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GARUM sea seal

Garum de Salmonete

Garum de Salmonete

Produzido com salmonetes de Setúbal, Mullus barbatus, capturadas nas águas do rio Sado. Límpido flos gari (“flor” de garum) obtido a partir do primeiro líquido filtrado do processo de maceração do peixe, feito com sal do rio Sado, em pequenos lotes, para uma mistura única de sabor ousado e perfume suave.

Feito com sal do Sado: adicionado Koji fresco, fermentado em arroz do Sado.
Consoante o lote pode apresentar diferenças de tonalidade e transparência

Ingredientes: Salmonetes, koji e sal

CONT. NET 50ML – PESCADO SELVAGEM EM SETÚBAL – SEM CORANTES NEM CONSERVANTES

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GARUM sea seal

Garum de Picas

Garum de picas (peixe agulha)

Produzido com picas (peixe agulha) de Setúbal, Belone belone, capturadas nas águas do rio Sado. Límpido flos gari (“flor” de garum) obtido a partir do primeiro líquido filtrado do processo de maceração do peixe, feito com sal do rio Sado, em pequenos lotes, para uma mistura única de sabor ousado e perfume suave.

Feito com sal do Sado: adicionado Koji fresco, fermentado em arroz do Sado.
Consoante o lote pode apresentar diferenças de tonalidade e transparência

Ingredientes: picas (peixe agulha), koji e sal

CONT. NET 50ML – PESCADO SELVAGEM EM SETÚBAL – SEM CORANTES NEM CONSERVANTES

FAMÍLIA: Belonidae

ESPÉCIE: Belone belone

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GARUM sea seal

Garum de Choco

Garum de Choco

Garum produzido com Choco, Sepia officinalis, pescado nas águas dos Açores. Flos gari límpido (“flor” do garum) obtido a partir do primeiro líquido filtrado do processo de maceração do peixe.

Feito com sal do Sado: adicionado Koji fresco, fermentado em arroz do Sado.

Produzido em pequenos lotes, para uma mistura única de sabor ousado e perfume suave. 

Consoante o lote pode apresentar diferenças de tonalidade e transparência

Ingredientes: Choco, koji e sal

CONT. NET 50ML – PESCADO SELVAGEM EM SETÚBAL – SEM CORANTES NEM CONSERVANTES

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GARUM sea seal

Garum de Espadarte

Garum de Espadarte

Garum produzido com Espadarte, Xiphias gladius, pescado nas águas dos Açores. Flos gari límpido (“flor” do garum) obtido a partir do primeiro líquido filtrado do processo de maceração do peixe.

Feito com sal do Sado: adicionado Koji fresco, fermentado em arroz do Sado.

Produzido em pequenos lotes, para uma mistura única de sabor ousado e perfume suave. 

Consoante o lote pode apresentar diferenças de tonalidade e transparência

 

Ingredientes: Espadarte, koji e sal

CONT. NET 50ML – PESCADO SELVAGEM NOS AÇORES – SEM CORANTES NEM CONSERVANTES

FAMÍLIA XIPHIIDAE 

NOME CIENTÍFICO Xiphias gladius 

Encontrado amplamente em partes tropicais e temperadas dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico.

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GARUM in Troia GARUM sea seal

Garum sardine Troy 2021

Garum de sardinha Tróia 2021

Primeira produção realizada num local arqueológico

A equipa de arqueologia das Ruínas Romanas de Tróia, do Troia Resort, e o projecto SELO DE MAR do restaurante CAN THE CAN realizaram, pela primeira vez em mais de quinze séculos, uma produção de Garum num dos tanques de salga de peixe deste complexo arqueológico, reconhecido como o maior centro industrial de salgas de peixe do Império Romano. Depois de mais de cinco meses de processo de fermentação, o Garum está pronto para si.

Ingredientes: 

Sardinha de Setúbal, sardina pilchardus e sal do vale do Sado.

CONT. NET 50ML – PESCADO SELVAGEM EM SETÚBAL  – SEM CORANTES NEM CONSERVANTES

EUROPEAN PILCHARD 

FAMÍLIA Sardina 

NOME CIENTÍFICO Sardina pilchardus 

Sardinhas de Setúbal, sardina pilchardus, pescadas nas águas desta cidade. 

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GARUM sea seal

Garum de ostras

Garum de ostras

Garum produzido com ostra portuguesa de Setúbal, Crassostrea angulata, cultivada nas águas do rio Sado.
Limpid flos gari (“flor” de garum) obtido a partir do primeiro líquido filtrado do processo de maceração, feita com sal do rio Sado, em pequenos lotes, para uma mistura única de sabor ousado e perfume suave.

Ingredientes: 
Ostra Portuguesa, Crassostrea angulata 
Koji fresco e sal

OSTRAS DO RIO SADO  – SEM CORANTES NEM CONSERVANTES – CONT. NET 50ML 

FAMILIA Ostreidae 

NOME BINOMIAL Crassostrea angulata 

A distribuição geográfica das ostras portuguesas centra-se nos estuários e rias desde o centro de Portugal Continental até à costa de Marrocos, com grande incidência no estuário do Sado.

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BOOKS individual posts

Helena de Aragão e a culinária portuguesa entre as duas Guerras Mundiais: A Cosinha Familiar (1926) 

Helena de Aragão e a culinária portuguesa entre as duas Guerras Mundiais: A Cosinha Familiar (1926) *

Helena de Aragão and the Portuguese cuisine between the two World Wars: A Cosinha Familiar (1926)

Isabel Drumond Braga 1

*O presente texto faz parte de um projeto sobre revistas femininas portuguesas e brasileiras que já deu origem a diversas iniciativas, designadamente, o seminário de História e Género – Seminários Centro de História da ULisboa, sob o título Informar, distrair e disciplinar: revistas femininas dos séculos XIX e XX, organizado por Isabel Drumond Braga e Teresa Sousa Nunes, levado a efeito em 14 de maio de 2019; o dossiê temático coordenado por Isabel Drumond Braga, “Revistas femininas em debate (Brasil e Portugal no século XX)”, Caderno Espaço Feminino, vol. 32, n.º 1, Uberlândia, 2019 e a obra coletiva dirigida pela mesma e por Maria Cecília Amorim Pilla, intitulada O Corpo feminino em revista: alimentação, higiene e cosmética em Portugal e no Brasil (séculos XIX- XX), Évora: CIDEHUS, 2022. Disponível em https://books.openedition.org/cidehus/18532. 1 * Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras e CIDEHUS-UE. isabeldrumondbraga@gmail.com

PDF documento original

RESUMO Helena de Aragão (1880-1961) foi escritora, tradutora, jornalista e diretora de diversas revistas femininas, publicadas em Portugal durante a primeira metade do século XX, designadamente Modas & Bordados, Eva e Fémina. Foi ainda responsável pela publicação de um livro e de uma brochura sobre culinária. Neste texto procura percecionar-se a relação entre colunas de culinária em revistas femininas e publicação de livros de receitas. PALAVRAS-CHAVE: Helena de Aragão. Livros de Receitas. Revistas Femininas. Portugal. Século XX.

ABSTRACT Helena de Aragão (1880-1961) was a writer, translator, journalist and director of several women’s magazines published in Portugal during the first half of the 20th century, namely Modas & Bordados, Eva and Fémina. She was also published a book and a brochure on cooking. This paper seeks to understand the relationship between cooking columns in women’s magazines and the publication of cookbooks. KEYWORDS: Helena de Aragão, Cookbooks. Portugal. Women’s Magazines. 20 th Century

I believe recipes to be invaluable artifacts. They teach us about societies and the social order in which they were created. They tell us what life were like at the time those dishes were first cooked. Mark Kurlansky 2

2 Mark Kurlansky, Milk! A 10,000 year food fracas, Nova Iorque, Londres: Bloomsbury Publishing, 2018, p. XIII.

O mundo dos livros de receitas culinárias é vastíssimo, mesmo em países que apresentaram publicações não particularmente abundantes para a Época Moderna, como é o caso de Portugal. Nos séculos XIX e XX, a edição deste tipo de obras destinadas a públicos diferenciados conheceu um vigor significativo, situação que se mantem até aos nossos dias. Efetivamente, se, até ao século XIX, as edições de receituários visavam destinatários com elevados recursos económicos, na centúria seguinte, a esses públicos juntaram-se outros, com menos meios, mas desejosos de apresentar uma mesa com pratos diversificados. Ao mesmo tempo, surgiram obras pensadas para momentos de dificuldades económicas e de falta de alguns produtos, sem esquecer livros destinados a explicar como se preparam pratos de uma mesma tipologia, por exemplo sopas, preparados de peixe, de carne, de ovos, etc., ou ainda os livros destinados a nichos específicos, tais são os casos dos vegetarianos, dos vegans, dos celíacos, de entre muitos outros. Embora o interesse e o valor dos receituários enquanto fontes históricas já tenham sido evidenciados, importa lembrar que o estudo dos mesmos permite percecionar as práticas alimentares e os gostos, independentemente de forneceram informações acerca do que se poderia comer e não necessariamente do que se comia. Isto significa que os livros de receitas são, como bem os definiu Bruno Laurioux 3 , objetos plurais, isto é, podem e merecem igualmente ser abordados na ótica das artes mecânicas e dos saberes práticos e até na do estudo da história do livro. Por outro lado, Henry Notaker fixou-se nos textos, autorias, conteúdos, formatos e públicos e considerou que:

Scholars from various fields – historians, sociologists, anthropologists, linguistics, and others – have found these books [cookbooks and house-hold books] to be important sources of information about mentalities, costumes, ideas, daily life, technical developments, and more. But they have not been interested in the texts of these works per se; rather, they see these books only as possible sources for the subjects they are investigating, such as food history, culinary development, table manners and social distinction 4 .

