S.A7. 8718 V.)
in
BiblioAlimentaria
1. Memória gastronómica
14. BELLO, António Maria de Oliveira, Culinária portuguesa (1936)
Embora a obra não apresente data, nem mesmo na 2ª edição, de 1963, que existe na BGUC, sabe‑se que foi primeiro editada em 1936, ano imediatamente a seguir ao da morte do seu autor (1872‑1935). Essa informação consta da mais recente edição da obra, com a chancela da Editorial Presença (2012).
Sobre a biografia do autor, o destaque vai para a sua ação em prol da culinária nacional, daí o seu nome e pseudónimo (Olleboma 22) serem apresentados na folha de rosto seguidos do cargo que exerceu entre 1933 e 1935 de Presidente da Sociedade Portuguesa de Gastronomia (SPG). Nem uma palavra para a sua carreira política (deputado do Partido Regenerador, tendo recusado em 1926 a Pasta das Finanças, que veio a ser assumida por Salazar), atividade profissional (industrial e mineralogista) e demais movimentos associativos que integrou (presidente da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais).
O volume da 2.ª ed., que consultámos, abre com o “Índice de matérias” (pp. 5‑6), de cuja leitura se depreende a existência de seis núcleos distintos, a saber: palavras de apresentação do autor e da sua obra de gastrónomo; prefácio; receitas (coligidas pelo autor); suplemento (de receitas postumamente acrescentadas); queijos; vinhos. A primeira rubrica (pp. 7‑17), intitulada “Do autor da Cozinha Portuguesa e da Sociedade dos Gastrónomos”, é da autoria de outro dos fundadores da SPG, o escritor Albino Forjaz de Sampaio. Aí as leitoras da Culinária Portuguesa (pois é a um público feminino que a obra aparentemente se destina 23) deparam com informações destinadas a revelar a “sensibilidade do gastrónomo” Oliveira Bello e com uma breve história da SPG. Trata‑se de um testemunho particularmente válido sobre o funcionamento desse órgão, na medida em que são enunciados os nomes dos seus membros, se transcreve, dos Estatutos, a missão que os move, se apresentam as várias comissões técnicas de estudo formadas e se publicam as ementas das reuniões dos sócios (sempre à mesa, não só em casas particulares, mas sobretudo em alguns dos melhores restaurantes da época, como o Hotel Aviz, o Maxim’s e o Palace do Estoril).
O prefácio (pp. 19‑26) de A. M. de Oliveira Bello constitui um documento histórico de grande interesse, que deve ser analisado à luz do contexto da época. Embora só tenha sido publicado sob esta forma, o texto fora inicialmente escrito para apresentar ao I Congresso Nacional de Turismo, pelo que o intitulara “A culinária portuguesa e o turismo”. O autor escreve numa altura em que os livros de culinária portugueses, à exceção da obra anónima Cosinha Portuguesa (cat. n.º 10), ainda estavam bastante dominados pela cozinha francesa. No entanto, Bello é impulsionado para a escrita desta obra pelo propósito confesso de promover a gastronomia nacional e regional. Não sendo a primeira obra escrita em português com esse desígnio de afirmação de uma identidade gastronómica portuguesa, a verdade é que é com ela que se assiste, pela primeira vez, a uma massiva identificação de “cozinha dos territórios”, pela associação no nome do prato a um espaço geográfico, de âmbito mais restrito (remetendo para uma localidade) ou mais amplo (nacional e regional).
Muitíssimo residual (com apenas 7 receitas, num total de 600) é a presença da “cozinha honorífica”, aquela que presta homenagem a uma pessoa ou estabelecimento, exibindo no seu título os respetivos nomes próprios. As evocações vão desde o que se imagina possa ter sido uma figura popular das imediações da capital (p. 53: “Sopa à Tia Gertrudes da perna de pau (arredores de Lisboa)”), a pessoas que não tiveram a reserva que a maioria das “informantes” do autor demonstrou em publicar a sua identidade 24 (p. 83: “Peixe com molho de gemas da Dona Clarisse Amarante Romariz”; p. 158: “Bifes de vaca à D. Filipa (Lisboa)”; p. 159: “Carne de vaca estufada à Catarina”), a um hipotético apreciador da cozinha ou da boa comida (p. 122: “Bacalhau‑lagosta à Dr. Amador Valente de Oliveira de Azeméis. Prato frio”), sem esquecer a fama alcançada por um restaurante lisboeta então na moda, o Marrare (p. 157: “Bifes à Marrare”; p. 158: “Lombo de vaca à Marrare”).
Diferentemente do que virá a suceder cerca de 40 anos mais tarde (na viragem da década de 70 para a de 80), com a coleção Culinária Portuguesa de Maria Helena Crato (n.º de cat. 30, 31 e 32), o conceito de identidade nacional não engloba, nesta obra, a “cozinha dos afetos” (herança de antepassados, que se perpetua nos nomes de parentes dados a receitas). Escrita em meados da década de 30, a Culinária Portuguesa de Olleboma apenas oferece um vislumbre da tendência intimista que haveria de chegar à literatura culinária, com a receita “Broas da avòzinha” (p. 306).
Não esqueçamos a ligação do autor à promoção da gastronomia nacional, já então reconhecida como alicerce do sucesso do turismo, ainda a necessitar de muita formação e melhorias ao nível da restauração e da hotelaria. Donde se compreende a insistência com que o autor chama a atenção de “hoteleiros e proprietários de restaurantes, especialmente das regiões turísticas e de passagem mais ou menos forçada do automobilismo, para as receitas culinárias nacionais” (p. 19), lembrando que devem ser “cozinhadas com cuidado, higiene e asseio” (p. 20), “empregando só produtos das melhores qualidades, escolhidos de preferência entre os produzidos ou transformados na própria região e que aí se encontrem perfeitos e com facilidade” (p. 19). Ontem, como hoje, promoviam‑se os territórios da alimentação, determinantes para a boa qualidade da cozinha.
Ainda que sem pretendermos ser exaustivos, é francamente notório o cunho nacionalista que domina as 600 receitas coligidas em 1935 por Oliveira Bello. Assim, logo nos títulos, se percebe esse esforço de cunhar uma identidade nacional à culinária, sendo que esta resulta da soma do global (a) ao regional (b) e ao local (c). Compõem a secção que designámos de (a), as receitas que apresentam no título a expressão “à portuguesa” e as subintituladas “prato nacional” (num total de 54 e de 6, respetivamente).
