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Maria de Lurdes Modesto

Maria de Lurdes Modesto

1955 Receitas apetitosas

por Francine Dupré. – [Lisboa]: Inst. Culinário da Margarina Vaqueiro, imp. 1955 – Selo de Mar collection

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2008 Culinária no feminino: Os primeiros livros de receitas escritos por portuguesas

Culinária no feminino: os primeiros livros de receitas escritos por portuguesas

Isabel M. R. Mendes Drumond Braga

Caderno Espaço Feminino, v.19, n.01, Jan./Jul. 2008

Resumo: O presente texto tem como objetivo o estudo dos primeiros livros de cozinha escritos por portuguesas durante o século XX, tendo em conta o enquadramento sócio político da época.

Palavras-chave: livros de culinária; mulheres; Portugal.

Isabel M. R. Mendes Drumond Braga, Professora Auxiliar com Agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

isabeldrumondbraga@hotmail.com

PDF Culinária no feminino

Introdução

Antes do século XX, a publicação de livros de receitas em Portugal foi escassa 2 comparativamente com outros espaços europeus 3, tais como Espanha, França, Inglaterra e Itália. De qualquer modo, duas obras marcaram o panorama nacional durante séculos, a de Domingos Rodrigues, intitulada Kitchen Art, publicada pela primeira vez em 1680 4, e a de Lucas Rigaud, saída dos prelos cem anos depois e intitulada New Art of Cookery 5. Ambas conheceram sucessivas edições e foram objecto de plágio quer em outros livros quer em publicações periódicas de Oitocentos 6. Exclusivamente dedicada à doçaria, apareceu, em 1788, a discreta New and Curious Art for Canners, Confectioners and Cooks 7.

Foi necessário esperar pelo século XX para as mulheres portuguesas se aventurarem na escrita da denominada “culinária de papel”, na expressão de Laura Graziela Gomes e Lívia Barbosa 8. Efectivamente, se bem que, desde sempre, muitas mulheres se tenham dedicado à cozinha foi só tardiamente que passaram a produzir receituários publicados, embora os cadernos de receitas manuscritos para uso particular fizessem parte do quotidiano, tanto de freiras 9 como de leigas. Por exemplo, em 1818, D. José Trasimundo, futuro marquês de Fronteira e Alorna, deu conta da circulação de receitas familiares manuscritas. A propósito de certo jantar em Portalegre, pôde registar nas suas Memórias:

tivemos um esplêndido jantar, onde a doçaria era imensa  e a velha senhora, forte conserveira, queria dar-nos a receita de todos os bons doces que, com gosto, provámos. Eu fiz a aquisição de várias receitas que trouxe a minha sogra, que muito as apreciou, porque tinha estado em Portalegre e lembrava-se sempre das guloseimas da terra 10.

Um primeiro paradoxo se faz notar. Isto é, se desde sempre abundaram as cozinheiras, também é verdade que os grandes nomes da arte culinária foram quase sempre do sexo masculino. E tal verificação é tanto mais verdadeira quanto se recua cronologicamente. Imagem estereotipada ou não, certo é que, segundo Leo Moulin, por toda a Europa, a cozinheira estava associada à confecção dos pratos tradicionais e saborosos, que se repetiam sem perspectivas de inovaçãowhile o cozinheiro era o artista artesão, o monarca absoluto da cozinha, dotado de espírito inventivo 11. Assim se compreende que o século XIX tenha assistido, um pouco por todo o lado, à diferenciação clara entre o cozinheiro profissional, o maître, e o cozinheiro doméstico, frequentemente uma cozinheira 12.

Em Portugal, a situação foi semelhante à de outros países europeus 13. Isto é, no século XIX, foram comuns os anúncios publicados nos jornais solicitando cozinheiras e criadas que dominassem a arte culinária, como por exemplo, “precisa-se de uma criada que saiba bem cozinhar, dando boas abonações” ou “precisa-se de uma criada que saiba coser e engomar e de uma cozinheira”14, mas o destaque foi para João da Mata, o mais célebre e emblemático chef de então. Este começou por ser moço de cozinha, passou a cozinheiro em várias casas de Lisboa, depois de ter feito a sua aprendizagem com especialistas franceses. Em 1848, abriu uma casa de pasto na rua do Alecrim, em Lisboa. Mais tarde, em 1858, optou por um espaço maior na rua do Ouro e, em 1864, criou os hotéis Mata. Foi autor de um opúsculo denominado Arte de Servir á Mesa ou Preceitos Uteis para Creados e Dono de Casas (1872) e de um famoso livro intitulado Kitchen Art, publicado em 1876, com quatro edições até 190015.