 

3 Bruno Laurioux, Le règne de Taillevent : livres et pratiques culinaires à la fin du Moyen Âge, Paris: Publications de la Sorbonne, 1997, p. 13

A análise dos livros de cozinha deve, portanto, focar-se nos autores e nos leitores, nos conteúdos, designadamente nas permanências e nas inovações culinárias, mas também nos utensílios referenciados e nas artes da mesa, cujas abordagens mais completas parecem ser as de Lehmann 5 relativa a Inglaterra, a de Notaker 6 , vocacionada para diversos espaços europeus, em especial do Norte da Europa, e a de vários autores, numa obra coletiva, para Espanha 7 . É a partir destas perspetivas concetuais que iremos realizar o nosso estudo, fixando-nos numa pequena obra, uma brochura ou folheto, intitulado A Cosinha familiar, da autoria de Helena de Aragão, publicado em 1926. Por outro lado, pretende igualmente perceber-se a relação entre as colunas de culinária editadas nas revistas e a saída de livros de cozinha.

4 Henry Notaker, A history of cookbooks: from kitchen to page over seven centuries, Oakland: University of California Press, 2017, p. IX.Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.

1. A autora

Helena de Aragão (Lisboa, 16 de junho de 1880 – Lisboa, 20 de fevereiro de 1961) destacou-se como escritora (publicou novelas, romances, contos e poesia) e tradutora, além de ter composto obras musicais e ter sido jornalista. Usou o anagrama de Agarena de Leão, quando publicou o Livro d’oiro de Vénus (1925), A Cosinha familiar (1926) e diversos artigos na Fémina, com destaque para os que se ocupavam de educação infantil. Esteve à frente de várias revistas femininas, tendo sido uma das diretoras da Modas e Bordados, de onde transitou para fundar a Eva, em 1925, e a Fémina, anos depois, em 1933. Foi redatora de O Mundo, tendo ainda colaborado em jornais como o Século da Noite e O Primeiro de Janeiro e em revistas como a Ilustração e a Ilustração Portuguesa. Como tradutora, destaque-se a sua atividade na Agência Portuguesa de Revistas, para a qual trabalhou até ao fim da vida 8. Em vários momentos, Helena de Aragão deu informações sobre a sua vida profissional. Por exemplo, em fevereiro de 1934, no meio de uma reportagem acerca do Instituto de Odivelas, publicado na Fémina, fez saber:

durante a minha vida dirigi três revistas ou jornais femininos de que me afastei porque não me era consentido seguir a diretriz que traçava. Se amanhã não puder manter para a Fémina essa linha bem feminina e bem portuguesa, acima de todos os interesses das empresas proprietárias, morrerá a Fémina para sempre, mas nunca ninguém a poderá acusar de exploração mercantil, de jogo de interesses, de jogo, enfim 9 .

A partir de 1934, Helena de Aragão passou a colaborar às quintas-feiras com a Emissora Nacional, ali fazendo um conjunto de palestras, algumas das quais publicadas posteriormente, nas páginas da Fémina. Foi convidada pelo escritor, poeta e dramaturgo João Silva Tavares (1893-1964), responsável pela seção literária daquela emissora radiofónica. Esta atividade foi dada a conhecer às leitoras por uma colaboradora da revista, Elvira Pais dos Santos 10 .

5 Gilly Lehmann, The British housewife: cookery books, cooking and society in eighteenth-century Britain, [s. l.]: Prospect Books, 2003.

6 Henry Notaker, A history of cookbooks…cit.

7 La Cocina en su Tinta, Madrid: Biblioteca Nacional de España, 2010.

8 Sobre Helena de Aragão, cf. Américo Lopes de Oliveira, Dicionário de Mulheres Célebres, Porto: Lello & Irmão Editores, 1981, p. 71, Virgínia Dias, “Lisboa, toponímia no feminino VIII”, Faces de Eva, n.º 8, Lisboa, 2002, pp. 199-215; Idem, “Helena Augusta Teixeira de Aragão Breia”, Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX), direção de Zília de Castro Osório e João Esteves, Lisboa: Livros Horizonte, 2005, p. 385. Sobre a Agência Portuguesa de Revistas, cf. João Manuel Mimoso, Carlos Gonçalves, A Fábrica de sonhos: os primeiros 25 anos da Agência Portuguesa de Revistas (1948-1973), [Lisboa]: Biblioteca Nacional de Portugal, [2018].

9 Fémina, n.º 12, Lisboa, 02 de fevereiro de 1934.

10 Elvira Pais dos Santos, “A Emissora Nacional e D. Helena de Aragão”, Fémina, n.º 46, Lisboa, 28 de setembro de 1934.

Em 17 de novembro de 1935, para comemorar dois anos da referida publicação, foi feita uma festa de homenagem à diretora, no Grémio de Trás-os-Montes, à qual assistiu Maria do Carmo Carmona (1879-1956), mulher do presidente da república, Óscar Carmona. O programa contou com uma conferência sobre Helena de Aragão, pelo jornalista Alberto Bramão, tendo atuado a soprano Maria Amélia Melo, a declamadora Amália Proença Norte, o violinista Mário Borges da Fonseca, a cantora Alcina Borges da Caderno Espaço Feminino | Uberlândia, MG | v.34 | n.2 | seer.ufu.br/index.php/neguem | jul./dez. 2021 | ISSN 1981-3082 190 Fonseca, o tenor Morgado Maurício e o pianista Tomás Firmino. A orquestra foi dirigida por Francisco Martins e o chá foi servido pela Casa Ferrari (Lisboa) 11 .

A Fémina foi publicada entre 17 de novembro de 1933 e 25 de março de 1938, antecedida pelo número espécime, em pequeno formato, datado de outubro de 1933. Sem interrupção saíram 177 números até 02 de abril de 1937, e mais quatro, cujo primeiro datou de 03 de março de 1938. A suspensão da revista, que acabou por não voltar a ser publicada, foi explicada no editorial do primeiro número desta nova série pela diretora e terá ficado a dever-se a “manejos cobiçosos crescidos à volta da sua direção e dos seus direitos de propriedade” 12 , aparentemente uma alusão a disputas judiciais pelo título. Com o fim da publicação da Fémina, Helena de Aragão parece ter-se dedicado profissionalmente a tempo inteiro à tradução para a Agência Portuguesa de Revistas, como já se referiu.

Nas revistas femininas Modas & Bordados, Eva e Fémina encontram-se colunas de culinária, nem sempre assinadas 13 , consequentemente não é possível averiguar a relevância que Helena de Aragão lhes conferiu nem tão pouco a sua participação nessa Caderno Espaço Feminino seção dos referidos periódicos. No entanto, parece claro que o receituário de cozinha não lhe era indiferente, uma vez que publicou A Cosinha familiar em 1926 14 , dando continuidade a um projeto anterior bem-sucedido, outorgando visibilidade à articulação entre revistas femininas e livros de culinária.

11 Antes e depois da homenagem, a Fémina publicou notícias sobre o evento. Cf. Fémina, n.º 105, Lisboa, 15 de novembro de 1935, e n.º 106, 22 de novembro de 1935, p. 12.

12 Helena de Aragão, “Senhoras, muito saudar!”, Fémina, 2.ª série, n.º 1, Lisboa, 03 de março de 1938.

13 Na Modas & Bordados a coluna de culinária foi particularmente relevante num período posterior à saída de Helena de Aragão da direção da revista. Cf. Isabel Drumond Braga, Inês de Ornelas e Castro, “Saberes e Fazeres de Berta Rosa Limpo. A Construção de um Êxito: o Livro de Pantagruel”, Faces de Eva, n.º 29, Lisboa, 2013, pp. 45-66. Disponível em: <https://www.academia.edu/6581067/>. O levantamento e estudo das colunas dedicadas à cozinha nas revistas Eva e Fémina está em curso, no âmbito de um projeto mais vasto. A publicação parcial do receituário da Fémina, pode ser visto em Gastronomia portuguesa dos anos 30: guia completo da culinária portuguesa, organização de Sónia Monteiro, Lisboa: Ulmeiro, 2000.

14 Sobre a autoria feminina de livros de cozinha, cf., para Portugal, Isabel Drumond Braga, “Culinária no Feminino: Os Primeiros Livros de Receitas Escritos por Portuguesas”, Caderno Espaço Feminino, vol. 19, n.º 1, Uberlândia Minas Gerais, 2008, pp. 117-141. Disponível em: <https://www.academia.edu/7580709/>. Para o estrangeiro, cf., por exemplo, Henry Notaker, A history of cookbooks…cit.

2. O momento

A publicação de A Cosinha familiar é anterior ao início do Estado Novo, durante o período compreendido entre as duas guerras mundiais e contemporânea da presença de Helena de Aragão na direção da revista Eva. Isto é, a pequena obra apareceu num contexto de simplificação dietética que começou com os problemas resultantes da I Guerra Mundial (1914-1918), designadamente a escassez dos géneros e o racionamento, os quais deram origem a alterações nos hábitos alimentares 15 , com a diminuição de pratos por refeição, pondo fim à longa herança de sumptuosas refeições quotidianas entre os abastados. Esta tendência consolidou-se com a II Guerra Mundial (1939-1945) 16 . No período entre as duas guerras, e não obstante as adaptações aos novos tempos, foram publicadas obras generalistas a pensar nos menos abastados, caso por exemplo das of Rosa Maria, pseudónimo utilizado por Gaspar de Almeida, que deu à estampa desde a década de 1930 livros apelando aos baixos custos.
São exemplos:
Como se almoça por 1$50: 100 almoços diferentes (1933), com terceira edição em 1936, e
Como se janta por 3$00: 100 jantares diferentes, cuja data de publicação se desconhece, mas com terceira edição igualmente em 1936. As receitas apresentadas eram naturalmente simples e económicas, sendo de destacar que entre elas não se contaram sobremesas e que apareceu sempre o preço dos géneros, de acordo com os que eram correntes em Lisboa. Presume-se que os pratos se destinavam a duas pessoas 17 .

