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1849 Collecção de verdadeiras e proveitosas receitas que…

A collection of real and useful recipes for making various types of sweets, biscuits and liqueurs easily and economically; with a knowledge of sugar points and how to prepare trays of sweets.

TITLE: A collection of real and useful recipes for making various types of sweets, biscuits and liqueurs easily and economically; with a knowledge of sugar points and how to prepare trays of sweets.

SUB TITLE: 

AUTHOR: por B.A.B.

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO:

SUPORTE: 

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: 

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1849

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: Typographia de B. A. Rebello

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN S.A. 12356 P.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 130

OBSERVAÇÕES:

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1849 O Cozinheiro, Confeiteiro e Licorista Moderno

1849 O Cozinheiro, Confeiteiro e Licorista Moderno

TITLE: The Modern Cook, Confectioner and Liqueurist

SUB TITLE: 

AUTHOR: 

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1849

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: 

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: Typ. de Mathias José Marques da Silva

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO: SELO DE MAR

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN S.A. 12212 P. 
F. 6872

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 172

OBSERVAÇÕES:

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1849 O cozinheiro completo ou nova arte de cozinheiro e de copeiro, em todos os seus generos

O cozinheiro completo ou nova arte de cozinheiro e de copeiro, em todos os seus generos:

precedido do methodo para trinchar e servir à meza; contendo as mais modernas e exquisitas receitas para com perfeição e delicadeza se prepararem diferentes sopas e variadissimos manjares, e o modo de fazer massas, dôces e compotas.

TITLE: O cozinheiro completo ou nova arte de cozinheiro e de copeiro, em todos os seus generos:

SUB TITLE: precedido do methodo para trinchar e servir à meza; contendo as mais modernas e exquisitas receitas para com perfeição e delicadeza se prepararem diferentes sopas e variadissimos manjares, e o modo de fazer massas, dôces e compotas.

AUTHOR: 

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: 

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1849

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 1st edition
2ª edição – 1851 (S.A. 12472 P.)
4ª edição – 1859 – 1851 (S.A. 16606 P.)
7ª edição – 1867 – 1851 (S.A. 12384 P.)
9ª edição – 1873 – 1851 (S.A. 12385 P.)
11ª edição – 1879 – 1851 (S.A. 29938 P.)
14ª edição – 1893 – 1851 (S.A. 13646 P.)

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: 

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: Typ. de Luiz Correia da Cunha

ENCADERNAÇÃO: Capa dura

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE:
Biblioteca Nacional (de Portugal).
SELO DE MAR (2ª edição – 1851)

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:  S.A. 12856 P.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 170

OBSERVAÇÕES:

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1841 Arte do cozinheiro e do copeiro

1841 Arte do cozinheiro e do copeiro,

compilada dos melhores auctores que sobre isso escreveram modernamente

TITLE: Arte do cozinheiro e do copeiro,

SUB TITLE: compilada dos melhores auctores que sobre isso escreveram modernamente, sendo a parte extrahida da obra que tem por titulo: A Casa de Campo, publicada em 1822 por Mme Aglaé Adanson, dada à luz por Um Amigo dos Progresses da Civilização.

AUTHOR: António Lobo de Barbosa Ferreira Teixeira Girão
Visconde de Vilarinho de S. Romão.

NOTAS DE AUTORIA: Extraído principalmente de La maison de campagne, publicado em 1822, por Mmme. Aglae Adanson.

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1841 

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 1st edition
Outra edição:
2ª edição aumentada 1845 
S.A. 16158 P; S.A. 14936 P.; F. 5942

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: 

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: Typographia da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos úteis

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: Biblioteca Nacional (de Portugal)

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN S.A. 29684 P.
S.A. 15655 P.
F. 5942

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”:83

OBSERVAÇÕES: compilação de receitas e métodos de culinária e copeiro, traduzida e adaptada para o português.

83

Arte do cozinheiro e do copeiro, compilada dos melhores autores que sobre isso escreveram modernamente… / dada à luz por um Amigo dos Progressos da Civilização. – Lisboa: Typ. da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, 1841. – O autor é o Visconde de Vilarinho de São Romão. – Extraído principalmente de L’Art du maître d’hôtel et du maître d’office, pub. em 1822 por Mme. Aglaé Adamson. – BN S.A. 29684 P.; S.A. 15655 P.; F. 5942.

Outra ed.:
2.ª ed. aum. – 1845. – (S.A. 16158 P.; S.A. 14936 P.; F. 6129).

TITLE: Arte do cozinheiro e do copeiro,

SUB TITLE: compilada dos melhores auctores que sobre isso escreveram modernamente, sendo a parte extrahida da obra que tem por titulo: A Casa de Campo, publicada em 1822 por Mme Aglaé Adanson, dada à luz por Um Amigo dos Progresses da Civilização.

AUTHOR: António Lobo de Barbosa Ferreira Teixeira Girão
Visconde de Vilarinho de S. Romão.

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO:

SUPORTE: Imprenso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1845 

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 2nd edition

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: 

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: Typographia da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos úteis

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: Biblioteca Nacional (de Portugal)

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: S.A. 16158 P; S.A. 14936 P.; F. 5942

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”:

OBSERVAÇÕES:

Edição fac-similada, de 2026, em Os Livros de Culto da Cozinha Portuguesa Público

Prefácio de Guida Cândido, apartir do qual fazemos este resumo.

O livro Arte do Cozinheiro e do Copeiro (1841), atribuído ao visconde de Vilarinho de São Romão, António Lobo de Barbosa Ferreira Teixeira Girão (1785–1863), constitui o quarto livro de cozinha impresso em Portugal. Figura multifacetada — político liberal, académico e empresário agrícola —, o autor teve uma intervenção relevante na vida pública portuguesa do século XIX, sendo também membro de várias instituições científicas e culturais.

A obra, publicada anonimamente e fortemente inspirada em La Maison de Campagne de Aglaé Adanson (1822), apresenta, contudo, uma intervenção autoral significativa, visível em numerosos aditamentos, comentários e adaptações à realidade portuguesa. Reúne mais de quinhentas receitas de cozinha, doçaria e bebidas, incluindo ainda instruções sobre serviço de mesa e conselhos dietéticos, revelando uma preocupação simultânea com o gosto, a saúde e a economia doméstica.

Trata-se de um livro orientado para um público burguês — donas de casa e gastrónomos — afastando-se dos tratados técnicos destinados exclusivamente a cozinheiros profissionais. A obra reflete também práticas alimentares da época, como a organização das refeições (almoço leve e jantar principal) e a crítica ao consumo da ceia.

No capítulo dedicado ao pescado, o autor adapta e amplia significativamente o receituário original, introduzindo preparações como os bolinhos de bacalhau, ainda que diferentes da forma moderna, nomeadamente pela ausência de batata. O livro evidencia igualmente o lento processo de integração de produtos como a batata e o bacalhau na alimentação portuguesa, bem como a sua associação inicial a classes populares e a contextos de abstinência religiosa.

Para além do receituário, a obra inclui observações sobre hábitos alimentares regionais em Portugal, descrevendo práticas de subsistência e preferências locais, desde o consumo de castanhas em Trás-os-Montes até às dietas baseadas em leguminosas e figos noutras regiões.

Finalmente, o livro documenta o contexto social e gastronómico do período, ainda marcado pelo serviço à francesa nas mesas abastadas, num tempo de transição política e cultural. No seu conjunto, Arte do Cozinheiro e do Copeiro constitui um testemunho relevante da construção de uma cozinha burguesa em Portugal, articulando tradição, adaptação e intenção pedagógica.

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1836 Annona ou Misto Curioso

Annona, ou Misto Curioso

Annona ou Mixto Curioso

TITLE: Annona ou Misto Curioso

SUB TITLE: Annona ou Mixto Curioso

AUTHOR: 

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia em série

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1836 a 1837

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 1st edition

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: José Joaquim Nepomuceno

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: Typ da Viuva Silva e Filhos – até ao 14º número
Imprensa de Cândido António Silva Carvalho – 15º ao 36º número

ENCADERNAÇÃO: Brochado

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO: Folheto semanal (publicação periódica de baixo custo).
Formato de folhetim, ou seja, fascículos independentes que podiam ser encadernados.