2 Veja-se o elenco que dá conta das existências da Biblioteca Nacional de Portugal, Livros portugueses de cozinha. 2. ed., coordenação e pesquisa bibliográfica de Manuela Rêgo. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1998.

3 SIMON PALMER, Carmen. Bibliografia de la gastronomía española: Notas para su realización. Madrid: Ediciones Velazquez, 1978; MENNELL, Stephen. All Manners of Food: Eating and Taste in England and France from the Middle Ages to the Present. 2. ed. Urbana and Chicago: University of Illinois Press, 1996, pp. 166–199; HYMAN, Philip; HYMAN, Mary. Imprimer la Cuisine: Les Livres de Cuisine en France entre le XVe et le XVIe siècles. In: FLANDRIN, Jean Paul; MONTANARI, Massimo (dir.). Histoire de l’Alimentation. Paris: Fayard, 1996, p. 643–655; HYMAN, Philip; HYMAN, Mary. Livres et Cuisine au XIXe siècle. In: À Table au XIXe siècle. Paris: Musée d’Orsay, Flammarion, 2001, p. 80–89; LAURIOUX, Bruno. Le Règne de Taillevent: Livres et pratiques culinaires à la fin du Moyen Âge. Paris: Publications de la Sorbonne, 1997; EHLERT, Trude. Les manuscrits culinaires médiévaux témoignent-ils d’un modèle alimentaire allemand?. In: BRUEGL, Martin; LAURIOUX, Bruno (dir.). Histoire et identités alimentaires en Europe. [s.l.]: Hachette, 2002, p. 121–136; LEHMANN, Gilly. The British Housewife: Cookery books, cooking and society in Eighteenth-Century Britain. [s.n.]: Prospect Books, 2003.

4 RODRIGUES, Domingos. Kitchen Art. Leitura, apresentação, notas e glossário por Maria da Graça Pericão e Maria Isabel Faria. [Lisboa]: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987 [a primeira edição é de 1680].

5 RIGAUD, Lucas. Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de Cozinha […]. 3. ed. Lisboa: Oficina de Simão Tadeu Ferreira, 1798 [a primeira edição é de 1780].

6 Sobre estas obras, cf. BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. Portugal à Mesa: Alimentação, Etiqueta e Sociabilidade (1800–1815). Lisboa: Hugin, 2000, p. 103–114; Idem, Alimentação e Códigos Comportamentais na segunda metade do século XIX. In BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. Do Primeiro Almoço à Ceia: Estudos de História da Alimentação. Sintra: Colares Editora, 2004, p. 119–156.

7 New and Curious Art for Canners, Confectioners and Cooks. Estudo e actualização do texto de Isabel M. R. Mendes Drumond Braga. Sintra: Colares, 2004.

8 GOMES, Laura Graziela; BARBOSA, Lívia. Culinária de Papel. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 33, p. 1–22, 2004 (consultado na versão on-line disponível em http://www.cpdoc.fgv.br/revista/asp/dsp).

9 O Livro da Última Freira de Odivelas. Introdução, actualização do texto e notas de Maria Isabel de Vasconcelos Cabral. Lisboa: Verbo, 1999.

10 Memórias de Marquês de Fronteira e d’Alorna D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861. Revistas e coordenadas por Ernesto Campos de Andrada. Edição em fac-símile da edição de Coimbra: Imprensa da Universidade, 1926–1932, vol. 1. [Lisboa]: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986, p. 365.

11 MOULIN, Leo. Les Liturgies de la Table: Une Histoire Culturelle du Manger et du Boire. [Paris]: Albin Michel, 1989, p. 184.