Porém, o mais famoso de todos A Cosinheira das cosinheiras, com 30 edições até 1982, pretendeu aliar higiene, ideias sobre nutrição, sobriedade alimentar, saúde, receitas práticas e economia. Dirigida às donas de casa, visava facilitar as tarefas daquelas no que à alimentação familiar se referia. Salientaram-se as necessidades calóricas das pessoas de acordo com a idade, a atividade física e as estações do ano, caracterizaram-se os alimentos e propuseram-se regimes específicos para diabéticos, artríticos e ainda os que apresentam problemas de estômago, fígado e rins. Antes de passar às receitas, apresentadas por ordem alfabética, primeiro os salgados e depois os doces, ainda escreveu um capítulo acerca da necessidade de cozinhar os alimentos. Em certos momentos não faltaram considerações de teor moral.

Um outro grupo de obras continuou a preocupar-se com o requinte e a sofisticação. Cite-se, por exemplo Isalita, com Doces e cosinhados: receitas escolhidas, um livro publicado em 1925, com 25 edições até 1977. Na obra, a autora propôs menus diários de almoços e jantares quotidianos e de refeições mais sumptuosas, uma lista de hors d’œuvre e um vasto conjunto de receitas agrupadas nas seguintes tipologias: sopas, molhos, ovos, peixe, entradas, soufflés, carnes, aves e caça, galantines, mousses, aproveitamentos de carnes assadas e aves, massas, massas italianas, batatas, tomates, pimentos, alcachofras, espargos, beringelas, cenouras, couves, couve-flor, pepinos, chuchus, espinafres, favas, ervilhas, feijão, alfaces, castanhas, brócolos, nabos, arroz, saladas, geleia, doces de fruta, pudins, doces de fim de jantar, soufflés, massas (para doces), doces para chá, bolachas, biscoitos, pães para chá e sorvetes. Apareceram também, cada vez mais, obras específicas sobre peixe, carne, doces, vegetais, etc., especialmente a partir da década de 1950, porém com antecedentes de relevo. Veja-se, por exemplo, o caso de Emanuel Ribeiro, com O Doce nunca amargou (1923-1925).

15 Sobre o impacto da guerra na alimentação, cf., por exemplo, as soluções propostas por May Byron, The grat war cook book from trench pudding to carrot marmalade, introdução de Eleri Pipien, The Hill: Amberley, 2014 e os estudos Manger et boire entre 1914 et 1918, direção de Caroline Poulain, Dijon: Bibliothèque Municipale de Dijon, Snoeck, 2015; Davide Bagnaresi, Vivere a Rimini negli anni della Grande Guerra: la quotidianità tra bombardementi, terremoti, fame e profughi, Rimini: Panozzo Editore, 2015. Para Portugal, cf. A. H. de Oliveira Marques, “Aspectos da vida quotidiana”, Nova História de Portugal, vol. 11, coordenação de A. H. de Oliveira Marques, Lisboa: Presença, 1991, pp. 617-627.

16 Isabel Drumond Braga, Vida familiar à mesa: Portugal 1914-1945, Lisboa: CTT, 2022.

3. A obra

A Cosinha familiar, da autoria de Helena de Aragão, publicada em 1926, sob o pseudónimo de Agarena de Leon, é um folheto de 32 páginas, editado a preto e branco, sem imagens e em papel de má qualidade, sem capa dura. A brochura, aparentemente, seguiu-se a uma obra esgotada naquela data intitula A Cosinha familiar: tratado de culinária prática, cuja segunda edição datou de 1924. Não existe na Biblioteca Nacional de Portugal e Sónia Monteiro, que a viu e dela citou diversas passagens, esclareceu ser composta por 15 ementas para almoço e outras tantas para jantar, notando que não se verifica repetição de receitas do livro na revista Fémina, que a obra foi composta por preparados obtidos com ingredientes baratos, sem esquecer o aproveitamento de restos e fazendo alusão a receitas regionais 18 . Os jantares obedeceram ao esquema: sopa, entrada, primeiro prato, segundo prato e sobremesa 19. A avaliarmos pelo que se pode ler no introito da brochura quase homónima dedicado às leitoras e que se fixa em ementas para o mês de dezembro, “época de festas brilhantes” e de cuidados acrescidos para as senhoras, percebe-se que seria um expediente para continuar a vender, focando-se numa época específica do ano:

para a dona de casa principiam, com os primeiros dias do mês do Natal, as mil preocupações, por vezes seriamente embaraçosas, da organização dos jantares e ceias de festa mais ou menos cerimoniosas, mas que sempre lhe exigem redobrada atenção e cuidado apuro 20

O objetivo do folheto consistiu em ajudar a escolher ementas festivas para o mês de dezembro, tendo em conta a observância criteriosa da economia, os conhecimentos das regras modernas para a organização deste tipo de refeições e a apresentação de um conjunto de receitas “absolutamente inéditas”, compostas umas por um mestre de cozinha francesa e outras recolhidas nos vastíssimos receituários particulares portugueses, espanhóis, franceses e italianos. As leitoras ficaram ainda informadas de que todas as ementas foram organizadas por um maître d’hotel, que exerceu funções em casas aristocráticas parisienses, e que as receitas haviam sido meticulosamente escolhidas e experimentadas, sendo seguras e de prática execução 21 .

Claramente, apesar da aparência, está-se perante uma brochura dedicada a leitoras com meios ou, no mínimo, com alguns meios. Embora o título remeta para o ambiente doméstico, o seio da família, e a capa apresente, tal como foi comum na época, quer em livros de receitas 22 quer em anúncios publicitários 23 , uma senhora na cozinha junto dos tachos e do fogão, envergando um avental, o conteúdo integrou receitas que só pessoas com algum poder de compra poderiam preparar. Isto é, estamos perante um público não muito diferente daquele que adquiria e lia as revistas femininas de então.

Nas páginas seguintes foram publicadas seis ementas, cinco de jantar e uma de ceia de Natal, utilizando o termo francês menu, igualmente corrente em Portugal desde o século XIX 24 . Nelas se pode verificar que as propostas oscilaram entre a apresentação de cinco a sete preparados, a que em três casos acresceram queijo e fruta, privilegiaram o início da refeição com sopa e deram escassa importância às sobremesas doces, apenas uma por refeição, com exceção da ementa três que apresentou duas. Naturalmente que foram fornecidas as receitas de todos os pratos, menos as de hors d’œuvre, além das de três molhos necessários a outros preparados. A saber, “Molho bechamel” para o “Pargo recheado”, “Molho de tomate” para os “Croquetes com molho de tomate” e um molho para o “Peru recheado com trufas”. Nas seis propostas, indicou-se uma sucessão de pratos que, por norma, começou pelos de sopa, a que seguiram os de peixe ou marisco, depois os de carne, os de doce e, em três casos, os de queijo e fruta. Curiosamente, uma ementa foi entendida como “à americana” e a da ceia, composta por quatro pratos de carne e uma sobremesa, apresentou o muito comum peru, igualmente presente em outra ementa, mas com uma receita diferente, referido como a “vítima do Natal” 25 . No entanto, a ementa da ceia não sugeriu nenhum dos doces típicos da época, tais como as filhós, as rabanadas ou o bolo-rei, se bem que com variantes de acordo com as várias regiões do país, especialmente no que se refere às duas primeiras.

22 Veja-se, por exemplo, o caso de 100 Receitas culinárias oferecidas às donas de casa pelos estabelecimentos Jerónimo Martins e Filhos, Lisboa: [s.n.],[ s.d.], que incluiu um parecer do químico francês Charles Lepierre (1867-1945), sobre a margarina Vaqueiro, datado de 1926. Nesta pequena obra, composta por preparados doces e salgados em que um dos ingredientes é sempre a margarina Vaqueiro, a capa a cores apresenta uma senhora de avental junto de um livro de cozinha, uma forma, uma tigela e um pacote de margarina. Trata-se de uma brochura com 56 páginas. O exemplar observado pertenceu a Maria Otília Bertini F. Valle e está datado de Faro, 1933.

23 Veja-se, por exemplo, Isabel Drumond Braga, “Anunciar alimentos e seduzir consumidores: a publicidade na revista Ilustração (1926-1939)”, Mesas Luso-Brasileiras: alimentação, saúde e cultura, coordenação de Carmen Soares e Cilene Gomes Ribeiro, vol. 1, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2018, pp. 163-191. Disponível em: <https://www.academia.edu/38304633/>.

24 Sobre o uso do termo menu, cf. Isabel Drumond Braga, Os Menus em Portugal. Para uma História das Artes de servir à Mesa, Lisboa: Chaves Ferreira Publicações, 2006 e a bibliografia aí citada

25 Agarena de Leão, A Cosinha… cit., p. 29.

Ementas para jantares e ceias de Natal

Ementa 1

Sopa aveludada (Printanière)
Hors d’œuvre
Terrina de camarões
Pargo assado na grelha
Frango à flamenga
Vaca assada com molho de azedas Pudim surpresa
Queijo e fruta
Ementa 2
Sopa parmentier
Timbale de macarrões
Eirós de molho pardo
Pombos à crepaudine
Carne de porco assada no forno
Alexandrina de sambayon
Queijo e fruta
Ementa 3
Sopa de azedas
Ostras recheadas
Pargo recheado
Coelho com molho vilão
Peru à francesa
Bolo rápido
Pudim de laranja
Queijo e fruta
Ementa 4
Sopa russa
Rissóis
Lagostas guisadas
Perdizes estufadas
Pudim mimoso
Ementa 5
Ementa à americana
Queijo de porco
Sopa de cebola
Croquetes com molho de tomate
Linguado à normanda
Rim à jardineira
Peru recheado com trufas
Maçãs em chamas
Ementa 6
Ementa para ceia de Natal
Canja de galinha
Frituras de picado
Peru com castanhas
Ervilhas com açúcar
Montanha de neve

Ao contrário do que é comum na atualidade, mas de acordo com o que era usual no passado e mesmo ainda em parte do século XX, as receitas não apresentaram separação entre ingredientes e modos de preparação, raramente foram referidos os tempos de cozedura e nunca os de preparação. Ausentes também estiveram as informações acerca do número de pessoas que cada preparado permitia alimentar. De qualquer modo, em três casos, algo se esclareceu. Na receita de “Sopa parmentier” as batatas deveriam ser na proporção de três para cada conviva 26 ; na sobremesa “Alexandrina de sambayon”, “para se obter um pudim de tamanho suficiente, calcula-se uma gema de ovo por cada conviva, aumentando-se proporcionalmente as quantidades dos outros ingredientes” 27 e na de “Maçãs em chamas”, deveriam ser fornecidas duas para cada pessoa 28 .