Não sendo aqui o lugar para indagar os critérios que terão subjazido à atribuição do galardão nacional a este universo de 10% de receitas (tradição transmitida ao autor‑compilador ou opinião pessoal do próprio?), constatamos que o estatuto de “prato nacional” vem atribuído tanto a preparados em que ainda hoje se reconhece uma longa tradição culinária portuguesa, como a outros que terão perdido essa aura.
22 O pseudónimo resulta das iniciais do seu nome lidas ao contrário: OLLEB de Bello, O de Oliveira, M de Maria e A de António.
23 Essa sugestão é deixada nas últimas palavras de Sampaio, que apela à “curiosidade da leitora” (p. 17). No entanto, no espírito de Olleboma estariam os leitores também do sexo masculino, conforme parece sugerir as cerca de 40 pp. e utilização gastronómica; serviço, temperatura e decantação).finais da obra, dedicadas aos vinhos portugueses (classificação, características
24 No prefácio, Oliveira Bello agradece a generosidade das senhoras de Lisboa e das províncias em fornecerem‑lhe muito do receituário publicado e esclarece não mencionar os seus nomes “porque na sua grande maioria assim o exigiram” (p. 19).
26 Recorde‑se o que dele escreveu Forjaz de Sampaio, a propósito das refeições‑reunião da Sociedade Portuguesa de Gastronomia (p. 10): “Era ele quem adquiria os géneros de primeira qualidade; quem guiava os cozinheiros, vigiava pela execução, pela apresentação, pelo serviço”.
No primeiro tipo enquadram‑se as receitas de “sardas ou cavalas cozidas” (p. 101, demolhadas e servidas com batatas, cebolas e grelos ou couve cozidos, temperados de azeite e vinagre), “sável de escabeche” (p. 102) e “cabeça de porco e orelheira com feijão branco e hortaliça” (p. 186). No segundo colocamos as “fatias de pão recheadas com picado de carne” (pp. 164‑5, com o requinte de se recomendar o uso de pão de forma e de exigir a envolvência do picado de carne em molho branco), o “frango estufado à portuguesa sem tomate” (p. 204, que é acompanhado por gemas fritas) e a “abóbora carneira guisada com tomates” (p. 219, receita com o interesse particular de ser o que se poderia chamar um “acompanhamento nacional”, pois é geralmente confecionada para ser servida com carnes assadas ou estufadas, como esclarece Bello).
Muito mais numeroso e diversificado, cobrindo todas as rubricas, é o universo dos pratos “à portuguesa”. Não estranhe o leitor que, de um total de 45 sopas, apenas 13 não apresentem no título nenhum termo a remeter para alguma territorialidade – que aqui cobre todos os conspectos: nacional (pex. “sopa de galinha à portuguesa (canja)”, p. 28; “sopa de ervas à portuguesa”, pp. 50‑51, feita de grelos, “erva” ausente das culinárias estrangeiras 25 e “cozido português”, pp. 160‑163), regional (“sopa de couves à portuguesa (Norte)”, p. 45) e local (“sopa rica de puré de peixe à portuguesa (Lisboa)”, pp. 30‑1; “sopa de camarão à portuguesa” (Lisboa)”, p. 37).
Claro que, no que diz respeito a denominações a remeterem para regiões e lugares de Portugal, o corpus do receituário aumenta exponencialmente, se considerarmos outras expressões linguísticas recorrentes, como “à moda de” (Alentejo, Minho, Foz do Dão, Norte e Beira Alta, Peniche, Sintra, Coimbra, Abrantes, Póvoa, Aveiro, Lisboa, Porto, Setúbal, Cascais, etc.), “de” (seguido de topónimo) e uso de adjetivo toponímico regional e local (alentejana, ribatejana, minhota, transmontana, algarvia, abrantina, portuense, lisboeta, madeirense, açoriano, angolano, macaísta, indiano).
Recordamos aqui as palavras de apresentação do “Cozido português”, na medida em que atestam a noção de transversalidade territorial subjacente a pratos de cariz nacional e propõem a eleição de um preparado como o mais recorrente: “O cozido à portuguesa é o prato nacional mais usado em todo o país” (p. 160).
Pensado por um indivíduo conhecedor da importância determinante do ciclo biológico na qualidade dos produtos (recorde‑se o seu papel de presidente da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais) e de entendido nas técnicas de manufatura culinária 26, Oliveira Bello apresenta uma tabela sobre “meses de melhor sabor dos principais peixes dos rios e da costa portuguesa” (pp. 144 e 145) e ilustra o seu livro com os cortes do filete de peixe (pp. 80 e 81).
(CS) Carmen Soares
2.2.2. Culinária Portuguesa, Olleboma, 1936, Edição de autor
in Cozinha Tradicional Portuguesa de Maria de Lourdes Modesto:
Contributos para a construção das identidades e do património culinário português
Maria Margarida Sarmento Gomes Mota Pinto de Abreu
Licenciada em Ciências Farmacêuticas
Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Ciências Gastronómicas
62 Foi consultada a edição de 1994, Assírio & Alvim.
63 Braga, 2014, p.138.
64 Sobral (2008, p. 114-115) especifica aquilo que é representado como português: “Sem contabilizarmos os doces, do vasto número de receitas compiladas – 393 – 148 (37,7%) não possuem uma identificação específica. As identificadas dividem-se entre as que são “à portuguesa” – 71 (18%) – as que possuem uma identificação regional – 148 (37,7%) – e as que possuem uma identificação colonial: 26 (6,7%). A identidade culinária portuguesa concebia-se assim como compondo-se de várias regiões, e as colónias eram uma parte integrante dela”.
65 Soares (2018, p. 166) inclui no conceito de ‘nacional’ e ‘português’, para além das dimensões geográficas e político-administrativas, a dimensão dos afetos: “para o caso de um domínio cultural como é o da alimentação, em primeira instância (ou seja, no período da vivência do sujeito no seio da família) os níveis primordiais de identidade são os hábitos e gostos do agregado familiar e do indivíduo. É, por conseguinte, natural que se tome por sinónimo de ‘português/nacional’ a “culinária dos afetos”, aquela que diretamente se diz (muitas vezes no próprio título) ter sido transmitida por familiares e amigos”.