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: 

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN P.P. 7313 P.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 547

OBSERVAÇÕES: Folheto semanal que ensina o methodo de cosinha e copa, com um artigo de recreação. Lisboa: Typografia da Viúva Silva e Filhos, 1836–1837.
Publicação em folhetins. Do Tomo 1, nº 1 (1836) ao Tomo 3, nº 36 (1837).

Reedição em 2023 pela Livraria Lello

547
ANONA OU MISTO CURIOSO
Annona, ou Mixto-Curioso : folheto semanal, que ensina o methodo de cozinha e copa, com um artigo de recreação . — T. 1, n. 1 (1836) — t. 3, n. 36 (1837). — Lisboa : na Typ. da Viuva Silva e Filhos, 1836-1837. — 16 cm

Faltam os seguintes números: T. 1, n. 2; t. 2, n. 17; t. 3, n. 32. Existe uma 2.ª colecção, bastante incompleta, mas que tem os ns. 2 e 32 que faltam na 1.ª (J. 5680 B.)

BN P.P. 7313 P.

RESENHA DE ANNONA OU MISTO CURIOSO FOLHETO SEMANAL QUE ENSINA O MÉTODO DE COZINHA E COPA COM UM ARTIGO DE RECREAÇÃO. 1836-1837

Annona é o nome da deusa romana responsável por abastecer Roma nos tempos antigos. Representava a abundância. Seu nome deriva da palavra “ano” em latim, marcando os ritmos das colheitas dos cereais. Geralmente era representada ao lado de Ceres ou Deméter, a deusa das plantas que brotam e do amor maternal. Annona era retratada com uma cornucópia, o chifre da fertilidade, recheado com frutas, plantas e cereais. Vinha à frente da proa dos navios que chegavam a Roma com as delícias de além-mar, e seu retrato aparece com frequência em módios, moedas do império romano.

Não foi, portanto, por acaso que os editores de uma das primeiras revistas de gastronomia editada em Portugal entre 1836 e 1837 escolheram Annona como seu título e padroeira. O título integral da publicação é Annona ou Misto Curioso, com a seguinte informação: “folheto semanal que ensina o método de cozinha e copa com um artigo de recreação”. Foram poucas as revistas de gastronomia voltadas para o público leitor de português no século XIX, assim como foram poucos os livros de gastronomia lançados no mercado português e brasileiro neste período. Com um tema considerado menor, ligado ao universo feminino, à cozinha e aos afazeres domésticos, Annona teve vida relativamente curta de apenas dois anos na década de 1830. Hoje, através de iniciativa pioneira de pesquisadores brasileiros ligados ao Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras (PPLB) sediado no Real Gabinete de Leitura, no Rio de Janeiro, e apoio editorial da Livraria Lello, no Porto, em Portugal, o almanaque oitocentista volta ao mercado editorial em formato de livro — essencialmente em Portugal, mas pode-se fazer uma encomenda. A edição em capa dura verde água com título em amarelo conta com apresentação geral de Eduardo Cruz e Gilda Santos. A edição ficou com 523 páginas reunindo receitas, anedotas, poesia, contos, fábulas e histórias em seções separadas. Desta forma, o periódico português não aparece republicado pelo número da edição ou pela data de cada folheto, mas por assunto e, à frente, vêm as receitas, explicitando o assunto principal. A reedição de Annona tem assim o mérito de recolocar nas livrarias e bibliotecas uma obra das mais importantes para se entender as relações de gosto e sociabilidade tanto em Portugal, onde o periódico foi inicialmente editado, como no Brasil, onde também circulava. Na versão ora impressa, cada parte da obra é introduzida por breves textos dos pesquisadores envolvidos no trabalho de edição, sobretudo da área de Letras e História. Além dos organizadores, Ida Alves, Monica Genelhu Fagundes, Gilda Santos, Ana Cristina Comandulli, Pedro Paula Catharina, Andreia de Castro, Elisabeth Martini, Angela Telles, Aline Erthal, Betty Biron e Julianna Bonfim explicam as seções que formavam o almanaque histórico: receitas, poesia, contos, fábulas, história, ditos e anedotas, jogos de salão e adivinhas. Em relação ao conjunto de receitas (de sal e doces), as responsáveis pela transcrição incluíram um glossário ao final da parte das receitas, explicando certos nomes de alimentos ou processos que podem causar estranheza ao leitor de hoje, além de fazerem a equivalência de algumas das medidas antigas mencionadas nos textos.

Joana Monteleone

in ABRIL – Revista do NEPA/UFF, Niterói, v.16, n.33, p. 157-162 jul.-dez. 2024

Joana Monteleone é editora e historiadora, fez Pós-Doutorado na Cátedra Jaime Cortesão da Universidade de São Paulo (USP) com o tema “Açúcar e Industrialização” e na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com o título “O Almanaque Laemmert e o tempo do Império” (2015-2018). Ganhadora do prêmio Jabuti em 2017 como editora, é editora da Alameda Casa Editorial desde 2004. Fez doutorado pelo Programa de Pós-graduação em História Econômica do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP – 2013), com o título de O circuito das roupas: a Corte, o consumo e a moda (Rio de Janeiro, 1840-1889). Possui mestrado em História Econômica pela Universidade de São Paulo (2008), com o título de Sabores Urbanos: alimentação, sociabilidade e consumo (1828-1910). Atua, principalmente, nos seguintes temas: história do império, história do consumo, história da alimentação, história da moda, história e urbanismo. É autora dos livros Sabores Urbanos (Alameda, 2015), Toda comida tem uma história (Oficina Raquel, 2017), O circuito das roupas: a corte, o consumo e a moda, Rio de Janeiro, 1840-1889 (2022) e coorganizadora de A história na moda, a moda na história (Alameda 2019), Histórias de São Paulo: construções e desconstruções (Edusp, 2023) e Cachaça, história

e literatura (Alameda, 2023).

Teria sido interessante, para que a edição permitisse uma compreensão melhor da publicação original, que os editores incluíssem alguns fac-símiles (ou pelo menos um). Estudos recentes mostram como a própria diagramação de uma revista é passível de ser lida e é também uma forma de leitura. Por exemplo, em almanaques de gastronomia, poesias dialogam com as receitas ou mesmo com outros textos. A consulta à Annona em formato facsimilar, contudo, não está totalmente distante dos já interessados. Está online e, ao “folheá-la”, podemos perceber que não existiam anúncios. A diagramação é simples, com as receitas vindo em primeiro lugar e, depois, a parte literária, de recreação — simulando o próprio jantar do século XIX, em que à mesa seguiam-se atividades coletivas, leves e recreativas.

Annona nasceu num momento de efervescência editorial e literária, com diferentes estilos de publicações sendo lançados em vários lugares do mundo — a dianteira desse movimento ficava com a França, impulsionado pelas ideias iluministas e pela Revolução de 1789. Ao mesmo tempo, mudanças tipográficas importantes facilitavam a edição (Hallewell, 1985), já que as primeiras décadas do Oitocentos foram pródigas em pensar o papel da imprensa e dos leitores, com o lançamento de publicação para públicos diferentes. As mulheres, cada vez mais alfabetizadas, entraram em cena como ávidas consumidoras de livros, jornais, revistas, almanaques, folhetos e afins. Annona nasceu voltada preferencialmente para o público feminino.

Mais do que “apenas” uma inspiração cultural, a França fornecia também o conhecimento técnico que permitia a expansão editorial em outros países da Europa e da América Latina. Muitos editores, tipógrafos e trabalhadores do livro partiram para novos destinos, saindo da França, em busca de negócios e trabalho depois da derrota de Napoleão, em 1812.