Para as seis ementas recorreu-se a um conjunto diversificado de ingredientes. Nas carnes, contaram-se aves de capoeira e de caça (frango, galinha, perdiz, peru, pombo), coelho, porco, vaca e vitela. Do mar, camarões, lagostas e mexilhões, a par de eirós e goraz ou pargo, em alternativa. Nas gorduras sobressaíram a manteiga, a banha, as natas e o toucinho e menos o azeite, só utilizado nas receitas de “Ostras recheadas” e do molho de “Peru recheado com trufas”. Entre os legumes e as leguminosas contaram-se aipo, alface romana (para guarnecer), azedas, batata, beterraba, cebolas, cenoura, ervilhas, nabo, rabanete e tomate, este um fruto utilizado num dos molhos. As frutas utilizadas foram especialmente o limão para temperar, marinar e aromatizar, as azeitonas e as castanhas para rechear carne, e cidrão, laranjas e maçãs, como ingredientes de preparados doces, além de marmelada. A farinha, as fatias de pão, o pão ralado, o macarrão, o arroz ou em alternativa a tapioca, neste caso para a canja; o leite, os ovos e o açúcar foram outros ingredientes mencionados. Nos temperos e aromatizantes encontram-se especiarias, ervas, frutos e álcool, a saber, baunilha, cerefólio, colorau doce, cravo, louro, noz-moscada, pimenta, sal, salsa, a par de alho, alho bravo, limão, conhaque e vinho branco. Entre os ingredientes de uso pontual, os cogumelos, o queijo parmesão, as trufas, os palitos à la reine, utilizados no “Bolo rápido” e, sobretudo, o chá preto e o chocolate, este apenas para decorar a “Montanha de neve”.

Não foram referidas técnicas de culinária particularmente sofisticadas, cozer, assar, fritar, guisar, rechear e marinar parecem ter sido operações correntes, tal como recorrer ao banho-maria. Nos doces referiu-se apenas o ponto de espadana. Escassos foram os utensílios referidos, entre eles, destaque para almofarizes, assadeiras, caçarolas, carretilhas, formas, máquinas de picar, peneiros, terrinas e travessas. Não obstante estarmos perante receitas de festa e para obsequiar convidados, em duas há referência ao aproveitamento de restos. Assim, esclarece-se que, na de “Rissóis”, estes podem ser preparados com restos de carne, peixe ou aves 29 , e na de “Croquetes com molho de tomate”, “juntam-se todos os restos de carne, galinha ou coelho que ficaram da véspera, assados, cozidos ou guisados, desossam-se, limpam-se das peles ou nervuras e picam-se na máquina” 30 . A prática de aproveitar os restos terá nesta época e nas décadas seguintes muitos cultores, sendo frequente encontrar receitas para o efeito em colunas de culinária publicadas em revistas, em livros generalistas e até em publicações exclusivamente dedicadas ao tema 31 .

Em conclusão, Helena de Aragão, sob o pseudónimo de Agarena de Leão, na brochura relativa aos jantares a servir em dezembro, pretendeu auxiliar as senhoras que superintendiam a gestão do lar e as donas de casa que cozinhavam quotidianamente para as suas famílias, optando por fornecer 36 receitas, sete das quais de sobremesas. A ordem dos pratos, de acordo com a prática corrente desde o século XIX, foi sopa, entrada, peixe ou marisco, carne e doce. Com mais esta publicação, enfatizava-se a relação estreita entre receituários publicados em livros e em colunas de revistas femininas ou generalistas, de que o exemplo mais significativo foi o de Bertha Rosa-Limpo, responsável pela coluna “Correio de Pantagruel”, na revista Modas & Bordados, desde 15 de novembro de 1944, e autora de The Book of Pantagruel, cuja primeira edição datada de 1945, foi posta à venda no início do ano seguinte. Sem o êxito de Bertha Rosa-Limpo, Helena de Aragão já tentara a fórmula, aparentemente com algum sucesso.

26 Agarena de Leão, A Cosinha… cit., p. 7.

27 Agarena de Leão, A Cosinha… cit., p. 10.

28 Agarena de Leão, A Cosinha… cit., p. 26.

29 Agarena de Leão, A Cosinha… cit., pp. 17-18.

30 Agarena de Leão, A Cosinha… cit., p. 22.

31 Um caso paradigmático é o de Branca de Miraflor que, em 1940, publicou Duzentas receitas para aproveitar os restos da comida, Lisboa: Livraria Barateira, 1940.

Caderno Espaço Feminino | Uberlândia, MG | v.34 | n.2 | seer.ufu.br/index.php/neguem | jul./dez. 2021 | ISSN 1981-3082

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Publicações 2001…

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GARUM in Troia

GARUM Troia Harvest

GARUM LUSITANO

Colheita de garum em Tróia

A equipa de arqueologia das Ruínas Romanas de Tróia, do Troia Resort, e o projecto SELO DE MAR do restaurante CAN THE CAN realizaram, pela primeira vez em mais de quinze séculos, uma produção de Garum num dos tanques de salga de peixe deste complexo arqueológico, reconhecido como o maior centro industrial de salgas de peixe do Império Romano.

Depois de mais de cinco meses de processo de fermentação, o Garum está pronto a ser retirado dos tanques. Esse momento aconteceu a 6 de novembro 2021.

15 SÉCULOS DEPOIS… GARUM PRODUZIDO NOS TANQUES DAS RUÍNAS ROMANAS DE TRÓIA

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Publications and studies

“Consommé, glacé, fricassé”. Francesismos na terminologia

“Consommé, glacé, fricassé”. Francesismos na terminologia culinária em Arte de cozinha de João da Matta

Guida Cândido

Resumo

Contextualizando o valor e preponderância da culinária francesa no panorama internacional, tecem-se breves considerações sobre a influência dessa cozinha no receituário nacional dos séculos XIX e XX. Reflete-se sobre os meios de introdução dos “francesismos” culinários na língua portuguesa, analisando a terminologia francesa na obra Arte de Cozinha de João da Matta (1876). Procura-se sistematizar esse léxico em diferentes categorias: nomes culinários; nomes comuns metaforicamente usados na cozinha; nomes geográficos; nomes próprios; vocábulos exclusivos de livros de cozinha e termos caídos em desuso, observando a sua relevância na literatura culinária portuguesa. Esta análise apoia-se na tese de licenciatura em Filologia Românica com o título Francesismos na terminologia da culinária portuguesa. Apresentado em 1953 por Maria José Osório dos Santos Carvalheira à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, este trabalho pioneiro propõe uma reflexão sobre a apropriação desses vocábulos e as diferentes formas como se introduziram no quotidiano português.

Palavras-chave: Francesismos, culinária, Arte de Cozinha, João da Matta.

Guida Cândido

Bolseira FCT – SFRH/BD/146062/2019.

Universidade de Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, Faculdade de Letras

guida.silva.candido@gmail.com

https://orcid.org/0000-0002-3694-4885

Cozinha francesa: breve análise da preponderância internacional e influência na cozinha portuguesa do século XIX até ao Estado Novo

A influência da culinária francesa nas cozinhas de outras nações tem sido objeto de estudo por diversos autores (FLANDRIN 2001; HYMAN 2001; BRAGA 2004; MEYZIE 2009; BRUEGUEL ET LAURIOUX 2002, entre outros), revelando ser terreno profícuo para a investigação dos patrimónios alimentares. Um dos aspetos que desperta mais interesse aos investigadores é conhecer quais os atores na difusão e na receção do gosto alimentar francês, bem como medir a influência dessa cozinha noutras, ou seja, compreender se acontece uma adoção significativa por parte do país influenciado ou se se verifica um processo de apropriação e mestiçagem (MEYZIE 2009: 182). Flandrin defende que “em toda a Europa Ocidental, as cozinhas medievais […] apresentaram […] características comuns que as diferenciam claramente das cozinhas europeias dos séculos XIX e XX. Pratos adoçados tendem agora a concentrar-se no final da mesma” (FLANDRIN 2001: 237, 246-249). Do século XVI ao século XVIII, a influência da cozinha francesa predomina no receituário publicado. Pode-se falar de uma “modernização à francesa”, sendo que essa modernidade do gosto se manifesta tanto ao nível da escolha dos alimentos como da sua preparação. A partir da segunda metade do século XVI, aumenta o número de pratos de legumes (entenda-se hortaliças e leguminosas) nos livros de cozinha, não significando que sejam consumidos em abundância. Nos grupos privilegiados, o seu consumo é reduzido, decorrente das teorias humorais em vigor. O peru entra nos hábitos dos europeus e abandonam-se progressivamente o consumo de aves hoje consideradas excêntricas, como o alcatraz, o pavão, o cisne ou o grou, o mesmo sucedendo com mamíferos marinhos, como as focas. A partir do século XVIII, das mesas reais começam a desaparecer caprinos e ovinos, resgatando-se o interesse pelo boi, mas conservando-se o porco em clara desvalorização, à exceção do toucinho e do presunto. No que respeita à transformação das técnicas e das preparações, constata-se que “os cozinheiros franceses dos séculos XVII e XVIII, tal como os da Idade Média, sujeitaram muitas vezes as carnes a várias cozeduras sucessivas”. Porém, existe a preocupação de conservar o sabor natural dos alimentos (FLANDRIN 2001: 237-245). Mas é na transformação da condimentação que se observam as mudanças mais significativas, justificando uma verdadeira mutação do gosto. Especiarias e acidulantes perdem o protagonismo em proveito de condimentos gordos, como as natas e a manteiga, mais delicados e discretos. Ademais, desde o século XVII, a proporção de açúcar nas receitas começa a diminuir, embora a sua utilização aumente por toda a Europa, anunciando a democratização do seu consumo. Se antes se encontra nos diferentes momentos da refeição, os pratos adoçados tendem agora a concentrar-se no final da mesma (FLANDRIN 2001: 246–249).