66 Olleboma, 1994, p. 23.
67 Preâmbulo de José Quitério à obra Olleboma, 1994, p. 7-8.
68 Ibidem, p. 9-10.
69 Sardas ou cavalas cozidas, Sável de escabeche, Fatias de pão recheadas com picado de carne, Cabeça de porco com feijão-branco e hortaliça, Frango estufado à portuguesa sem tomate e Abóbora carneira guisada com tomate.
70 Segundo Olleboma, uma refeição sem a sopa não é completa: “Para os portugueses à refeição sem caldo ou sopa, faltar-lhe-ia de entrada, qualquer coisa de indispensável” (1994, p. 26). Para Olleboma, as quatro sopas fundamentais e mais características da identidade nacional são a canja, o caldo verde, a sopa do cozido nacional e as sopas de peixe dos portos portugueses (1994, p. 26).
71 Olleboma, 1994, p. 25.
72 A promoção da cozinha nacional e regional também está relacionada com o desenvolvimento do turismo automóvel (Sobral, 2007, p.42), tendo Olleboma sido Director do Automóvel Clube de Portugal.
Esta obra 62 é “o primeiro grande conjunto de receitas de várias regiões do país” 63 e “codifica um corpus culinário definido como nacional (português), promovendo a sua defesa” 64, representando uma evolução do que é considerado nacional. Para António Maria de Oliveira Bello, a cozinha nacional também inclui a cozinha dos afetos 65, construída a partir da identidade individual de quem participou no livro: “Muitas das receitas que publicamos foramnos fornecidas muito amavelmente por senhoras de Lisboa e das províncias, para quem a culinária constitui uma arte realizada com prazer e carinho” 66. Tal como sucedeu com a obra anterior, Olleboma apresenta-se como compilador de receitas oferecidas por senhoras, que, na sua quase totalidade, pediram o anonimato, o que pode ser explicado pelo código feminino de discrição e pela moral da época. Não se pode esquecer que este livro tem uma ideologia política por detrás. Olleboma foi um homem da alta burguesia, político de cariz conservador, ligado ao Antigo Regime, e membro da Sociedade de Propaganda Nacional 67. O seu interesse pela promoção da culinária nacional traduziu-se, ao nível de cargos, no papel de presidente e sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Gastronomia, em 1933, juntamente com outras figuras importantes do cenário político 68. Destacamos desta obra a consagração da ideia de pratos nacionais, pela atribuição do subtítulo “prato nacional” a um conjunto de 6 receitas 69 e da afirmação da existência de um preparado culinário identitário português, a sopa 70. Na época da publicação do livro, o padrão e a moda era comer à francesa. O livro tem um público-alvo diversificado, sendo dirigido a uma população elistista, a homens, figuras de importância política e ao sector de hotelaria e restaurantes, “especialmente das regiões turísticas e de passagem mais ou menos forçada do automobilismo”71, mas também às senhoras. O objectivo é incentivar os lugares públicos a fazerem cozinha portuguesa e a promoverem os produtos alimentares do país e as culinárias dos territórios. No receituário da obra, há, contudo, também uma integração da cozinha cosmopolita e internacional, a par da portuguesa, incluindo as então colónias do Ultramar. Note-se que o prefácio do livro foi escrito para ser apresentado no 1º Congresso Nacional de Turismo, evidenciando a ligação entre esta obra e o turismo 72. Com Olleboma, a Culinária Portuguesa ganhou a visibilidade que não foi obtida com a obra pioneira, mas pouco conhecida, do nacionalismo culinário, a Cosinha Portugueza.
1936 Olleboma
Culinária Portuguesa
TITLE: Olleboma
SUB TITLE: Culinária Portuguesa
AUTHOR: António Maria de Oliveira Belo
NOTAS DE AUTORIA:
PREFÁCIO: prólogo de Albino Forjaz de Sampaio
SUPORTE: Impresso
GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia
DATA DE PUBLICAÇÃO: 1936
DEPÓSITO LEGAL:
EDIÇÃO:
Outra ed.:
— Lisboa: Assírio & Alvim, 1994 (S.A7. 8718 V.)
LOCAL: Lisbon
PUBLISHER: Edição do autor
TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR:
ENCADERNAÇÃO:
FORMATO / DIMENSÕES:
NÚMERO DE PÁGINAS:
COLECÇÃO:
ISBN/ISSN:
COLECÇÃO DE:
SELO DE MAR
Biblioteca Nacional (de Portugal).
REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
BN S.A1. 1544 V.
S.A2. 7503 V.
NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 94
OBSERVAÇÕES:
94
BELO, António Maria de Oliveira (1872–1935)
Culinária portuguesa / Olleboma; prólogo de Albino Forjaz de Sampaio. — Lisboa: Ed. do Autor, [1936?]
BN S.A1. 1544 V.
S.A2. 7503 V.
Outra ed.:
— Lisboa: Assírio & Alvim, 1994 (S.A7. 8718 V.)
Do Autor, da Cozinha portuguesa e da Sociedade dos Gastrónomos
António Maria de Oliveira Bello foi industrial e mineralogista distinto. E foi gastrónomo ilustre. O primeiro dos gastrónomos portugueses. Foi também pessoa de trato tão fino, tão requintado e tão encantador, como hoje é de saudoso e de recordado. Aos homens da sua classe os minutos de silêncio que a tributação homenageadora em nossas almas lhes consagra são dispensados por inúteis. A todos os momentos o seu nome vem, admirativamente evocado por nós, intervir no mundo de coisas de que ele era mestre e magia atractiva. E mal calculava eu, quando ele me falava em abrir com palavras minhas este seu livro, que à hora de cumprir já a sua voz emudecera e o seu perfil a morte o esfumasse.
António Bello pertencia àquela geração de amorosos da Vida que dia a dia vão desaparecendo. Era, por assim dizer, uma sobrevivência dos bons viveurs portugueses, como Bulhão Pato, como Plantier, que só não era português no nome, como tantos outros. Pertencia infelizmente e devia ter horror a esta geração que não sabe comer e que vive apressadamente, devorada de incertezas e angústias, conhecendo do mundo as estradas e do prazer a superfície!