Trabalhar com publicações sempre foi arriscado econômica e, também, politicamente, e os empresários e tipógrafos estavam sujeitos à censura, a prisões e perseguições políticas de toda espécie. No Brasil, um desses editores franceses expatriados, Pierre Plancher, lançou uma série de produtos editoriais no mesmo período — ele desembarcou no Brasil com uma tipografia e alguns funcionários e abre seu negócio em 1824 (Santana Júnior, 2019). Por uma década, até 1834, Plancher dominou os negócios editoriais do jovem país de Dom Pedro I e, em 1827, publicou um periódico para mulheres que versava, entre outros assuntos, sobre moda — era O Espelho Diamantino. O jornal durou 14 números, de 1 de novembro de 1827 até abril de 1828 e se assemelhava ao Annona em muitos aspectos (diagramação, assuntos, maneiras de se dirigir aos leitores e leitoras). O principal, certamente, era o tipo de público leitor, as mulheres.

A imprensa era uma ferramenta poderosa no século XIX. Tratava de temas políticos, que influíam no cotidiano do país, mas também servia como um dos mais importantes marcadores temporais do século XIX. Números publicados com regularidade, com assuntos voltados para o cotidiano, para a divulgação científica e cultural dos leitores e leitoras, modificaram a noção de tempo no período. Junto com os relógios, que passaram a estar em vários lugares da vida do dia a dia (nas casas, nos bolsos dos coletes, nas ruas ou nas lojas), os periódicos marcaram a vida no século XIX (Benjamin, 1985).

A busca por um novo público leitor, as mulheres, não apenas aumentou as tiragens e as opções de leituras, mas difundiu a ideia de que as mulheres deveriam ser educadas, deveriam aprender a ler, a escrever e a contar, além de outros atributos para um bom casamento, como saber cozinhar, fazer doces e se vestir apropriadamente, dançar ou tocar piano.

Apesar da influência, em Annona estão ausentes algumas palavras que estavam ligadas à tradição francesa e que hoje estamos acostumados a usar. São elas: “gastronomia”, “gastrônomo”, “gourmet”. Se, por um lado, isso mostra que a influência francesa era sensível, mas não avassaladora na cozinha portuguesa, por outro mostra que o refinamento à mesa passava por outros símbolos e signos além da palavra. Foi no começo do século XIX que a França se estabeleceu como referência incontestável na cozinha, com a circulação dos textos do advogado e jurista Jean-Anthelme Brillat-Savarin (1995), que progressivamente fariam as palavras mencionadas anteriormente se tornarem referência da comida de elite.

A moda, como no Espelho Diamantino, ou a culinária, como na Annona, ensejaram publicações que tinham nas leitoras seu público-alvo. Além disso, ambas possuíam seções de divertimentos e literatura, como contos, poesias, fábulas e anedotas — leituras vistas na época como apropriadas às mulheres educadas. A ideia de um tempo de lazer e diversão também nasce com a revolução industrial — o ócio, diria Veblen —, tempo que deveria ser preenchido com atividades civilizadas, como a leitura de jornais e romances (Veblen, 1978).

A maioria das receitas de Annona reproduz, às vezes na íntegra, partes do livro Kitchen art, de Domingos Rodrigues, publicado em 1680. O livro é um clássico absoluto da cozinha portuguesa, com uma compilação de 300 receitas, as quais ao longo dos anos volta e meia reaparecem em outros livros de receitas — até o século XX. Domingos Rodrigues nasceu em Vila Cova à Coalheira em 1637 e morreu em Lisboa em 1719. Foi cozinheiro do rei Dom Pedro II de Portugal, tendo estado à frente da cozinha da Marquesa de Valença. Ele tinha 43 anos quando publicou o volume, que, como em Annona, nem sempre apresenta medidas exatas dos ingredientes, apenas modos de fazer, explicados de maneira bem solta, sem maior precisão.

Cento e cinquenta e seis anos separam as duas publicações. Pelas receitas publicadas, percebe-se que os pratos portugueses não mudaram muito nesse período. É nítida uma influência francesa — mais forte na Annona do que na Kitchen art (no início do século XVII, essa influência estava se iniciando). São receitas que traduzem não apenas um gosto, particular ou de grupo, por determinados alimentos — elas traduzem também a maneira de comer de classes ociosas, no caso, a alta burguesia e a aristocracia. Desta maneira, estão presentes ostras, enguias, pombos, lampreias, salmão, pargos e doirados, bacalhau, camarões, vitelos e carneiros, perus, trufas, alcachofras, castanhas, aspargos, couve-flor, chicórias, ervilhas, favas, pepinos, entre vários outros ingredientes. A escolha cuidadosa do que se ia colocar à mesa mostrava riqueza, poder e civilidade.

Apesar da influência, em Annona estão ausentes algumas palavras que estavam ligadas à tradição francesa e que hoje estamos acostumados a usar. São elas: “gastronomia”, “gastrônomo”, “gourmet”. Se, por um lado, isso mostra que a influência francesa era sensível, mas não avassaladora na cozinha portuguesa, por outro mostra que o refinamento à mesa passava por outros símbolos e signos além da palavra. Foi no começo do século XIX que a França se estabeleceu como referência incontestável na cozinha, com a circulação dos textos do advogado e jurista Jean-Anthelme Brillat-Savarin (1995), que progressivamente fariam as palavras mencionadas anteriormente se tornarem referência da comida de elite.

Brillat-Savarin não apenas popularizou esses termos em seu livro mais conhecido, La physiologie du goût, lançado em dezembro de 1825, numa edição paga pelo próprio autor, como criou a ideia de que a cozinha era uma arte equivalente à música ou ao teatro, portanto feita por gênios-cozinheiros e passível de ser criticada. Desta forma, quando a Annona passa a ser publicada em 1836, ela está fazendo, ainda que de modo indireto, uma referência a Savarin e ao estilo de vida francês da Restauração, entre 1815 e 1830. Neste momento, jantares privados passavam a ser mostras de civilidade burguesa e eram bastante protocolados.

Desde o século XVIII, cozinheiros franceses eram contratados para diferentes cortes reais na tentativa de modernizá-las, adequá-las aos novos tempos e aos novos governantes. Em Portugal, D. Maria (1734–1816), durante seu reinado entre 1777 e 1792 (quando começaram seus delírios e D. João VI assumiu o trono na prática), contratou o cozinheiro francês Lucas Rigaud,que acabou por escrever Cozinheiro moderno ou Nova arte de cozinha (Rigaud, 1999), chocado com o facto de o livro de Domingos Rodrigues ser o único livro de cozinha de Portugal até então, em meados do século XVIII. Os desconhecidos editor (seria José Joaquim Nepomuceno Arsejas?) e redatores da Annona sabiam, portanto, ao falar para o seu público, que estavam a par tanto da tradição culinária portuguesa, com as receitas de Domingos Rodrigues, como das novas modas culinárias de Vincent Sain Chapelle e Lucas Rigaud e da cozinha francesa. Se a cozinha aristocrática portuguesa ainda exagerava nas especiarias, mostrando o seu valor comercial e a sua importância económica, desde o começo do século XVIII a cozinha francesa buscava o refinamento do “gosto puro” dos alimentos, que pouco depois seria tão exaltado por Brillat-Savarin.

Mas a Annona não foi um periódico apenas de receitas ou de gastronomia, ainda que esse fosse o seu principal chamariz. Além da comida, publicava poesias, contos, fábulas, anedotas e adivinhas, no melhor estilo de “almanaque do século XIX”, com uma variedade notável de assuntos leves e mundanos. A ideia, como referimos, era ser uma revista voltada para o público feminino da alta burguesia e da aristocracia portuguesa — uma revista de entretenimento no sentido mais completo do termo. As receitas deveriam ser servidas em jantares, seguidos por distrações leves, música, recitação de poesia, contos ou anedotas. Dessa maneira, um jantar estaria completo, numa oferenda a Annona, a deusa da abundância, terminando a noite cheia de felicidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.

BRILLAT-SAVARIN, Jean-Anthelme. A fisiologia do gosto. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

CRUZ, Eduardo; SANTOS, Gilda. Annona ou misto curioso. Porto: Livraria Lello, 2023.

HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil: sua história. São Paulo: EdUSP, 1985.

MONTELEONE, Joana. Sistema métrico. In: SLEMIAN, Andréa; AIDAR, Bruno; LIMA LOPES, José Reinaldo. Dicionário histórico de conceitos jurídico-econômicos. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2021.