A influência da cozinha francesa verifica-se de forma geral por toda a Europa, materializando-se na difusão de produtos alimentares, nos hábitos de comensalidade e tendências partilhadas, não tendo, todavia, a mesma expressão em todas as regiões.

Em suma, “a influência da cozinha francesa sobre o gosto das elites sociais europeias foi particularmente marcante ao nível dos tratados de culinária”, uma vez que, em diversos países, os livros de cozinha editados limitam-se a traduções ou adaptações de tratados franceses (FLANDRIN 2001: 257).

 

Esta literatura culinária constitui um dos principais pilares na disseminação da cozinha francesa, cuja dinâmica editorial, sobretudo datada da segunda metade do século XVII até ao século XVIII, é significativa face a outros territórios europeus. A par desta difusão editorial, os viajantes, nas suas mais diversas funções, exercem um papel relevante neste processo, tal como a mobilidade de diversos cozinheiros franceses pelas cortes europeias. A partir do século XIX, os restaurantes, estabelecimentos de inspiração francesa, operam uma transformação identicamente incisiva na referida preponderância da cozinha francesa. Por último, um aspeto relevante nesta dinâmica de transmissão de modas e gosto está agregado ao movimento de embaixadores entre cortes e aos próprios consórcios reais que permitem a contaminação de gostos, práticas e padrões que valorizam a mesa francesa (MEYZIE 2009: 191–195).

No contexto nacional são identificáveis diversas influências estrangeiras, sobretudo devido ao percurso pessoal dos autores dos livros de cozinha, “alguns dos quais serviram em diversas cortes antes de se estabelecerem em Portugal”, e também fruto da leitura e sucessivas cópias de receituários. Resgatando o primeiro livro de culinária escrito e impresso no território nacional, em 1680, por Domingos Rodrigues, identificam-se pratos preparados à moda de França, “tais como empadas, frangões, galinha em potagem, olha e perdizes assadas” (BRAGA 2004: 239). Não obstante, as receitas cuja nomenclatura revela a influência estrangeira não se restringem à cozinha francesa. Lucas Rigaud, em 1780, com O Cozinheiro Moderno, aponta para um maior conhecimento da culinária europeia, uma vez que refere ter exercido o ofício em diferentes cortes e casas, sofrendo a influência de Vincent La Chapelle, em cuja estada em Portugal terá eventualmente cozinhado para D. João V.

A primazia do receituário de matriz francesa mantém-se ao longo do século XIX, com destaque para as obras de Visconde de Vilarinho de São Romão que, em 1841, retoma a obra de Madame Aglaé Adanson, de João da Matta (1876) e de Paul Plantier (1870), sendo algumas preparações “à moda de França” oudesignadas com termos franceses comuns nas duas obras. A contar do século XVII, o nosso vocabulário reúne numerosos termos invulgares, alvo de estudo pela escritora e professora universitária Carolina Michaelis². Nesse domínio, será a França o país que mais influencia o nosso léxico, com centenas de vocábulos adotados, respeitantes à sua gastronomia (CARVALHEIRA 1953: 53).

As relações das cortes portuguesa e gaulesa contribuem de forma inequívoca para disseminar o gosto e o léxico francês. Os livros de cozinha daquele país constituem veículo privilegiado dessa propagação lexical e, da mesma forma, a introdução dos menus no século XIX, escritos maioritariamente naquele idioma. Entretanto, “a terminologia francesa não se estendeu a todas as classes sociais”, sendo do conhecimento dos estratos populares alguns termos de uso mais comum, como puré, omelete, creme e, em contexto citadino, filete e croquete. Nos meios privilegiados, a hierarquia estabelece-se de acordo com o grau de conhecimento dos termos, estando no domínio das classes superiores vocábulos como foie gras, hors-d’œuvre, petits fours, gratin ou consommé (CARVALHEIRA 1953: 69).

A cozinha francesa é reconhecida como símbolo de modernidade e poder, materializando o domínio de um país exportador e elitista, por ser exclusiva de um grupo restrito. Nesse particular, corresponde a um novo estilo de vida e a “uma rutura em relação à cozinha nacional regulada pela tradição e pelos costumes” (QUEIROGA 2015: 127).

Francesismos culinários na língua portuguesa: análise do léxico na obra de João da Matta

Corre o ano de 1953 quando Maria José Osório dos Santos Carvalheira apresenta à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra a sua tese de licenciatura em Filologia Românica, com o título Francesismos na terminologia da culinária portuguesa. Trata-se de um trabalho pioneiro nesta área de estudos, que propõe uma reflexão sobre o modo como nos apropriámos desses vocábulos e as diferentes formas como se introduziram no quotidiano português. Justifica a escolha do seu tema lembrando que o “estudo dos estrangeirismos que se têm introduzido em Portugal preocupou sempre todos os que se interessam por conservar a vernaculidade da língua pátria” (1953: I). Carvalheira consulta mais de três dezenas de livros de culinária e cerca de uma vintena de revistas. Nesta seleção, a maioria da obra consultada é da primeira metade do século XX, embora alguns livros não apresentem a indicação da data de edição. Nas obras, a influência francesa é manifesta, revelando receitas rotuladas em francês: “Umas vezes os francesismos são conservados sem alterações; outras vezes são aportuguesados ou traduzidos; outras ainda […] tornam-se franceses nomes genuinamente portugueses” (1953: 56–57). Nesse conjunto, destaca-se, pela busca em manter a fidelidade ao vocabulário português, a obra Tratado completo de cozinha e copa, na qual Carlos Bento da Maia procura aportuguesar os francesismos e substituí-los por expressões nossas, embora em algumas situações opte por empregar a terminologia francesa “para que os portugueses possam compreender”, como no caso de charcutaria (MAIA 1904: 137).

Na análise de Carvalheira surgem meia dúzia de títulos anteriores ao século XX, como o primeiro livro de culinária impresso em Portugal (1680), Kitchen Art, de Domingos Rodrigues³; o manuscrito de Francisco Borges Henriques, de 1715, que, de acordo com as suas palavras, atendendo à “letra pouco legível, poucas informações [conseguiu] colher”. De 1863, e sem autoria indicada, analisa Tesouro do cozinheiro, confeiteiro e copeiro e, a encerrar o século XIX, a 2.ª edição de 1877 de Paul Plantier, The seaman's seaman⁴, e Cozinha e Copa, de António de Macedo Mengo, de 1887 (CARVALHEIRA 1953: 269–273). À data da sua pesquisa, não lhe foi possível consultar duas obras relevantes, indisponíveis nas bibliotecas: Cozinheiro popular das famílias portuguesas e brasileiras, de 1890, e Kitchen Art, de João da Matta, cuja primeira edição é de 1876. Tomaremos este último como objeto de análise sobre o tema em apreço, em virtude de ser uma obra muito profícua, porquanto o cozinheiro “usou e abusou de termos franceses quer na designação das receitas, quer até nos ingredientes e nos utensílios” (BRAGA 2004: 241)⁵.

2 Para um estudo mais aprofundado deste assunto, tome-se como referência VASCONCELOS 2012.

3 A autora consultou a edição de 1693.

4 A data da primeira edição é 1870.

5 Não se considerou neste levantamento dos termos em francês o prefácio à obra da autoria de Alberto Pimentel.

Esta análise não procura biografar João da Matta, embora se apresente uma breve contextualização sobre o cozinheiro e a sua obra. O autor terá nascido em 1818 e, supõe-se, morre no final da década de 1890, já octogenário. Filho de cozinheiro, de quem herda o nome e o talento, assume, desde cedo, as suas qualidades de cozinheiro em algumas das mais ilustres casas lisboetas. Autonomiza-se com restaurantes que se tornam icónicos, o primeiro dos quais em 1848, seguindo-se outros espaços que o catapultam para o reconhecimento público. A editora Mattos Moreira, em Lisboa, edita em 1876 o seu livro com 10 jantares completos e “muitas receitas de cozinha ao alcance de todos – uma variada secção de doces, massas, molhos, caldos e compotas – maneira de pôr a mesa e de a servir”. A obra alcança extraordinário sucesso junto do público, conduzindo a várias reedições, a primeira em 1882. Na terceira, de 1888, o autor agradece essa recetividade e dá conta do acrescento de cem preparações face à edição original (MATTA 2017: V). No derradeiro ano do século XIX surge nova reedição e, na primeira metade do século XX, são conhecidas as correspondentes aos anos 1904, 1924 e 1947 (RÊGO 1989: 70). Na segunda metade desse século existem seguramente cinco reedições pela editora Vega (MATA 1993: 5). Em consonância com a tendência estrangeira nos livros de cozinha, com destaque para França, João da Matta inclui no seu livro pratos de diferentes latitudes. A obra é editada durante o reinado de D. Luís e D. Maria Pia, introdutores na mesa real do serviço à russa. Este serviço é amplamente descrito pelo cozinheiro, que lhe dedica um capítulo: Arte de Servir à Mesa.

O prefácio da primeira edição d’Kitchen Art é da responsabilidade de Alberto Pimentel que, sobre o autor, afirma: “o talento deste homem zomba do próprio nome! Chama-se Mata e restaura, conforta, avigora, vivifica! Ele tem feito de Lisboa a miniatura culinária de Paris.” (MATTA 2017: XII–XIII). Trata-se de uma inequívoca defesa da cozinha francesa, em oposição às marcas portuguesas que considera desprestigiantes. Adianta que se deve a João da Matta a possibilidade de os estrangeiros jantarem “em Portugal sem comer dobrada, orelheira e canja, o que faz com que os estrangeiros já nos não visitem receosos do porco e do arroz!” (2017: XII–XIII). No entanto, ao contrário de outros autores, como Domingos Rodrigues e Lucas Rigaud, João da Matta, embora pratique uma cozinha de matriz francesa e com receitas oriundas dessa região, não indica nenhuma receita designada à francesa⁶.