Não. António Bello era um epicurista, um homem superior. Sabia comer, e nêsse capítulo poderia ser autor de códigos e leis. Se Brillat-Savarin foi da gastronomia o Papa, a António Bello pertenceria por todos os direitos e eleições o ser o seu cardeal na nossa terra. Gastrónomo é palavra portuguesa. A sua tradução é que anda frequentemente adulterada. Gastrónomo é o que sabe comer. O que prefere, e como não, a qualidade à quantidade. Nada de parentesco vocabular ou real com o comilão, o glutão, o gargantão ou viandeiro. Nada.
Mas o saboreador, anteposto ao deglutidor. A sensibilidade do gastrónomo está mais na boca e na língua, nos olhos e no olfato, que no estômago. Comer, para o gastrónomo, é cousa tão sagrada como o sagrado sacrifício da missa para o cristão. Não há nada mais bulidor com a essência divina da besta humana, inteligente e sensível. Que volúpia, que sucos do paraíso, que sumptuosas evocações pode dar o tacto, podem dar todos os comunicativos caminhos do mundo exterior com a alma, com a parte nobre e superior do homem que dentro de si algo tenha que o seja!
O gastrónomo é o grande maestro. Como ele sabe compor por exemplo essa peça orquestral que é uma caldeirada, em que a fílfa de um figurante pode anular uma obra de mestre, ou essa rapsódia nacional que é o cozido à portuguesa. Para a cozinha os mais sagrados elementos são colaboradores primários: o sol, a água, o lume, o tempo, o mar, a floresta, a ave, o fruto, tudo invenções de Deus e o Vinho que é invenção dos homens bem dignos de serem nomeados deuses. Mundo inteiro, do pão e do sal, do minúsculo crustáceo ou do pequeníssimo bago de pimenta ao potente boi doméstico e ao indomesticado javali!
António Bello tinha uma ternura especial pelo assunto do seu livro de hoje. A cozinha portuguesa, endeusada por Fialho nos Gatos, verificada a sua existência pelo Ramalho nas Farpas e proclamada revivificadora, tónica e maravilhosa urbi et orbi por Eça de Queiroz, dos livros menores ao A Cidade e as Serras, teve em António Bello o seu melhor defensor, o seu cultor apaixonado. A sua obra, fundando a Sociedade de Gastronomia portuguesa e escrevendo este livro, o prova. Os homens como António Bello, pelo que enobrecem a sua pátria e pela alta compreensão que têm do patriotismo, fora dos clamores patriotiqueiros de comício de arruaça, não deveriam morrer nunca.
Fundação da Sociedade Portuguesa de Gastronomia
Uma das grandes criações de António Maria de Oliveira Bello foi a fundação da Sociedade Portuguesa de Gastronomia, com o Dr. Ernesto Roma e quem estas linhas escreve. Inaugurada em 1933, tem por fim «promover o estudo dos alimentos quanto à sua origem, produção, fabrico, apresentação e paladar para conseguir melhorá-los» e nestes termos procura:
- a) fazer ressaltar a cozinha nacional melhorando-a, elevando-a ao lugar que deve ter, defendendo a cozinha nacional e os produtos alimentares portugueses de primeira qualidade;
b) promover exposições, concursos, semanas de culinária e fazer publicações concernentes à gastronomia e ao turismo nacional;
c) criar em cada região núcleos de emulação propícios a elevar o nível da cozinha local e a manter as boas condições culinárias;
d) fazer propaganda e afirmar o valor dos bons produtos nacionais, encorajando as suas boas qualidades e a sua apresentação condigna quer para consumo do país quer para exportação;
e) apontar as fraudes alimentares e lutar contra a concorrência dos produtos estrangeiros;
f) coligir elementos para a História da Cozinha e da alimentação portuguesa nas suas características e nas suas influências estrangeiras;
g) promover e auxiliar a criação de escolas culinárias e de serviços caseiros;
h) prestar homenagem aos escritores e homens de ciência que têm lutado por melhorar as condições da alimentação, base da vida sã e duradoura.
Em resumo:
A Sociedade dá todo o seu concurso à boa cozinha e aos bons produtos, procura melhorar o turismo tornando-o mais agradável, indicando onde se encontra o conforto e a boa mesa nos hotéis, restaurantes e pensões, incitando e encorajando a conservação das tradições e costumes que mereçam respeitar-se.
Assim rezam os seus estatutos e assim o seu fundador procurou sempre cumprir.
Membros da Sociedade Portuguesa de Gastronomia
A Sociedade de Gastronomia divide-se nas seguintes comissões técnicas de estudo: Bibliografia e História da Culinária e Gastronomia; Vinhos; Peixes e Carnes (frescas e em conserva); Lacticínios; Doces; Cozinha regional; Azeites e gorduras alimentares; A Culinária no turismo; Higiene alimentar; Contrafacções e fraudes alimentares; Propaganda e orientação; Cafés, Cacaos, Chocolate e outros produtos alimentares coloniais; Escolas de culinária; Cozinhas e organização doméstica.
São seus sócios, entre outros: os professores da Faculdade de Medicina de Lisboa e os médicos Drs. Azevedo Neves, Dr. Carlos de Melo (falecido), Dr. Aleu Saldanha, Dr. Carlos Larroudé, Dr. Alvaro Lapa, Dr. Borges de Sousa, Dr. Ernesto Roma, Dr. Rafael da Cunha Franco, Dr. Fernando da Costa Cabral, Dr. Roberto d’Almeida; os professores da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra Drs. Fezas Vital e Dr. Mário de Figueiredo; os professores da Faculdade Técnica Drs. Luiz Cincinato da Costa e Dr. Tavares da Silva; os advogados Drs. Bustorff Silva, Dr. Mário Pinheiro Chagas e Dr. Rangel de Sampaio; os engenheiros Carlos Alves e José Duarte Ferreira; o mestre d’armas Carlos Gonçalves; os condes de Penha Garcia e de Vinhó e Almedina; o Dr. Cândido de Sotto Maior, Dr. Francisco Machado, Francisco Meira, João Sequeira Nunes, Dr. António Soares Franco, Eduardo Buzaglo, Ermette Pires, Fortunato Abecassis, Guilherme Cardim, e Joaquim Nunes Freire, Alvaro de Lacerda, Dr. Mário Gusmão Madeira, Diogo Joaquim de Matos, Jaime Verde, Fausto de Figueiredo, Dr. Eduardo Burnay, Pedro Bordalo Pinheiro, Fidelino de Figueiredo, Carlos Nunes Teixeira e Albino Forjaz de Sampaio.