RIGAUD, Lucas. Cozinheiro moderno ou Nova arte de cozinha. Lisboa: Colares, 1999.

RODRIGUES, Domingos. Kitchen art. Lisboa: Biblioteca de Autores Portugueses / Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1987.

SANTANA JÚNIOR, Odair Dutra. Jornais de língua francesa na tipografia de Pierre Plancher (Rio de Janeiro, 1827). Revista Non Plus, ano 7, n. 15, jan.-jun. 2019, ISSN 2316-3976.

VEBLEN, Thorstein. Teoria da classe ociosa. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

Recebido para avaliação em 11/07/2024.
Aprovado para publicação em 09/08/2024.

2 A questão das medidas e do sistema métrico é complexa tanto em Portugal como no Brasil. Nos dois países, o sistema métrico demorou a ser implantado e até hoje se utilizam medidas não decimais nas receitas, como colheradas, bacias, xícaras e pitadas (nenhuma dessas medidas aparece na tabela de equivalências, por sinal). Para saber mais sobre a questão das medidas e da implementação do sistema métrico, ver MONTELEONE, Joana. Sistema métrico. In: SLEMIAN, Andréa; AIDAR, Bruno; LIMA LOPES, José Reinaldo. Dicionário histórico de conceitos jurídico-econômicos. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2021.

3 É possível ler o fac-símile em: https://www.docvirt.com/DocReader.net/RealGabObras-Raras/38862.

4 Ver a apresentação de CRUZ, Eduardo; SANTOS, Gilda. “Annona, muito além dos prazeres da mesa”. In: Annona ou misto curioso. Porto: Livraria Lello, 2023, p. 15–20.

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1804 Memória sobre as diversas salgas da sardinha

Memoir on the various salting of sardines

With the method of utilising anchovies and the salting of coarse fish such as tuna, hake, red seabream and the like, etc.

TITLE: Memoir on the various salting of sardines

SUB TITLE: With the method of utilising anchovies and the salting of coarse fish such as tuna, hake, red seabream and the like, etc.

AUTHOR: Clemente Ferreira França 

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO:

SUPORTE:  Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: Anno de M. DCCCIV 1804

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: 

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: In the Regia workshop

ENCADERNAÇÃO: Capa dura

FORMATO / DIMENSÕES: 22 cm de altura 

NÚMERO DE PÁGINAS: 19 páginas

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: 

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: 

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”:

OBSERVAÇÕES:


Com justos motivos a Administração Pública tem dirigido as suas vistas, e a attenção da Policia sobre os comestiveis, que se offerecem ao Povo. Entre estes os Peixes salgados são os que devem especialmente interessar os seus cuidados; por quanto raras vezes apparecem isentos de corrupção.

Grandes, e prejudiciaes abusos se tem introduzido no methodo de salgar os productos de nossas pescarias Nacionaes. A Sardinha he certamente o mais abundante, o mais rico, e o mais precioso: desgracadamente ella não he aproveitada com todas as utilidades, que offerecem, perdendo-se nas praias huma parte consideravel desta, e outra, por não ser convenientemente preparada, e salgada, não obstante a abundancia, e modicidade do preço de sal na mór parte das nossas terras de portos de mar, pelo que os nossos vizinhos nos vem vender, com mágoa nossa, o producto de suas pescarias, por não termos nós aproveitado as nossas.

Hum vigilante, zeloso, illuminado, e incomparavel Ministro, e Secretario de Estado [4]a cujas vistas perspicazes, cuidadosas, e extensas abrangem todos os ramos dos interesses públicos de Portugal, fez já distribuir pelos portos de mar do Reino huma instrucção sobre o methodo da salga secca praticada em outros Reinos.

Deve-se esperar, que as Municipalidades territoriaes tenhão exactissimo cuidado em fazer examinar, se os contractadores, e os proprietarios das pescarias se conformão, ou não a estas ultimas instrucções, para que o Estado em ves de aproveitamento, não experimente o damno da perca de hum tão preciso, e precioso producto, e se a Sardinha, que se offerece á venda, tem com effeito, ou não as convenientes qualidades, a fim de que a saude pública dos Povos não sinta ruina, damno, ou perigo algum, nem se veja arriscada ao terrivel trafico dos monopolistas, sendo esta a que com razão deve mais que tudo merecer os nossos primeiros cuidados.

Methodo da Salmoura

Ha outro methodo de salgar o peixe, tanto grosso, como miudo; este he o da salmoura.

Salmoura he aquella calda, que por si mesmo resulta da salga secca do peixe em dornas, tinas, etc.

Diz-se tambem moura aquella calda, que se faz em qualquer vaso, bastantemente saturada de sal, e sobre a qual em tempo se lança a Sardinha, como ao depois mostrarei.

[5]A salmoura, quando he perfeitamente executada, merece sem duvida a preferencia para a mais perfeita conservação do peixe; por quanto a salmoura impede o contacto do ar, e por consequencia o ranço, que he já hum principio de corrupção, que se não póde sempre inteiramente evitar no commercio do peixe salgado, e muito mais na salga secca.

Este methodo da salmoura he commummente praticado nos edificios immediatos ás pescarias, e nos Portos do mar, aonde vem fundear as lanchas, e Embarcações empregadas nessas pescarias sobre costas remotas, para mais facil, e promptamente aproveitarem huma quantidade avultada de Sardinha sem maiores delongas, e trabalhos.

A negligencia porém, e a avareza se reunem, para que se abuse deste excellente methodo de salgar em moura, ou salmoura, consistindo este abuso em dous pontos: 1. em ter a salmoura raras vezes a necessaria, e conveniente força pela falta de sal: 2. em fazer servir a mesma salmoura para segunda, e terceira salga, ou, geralmente fallando, para huma quantidade indeterminada de peixe, que se renova a medida que as redes o pescão, sem aliás se renovar a salmoura como devêra, pois que desta maneira se acha impregnada de oleos, e immundicias accumuladas de repetidas salgas na mesma tina etc.

Estes abusos tem horrorosas consequencias, por quanto inficionão o ar, as habitacões, e os [6]estomagos dos Povos, que usão de hum alimento corrupto, e immundo em permutação de hum bom, que com tanta facilidade poderião ter: com tudo se não póde empregar demaziada severidade, para evitar tão lamentaveis causas de molestias, e de contagio.

He pois necessario que a salmoura seja saturada de sal, para ter a conveniente consistencia: esta se conhece pela facil experiencia de sustentar a mesma na sua superficie hum ovo fresco, de sorte que a metade deste fique acima da agua por si mesmo.

Tambem conhecemos estar saturada a agua de sal, quando ella não póde dissolver mais que huma certa, e determinada quantidade do mesmo: donde temos, que para o conhecimento da boa saturação, basta que se observe ou a precipitação do sal, que a agua já não póde dissolver, ficando por isso o sal no fundo indissoluvel, ou a observação de se conservar por si mesmo na salmoura hum ovo fresco na forma dita.

Modo de preparar as Sardinhas para a salmoura

Para se conservar o peixe nesta salmoura, he necessario, apenas sahe do mar, tirar-lhe as tripas, ou entranhas, deixando sómente as ovas, e os leites, e logo lançallo na salmoura, aonde deve ficar por tempo de doze, ou quinze horas: passadas estas, tira-se o peixe, deixa-se escorrer, e arruma-se ás camadas em barricas, com a cautela de pôr no fundo huma camada sufficiente de sal, outra por cima, e outra entre camada, e camada, de modo que hum peixe não toque no outro. Feito isto, carrega-se com pedras, e se lança a salmoura necessaria para cobrir todo o peixe, de forma que este fique sempre submergido.

Sardinhas de fumo

Tambem se preparão as Sardinhas com o fumo, como os Arenques; methodo este, que supposto dispendioso, pelo que não he geralmente praticado, tem com tudo muitas utilidades, e vantagens; não faltando pessoas, que lhe dem estimação, e preferencia nas suas mezas pelo delicioso gosto, que se encontra nas Sardinhas salgadas por este methodo, que as faz competir com os proprios Arenques.