12 MENNELL, Stephen. All Manners of Food […], p. 200–201.

13 Para França, cf. PERROT, Michelle. Personagens e Papéis. In: ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges (dir.). História da Vida Privada. Tradução portuguesa com revisão científica de Armando Luís de Carvalho Homem, vol. 4 (Da Revolução à Grande Guerra). Porto: Afrontamento, 1990, p. 179–184. Para o Brasil, marcado por outras realidades, o recurso a negros para cozinheiros era igualmente uma realidade. Cf. ELKAREH, Almir Chaiban; HERNÁN BRUIT, Héctor. Cozinhar e Comer, em Casa e na Rua: Culinária e Gastronomia na Corte do Império do Brasil. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 33, 2004, p. 1–23 (consultável na versão on-line disponível em http://www.cpdoc.fgv.br/revista/asp/dsp).

14 O Grátis: Jornal de Annuncios e do Comercio, n. 33, de 1 mar. 1837.

Um primeiro paradoxo se faz notar. Isto é, se desde sempre abundaram as cozinheiras, também é verdade que os grandes nomes da arte culinária foram quase sempre do sexo masculino. E tal verificação é tanto mais verdadeira quanto se recua cronologicamente. Imagem estereotipada ou não, certo é que, segundo Leo Moulin, por toda a Europa, a cozinheira estava associada à confecção dos pratos tradicionais e saborosos, que se repetiam sem perspectivas de inovaçãowhile o cozinheiro era o artista artesão, o monarca absoluto da cozinha, dotado de espírito inventivo 11. Assim se compreende que o século XIX tenha assistido, um pouco por todo o lado, à diferenciação clara entre o cozinheiro profissional, o maître, e o cozinheiro doméstico, frequentemente uma cozinheira 12.

Em Portugal, a situação foi semelhante à de outros países europeus 13. Isto é, no século XIX, foram comuns os anúncios publicados nos jornais solicitando cozinheiras e criadas que dominassem a arte culinária, como por exemplo, “precisa-se de uma criada que saiba bem cozinhar, dando boas abonações” ou “precisa-se de uma criada que saiba coser e engomar e de uma cozinheira”14, mas o destaque foi para João da Mata, o mais célebre e emblemático chef de então. Este começou por ser moço de cozinha, passou a cozinheiro em várias casas de Lisboa, depois de ter feito a sua aprendizagem com especialistas franceses. Em 1848, abriu uma casa de pasto na rua do Alecrim, em Lisboa. Mais tarde, em 1858, optou por um espaço maior na rua do Ouro e, em 1864, criou os hotéis Mata. Foi autor de um opúsculo denominado Arte de Servir á Mesa ou Preceitos Uteis para Creados e Dono de Casas (1872) e de um famoso livro intitulado Kitchen Art, publicado em 1876, com quatro edições até 190015.

A culinária no feminino passava quer pela contratação de uma cozinheira para as casas abastadas quer pelo ensino das mulheres de acordo com a secular trilogia de boas esposas, boas mães e boas donas de casa 16. Efectivamente, ao longo dos séculos XIX e XX, em leituras recreativas com fins moralizantes e de acordo, inclusivamente, com os programas escolares, incutiam-se noções de economia doméstica visando a formação das boas donas de casa. Por exemplo, numa obra de Julie Fertiault, traduzida para português por Alfredo Pimenta, em 1877, pode ler-se “a ciência da economia é para a mulher a ciência por excelência. Não há situação alguma pecuniária que isente uma dona de casa, uma mãe de família, da obrigação de ser económica”17. Uma outra obra, do final do século XIX, igualmente traduzida, intitulada Economia Doméstica, dedicou muitas páginas à questão alimentar, sempre na perspectiva de definir as necessidades, os diferentes tipos de alimentos, a maneira de os preparar e os utensílios necessários para tal 18.

No século XX, as mesmas práticas mantiveram-se. Sendo de salientar dois tipos de obras, umas dedicadas às senhoras endinheiradas e outras às mulheres mais pobres. Exemplificativa do primeiro grupo é, por exemplo, um volumoso livro de Virgínia de Castro e Almeida, publicado em 1906 e com sucessivas edições, intitulado Como devo Governar a minha Casa, no qual a cozinha, os alimentos e as práticas alimentares ocuparam papel de relevo. Aí pode ler-se: “a cozinha está completamente entregue ao cozinheiro ou cozinheira, mas exige o especial cuidado da dona de casa […] a cozinha é a grande consumidora dos recursos financeiros e é preciso que dela não saia apenas o sustento indispensável mas sim um pouco de prazer, sobretudo para o dono da casa que tanto contribui para as despesas”19. Em dado momento, a autora lembra que não é necessário ter-se um cozinheiro, pois o segredo é “saber dirigir bem a cozinheira”20, naturalmente a quem se paga menos, numa clara hierarquia masculino feminino à volta dos tachos.