Inaugurou-se a Sociedade reunindo-se num almoço em casa do Dr. Bustorff, no Pátio do Pimenta, e teve a sua última reunião em vida do seu dedicado presidente numa ceia no Hotel Aviz, a que assistiu o meu velho amigo e ilustre professor da Faculdade de Direito, embaixador de Portugal no Rio de Janeiro, Dr. Martinho Nobre de Melo. — 16 de Janeiro de 1933 — 17 de Agosto de 1935. Em todos estes banquetes o génio culinário de António Bello exercia uma acção preponderante. Ele organizava a ementa, trabalho ingrato e difícil que exige conhecimentos profundos e gosto de eleição. Era ele quem adquiria os géneros de primeira qualidade; quem guiava os cozinheiros, vigiava pela execução, pela apresentação, pelo serviço. Ele soube criar e dar vida a uma linda cousa. Durante dois anos ele e os seus amigos gastrónomos reuniram sucessivamente no Pátio do Pimenta, em Azeitão, no Palace do Estoril, a bordo da fragata ribeirinha Afonso d’Albuquerque, na Penha Longa, no Hotel Aviz, no Grémio do Minho, na Peninha, em casa do Dr. Rangel de Sampaio, no salão de chá do Tivoli, no Restaurante do Campo Grande, no Avenida Palace, no Maxim’s, e no Pavilhão de Golf do Estoril.
O que essas reuniões eram não pode ser descrito ao correr da pena. Os primores gastronómicos, o brilho e encanto da conversa, o espírito de alguns, os conceitos profundos de outros, a discussão de problemas que com a culinária e a gastronomia contendiam, o juízo sôbre êste ou aquele prato, êste ou aquele vinho, momentos foram que a saudade já hoje faz inolvidáveis. Eram sempre escolhidas as ementas. Primoroso e magnífico o seu componente. É porque elas sejam verdadeiros poemas sinfónicos de côr, de brilho e de perfume, obras primas da ciência dos Savarins, dos Cournousky e dos Roupp, dos Ali-Baba; dignas de perpetuação, guia de futuros gastrónomos e dos que queiram a fundo estudar as magnificências da cozinha portuguesa aqui se transcrevem, parecendo-nos que em melhor local elas não podiam deixar de ficar exumadas ao esquecimento.
Começaremos pela ementa do almoço em casa do Dr. Bustorff, seguindo-se as outras por ordem cronológica.
Almoço
Melão refrescado
Lagosta à moda armoricana
Arroz branco solto
Galinha da Índia estufada
Brioches recheados de «foie gras»
Gemas fritas com parmesão
Couve-flor em pudim
Môlho de suco de espinafres
Queijo da Serra da Estrela
Bolo de biscoitos recheados com doce de framboesa
Ananaz e tangerinas em salada
Café (Lote S. Tomé, Cabo Verde e Novo Redondo)
Madeira Sercial — 1815
Colares branco — 1924
Bucelas branco — 1926
Colares tinto — 1922
Porto velho
Moscatel de Setúbal 1907
Aguardente Moscatel 1914
16 de Janeiro de 1933
Almoço
Conservas de peixes de Setúbal
Ostras do Montijo
Salmonetes grelhados à moda de Setúbal
Empadas de galinha à moda alentejana
Aperitivo Moscatel
Palmela Superior licoroso — 1914
Branco Salvaterra (Quinta dos Belos) — 1921
Olleboma
Culinária
TITLE: Olleboma
SUB TITLE: Culinária
AUTHOR: António Maria de Oliveira Belo
NOTAS DE AUTORIA: Olleboma é pseudónimo, resultante das iniciais de seu nome lidas ao contrário: OLLEB de Bello, O de Oliveira, M de Maria e A de António.
PREFÁCIO:
SUPORTE: Impresso
GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia
DATA DE PUBLICAÇÃO: 1928 ?
DEPÓSITO LEGAL:
EDIÇÃO: edição.
LOCAL: Lisbon
PUBLISHER: Tipografia da Empresa Diário de Notícias
TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR:
ENCADERNAÇÃO:
FORMATO / DIMENSÕES:
NÚMERO DE PÁGINAS:
COLECÇÃO: SELO DE MAR
ISBN/ISSN:
COLECÇÃO DE:
REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 00
OBSERVAÇÕES:
Prefácio
Este trabalho é dedicado aos gourmets (os verdadeiros apreciadores da boa cozinha) e àquelas donas de casa que comprehendam a importância do seu papel social, sabendo o que seja a hygiene e a economia domestica às que estejam convencidas de que a felicidade da sua familia está, principalmente, em conseguir, por meio d’uma série de pequenos cuidados e desvelos, crear um lar atraente, alegre e confortável, onde o marido e os filhos melhor se sintam, preferindo-o a quaesquer divertimentos fora delle.
Para tal fim se realisar, deve o marido estar certo, porque o sinal, de que só lá é que encontra quem saiba dirigir um menu variado, de execução bem pensada e bem cuidada, acompanhada com carinho, com sciencia e com a consciencia de quem quer agradar, satisfazendo plenamente os seus apetites, as fantasias do seu paladar, e cuidando da sua hygiene: base indispensável para uma boa saúde. Mas não o conseguirá a dona de casa com facilidade, sem hesitações e sem dúvidas, se não souber as razões e os porquês da technica culinaria, habilitando-se ao mesmo tempo a executar com segurança os regimes dieteticos prescriptos pelos medicos, alterando-os, sem sair das instrucções clinicas, quando a falta de recursos, hoje tão frequente, se faça sentir. E’ o que se pretende explicar, seguindo os ensinamentos da cozinha franceza, que é a mais perfeita, a mais artistica e hygienica.
E por que razão é que a cozinha franceza é classificada como a melhor do mundo, dizendo-se que na França onde a gastronomia chegou à maxima perfeição, quando todos os povos teem a sua cozinha nacional, especialmente a França, a Italia e a Hespanha?
Sendo certo que as condições meteorologicas e climaticas, influindo na fauna e na flora, influem logicamente nos alimentos, ao mesmo tempo que a temperatura média de cada paiz influe nas condições da vida e nos habitos dos respectivos habitantes, criando condições especiaes de alimentação, porquê é que a França supplanta todos os paizes, mesmo aquelles cujas condições meteorologicas e climaticas lhe são iguaes ou superiores?