Mas voltemos ao estudo de Carvalheira. A autora procura criar uma sistematização das centenas (312) de termos que recolhe, tentando “agrupar em categorias diversas, trabalho que [verifica] ser difícil. E que não é possível estabelecer, com certeza, limites no conhecimento de cada termo”. Da análise dos vocábulos resultam “três grupos: os mais conhecidos, os menos conhecidos e aqueles que aparecem apenas nos livros. É óbvio o critério desta ordenação” (1953: II–III)⁷.

Dentro da família dos termos comuns, a autora distingue ainda quatro categorias, a saber: nomes culinários propriamente ditos; nomes comuns metaforicamente usados na cozinha; nomes geográficos; e nomes próprios. Usaremos a mesma categorização na análise da obra de João da Matta, cruzando os termos evidenciados no livro do cozinheiro, confrontando-os com o levantamento que Carvalheira realiza no seu estudo e acrescentando os que a autora não regista.

6 Domingos Rodrigues indica treze receitas “à francesa”, sobretudo para aves, como galinha, frangãos, peru e perdizes (RODRIGUES 2001: 41, 56, 67, 70 e 102), e Lucas Rigaud apresenta, igualmente, receitas “à francesa”, três sopas e uma “receita para preparar azeitonas à francesa” (RIGAUD 1999: 164, 166, 167 e 286).

7 Apesar de a autora considerar óbvio o critério na formulação das categorias apresentadas, a metodologia não é explicitada e carece de clareza. Carvalheira dedica uma secção a termos que surgem exclusivamente nos livros de cozinha, num total de 20 em comum com a obra de João da Matta. Não foi possível verificar a veracidade dessa afirmação, que se afigura inusitada. Por uma questão de coerência e sistematização, manteve-se a mesma classificação aplicada pela autora no estudo em apreço. Porém, neste particular, uma vez que não se afigura clara a utilização desta categoria, omite-se a sua análise etimológica, mantendo-se apenas a indicação quantitativa relevante para o número de termos franceses na obra de João da Matta.

Nomes culinários

Nesta secção são identificados 26 termos, encontrando correspondência com 21 na obra de João da Matta, a que se acrescentam mais cinco que Carvalheira não indica: confiture, framboise e groseille, com apenas uma referência, e relevée truffé, ambos num par de receitas. Os mais citados ultrapassam mais de uma dezena, nomeadamente consommé. De acordo com a definição de Matta, “faz-se [o consommé], estufando algumas aves, carnes e fêvera de presunto, até ficar com o caldo apurado e grosso; estando assim, tira-se-lhe a gordura” (2017: 247–248). Conquanto, em algumas receitas, o cozinheiro a ele se refira como consommé de peixe (2017: 71, 102). Por outro lado, Carlos Bento da Maia, quando enumera os diversos caldos e particulariza o caldo de vaca, indica tratar-se do “caldo a que os franceses chamam consomé” (1904: 137). Carvalheira observa que “entre nós o termo é vulgar, exceptuando a classe popular que ainda não o conhece. Simplesmente nem toda a gente lhe associa a mesma ideia”, porquanto varia de caldo apurado ou sopa, sendo que a ideia mais vulgar do termo é caldo de carne ou galinha. Nos livros que consulta, refere que apenas o identifica nas obras do século XX⁸. Acrescenta que o termo foi adotado sem modificações fonéticas, embora graficamente se verifique em alguns autores a queda de um m, e sugere que se deveria “substituir o vocábulo francês por caldo concentrado ou caldo de substância” (1953: 83–84).

Matta apresenta uma dúzia de receitas onde emprega o termo filete ou fillete (prevalecendo a primeira grafia), as mais das vezes intitulando iguarias na sua maioria de carne e aves. De resto, já aparece na obra de Lucas Rigaud, em 1780, no prato guisado de lebres em filetes (1999: 72), corroborando a ideia de que primitivamente se aplica à carne de determinados animais. Os dicionários mais antigos ainda não se referem ao termo associado à culinária. No início do século XX, o etimologista Cândido de Figueiredo, além de outros significados, remete-o para “posta delgada e frita de carne ou peixe”, considerando que se trata de um vocábulo de origem francesa, de filet (1913: 878). Paul Plantier presenteia-nos com diversas receitas de filetes de linguado, porém não é alheio à associação à carne, com uma proposta de “filetes de frango salteados com tubaras” (1905: 120). Sendo uma palavra do conhecimento geral, é usada para as postas delgadas de peixe, tendo caído em desuso a sua aceção a fio delgado e guarnição estreita, como consta nos primeiros dicionários (CARVALHEIRA 1953: 89–90).

São onze as receitas em que João da Matta introduz o termo fricassé, cinco das quais o levam no título. O original francês é do género feminino. Em português passa a masculino e é dos “que mais cedo entrou na nossa língua” (CARVALHEIRA 1953: 95), sendo possível encontrá-lo em Kitchen Art, de Domingos Rodrigues, na 2.ª edição de 1690, quando descreve um banquete que se pode servir a um embaixador, sugerindo, na segunda coberta de cozinha, entre outras iguarias, “pratinhos de fricassé de frangãos com descaídas” (2001: 174). Será uma das primeiras referências escritas, uma vez que Raphael Bluteau, no Vocabulário Português e Latino, publicado em 1712, regista a entrada como “tomado do francês fricassée, e há pouco que se começa a usar em Portugal”. Complementa que se trata de “manjares que com pressa se cozem e fringem com manteiga ou unto de porco…” (1712: 213).

Em 1715, o manuscrito de Francisco Borges Henriques propõe um “fricace de ovos para dias de peixe” (1715: 193). O termo é uma corruptela do original fricassée e é familiar a Lucas Rigaud, que apresenta algumas propostas, como “feijões verdes de fricassé”, “frangos de fricassé em agraço” ou “ovos de fricassé branco” (1999: 211, 112 e 261). Na entrada do Diccionario da língua portugueza composto pelo padre Raphael Bluteau reformado e acrescentado por Antonio de Moraes Silva, de 1789, surge o “aportuguesamento” do termo: “friquase, guisado de carne picado, ou aves em pedaço, fritas em manteiga” (1789: 637).

João da Matta inclui um “Molho de fricassé para servir em peixe”, a par das preparações com carnes de açougue e aves. A palavra surge na generalidade dos livros de cozinha portugueses, aplicada às mais diversas iguarias, tendo na base o mesmo molho com gemas de ovos, sumo de limão e salsa. Paul Plantier, em O Cosinheiro dos Cosinheiros, apresenta algumas receitas de fricassé, sendo três delas as mesmas que João da Matta partilha na sua obra, confirmando a uniformidade do receituário praticado à época, assente na matriz francesa⁹.

Resgatado para a literatura por diversos autores, o vocábulo não escapa ao romancista Eça de Queirós, que o evoca em Os Maias: “Ora sirva-se desse fricassé, ande abade, disse Afonso, que eu sei que é o seu fraco, e deixe lá o latim… o abade obedeceu com deleite, e escolhendo no molho rico os bons pedaços de ave…” (QUEIRÓS 2004: 51).

Por sua vez, Camilo Castelo Branco, no romance Carlota Ângela, usa-o com a mesma aceção dos dicionários da primeira metade do século XX, como mistura de várias coisas: “Embora travem à hervilhaca, é o que temos, e o que nos dão os Watteis dos fricassés litterarios, em menoscabo do clássico cozinhado de Domingos Rodrigues” (1874: 7).

Termos há que oferecem mais dificuldades de estabelecimento da sua origem e da aplicação na terminologia culinária. É o caso do vocábulo purée, que divide as opiniões dos etimologistas no que se refere à filiação primitiva. Na sua análise, Carvalheira refere que alguns especialistas indicam o verbo purer, que significa purificar, limpar, do baixo-latim purare. Carolina Michaelis aponta a evolução de piperata, pevrée, peurée, finalmente purée. Foneticamente é uma alegação razoável, mas semanticamente está distante, uma vez que piper é pimenta e purée, na sua origem, é uma massa obtida pela passagem de legumes ou carnes pelo passador, sobretudo para preparar sopas (CARVALHEIRA 1953: 112).

Bluteau refere-se a porêa como sendo uma “potagem que fazem as religiosas da Madre de Deus” (1720: 620). Da mesma forma, Cândido de Figueiredo filia o termo no baixo-latim, referindo a pureia como “uma espécie de sopa, feita de legumes, carnes ou outras substâncias raladas, formando caldo grosso”. Adita, ainda, a “iguaria análoga, mas mais consistente em forma de pão ou pudim”.

À semelhança de Bluteau, remete para ligações conventuais, referindo que é mais “usual o francesismo puré, o que não invalida a nossa pureia que eu li, pelo menos, num antigo documento conventual” (FIGUEIREDO 1913: 1649). Entretanto, Carvalheira indica a sua ausência em livros anteriores ao século XX, insistindo que, embora os franceses tenham preparações de purés de legumes, carnes e crustáceos, a sua aplicação na culinária portuguesa restringe-se “aos legumes, quer em sopas, quer em outros pratos” (1953: 113).

Apesar disso, refuta-se essa afirmação, uma vez que na obra culinária oitocentista de João da Matta apresentam-se 16 receitas que incluem o termo purée, metade das quais são sopas, mas também preparações com carnes, particularmente com caça, vitela e carneiro. Acresce a sua inclusão na obra de Plantier, definindo-o no dicionário de termos culinários como: “polme. Certos legumes cozidos, esmagados e passados por peneira ou por passador. Chamam-se também purés às iguarias preparadas com lagostas, aves ou caça, pisadas e passadas pela peneira” (1905: 765).