15 FERRO, João Pedro. Arqueologia dos hábitos alimentares. Introdução de A. H. de Oliveira Marques. Lisboa: Dom Quixote, 1996, p. 127–129.

16 BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. A Educação Feminina em Portugal no século XVIII: Tradição ou Inovação. In BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. Cultura, Religião e Quotidiano: Portugal século XVIII. Lisboa: Hugin, 2005, p. 135–163.

17 FERTIAULT, Julie. A felicidade na família: Cartas d’uma Mãe a sua Filha. Tradução de Alfredo Pimenta. Porto: Ernesto Chardron; Braga: Eugénio Chardron, 1877, p. 69.

18 NEWSHOLME, Arthur; SCOTT, Margarida Leonor. Economia domestica com os preceitos de hygiene applicados á vida e arranjos da casa. Tradução de Alberto Telles. Lisboa: Tipografia da Academia Real das Ciências, 1893.

19 ALMEIDA, Virgínia de Castro e. Como devo governar a minha casa. Modificação e adaptação do livro italiano de Giulia Ferraris Tamburini. 3. ed. Lisboa: Clássica, 1924, p. 135.

20 Ibidem, p. 136.

Outra parcela de mulheres jovens e com poucos recursos era visada por um pequeno manual de Economia Doméstica. Este, destinado às alunas das terceira e quarta classes do ensino primário (actual terceiro e quarto anos do ensino básico), publicado em 1928, em harmonia com a legislação daquele ano 21, definiu a dita economia doméstica como “a ciência da felicidade e da prosperidade da família”22, nela englobando, entre os deveres da dona de casa, “saber cozinhar, fazer a barrela, olhar pela casa, talhar, coser, consertar as peças de vestuário simples da família e conhecer a higiene, que é a arte de conservar e melhorar a saúde e de evitar as doenças”23. As alunas da terceira classe acabavam o ano com a matéria do capítulo 10, sobre a cozinha, a baixela de preparar os alimentos, os utensílios e sua conservação e, finalmente, a lavagem da louça. Assim, recomendava-se que a cozinha fosse arejada, iluminada e asseada, que o trem de cozinha fosse composto por tábua de picar, tábua de amanhar peixe, tábua de estender massas, máquina de preparar picados, espremedor, batedeira para ovos, passador, funil, aparelho para cortar batatas, facas e serrote; sugeria-se especialmente louça de barro e de alumínio e indicavam-se os produtos específicos para a limpeza de determinados utensílios (por exemplo, sal e vinagre para limpar cobre e água carbonatada para barro)24.

A matéria da quarta classe era toda dedicada à alimentação, nomeadamente objectivos da mesma, necessidades humanas, escolha dos alimentos, refeições, papel das mulheres na luta contra o alcoolismo, conservação dos alimentos, receitas de ovos, sopas, carne e peixe, além de indicações acerca das compras. Sobressaem conselhos acerca da maneira de poupar. Por exemplo, “ao caldo de porco juntam-se batatas, feijões, couves que dizem bem com o excesso de gordura do caldo. Obtém-se, assim, duma só vez, uma refeição inteira e consegue-se desta forma economizar tempo e dinheiro”25. Um capítulo é integralmente dedicado ao aproveitamento dos restos de comida, aliando conselhos práticos e reflexões morais, ligadas à importância da poupança.

Além dos manuais escolares e dos livros de conselhos úteis para o governo da casa dedicados às mulheres, em algumas revistas, mesmo de carácter mundano, estas temáticas chegaram a aparecer. Tal é o caso, por exemplo, da ABC. Durante os últimos anos da Primeira República (1910–1926), a revista incluiu nas suas páginas alguns artigos sobre alimentação e, mais raramente, etiqueta ou, mais genericamente, sobre os cuidados do lar. Não eram estas as temáticas preferidas desta revista, que nunca teve nenhuma secção sobre estes assuntos mas, mesmo assim, de forma esporádica, incluiu alguns artigos. Nestas parcas contribuições, as preocupações abrangeram sobretudo a área da culinária, através da indicação de algumas receitas, uma parte delas de teor regional, sem esquecer a apresentação e decoração da mesa das refeições, em particular das familiares 26.