Este se reduz ao seguinte: Salgão-se as Sardinhas em pilhas, ou lagares, arrumando-as [8]com as cabeças para fora, e as caudas para dentro, do que resulta huma pilha de figura semiovada: lança-se bastante sal entre as camadas, tudo da mesma forma que se pratíca para as Sardinhas, que se pretendem imprensar, de maneira que huma não toque na outra; e assim se deixão por espaço de dous, ou tres dias, quando muito.

Para que esta preparação seja menos acre, se usa de sal de dous annos, porque o peixe preparado com sal novo, mostra a experiencia ser menos delicado.

Estando as Sardinhas sufficientemente salgadas, se enfião em varinhas delgadas, com a cautela que se não toquem, lavão-se em agua do mar; e depois em agua doce, pendurão-se no lugar do fumeiro, aonde se deixaráõ escorrer por espaço de vinte e quatro horas, antes que o lume se accenda, o qual he ordinariamente regulado, segundo o tempo, e a estação, a saber sete para oito dias em tempo secco, e des em humido.

O lume he de lenha de carvalho, de castanheiros, e de aparas de tanoeiros, que se cobrem depois com cinzas de mattos, dispondo-se o dito lume ao longo das penduras das Sardinhas.

A casa do fumeiro he huma especie de celleiro, sem outro andar em cima, com huma chaminé, cujo panno (vulgo abertura) tem tanta largura, como o comprimento do espaço, que occupão as penduras das Sardinhas.

[9]O tempo mais proprio, e conveniente para aproveitar este methodo de preparar a Sardinha de fumo, he quando ella he maior, o que succede nos fins da pesca, a saber, desde Novembro até meado de Janeiro.

Este methodo he mui especioso, e a experiencia testemunha he, de que as Sardinhas por elle preparadas são saborosissimas, e delicadissimas.

Á vista do que, julgei a proposito dar estas breves noções, que me persuado serão sufficientes para os que o quizerem praticar.

Enxovas

Methodo de as aproveitar salgando-as, e porque maneira.

Depois de ter descrito os diversos modos de salgar a Sardinha, desejei ampliar esta memoria com a utilidade do aproveitamento dos productos de nossas pescarias.

Observei, que algumas vezes as redes arrastravão grande quantidade de Enxovas, que os pescadores desprezavão, considerando-as como Sardinhas miudas, que não merecião a despeza, e o trabalho necessario para as aproveitar.

Convirá pois instruillos da grande utilidade desta pescaria para hum commercio util, e vantajoso, que tem por muitas vezes sido proprio, [10]e quasi privativo dos Habitantes das costas do Levante, e Ligurias, e particularmente dos Genovezes.

Ha poucos annos, que esta pescaria deixou de ser abundante naquelles Paizes, para passar a dar grandes productos em outros da costa do Occeano.

O tempo mais proprio desta pescaria he desde o principio de Maio, até o fim de Outubro.

O sal destinado para a salga das Enxovas prepara-se, misturando dous arrateis de Ocar rubro com duzentos arrateis de sal.

Tirão-se ás Enxovas a cabeça, e as entranhas, e salgão-se os corpos ás camadas com os lombos para cima em barris; os maiores dos quaes contém quinhentos, até seiscentos peixes, e os mais pequenos à proporção.

Os barris maiores estando cheios, pezão vinte e quatro, até vinte cinco arrateis.

O barril estando cheio de Enxovas arrumadas desta maneira, tapa-se, deixando hum furo no meio do tampo de cima, e assim destapado se expõe ao Sol por alguns dias, cuja operação se repete tres, ou quatro vezes de quinze em quinze dias, em quanto se faz esta especie de preparação.

O calor só faz fermentar a salmoura proveniente do succo do peixe, e do sal, que se derrete, e desta maneira resulta por si mesmo huma calda, que faz fermentar o peixe.

A salmoura ordinariamente vem a exceder [11]o fundo, mas quando succeda minguar, não se deve accrescentar com outra nova.

He necessario pois evitalla da chuva; por quanto pequena quantidade desta póde alterar a boa qualidade da salmoura, e fará corromper o peixe; pelo que se deve tapar a tina com hum torno, logo qu haja, ou se receia a chuva.

Sardinhas preparadas pelo methodo das Enxovas

Tambem se preparão as Sardinhas com sal vermelho, conforme o methodo explicado das Enxovas, com a differença tão sómente, de que ás Sardinhas se tirão as cabeças, e se lhes deixão as entranhas.

As Sardinhas mais miudas, que tambem são ordinariamente as primeiras que se pescão, mais que todas convém para esta preparação.

A sua pescaria principia em Maio, e dura até meado de Janeiro.

Por esta fórma se podem aproveitar todas as Sardinhas, ainda as que se engeitão da salga dos lagares pelo methodo da imprensa, utilizando-se tanto aquellas, de que se tirárão as cabeças, como as de que se extrahírão as guelras, entranhas, etc; em fim todas as que não podem servir para a salga secca, e da imprensa.

Para as Enxovas usa-se, como disse, de barris pequenos, mas para as Sardinhas desta preparação empregão-se barricas, que se podem [12]distribuir ao depois em barris pequenos para o detalhe do commercio.

O peixe salgado, segundo este methodo, não se pode comer no primeiro anno; apenas se acha no segundo de boa qualidade, e conveniente para a meza, e quando a salga tem sido bem feita, o peixe do terceiro, e quarto anno he o mais procurado, porque he então, que elle se acha bem penetrado da salmoura, que lhe serve de conserva.

Nas costas de algumas Provincias, nas quaes, como nas nossas, se não fazia caso das Enxovas, lançando-as os pescadores ao mar logo que as pescavão, por não conhecerem a sua utilidade, tirão-se ao presente grandes vantagens destes peixes.

As Enxovas depois de conhecidas nessas, Provincias, tem chegado a valer tres, quatro, e seis vezes mais que as Sardinhas, as quaes tem toda a preferencia geralmente.

Por tanto ainda que para a salga das Sardinhas, pelo methodo apontado das Enxovas, não se aproveitem senão as mais pequenas, que verdadeiramente são o rebutalho desprezado para a salga ordinaria, com tudo esta mesma escolha tem feito dobrar o preço ordinario da Sardinha, e os pescadores tirão hoje lucros muito mais consideraveis das suas pescas, nos districtos, aonde se tem estabelecido a invenção das salgas vermelhas, e o seu uso.

Para evitar o engano que alguns pescadores, e particulares costumão, ou poderáõ praticar, [13]usando de sal, que já servio, ou introduzindo Sardinhas velhas, e de má qualidade no interior das barricas, ou barris (o que se não póde verificar depois de imprensadas, ou compostas as Enxovas) devem as ditas barricas, e barris ser afferidos com ferro quente, e marcados com o nome do respectivo dono, ou ao menos com o signal da pessoa, que fez a preparação, que vende.

Assim ficará cada hum responsavel pela fraude que fizer, vindo tambem a sua mercadoria a adquirir no commercio boa, ou má reputação, que lhe será vantajosa, ou nociva á medida da boa, ou má qualidade do genero exposto á venda.

Ha certa Provincia, em a qual a introducção desta salga rende hoje alguns centenares de mil cruzados.

Salga secca do peixe grosso; e salga do mesmo em salmoura

Pescado o peixe grosso, o pescador o abre para lhe tirar as ovas, e os olhos de que se tira bastante oleo, derretendo-os em caldeiras. Cortão-se-lhe as cabeças, e as barbatanas, e destas tira igualmente o pescador a utilidade de as vender, ainda que por pequena quantia.

Nas pescas do Bacalháo, e Atum he feita esta operação com ferros proprios, e cutellos por hum pescador destinado para este trabalho. Depois abre-se o peixe de alto a baixo, sendo [14]grande, tira-se-lhe a espinha do meio, como se faz ao Bacalháo, e Atum, ficando primeiro desta fórma o peixe como dividido em duas ametades: e sendo pequeno, como v. gr. pescadas, ruivos, gorazes etc. basta que se abrão até junto ao rabo, sem se lhe tirar a espinha.