O vocábulo sopa, do germânico suppe, terá entrado no nosso vocabulário através do francês soupe. No Elucidário de Joaquim Viterbo, a entrada para o termo sopa, remetido pelo autor para “refeição comum e ordinária nas Comunidades Religiosas”, vem acompanhada de uma citação epistolar do Bispo de Lamego a D. Afonso das Astúrias, sobre as ofertas das Salzedas no ano de 1306: “Mandamos que toda las cousas, que Ihis foram mandadas pola alma dos Passados, pera Pitanças, pera Sopas, que ayam livres, e sen outro embargo” (VITERBO 1865: 220).

João da Matta oferece ao leitor 21 receitas de sopa. Com massas, carnes, pescados ou legumes, são diversas as suas propostas, em conformidade com o receituário da época, distinto e sofisticado, a que as elites estão acostumadas. Maria Amália Vaz de Carvalho, no seu manual de civilidade e etiqueta, editado em 1895, evoca os costumes de sociabilidade do século XIX, revelando regras de conduta à mesa e sublinhando a importância do bom senso nas práticas de bem servir. Nas suas palavras: “mais vale uma pequena quantidade de pratos bem feitos do que uma longa lista de manjares que apenas se distinguem pela pomposa aparência e pelos nomes franceses que laboriosamente engendrou a fantasia dos cozinheiros” (2004: 88). A sopa inicia a refeição e deve ser acompanhada com pelo menos duas variedades de vinho, de preferência Madeira e Xerez (CARVALHO 2004: 84). Algumas das iguarias de Matta estão patentes na obra de Plantier, tais como a “sopa de purée de ervilhas verdes”, a “sopa de rabo de boi” ou a “sopa de Julianne” (1905: 33, 34, 37).

8 A obra de Paul Plantier faz parte do corpus da autora. Plantier introduz o vocábulo na sua receita de Supreme de frango(PLANTIER 1905: 237). Não foi possível verificar se esta estaria ausente da 2.ª edição de 1877, a utilizada no estudo em apreço.

9 As receitas que se encontram nas duas obras são Cabeça de Vitela Recheada, Língua de Fricassé e Mãos de Carneiro em Fricassé (PLANTIER 1905: 150, 124 e 184).

Nomes comuns metaforicamente usados na cozinha

Encontrando correspondência com o levantamento apresentado por Carvalheira, nesta secção apontam-se onze termos na Kitchen Art, sendo glace e omelette os mais citados por João da Matta. Além de glace, o cozinheiro emprega as variações enquanto verbo glaçar e glaçado. Glace ou glacé é um francesismo que se torna corrente no século XX, embora a sua utilização na literatura culinária portuguesa seja anterior. Aplica-se para designar uma substância com que se cobrem bolos, uma espécie de creme utilizado como enfeite, diferente do significado francês que remete para “um líquido açucarado e aromatizado, tornado espesso pela congelação”. Como observa a autora, formou-se o verbo glaçar, usado na mesma aceção de cobrir de glace, verificando-se uma menor utilização do verbo do que do substantivo (1953: 129–130), o que corrobora o seu emprego na obra de Matta, onde o verbo surge em apenas cinco ocasiões.

Porém, a utilização do termo glace na obra do cozinheiro está associada a um molho e não a esse preparo de açúcar, excetuando as três receitas de doçaria, designadamente o “Gateau de plom à la Parisienne”, onde descreve a operação glaçar nos seguintes termos: “batem-se umas claras d’ovos com açúcar e 1 pitada de baunilha, até ficarem bem grossas; cobre-se este bolo com o auxílio de um pincel de penas” (2017: 88–89). Também Plantier refere no seu dicionário de termos que cobrir corresponde ao francês glacer e consiste em “aplicar camadas de açúcar sobre bolos e outras peças de pastelaria que voltem ao forno, bem como em passar o pincel […]. É ainda na confeitaria mergulhar diversos frutos em calda de açúcar” (1905: 761).

Anteriormente, Lucas Rigaud utiliza para a mesma operação o termo giaça e giaçado, ostentado no preparado de “pão-de-ló ou bolo de Sabóia”, onde o autor sugere que se pode servir ao natural ou “cubra-se com uma giaça feita de açúcar fino, clara de ovos e sumo de limão” (1999: 226). Consta que o termo omelette deriva da alteração amelette, por sua vez “alterada de alemette, alumette, provindas do antigo francês alemelle, com mudança do sufixo, sob a influência de oeuf”, reforçando a origem latina do termo ova mellita. A designação deriva da comparação de omelette a uma lâmina (CARVALHEIRA 1953: 132). São onze as receitas de omelettes na Arte de Cozinha, três delas na categoria de doçaria. A versão doce é também evocada pelo escritor Camilo Castelo Branco: “são moda agora uns fofos vaporentos/ omelettes soufflés denominados omelettes sucrées.” (BRANCO 2017: 183) e servidas na mesa real, como a “omelette au rhum”, nos “entremets sucrés” (MONGE et al. 2019: 187). Ao contrário de João da Matta que usa invariavelmente o termo omelette, um século antes, Rigaud “aportuguesa” o vocábulo, designando omeletas, remetendo para trouxas-de-ovos (1999: 218). Segundo Carvalheira, “trouxa ou torta é a omelete doce dos livros de cozinha” (1953: 133), ao invés do que se verifica em Rigaud que, na receita onde utiliza ambos os termos, apresenta uma preparação salgada. Os etimólogos mais puristas como Cândido de Figueiredo procuram impor como forma nacional o termo omeleta (1913: 1416). Nos dicionários mais recentes são possíveis ambas as grafias, remetendo para a origem francesa e relacionando com o vocábulo fritada, já enunciado por Bluteau como “fritada de passarinhos ou bocados de carne com ovos”, a que acrescenta “fritada de amor chamão em Lisboa as Freiras do Calvário & outras, humas fatias de pão torrado, com manteiga e ovos” (1712: 217-218). Morais Silva é mais restritivo, definindo apenas como “fritada de ovos.” (1789: 639).

Nomes geográficos

Na obra de João da Matta estão registados doze vocábulos de nomes geográficos, os quais apenas encontram correspondência com dois identificados por Carvalheira no seu levantamento. Trata-se de chantilli e merengues. O cozinheiro desvia-se da grafia original chantilly, para designar a “Charlotte au Chantilli”. Esta especialidade é bastante popular na época, constando em diversos menus da Casa Real Portuguesa (MONGE et al. 2019: 214). Entra no vocabulário português como chantili, embora com a referência à sua origem francesa, designando “creme feito à base de natas de leite batidas até ficarem firmes, a que se junta açúcar e baunilha” (PEREIRA; PERICÃO 2015: 160). Apesar da sua associação a este creme, é provável que a primeira referência em literatura culinária no nosso território surja em Lucas Rigaud na “popietas de vitela à Chantilly”, que remete para a localidade francesa (1999: 50). Paul Plantier utiliza-o nos mesmos moldes referindo-se à inclusão numa receita de “um queijo de Chantilly” (1905: 757). Na opinião da autora, o termo culinário tem origem no Castelo de Chantilly, também popular pelas rendas que aí se faziam (CARVALHEIRA 1953: 143). De acordo com o estudo de Carvalheira, o termo francês merengue deriva do nome da cidade suíça do cantão alemão Meiringen e corresponde ao bolo preparado com claras de ovos batidas com açúcar. Complementa que “no século XX aparece sempre merengue, e esta forma é a conhecida para designar uns bolos semelhantes a suspiros” (1953: 143). Esta teoria assenta na eventual criação, em 1720, por parte de um pasteleiro local chamado Gasparini, desta preparação culinária10. Todavia, será mais provável que o pasteleiro tenha “aperfeiçoado a forma de fazer o merengue clássico uma vez que a receita e o nome já tinham sido publicados em 1691” no livro Le cuisinier royal et bourgeois, por François Massialot, cozinheiro de Luís XIV (CÂMARA 2013: 90-91).

10 Uma das técnicas desta preparação é designada “merengue suíço”.

Merengue e suspiros estão ausentes em Bluteau (1712), Morais Silva (1789) e Viterbo (1865). Cândido de Figueiredo refere de forma sucinta na entrada de suspiro “espécie de bolo tenro” e para merengue “bolo de claras com açúcar”, porém, sem qualquer indicação da origem do vocábulo (1913: 1896 e 1279). José Pedro Machado, em dicionário mais recente, indica que a origem é do castelhano, “talvez com origem no fr. meringue, de origem obscura” (1995: 109). Sem embargo, Lucas Rigaud já emprega termo semelhante em 1780, apresentando uma “crema meringada” com as claras batidas em neve e com “duas ou três mãos cheias de açúcar fino” (1999: 233). Nos menus da Casa Real constam diversas referências a meringues (MONGE et al. 2019: 222), uma corruptela do termo merengue.

Quanto aos restantes seis nomes geográficos, não se encontram na categoria de termos culinários, remetendo para bebidas que ficaram associadas às regiões de produção, como Champagne, Cognac, Rheno, Sauternes, Chateau-Yquem e Chateau-Barsac, estes menos vulgarizados, referidos por João da Matta no capítulo dedicado à “Arte de servir à mesa”, indicando serem os apropriados para servir na entrada da refeição “com ostras cruas na casca”. Acrescenta que, depois da entrada fria serve-se o ponche á la Romaine, em copos ou taças semelhantes às do vinho de Champagne ou em canecas de cristal. Conjuntamente com o ponche costuma servir-se vinho de Chateau-Yquem ou Chateau-Barsac fresco. Em seguida, entra o assado, com vinho de Champagne bem nevado (2017: 257).

Contudo, em Lucas Rigaud já consta Champagne, remetendo para a região e não para a bebida. Trata-se da iguaria dita “salsichas de Champagne” (1999: 267).

A receita de “pastel de fígados gordos de Strasbourg” é reveladora da qualidade do foie gras desta região, uma vez que aparece na mesa da família real seguramente em meia dúzia de menus (MONGE et al. 2019: 219). Refere-se igualmente como uma região e não uma técnica culinária.