Porque é que os grandes restaurantes e hoteis fóra de França, quando pretendem fazer o seu reclamo, annunciam que a cozinha é á franceza e dirigida por cozinheiros francezes?
É por uma série de factos concretos bem conhecidos.
Todos os grandes restaurantes de Paris e de outras cidades de França e as principais casas de venda de carnes e outros produtos naturais frescos têm frigoríficos próprios para a conservação e preparação dos produtos alimentícios. Pois, sendo preciso uma franga gorda, uma costeleta, um bom filéte de lombo ou vazio, não se vão comprar ao galinheiro ou ao talho, vão-se escolher ao frigorífico, cortando-se da peça que esteja na sazão própria, tendo as qualidades máximas de macieza e no momento em que o perfume característico esteja no maior desenvolvimento. Em seguida tempera-se e prepara-se com as natas e manteigas frescas mais finas e puras que se fabricam e com azeites de oliveira e outras gorduras do mais delicado gosto, que a ciência e o trabalho do francês têm conseguido obter; condimentadas, seguindo à risca as leis ditadas pela harmonia dos sabores, ciência que a prática consagrou nas suas múltiplas aplicações; não são leis concretamente estudadas, mas bem conhecidas por experiência, explicadas nas escolas culinárias e aperfeiçoadas em gerações sucessivas. Assim é que, associando-se o tanino admiravelmente às substâncias albuminóides, nos dá enorme prazer um vinho tinto velho acompanhando um assado em sangue ou um queijo bem curado. Pelo contrário a falta de afinidade do tanino com as matérias gordas torna detestável a associação do vinho tinto com chocolate ou o leite. E por o sal e os ácidos terem sabores semelhantes, que o vinho branco acompanha belamente as ostras, e contràriamente, por o açúcar e o sal serem antagónicos, a mistura do açúcar com ostras cruas dá uma união do que há de mais repugnante e desagradável; e são os dois produtos isoladamente matérias primas das mais deliciosas combinações. Como também, sendo o açúcar e os farináceos substâncias do mesmo grupo dos hydrocarbonados, associadas entre si e convenientemente temperadas, dão alianças culinárias das mais saborosas, como são todas essas inúmeras combinações de bolos, doces e pudins.
É o conhecimento profundo desta ciência e a sua aplicação apropriada, que dão ao francês a grande superioridade na preparação dessa série de deliciosos molhos por eles inventados, que mascaram, intensificam ou modificam os aromas e sabores próprios das diversas carnes, peixes e legumes.
O cozinheiro francês, sendo um tradicionalista da culinária do seu país, que é a mais artística na apresentação e a mais perfeita na composição, porque o princípio fundamental que a orienta é o emprego exclusivo das melhores e mais puras matérias primas, não é um rotineiro, mas um progressivo, estudando sempre e procurando com inteligência a arte encontrar novas composições ou misturas, que constituam, ou uma preparação nova, ou uma melhoria, que o estrangeiro reconhece e que o francês, que é essencialmente gourmet, aprecia, agradece e estimula. Por isso o cozinheiro francês é grande na sua terra e indispensável e único nas terras estranhas, quando se pretende a mais perfeita culinária.
Três monopólios efectivos da França vieram também em auxílio da cozinha francesa, e que são os cogumelos negros (as trufas); a trufa perfuma característicamente todas as carnes a que se junta, fazendo ressaltar todas as suas boas qualidades aromáticas. Os outros cogumelos, principalmente os pequenos brancos de Paris, com o seu aroma fino e delicadíssimo, melhoram sempre os produtos a que se associam. E por fim o foie gras, que, sendo só por si o que a natureza e o esforço do homem têm produzido de melhor para os mais finos paladares, com a junção das trufas e o auxílio quasi divino do vinho do Porto, chega ao máximo que pode ambicionar o gourmet mais exigente.
E ainda porque os franceses tiveram a arte e a ciência de transformar o sumo das suas uvas nos néctares mais preciosos, com sabores, perfumes e aromas que deliciam conjuntamente o olfato e o paladar e que completam, d’uma forma admirável, o gosto de cada alimento, produzindo uma harmonia tão perfeita, que se não sabe se foram as preparações culinárias que criaram o vinho francês, se foi o vinho que as criou, tão admiráveis são em conjunto.
E também porque o francês, que vive num meio em que tudo que é arte é cultivado e apreciado d’uma forma superior, tem a intuição da arte culinária por educação e por tradição. Assim é que, quando deseja obsequiar alguém com amizade e sinceridade, inclui sempre no seu programa uma refeição sentindo-se ridiculo e vexado, por amor-proprio nacional, se o menu não resultar fino, artisticamente apresentado e cozinhado, proprio a alegrar e deleitar a vista, o paladar e o coração, e consegue-se sempre sem difficuldade, porque encontra na sua terra todos os mais variados recursos culinarios e artistas incomparaveis, que os transformam nos manjares mais deliciosos.
Sendo este livro tambem dedicado aos gourmets, — vejamos o que é um gourmet?
E’ o gastrónomo por excellencia; não é um glutão, mas um apreciador e um exigente do bom e do bello. Não interessa a quantidade para só apreciar a qualidade e a arte posta na boa apresentação. Goza completamente quando o paladar encontra o que lhe agrada e soffre quando tem, por cerimonia ou conveniencia, que achar bom o que está detestável, sentindo calafrios, se ouve dizer em torno de si que está óptimo. Não exterioriza, em geral, os calafrios, porque é sempre bem educado e boa pessoa.
Nem sempre aprecia as complicações culinarias, mas honra devidamente as misturas, quando obedecem às boas regras da sciencia de Brillat Savarin.
Não come ostras cruas sem a garantia de ter para as acompanhar um Chablis, ou um Vouvray ou um Steinberger ou um Moselle, ou ainda um Bucelas velho ou um Reno Andressen.
Não come ovos estrelados, sem ter a certeza de que foram temperados, antes de postos ao lume, só com pimenta branca a gema e só com sal fino a clara, nunca misturados ou trocados os dois temperos.
O gourmet é sempre um artista em todos os ramos da arte, quer seja apenas um apreciador delicado, quer seja ao mesmo tempo um cordon bleu.
São os gourmets deste segundo grupo os que constituem a elite e que mais gozam, porque sabem transformar a arte da cozinha numa sciencia, conseguindo realisar no maior requinte os mais fantasiosos apetites do seu fino paladar, ou os desejos que lhes suggestiona o seu amor pelo que é bom.