Se necessario for, cada ametade se divide em duas postas, para se poder ao depois accommodar nas pipas, e se transportar para toda, e qualquer parte de negocio a fim de se vender.

Se for Atum, cada huma das quatro partes, em que se divide o mesmo, he golpeado de tres em tres pollegadas pouco mais ou menos; estes golpes tem quasi toda a profundidade da grossura do mesmo peixe, ficando-lhe tão sómente o necessario para se não desunir naquellas partes.

Preparado assim o peixe, salga-se em pilhas, ou em pipas: da primeira maneira usa-se, quando he destinado o peixe para ficar na terra, ou para ser conduzido em carros, ou cargas para a Provincia, ou Provincias vizinhas, e do segundo, quando a exportação he para fóra do Reino, ou para se conservar por mais tempo, e mais bem acondicionado.

Salga secca do peixe grosso

Posto o peixe nas pilhas, ou pipas, que tem hum só fundo, se lhe deita huma camada de sal, que se faz entrar em toda a extensão da abertura, que se fez ao peixe, e em todos os golpes, sendo Atum, ou Corvina, enchendo-os bem de sal, bem como aos intervallos das postas, unindo estas, humas ás outras, e calcando quanto for possivel, com a cautela porém, que as ventrechas particularmente se não toquem reciprocamente humas ás outras; pelo que devem ficar separadas entre si com bastante sal.

A primeira camada de peixe assenta sobre huma de sal, e cada camada de Atum he depois coberta de sal para receber a immediata: e assim se continúa até encher, e attestar a pipa, ou levantar a pilha á altura que se pretende.

Salga do peixe grosso em salmoura

Cheia a pipa, se attesta de salmoura a prova do ovo, como acima disse. Sobre a boca se põe humas taboas, que carregão com pedras, ou mesmo se assentão as pedras immediatamente sobre a salgação, a fim de comprimir o peixe nas pipas. Desta operação resulta vir á superficie da salmoura o oleo, ou azeite, que se tira com huma concha, ou colher para hum vaso proprio, e se applica para os mesmos usos, que o da imprensada; a saber, para os corrieiros, çurradores, para a gente pobre se allumiar, para as embarcações, etc.

[16]Feito isto, põe-se o segundo fundo na pipa para vedar, e segurar a salmoura, e desta maneira se embarca, ou se transporta por terra.

Este azeite ás vezes he em pouca quantidade, principaimente quando o peixe he magro, então fundão-se as pipas logo que a salmoura se acaba de fazer, e vende-se aos contractadores para o negocio.

O peixe gordo he o melhor, não só pelo gosto, mas pela utilidade do azeite; e por isso se deve preferir: pelo contrario o magro mostrando a experiencia, que neste, em lugar do oleo, a compressão só extrahe algum sangue, e a massa da salgação se diminue, o peixe he menos saboroso, e por consequencia perde de valor.

Quanto ás Sardinhas observa-se igualmente 1. que o oleo, que se extrahe das Sardinhas imprensadas, he mais, ou menos abundante segundo a qualidade das mesmas; por quanto a Sardinha magra, e miuda dá pouco, ou nenhum oleo, entre tanto que a grossa costuma ser mais gorda, rende muito, e dá bastante azeite.

De ordinario quarenta barricas de Sardinha imprensada dão huma de oleo, que tem os mesmos usos, que o da Baleia 2. quando as Sardinhas estão bem preparadas, imprensadas, e embarricadas, podem conservar-se por sete, ou oito mezes quando muito.

Passado este tempo sobrevem calores, e a Sardinha se corrompe: nesta estação deve a Policia redobrar os seus cuidados, examinar esta [17]mercadoria, e destruir toda a que não tiver as convenientes qualidades para a saude: 3. que o sal de dous annos he o melhor com preferencia ao novo, e faz as Sardinhas mais saborosas, e agradaveis ao paladar: 4. que em Paizes faltos de sal, poder-se-hia aproveitar este pela crystallização, que se faz, pondo a salmoura em hum vaso ao lume, e fazendo-a evaporar até á seccura: mostra a experiencia, que então apparece o sal no fundo, e nas paredes do vaso, o qual secca-se, e serve para nova salga: a abundancia porém do sal nestas Provincias poupa bem este trabalho, e faz juntamente esquecer este modo de o aproveitar, que só deve ter lugar como recurso extraordinario.

Meio de que se deve, usar para fazer observar este methodo a bem da saude pública, e interesse do Estado

As Camaras, ás quaes pela Lei do Reino incumbe a vigilancia sobre a saude pública, devem fiscalizar a observancia destes methodos na forma explicada, fazendo-os praticar a seu cuidado, e de seus Almotaceis pelos povos, e pescadores, ainda os mais pobres, vista a sua simplicidade, examinando attentamente se as salgas são conformes, ou não aos mesmos, devendo-se a bem público lançar ao mar toda a que mostrar corrupção, e não for bem preparada.

Não se deve porém confundir corrupção com máo cheiro, ou para melhor dizer, com o [18]cheiro pouco satisfactorio, e proprio de semelhantes salgas; por quanto este he (como digo) indispensavel em todas as salgas, e aquella se conhece pelo tacto, pelo cheiro, pela côr, e pelo gosto: pelo tacto vendo-se esfarelar o peixe ao partir; pelo cheiro, por quanto este he proprio, e costuma ordinario apparecer em todas as fermentações putrias; pela côr, porque a observação de peritos tem mostrado, ser esta neste estado de hum vermelho carregado, tirando para azul; pelo gosto, porque este he não só desagradavel ao paladar, mas enjoativo, e terrivel.

Devem igualmente animar as mesmas Camaras a execução da primeira instrucção da imprensa, pelo seu grande e primario interesse no commercio, uso do embarque, e outras mais vantagens na mesma apontadas, devendo por utilidade do Público, e interesse do Estado subsistir, e observar-se hum, e outro methodo, sem offensa de hum, nem perturbação de outro, antes vantagem de ambos: consummando tudo a Grandeza, e Innata Bondade de Sua Alteza Real, se se dignar remitter aos pescadores os direitos, tão sómente dos peixes destinados para semelhantes generos de salga, e principalmente das Sardinhas, animando o Mesmo Augusto Senhor com a sua Piedade estes homens tão necessarios á economía do Estado, á sua população, á sua riqueza, e tão necessarios, e interessantes ao Público, por ser a Sardinha hoje hum alimento de primeira necessidade, e absolutamente [19]indispensavel na Provincia do Douro, tendo o Principe Regente Nosso Senhor a satisfação, de tornar assim mais felizes estes vassallos, aos quaes unem os mesmos vinculos, de amor, amizade, sujeição, e fidelidade, com que todos humildes, e reverentes, prostrados ante os seus Regios, e Augustissimos Pés o amamos, respeitamos, e veneramos com firmissimos protestos de até a propria vida darmos (sendo necessario) com a maior satisfação em defeza, conservação, e memoria de hum Principe, que he de presente a gloria, a inveja, e admiração dos mais Discretos, e Illuminados Monarchas da Europa. Aveiro 28 de Fevereiro de 1803.

O Juiz de fóra Corregedor
Clemente Ferreira França.

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1788 Arte Nova e Curiosa para Conserveiros, Confeiteiros e Copeiros

Arte Nova e Curiosa para Conserveiros, Confeiteiros e Copeiros - 1788

TITLE: New and Curious Art for Canners, Confectioners and Cooks 

SUB TITLE: e mais pessoas que se occupaõ em fazer doçes, e confervas com frutas de varias qualidades, e outras muitas receitas particulares, que pertencem á mesma Arte.

AUTHOR: Desconhecido

NOTAS DE AUTORIA: Anónimo

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1788

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 1st edition

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: 

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: Na offic. de José de Aquino Bolhoens

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN S.A. 25017 P.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 84

OBSERVAÇÕES:

84

Arte nova e curiosa para conserveiros, confeiteiras e copeiros e mais pessoas… – Lisboa: na Off. de José de Aquino Bulhões, 1788. – Anunciado na Gazeta de Lisboa, 30 Dez. 1788, supl. 3 Jan. 1789, p. [4]; 10, 25 (10 M). – BN S.A. 25017 P.

in
BiblioAlimentaria

1. Memória gastronómica

Alimentação, Saúde e Sociabilidade à Mesa no acervo bibliográfico da Universidade de Coimbra

Carmen Soares (Coord.)