Durante o Estado Novo (1933–1974), Salazar não descurou as mulheres, tentando mantê-las em casa e moldá-las de acordo com os seus ideais políticos 27. Assim, os manuais escolares dedicados ao sexo feminino fizeram eco do ideal educativo que privilegiava o governo da casa 28, ao mesmo tempo que se tornou obrigatória a inscrição na Mocidade Portuguesa Feminina das jovens entre os sete e os 14 anos e das alunas que frequentassem o primeiro ciclo do liceu, por decreto de 1937 29. A organização deveria educar a mulher nas perspectivas moral, cívica, física e social. Era nesta última vertente que se incluía a vida doméstica. A presidente do Movimento, Maria Guardiola, não deixou de notar que toda a mulher deveria ser educada para defender a trilogia Deus, Pátria e Família 30.

21 Concretamente decreto n.º 16077, publicado no Diário do Governo, 1.ª série, n. 247, de 26 out. 1928.
22 Economia Doméstica: 3.ª e 4.ª Classes para o Ensino Primário Elementar. Porto: Figueirinhas, 1928, p. 3.
23 Ibidem, p. 4.
24 Ibidem, pp. 27–30.
25 Ibidem, p. 51.

26 BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. Alimentação e Publicidade Alimentar na Revista ABC (1920–1926). In: SILVA, Carlos Guardado da (Coord.). Turres Veteres IX. História da Alimentação. Lisboa: Colibri; Torres Vedras: Câmara Municipal, 2006, p. 215–225.

27 Sobre esta realidade, cf. BELO, Maria; ALÃO, Ana Paula; CABRAL, Iolanda Neves. O Estado Novo e as Mulheres. In: O Estado Novo: das origens ao fim da autarcia (1926–1959), v. 2. Lisboa: Fragmentos, 1987, p. 263–279.

28 MÁXIMO, Maria Elsa dos Santos Costa. A Política Educativa no Estado Novo em Relação à Mulher, no Tempo do Ministro António Faria Carneiro Pacheco (1936–1940): Contributo para a História do Género em Portugal. Lisboa: Dissertação de Mestrado em Didáctica da História, 2007.

29 Trata-se do decreto n.º 28262, de 8 de Dezembro de 1937. Cf. PIMENTEL, Irene Flunser. História das organizações femininas do Estado Novo. Lisboa: Temas e Debates, 2001, p. 202.

30 Ibidem, p. 220.

A Mocidade Portuguesa Feminina levava a efeito publicações de entre as quais vale a pena referir um Suplemento Auxiliar ao Programa de Culinária, aparecido em 1969 31. Nele, alude-se a dois tipos de mulheres, as que faziam as tarefas domésticas e as que as superintendem. Por exemplo, logo no início da brochura, pode ler-se: “mesmo dispondo de uma cozinheira e, embora o emprego (se o tiver) lhe ocupe grande parte do seu tempo, não deve [a mulher] deixar de aproveitar alguns momentos diários para dar um pouco de assistência à cozinha”32. Seguem-se informações acerca das condições físicas das cozinhas, dos materiais para preparar os alimentos e higienizar o equipamento, além da explicação técnica dos termos cozedura, guisado, estufado, assado, grelhado, fritura, salteado e pontos de açúcar, tendo em conta que alimentos poderiam sofrer determinadas operações e como essas mesmas operações deveriam ser levadas a efeito.

A análise de um caderno de actividades circumescolares, do final do Estado Novo, concretamente do ano lectivo de 1970–1971, pertença de Isabel Maria Henriques Pedro, então aluna do Liceu Nacional Infanta D. Maria (Coimbra), mostra-nos a vertente prática da transmissão dos conhecimentos formativos das futuras donas de casa 33. Efectivamente, as actividades circum-escolares eram compostas por aulas teóricas sobre economia doméstica, governo da casa e alimentação e aulas práticas de culinária, durante as quais se procedia à elaboração de um prato (não particularmente requintado) e, enquanto aquele cozia, era ditada a receita, lavada a louça e arrumada a cozinha. No final, eram dadas indicações acerca do modo de apresentar o prato, finalizando a aula prática com a prova. As receitas nem sempre indicam separadamente ingredientes e processos de execução; as quantidades e os tipos de carne ficaram quase sempre omissas, tal como os tempos de cozedura e os tipos de fornos. De notar ainda que a maior parte das receitas de carne era preparada com aquele ingrediente passado, o que, naturalmente, pressupõe a possibilidade de aproveitamento de restos.