O gourmet procura sensações novas na vida, em instinto e o prazer da descoberta e da escolha do que é fino, delicado e de bom gosto. A descoberta d’uma mistura ou de uma combinação harmonica, que o paladar reconheça e classifique como uma preciosidade, dá-lhe alegria e nova vida. É o intelectual da sciencia gastronomica, dando a todas as suas criações a sua marca pessoal e a sua individualidade. Comer e beber bem é o seu maior prazer, e quando o consegue, é verdadeiramente feliz; basta então vê-lo como come: compassadamente, saboreando, notando-se na expressão do olhar, na contracção suave dos musculos da face, um sorriso doce e peculiar, quanto goza. Se bebe vinhos leves, palhetes, muito perfumados, em pequenos golos para sentir, gozando, no maximo, o seu aroma e o seu perfume. É bem a contradicção do glutão, cujo prazer está em fazer desapparecer rapidamente os montes de comida na sua frente, atestando-os com quantidades de liquidos vinhosos mais ou menos espessos, não interiores por trago a meio litro. São dois prazeres bem distinctos; um está no paladar e exige perfume, finura, delicadeza; o outro está apenas em absorver com rapidez e abundancia, sem escolha de qualidade.
De todos os paizes do gourmet, a gastronomica é a unica que no correr da vida não lhe deixa remorsos, nem amarguras, nem arrependimentos, só lhe fazendo sentir a pena de ter que acabar um dia.
E’ tambem a unica paixão para a qual nunca foi preciso fazer leis de repressão; pelo contrario tem sido devidamente respeitada, considerada e até engrandecida nos paizes em que a civilisação domina, bastando verificar como tem acompanhado a civilisação, desde Apicius, contemporaneo de Horacio e Virgilio, que foi quem escreveu o primeiro Tratado de Gastronomia.
O gourmet, no seu trato, é sempre gentil e delicado, nunca faltando á honra precisa combinada, porque bem sabe que uma demora, por pequena que seja, pode fazer perder a um prato a sua finura.
O gourmet deixou de ir á America do Norte por não poder acompanhar cada prato com o vinho que lhe corresponde, impedindo-lhe assim o prazer de tais misturas, que formam um conjunto perfeito, harmonico e indissoluvel.
Quando está em Paris, não deixa de ir, nos dias proprios, ao «Escargot», saborear os pés de porco trufados, e ao «Tour d’argent» les rognons de mouton à la crème, ou o canard au sang; quando lhe apetece linguado, ou vai ao Marguery, ou não falta a fazer as honras a um filet de sole au vin blanc no «Café de Paris»; quando se lembra dum cocktail aux huîtres, um homard à l’americaine ou uma bouillabaisse, só procura o «Prunier»; e quando lhe ocorre um entrecôte grillée aux pommes soufflées, saboreia-o no «Voisin», regando-a com os finissimos vinhos da famosa cave. Se quer uma novidade ou a realisação dum fino apetite, entra no «Montagné» ou no «Larue», onde respectivamente os grandes mestres Prosper Montagné e Nignon o satisfazem com a maior sublimidade.
Quando está em Londres, ou vai ao «Carlton», onde pontifica Escoffier, o artista mais sabedor e o maior scientifico que jamais houve na arte culinaria, ou vai ao «Claridge», onde a preocupação de agradar e satisfazer a clientela chegou ao limite da mais perfeita realisação.
Em Lisboa ou no Porto só se sentirá feliz se for recebido n’algumas casas particulares.
Considerar-se-ia no Paraiso em casa d’alguns lavradores da provincia, onde os recursos culinarios para o gourmet são ideaes, se depois de chamadas as realidades da vida das papilas da lingua e alertados os sucos estomacais com um copo de Madeira seco de mais de meio seculo de existencia, como aperitivo, um almoço abrisse com um tenro filete de lombo ou do vazio, em infusão prévia em Porto sêco, grelhado e temperado com manteiga fresca purissima, chegando nesse momento da leiteira da quinta, acompanhado dum molho bearnaise e de umas batatas empoladas ou simplesmente fritas no melhor azeite do lagar; seguindo com dois ovos estrelados trazidos do galinheiro, postos no dia, temperados a preceito e regados ainda ao lume com duas colheres de nata fresca, vinda da leiteira com a manteiga. E terminado com um vegetal que passou directa e rapidamente da horta para a caçarola; e depois gratinado com um molho Mornay, não esquecendo um queijinho fresco creme, que veio com a nata e a manteiga, tudo acompanhado com um vinho palhete tinto, que o dono da casa foi escolher especialmente à adega, de 8 a 10 annos de vida; pondo ainda da casa o ponto final com umas frutas que gentilmente foi escolher ao pomar, e com um café mistura de S. Thomé, Cabo Verde e Rio, que ella acompanhou em todas as suas fases de preparação. Com a garantia d’um almoço assim preparado, os melhores gourmets do mundo viriam saboreá-lo, até de aeroplano.
O gourmet é o maior elemento de progresso do paiz onde vive, porque é elle que indica ao agricultor, ao viticultor, ao criador, ao pescador e ao caçador qual a opportunidade e a fórma de valorisar a sua producção: ao agricultor dizendo-lhe que colha sem demora os espargos logo que nasçam, que seleccione e aperfeiçoe a cultura dos seus legumes e hortaliças, para não lhes discutir o preço, que cuide com carinho o cultivo das suas frutas para as pagar a peso de ouro; ao viticultor que perfume os seus vinhos, deixando-os envelhecer como a sciencia manda, e é elle que encontrará consumidores; ao criador que alimente as suas vitelas com residuos do alvo arroz, para as comer de carne branca e de fino gosto, que sustente com intelligencia as suas aves, para as ter gordas, tenras e saborosas e attingir com sciencia até á obesidade congestiva os seus patos, para se deliciar com os fígados; ao pescador, que seja diligente e activo para lhe dar o peixe ainda vivo; e ao caçador que durma longa sesta após a caçada, para lhe levar depois o producto della, perfumado e brando.