Imprensa da Universidade de Coimbra
Coimbra University Press

Trata‑se de uma obra anónima e da qual se conhecem poucos exemplares, apresentando‑se como a primeira publicação, em solo nacional, exclusivamente dedicada à arte doceira.

De pequenas dimensões, compreende 162 receitas sem qualquer tipo de organização em capítulos ou livros. Isabel Drumond Braga, que a este volume dedicou um estudo aprofundado, agrupa as receitas em seis grupos distintos: biscoitos, broas e pastéis, doces de frutos, doces de colher, bolos de forma, gelados e sorvetes e, ainda, um grupo heterogéneo de receitas (açúcar rosado, águas de flores, entre outros)6.

O conjunto de receitas registadas não se apresenta inovador nem mesmo original, uma vez que grande parte delas, em maior ou menor grau de semelhança, aparecem já em outros livros de culinária cronologicamente anteriores. Há, no entanto, a destacar não só as cuidadosas instruções para a produção de sorvetes (incluindo indicações sobre a forma como a sorveteira deveria ser feita), mas também o curioso registo de receitas associadas a determinadas casas monásticas, como a “Receita de bolos de Manteiga da Esperança” ou a “Receita de pastilhas, que se fazem na Madre de Deus”.

Arte Nova e Curiosa apresenta‑se, assim, como uma pequena janela para o vasto mundo da doçaria portuguesa setecentista, da qual hoje subsiste ainda um grande número de receitas, como as “Cavacas”, “Broinhas”, “Marmelada vermelha”, “Ovos Moles” ou “Sonhos”.

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1780 Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de Cozinha

Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de Cozinha, Lucas Rigaud - 1780

TITLE: O cozinheiro moderno ou Nova Arte de Cozinha

SUB TITLE: 

AUTHOR: Lucas Rigaud

NOTAS DE AUTORIA: Masculino

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1780

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 1st edition

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: 

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: Typografia Lacerdina

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN RES. 4085 P.
F. 5663

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 455

OBSERVAÇÕES: Obra clássica da culinária portuguesa da época barroca, com diversas edições publicadas nos séculos XVIII e XIX:
1ª edição de 1780;
2ª 1785; correcta e emendada – Lisboa: na Off. de Lino da Silva Godinho
3ª 1798; correcta e emendada – Lisboa: na Off. de Simão Thaddeo Ferreira (S.A 25498 P.)
4ª 1807; correcta e emendada – Lisboa: Na Typ. Lacerdina (S.A. 12185 P.)
5ª 1826; correcta e emendada – Lisboa: Na Typ. Lacerdina (S.A. 12481 P.)
6ª 1846.

455
RIGAUD, Lucas
Cozinheiro moderno, ou nova arte de cozinha, onde se ensina pelo methodo mais fácil e mais breve o modo de se prepararem vários manjares […] / dado à luz por Lucas Rigaud. – Lisboa: na Off. Patriarchal de Francisco Luiz Ameno, 1780

BNR ES 4085 P.
F. 5663

Outras ed.:
– 2.ª ed. correcta e emendada. – Lisboa: na Off. de Lino da
Silva Godinho, 1785
– 3.ª ed. correcta e emendada. – Lisboa: na Off. de Simão
Thaddeo Ferreira, 1798 (S.A. 25498 P.)
– 4.ª ed. correcta e emendada. – Lisboa: na Typ. Lacerdina,
1807 (S.A. 12185 P.)
– 5.ª ed. correcta e emendada. – Lisboa: na Typ. Lacerdina,
1826 (S.A. 12481 P.)

Foi o segundo livro de culinária a ser editado em Portugal. De acordo com o próprio autor, “O que me obrigou a dar á luz esta obra, foi ver hum pequeno livro, que corre com o título de Arte de Cozinha [da autoria de Domingos Rodrigues], escrito no idioma Portuguez; o qual he tão defeituoso, que sem lhe notar os erros, e impropriedades em particular, se deve regeitar inteiramente como inutil, e incompativel com os ajustados dictames da mesma Arte”.

A obra de Rigaud actualizou a cozinha portuguesa no século XVIII, retirando o excesso de temperos e inserindo-a num gosto comum a outras cozinhas europeias. Não utilizava o gengibre, cominhos, anis ou açafrão nas suas receitas, advogando que os alimentos deveriam ter o seu gosto “natural”. Em substituição destes temperos usava diferentes ervas, como o manjericão, alecrim, cebolinho, funcho, coentros e trufas brancas. Dada a sua origem francesa, o azeite não consta de nenhuma das suas receitas, sendo a manteiga utilizada em sua substituição.

Inocêncio V, 203. “Lucas Rigaud, estrangeiro, como bem o indica o seu appellido, mas domiciliario por algum tempo em Portugal, onde se declara «um dos Chefes da cosinha de Suas Magestades Fidelissimas», compoz, ou como elle diz, deu á luz a obra seguinte: Cosinheiro moderno, ou nova arte de cosinha, Terceira edição correcta e emendada. Lisboa na Offic. de Simão Thaddeo Ferreira 1798. 8.º de VIII-461 pag. É esta a edição que possuo, e ainda não tive opportunidade de examinar as anteriores. Depois se fizeram mais algumas, e a ultima de que hei noticia é de 1846.»”

in
BiblioAlimentaria

1. Memória gastronómica

Alimentação, Saúde e Sociabilidade à Mesa no acervo bibliográfico da Universidade de Coimbra

Carmen Soares (Coord.)

Imprensa da Universidade de Coimbra
Coimbra University Press

Os dados biográf icos deste cozinheiro são escassos. De provável origem francesa, terá contado com uma larga atividade profissional em várias cortes europeias ao longo de trinta anos, fixando residência em Portugal em data indeterminada e tornando‑se um dos cozinheiros reais de D. José e, após a morte deste, de D. Maria I. Publica em 1780 o seu próprio receituário, intitulado Cozinheiro Moderno.

A par da Arte de Cozinha de Domingos Rodrigues, contra a qual se pretende opor, o Cozinheiro Moderno será igualmente um sucesso de vendas, contando com cinco edições até 1826.

Lucas Rigaud, certamente inspirado por Vincent La Chapelle, ao registar a experiência adquirida ao longo de 30 anos de serviço nas grandes cozinhas europeias (como ele bem faz questão de referir no prólogo “Ao Leitor”), pretende renovar a cozinha aristocrática portuguesa, presa aos grosseiros sabores cristalizados por Domingos Rodrigues, e adaptá‑la à nova filosofia do “bom gosto”, mais equilibrado e suave, onde as especiarias orientais davam lugar às ervas aromáticas finas.

A obra de Rigaud conta com mais de 700 receitas (incluindo conselhos e anotações sobre a qualidade de alguns ingredientes), divididas em 30 capítulos e agrupadas tanto por ingredientes principais como tipos de preparados: carnes vermelhas (capítulos 1 a 7), aves (capítulos 8 ao 14), peixes (capítulos 18 e 19), massas de pastelaria (capítulo 20), ovos (capítulo 21), legumes (capítulo 26), geleias e doces (capítulo 28), qualidades dos legumes e formas de conservar (capítulo 29), frutas (capítulo 30, onde também se incluem receitas de bolos secos e sorvetes) e preparados culinários específicos (capítulos 15 a 17, 22, 24 e 25).

Mais evidente do que na obra de Domingos Rodrigues é o grau de internacionalização e receção de receitas “à moda de” outras nacionalidades, sendo notória a influência da cozinha francesa, tanto de âmbito nacional como regional, bem como de receitas “à Inglesa”, “à Italiana”, “à Alemã” e “à Espanhola” (as mais expressivas). É de registar a inclusão na coletânea de um conjunto de catorze receitas “à Portuguesa”, refletindo a longa permanência do cozinheiro em Portugal e a adoção de receitas que seriam comummente consumidas nas mesas mais abastadas.