Nomes próprios

Identificam-se 13 nomes próprios no livro de João da Matta, a maioria apenas com uma referência. Béchamel, Charlotte, Julianne e Reine são de igual modo identificados no estudo de Carvalheira (1953). Estamos perante exemplos da dita cozinha honorífica. Béchamel deriva do apelido Bechameil, marquês de Nointel, mestre-de-cerimónias de Luís XIV. Não terá sido o inventor da preparação culinária, mas, antes, homenageado com o nome de uma receita por ser uma figura de prestígio. À época, o cozinheiro da corte é François Pierre de La Varenne, autor do livro Le Cuisinier Français, de 1651, onde surge “o molho aveludado para carnes […] mais complexo do que o actual” que estará na base do preparado que entretanto se dissemina como “Molho à Béchamel” (CÂMARA 2013: 218-9). O vocábulo entra na nossa literatura culinária com Lucas Rigaud, embora com grafia diferente, Bexaméla, julgamos que numa tentativa de “aportuguesar” o termo, o mesmo que se verifica com crema e gelantina. O cozinheiro apresenta a descrição do molho e também o “bacalhau á Bexaméla”; “camarões á Bexaméla”; “ovos á Bexaméla”; e “trouxas á Bexaméla” (1999: 245, 196, 202, 217, 220). “Molho feito de gorduras e legumes” é a definição de Cândido Figueiredo (1913: 266), mais próxima da descrição que João da Matta faz deste molho do que a versão de Lucas Rigaud, que inclui diversas carnes na sua base. Porém, no “peito de vitela recheado á Macedoine”, Matta indica o “preparo do molho á Macedoine chamado béchamel”, semelhante ao preparado anterior a que acrescenta batatas cozidas (2017: 14-15). Por sua vez, no “lombo de vacca lardeado á la Macedoine”, o molho é semelhante ao béchamel omitindo as gemas de ovos e o queijo parmesão (2017: 35-36).

Nos livros mais modernos maioritariamente deixou-se cair o prefixo “à”. Não obstante, alguns autores “cientes de que se trata de um nome próprio, escrevem a palavra com maiúscula; outros há que perderam já a noção da origem e tratam-no como um nome comum” usando a minúscula (CARVALHEIRA 1953: 146). Verificam-se alguns equívocos designando-o como “molho branco”. Apesar das semelhanças, a diferença mais evidente prende-se com a substituição neste do leite por água, como já indica João da Matta (2017: 240).

Outro dos nomes próprios que surge várias vezes em Arte de Cozinha é Charlotte, em consonância com a popularidade desta iguaria nas mesas sofisticadas do período em apreço. O nome da sobremesa está associado a dois pratos distintos. A original, provavelmente do século XVIII, é inglesa e remete para os “bread puddings”. Trata-se de um aproveitamento de sobras de pão, maçã e “custard”, o “crème anglaise” ou “creme de pasteleiro”. Contudo, o carismático cozinheiro Antonin Carême, revolucionário da culinária da primeira metade do século XIX, distancia-se desta versão e apresenta uma receita transformada e requintada, tendo palitos de la Reine a forrar a forma e com um recheio usualmente de creme de natas, próxima das que encontramos em João da Matta (CÂNDIDO 2018: 204), respetivamente a “Charlotte á la Russe” e a “Charlotte au Chantilli”. O cozinheiro deverá estar familiarizado com o receituário inglês pois a “Charlotte de maçãs” não segue a técnica das anteriores, aproximando-se mais do que poderá ser a versão inglesa deste preparo (MATTA 2017: 9, 79 e 80). Também o etimólogo Cândido de Figueiredo terá conhecimento da receita britânica, uma vez que no dicionário indica para o termo adaptado ao português “charlota: pastelão de creme, cercas de lascas de pão-de-ló” (1913: 424), não fazendo qualquer referência à origem francesa do vocábulo. Conforme Carvalheira, o termo Charlotte terá origem em 1804 (1953: 147).

Vocábulos de uso restrito

Chegados aos vocábulos de uso restrito, identificam-se 28 na obra de João da Matta, encontrando 23 correspondências com o estudo em análise. Da totalidade, mais de metade surgem apenas com uma referência isolada, como bisque, no caso “sopa de bisque de camarões”. A designação é de origem francesa e corresponde a uma sopa cremosa que tem por base um puré de crustáceos ou então de cogumelos, ligada com natas e temperada com vinho ou conhaque. Trata-se de uma corruptela de biscuit, que significa “cozido duas vezes” e que remete para a ideia de “engrossar” a sopa. Durante a centúria de Setecentos, as bisques são feitas de aves de caça, tradição que se perde, sendo as de marisco as que prevalecem. A mais famosa bisque é a de lagosta e de camarão (CÂNDIDO 2016: 214).

No extremo oposto de termos que são mais referenciados por João da Matta encontram-se, com onze receitas cada, aspic e sauté, o primeiro empregue para designar uma técnica, mas também o resultado dessa preparação. O segundo remete para um método e para o utensílio da bateria de cozinha usado nessa preparação. Carvalheira, na entrada aspic, lembra que não é termo conhecido da generalidade das pessoas, no contexto temporal do seu estudo, porque se trata “de uma guarnição que não é usada na cozinha vulgar. É por vezes servida nos hotéis”. De acordo com a autora, em França o termo serve apenas na cozinha.

O vocábulo tem origem em “aspis – idis, víbora, que em português resultou em áspide. O c provém de uma contaminação com espic”. Assegura que se trata de um francesismo desnecessário na literatura culinária portuguesa uma vez que corresponde à geleia de carnes (CARVALHEIRA 1953: 158). Na descrição apresentada por João da Matta, assemelha-se a uma gelatina preparada com caldo de carne ou aves e “serve para guarnecer diversas viandas” (2017: 249). O cozinheiro apresenta “pequenos aspics de salpicão” (2017: 38).

Quanto ao termo sauté, Paul Plantier refere que “á falta de vocábulo portuguez que exprimisse o verbo sauter dos francezes, adoptamos o saltear”, sendo que saltear é definido como “sacudir dentro da frigideira” (1905: 765). Matta define sauté como “frigideira com cabo” e saltear “cozer ligeiramente qualquer iguaria, ou melhor será fritar ligeiramente em manteiga qualquer cousa, mexendo sempre para que não se pegue nem fique frita” (1876: 247). Surge apenas no título de dois pratos, “cabrito sauté para entradas” e “fígado de vitela sauté” (1876: 150, 168). Também nos menus da Casa Real vai aparecendo nos títulos de pratos de carnes e aves (MONGE et al. 2019: 39, 49, 100, 133, 173, 206 e 305).

Vocábulos em desuso

Maria José Carvalheira reserva uma secção onde coloca os termos que considera caídos em desuso na época em que realiza o estudo. Salienta que “os livros de cozinha antigos citam muitos termos que não se encontram no nosso tempo”. Dos 21 vocábulos que reúne nesta categoria, quatro estão presentes na obra de João da Matta. O termo barigoule é de origem provençal, sendo as “alcachofras à la Barigoule” comum em ambas as obras (PLANTIER 1905: 395; MATTA 2017: 29). Quanto ao vocábulo chartreuse, atualmente é conhecido como referência a uma bebida, um licor preparado por monges de Chartres desde 1764. Todavia, nas receitas com essa expressão, indicadas por Matta e Plantier, não se inclui qualquer bebida alcoólica. Plantier finaliza a descrição de “Chartreuse de perdizes” nos seguintes termos: “na occasião de servir vire-se um prato sobre a torteira, volte-se com ligeireza a torteira e o prato, tire-se aquella e o papel, e deite-se sobre a chartreuse o molho da cocção das perdizes” (1905: 288). A palavra Chevalier encontra-se presente nestas duas obras culinárias coevas, associada a frangos (MATTA 1876: 4; PLANTIER 1905: 248). Finalmente, o termo rabioli. Figueiredo indica os ravióis, vocábulo de origem italiana (ravioli), definido como “sopa seca de rodelas de massa, com recheio fino e saboroso” (1913: 1677). João da Matta apresenta uma sugestão de “sopa de rabioli á la Tivoli” (2017: 20), em tudo semelhante à descrita no Cosinheiro dos Cosinheiros (1905: 42).

Considerações finais

Analisada do ponto de vista etimológico, com o levantamento e sistematização dos vocábulos de origem gauleses, a obra de João da Matta, Arte de Cosinha, é reveladora da grande expressividade e preponderância desses francesismos nos livros de cozinha da época, em consonância com a análise levada a cabo por Maria José Carvalheira em 1953. Importa sublinhar que João da Matta, não sendo tão prolixo, ultrapassa a centena de termos franceses, seja na identificação de receitas, técnicas, utensílios, produtos e regiões. Ademais, identificam-se na sua obra 30 termos omissos no estudo de Carvalheira, uma dezena dos quais respeitantes a regiões. Tomando as 443 propostas culinárias de João da Matta, são relevantes a frequência e a percentagem de iguarias com recurso a francesismos, estando nesta categoria 279 registos, ou seja, 63% do total. Nessa medida, escora um traço muito expressivo na cozinha que pratica e divulga, fruto do contexto social, cultural e económico onde se movimenta.

Não obstante a inscrição cosmopolita, o livro reflete, do mesmo modo, algumas marcas identitárias com dois jantares à antiga portuguesa com ementas que se aproximam do que se convencionou designar de tradicional na nossa cozinha, como “cabeça de porco com feijão branco”, “vitela assada e batatas” e os célebres “pastéis de nata”, ou um prato de “carne cozida com toucinho, paio, chispe de porco e hortaliças, e à parte arroz de substância” (MATA 1993: 354) que não está distante do famoso “cozido à portuguesa”. As receitas que designa à portuguesa correspondem em parte a um receituário que se mantém fiel a essa matriz, tais como as “favas à portugueza” ou a “dobrada guizada à portugueza” (MATA 2017: 139, 133). Acrescem outros pratos que remetem para o imaginário da cozinha tradicional portuguesa como o “cabrito assado”, o “coelho à caçadora” e as “ervilhas com ovos escalfados”, ainda hoje a marcarem presença na mesa de muitas famílias portuguesas.