Assim como Brillat Savarin dizia no principio do século passado, nos seus aforismos 4.º e 9.º — «Diz-me o que comes e eu te direi quem tu és»; «Tem mais importancia para a felicidade da humanidade a descoberta dum prato novo, do que a descoberta d’uma nova estrella» —, tambem podemos dizer hoje: «Diz-me quantos gourmets tens no teu paiz e eu te direi qual é o estado da sua economia e o progresso da sua riqueza».
Um paiz sem gourmets é um paiz insusceptivel de progresso, é a rotina, o aborrecimento, é a paragem, é portanto, a morte, porque, na vida das nações, hoje, parar é morrer.
Diz-se que a humanidade está dividida em dois grupos: uns dos que vivem só para comer, outros dos que comem para viver.
O gourmet não pertence a nenhum d’estes, vive para gozar, comendo bem, passando a vida alegre, feliz e consolada; enquanto os outros não se distinguem dos animaes comendo, porque comem o que lhes dão, a questão é haver quem lhes saiba dar, só o gourmet é que escolhe o que come, porque sabe porque rejeitar o que não sabe bem ou seja o que não é bom.
OLLEBOMA
Arte de Beber o Vinho do Porto
1935
TITLE: Arte de Beber o Vinho do Porto
SUB TITLE:
AUTHOR: J. C. Valente-Perfeito
NOTAS DE AUTORIA: Ilustrado com desenhos de Eduardo Malta e estampas em folhas extratexto
PREFÁCIO: Ricardo Spratley
SUPORTE: Impresso
GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia
DATA DE PUBLICAÇÃO: 1935
DEPÓSITO LEGAL:
EDIÇÃO: 1.ª Edição
LOCAL: S\ local
PUBLISHER: Instituto do Vinho do Porto.
TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR:
ENCADERNAÇÃO:
FORMATO / DIMENSÕES:
NÚMERO DE PÁGINAS:
COLECÇÃO:
ISBN/ISSN:
COLECÇÃO DE:
REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 00
OBSERVAÇÕES:
1935 Análises de uvas da casta(Moscatel de Setubal)
- Post author By canthecan_bfmhxg
- Post date January 1, 1935
Análises de uvas da casta (Moscatel de Setubal)
Região de Azeitão — ano de 1935
1938
TITLE: Análises de uvas da casta (Moscatel de Setubal)
SUB TITLE: Região de Azeitão — ano de 1935
AUTHOR: Pedro Manso Lepèvre – Engenheiro agrónomo
NOTAS DE AUTORIA:
PREFÁCIO:
SUPORTE: Impresso
GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia
DATA DE PUBLICAÇÃO: 1938
DEPÓSITO LEGAL:
EDIÇÃO:
LOCAL: Lisbon
PUBLISHER: Ministério da Agricultura, Direcção Geral dos Serviços Agrícolas, Laboratorio Químico Central
Repartição de Estudos, Informação e Propaganda
TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR:
ENCADERNAÇÃO: Separata da Revista Agronómica
Vol. 25 (2): 113–119, 1937
FORMATO / DIMENSÕES:
NÚMERO DE PÁGINAS:
COLECÇÃO:
ISBN/ISSN:
COLECÇÃO DE: SELO DE MAR
REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 00
OBSERVAÇÕES:
1935 Livro Análises De Uvas Da Casta «Moscatel De Setúbal» Região De Azeitão
- Post author By canthecan_bfmhxg
- Post date January 1, 1935
Livro Análises De Uvas Da Casta «Moscatel De Setúbal» Região De Azeitão
1935
TITLE: Livro Análises De Uvas Da Casta «Moscatel De Setúbal» Região De Azeitão
SUB TITLE:
AUTHOR: Pedro Manso Lefèrvre – Engenheiro Agrónomo
NOTAS DE AUTORIA:
PREFÁCIO:
SUPORTE: Impresso
GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia
DATA DE PUBLICAÇÃO: 1935
DEPÓSITO LEGAL:
EDIÇÃO:
LOCAL: Lisboa.
PUBLISHER: Ministério da Agricultura. Direcção Geral dos Serviços Agrícolas. Laboratório Químico Central.
Repartição de Estudos, Informação e Propaganda.
TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR:
ENCADERNAÇÃO:
FORMATO / DIMENSÕES:
NÚMERO DE PÁGINAS: 7 págs.
COLECÇÃO: Separata da Revista Agronómica vol. 25 (2): 113-119.
ISBN/ISSN:
COLECÇÃO DE: SELO DE MAR
REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 00
OBSERVAÇÕES:
Tesouro do Lar: Receituário Doméstico Industrial
1935
TITLE: Tesouro do Lar: Receituário Pratico. 2206 receitas para ganhar dinheiro.
SUB TITLE: Pequena enciclopédia colligida e organizada por um grupo de homens de ciência.
AUTHOR:
NOTAS DE AUTORIA:
PREFÁCIO:
SUPORTE: Impresso
GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia
DATA DE PUBLICAÇÃO: 1935
DEPÓSITO LEGAL:
EDIÇÃO:
LOCAL: Lisbon
PUBLISHER: Editorial Minerva
TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR:
ENCADERNAÇÃO:
FORMATO / DIMENSÕES: 34 fascículos
NÚMERO DE PÁGINAS:
COLECÇÃO:
ISBN/ISSN:
COLECÇÃO DE: SELO DE MAR
REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 00
OBSERVAÇÕES:
Arte e Economia
1934
TITLE: Arte e Economia
SUB TITLE:
Arte e Economia – Volume I – Culinária
Arte e Economia – Volume II – Recepções
Arte e Economia – Volume III – Enciclopédia Caseira e Criação de Aves e Coelhos
AUTHOR: Estela Brandão
NOTAS DE AUTORIA:
PREFÁCIO:
SUPORTE: Impresso
GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia
DATA DE PUBLICAÇÃO: 1934
DEPÓSITO LEGAL:
EDIÇÃO:
1934
1937
LOCAL: Vila Nova de Famalicão
PUBLISHER: Tipografia Minerva, de Gaspar P. de Sousa & Irmão
TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR:
ENCADERNAÇÃO:
FORMATO / DIMENSÕES:
NÚMERO DE PÁGINAS:
COLECÇÃO:
ISBN/ISSN:
COLECÇÃO DE: SELO DE MAR
REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 00
OBSERVAÇÕES:
Arte e Economia – Volume I – Culinária
Arte e Economia – Volume II – Recepções
Volume III – Enciclopédia Caseira e Criação de Aves e Coelhos