A obra de Lucas Rigaud constitui‑se, assim, mais do que como um reflexo das práticas alimentares portugueses durante o século XVIII, como a visão pessoal de um dos cozinheiros reais do que deveria ser a cozinha e o cozinheiro modernos.

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1680 Arte de cozinha

Kitchen art

Arte de cozinha : primeira parte. Trata do modo de cozinhar varios manjares, e diversas iguarias de todo o genero de carnes, tortas, empadas, e pasteis, &c

TITLE: Kitchen art

SUB TITLE: 

AUTHOR: Rodrigues, Domingos, 1637-1719

NOTAS DE AUTORIA: Masculino

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia 

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1680

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:
1st edition - 1680 - printed by João Galvão, Lisbon
2nd edition - 1683 - same printer
3rd edition - 1689 - in the workshop of Manoel Lopes Ferreira
1732 – Ferreirian workshop;
1741 – workshop by Carlos Esteves Mariz;
1704 (?) in the workshop by João Antonio dos Reis; 
1814 Eugenio Augusto and 1836on the same printer

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: 

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: João Galvão

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO: SELO DE MAR

ISBN/ISSN:

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: 

OBSERVAÇÕES: Primeiro livro de Culinaria editado em Portugal. O autor é Domingos Rodrigues, nascido em 1637 e falecido em 1719. O livro foi impresso por João Galvão, Lisboa, 1680. Teve 2ª edição em 1683, mesmo impressor. 3ª ed. em 1668 na officina de Manoel Lopes Ferreira. Reeditado ainda em 1732, oficina Ferreiriana; 1741, of. de Carlos Esteves Mariz; em 1704 (?) na de João Antonio dos Reis; em 1814 na de Eugenio Augusto e 1836, na mesma impressora. 

in
BiblioAlimentaria

1. Memória gastronómica

3. 

RODRIGUES, Domingos,

1637‑1719

Arte de cozinha devidida [sic] em tres partes, a primeira trata do modo de cozinhar varios pratos de todo o genero de carnes, e de fazer conservas, pasteis tortas, e empadas, a segunda trata de peixes, marisco, frutas, hervas, ovos, lacticinios, doces, e conservas, pertencentes ao mesmo genero, a terceira trata da forma de banquete para qualquer tempo do anno, e do modo com q[ue] se hospedaraõ os embaixadores, e como se guarnece huma mesa redonda à estrangeira. Lisboa Occidental: na Officina Ferreiriana, 1732.

Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, RB‑14 ‑37.

. RODRIGUES, Domingos, Kitchen art (1732)

Trata‑se do primeiro livro de cozinha impresso em Portugal. Representando um marco na cozinha nacional seiscentista, a Kitchen Art é considerado um retrato dos hábitos alimentares das classes mais abastadas da sociedade portuguesa. Definindo‑se como um autêntico “best‑seller”, com edições conhecidas até ao século xix (a última é de 1844), pouco se sabe sobre o seu autor, Domingos Rodrigues. 

Kitchen Art não se destaca nem pelo volume de receitas registadas nem pela originalidade destas: a coletânea culinária reflete um acentuado gosto por pratos agridoces e abundantemente sazonados com especiarias, privilegiando‑se as carnes assadas e os compostos guisados. 

A primeira edição de 1680 é acrescentada pelo autor duas vezes, em 1683 e em 1693, passando a compor‑se de três partes, sendo esta a edição que é repetidamente reimpressa ao longo dos séculos xviii e xix, como a de 1732, que faz parte do acervo da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

A primeira parte da obra é maioritariamente dedicada a receitas de sopa e carne, às quais se acrescentam receitas de “pratinhos”, “olhas” e receitas de pastelaria. A segunda parte, mais heterogénea, é dedicada aos peixes e mariscos, receitas de pratos de leite, “doces de massa”, ovos e fruta, bem como pastelaria doce. A terceira parte, fruto de acrescentos à primeira edição, compreende vários tipos de informação: fórmulas para banquetes, específicas para cada mês; banquetes para a Quaresma e para merendas; algumas receitas de carne, peixe e verduras; fórmulas de refeições para “meia dúzia de hóspedes”, para todos os dias da semana e, ainda, para um “comer para uma jornada”, terminando numa fórmula de servir um banquete a um embaixador.

A obra de Domingos Rodrigues, apresenta‑se, pois, como original e única no panorama culinário português moderno: o cozinheiro de D. Miguel de Portugal, 6.º Conde do Vimioso, pretendia, por um lado, difundir receitas por si experimentadas (ou inventadas) ao longo de 29 anos de serviço, refletindo já a crescente influência internacional na cozinha portuguesa. Daí que no seu livro figurem pratos “à Francesa”, “à Romana” ou “à Turca”, a par com a discriminação de receitas com características identitárias nacionais e, por isso consideradas “à Portuguesa”.

Por outro lado, a Kitchen Art pretendia contribuir para a formação de novos cozinheiros, ensinando não só técnicas e preceitos culinários, mas também formas de preparar e servir banquetes para todas as ocasiões e segundo o protocolo da época. 

Desta forma, Domingos Rodrigues, tal como o seu congénere italiano Bartolomeu Scappi um século antes, seria o responsável pelo que podemos definir como o primeiro manual de cozinha escrito em português e impresso em Portugal, transformando‑se em um sucesso de vendas, largamente difundido ao longo do século xviii.

(JPG) João Pedro Gomes

Handwritten note: First cookery book published in Portugal. The author was Domingos Rodrigues, born in 1637 and died in 1719. The book was printed by João Galvão, Lisbon, 1680. It was published in 1683 by the same printer. 3rd edition in 1668 by Manoel Lopes Ferreira. It was also reprinted in 1732 by the Ferreiriana workshop; in 1741 by Carlos Esteves Mariz; in 1704 (?) by João Antonio dos Reis; in 1814 by Eugenio Augusto and in 1836 by the same printer. It was not possible to identify the edition due to the mutilation of the present copy, which was acquired in a Lisbon second-hand bookshop.

The best known, and considered the first cookery treatise published in Portugal, is Domingos Rodrigues' (1637-1719) A arte da cozinha, which came out in 1680. Domingos Rodrigues claimed to have 29 years on the cooker and a multitude of banquets devoured by the guests of the Portuguese royal table when he published a small volume dedicated to the arts of cookery. "All the things I teach I have tried by my own hand and most of them I have invented by my own skill," he wrote in the prologue. The royal cook is said to have started practising his trade at an early age, during the reign of King João IV, the first sovereign of the Bragança dynasty. He won the favour of His Majesty Pedro II, "the peaceful", by working hard and "with neatness and cleanliness". The history of Arte de cozinha is curious. Known as Portugal's first cookery book, the volume written by Domingos Rodrigues had three editions during the author's lifetime. The first in 1680, the second in 1683 and finally, the last in 1698. Others were published throughout the 18th century, in 1732, 1741, 1758, 1765 and 1794. A real publishing success in a country where, at the time, publishing a book wasn't easy or that common. At the time of Domingos Rodrigues - i.e. at the end of the 17th century - we realise that the use of saffron, sugar and the most varied spices and peppers is one of the elements that demonstrates the economic power of the Portuguese empire, which could send foodstuffs that cost fortunes from the most distant places on the globe. In this way, Domingos Rodrigues' book gives us a clue both to what the king's kitchen meant and what was eaten at Portuguese royal dinners. The book is therefore both a reflection of everyday life and a meeting place for customs over the centuries. The book underwent changes with each new edition, with different recipes being added or removed. Amongst the editions available at Brasiliana USP, the first of which has an unspecified date and the second from 1732, we can see some changes. The 1732 edition is considered the most complete ever found in Portugal. It even served as the basis for the book being reissued by the Imprensa Nacional/Casa da Moeda in 1987. The 1836 edition has a curious history: it was printed in 1836 in the workshops of J.J. Barroso e Cia. in Rio de Janeiro. In the history of the book's editions, this one - the Brazilian one - was never counted as "official" by Portuguese researchers Maria da Graça Pericão and Maria Isabel Faria.