A culinária aparece, pois, muito mais ligada à satisfação das necessidades básicas das famílias do que à ostentação, ao luxo e à criatividade proporcionados pelos chefs. Assim, no quadro doméstico reinam as cozinheiras que são simultaneamente as donas de casa, ou as cozinheiras que servem pessoas mais abastadas. A coadjuvar esta verificação, atente-se na publicidade que, de forma sistemática, explora a ligação entre os elementos do sexo feminino e a cozinha, no que se refere aos diferentes produtos que se relacionam com a preparação e confecção dos alimentos.

31 Suplemento Auxiliar do Programa de Culinária. Lisboa: Mocidade Portuguesa Feminina, 1969.

32 Ibidem, p. 5.

33 Estas informações foram obtidas através de um trabalho prático apresentado por Isabel Maria Henriques Pedro, no seminário de Temas de História Moderna, do Mestrado em Didáctica da História, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no ano lectivo de 2007–2008, por nós leccionado.

Figs 3 e 4 – Publicidade que associa mulheres e preparações alimentares

(Lisboa, Biblioteca Nacional).

2.

Apesar do quadro em questão não ser o mais favorável à produção de livros de cozinha no feminino, nem todas as mulheres se limitaram a “preparar as receitas de cabeça”. De facto, no século XX, algumas passaram à impressão das suas criações. Sem pretensões de exaustividade, quer de autores quer de obras, e excluindo compilações, colunas de jornais e agendas com receitas de cozinha, salientaremos as mais relevantes obras escritas por mulheres durante a última centúria, centrando-nos nas pioneiras. É certo que a I Guerra Mundial (1914–1918) implicou uma simplificação dietética, aliada à escassez dos géneros alimentares e ao consequente racionamento, o que levou a alterações nos hábitos gastronómicos, com a diminuição de pratos por refeição 34, pondo fim à longa herança de sumptuosas refeições quotidianas entre os abastados. Mas é certo também que é antes do conflito bélico que aparece o primeiro livro de doçaria publicado por uma mulher. Trata-se de Sofia de Sousa, a autora do Royal Portuguese and Brazilian Confectioner, publicado em 1904 35, obra tributária de uma outra anónima publicada no século XIX, O Cosinheiro dos Cosinheiros 36, consequentemente apresentando um conjunto de receitas não inovadoras.

Se passarmos para os livros de cozinha mais generalistas, então a primeira autora foi Isalita, com Sweets and Baking: Selected Recipes, publicado em 1925 e com 25 edições até 1977 37. Na obra, a autora propôs menus diários de almoços e jantares quotidianos e de refeições mais sumptuosas, uma lista de hors-d’oeuvres e um vasto conjunto de receitas agrupadas nas seguintes tipologias: sopas, molhos, ovos, peixe, entradas, soufflés, carnes, aves e caça, galantines, mousses, aproveitamentos de carnes assadas e aves, massas, massas italianas, batatas, tomates, pimentos, alcachofras, espargos, beringelas, cenouras, couves, couve-flor, pepinos, chuchus, espinafres, favas, ervilhas, feijão, alfaces, castanhas, brócolos, nabos, arroz, saladas, geleia, doces de fruta, pudins, doces de fim de jantar, soufflés, massas (para doces), doces para chá, bolachas, biscoitos, pães para chá e sorvetes. Como se pode verificar, Isalita começou pelos pratos salgados e terminou nos doces, criando muitas subdivisões nas preparações à base de legumes. A obra é importante, serviu de inspiração a outros livros e foi objecto de cópia por parte de autoras menores. De notar algumas constantes entre os menus de almoços e jantares.

Isalita, de cujos menus propostos escolhemos alguns patentes no quadro acima, investiu sobretudo nos jantares compostos sempre por sopa e, regra geral, prato de peixe, prato de carne, acompanhamento de legumes e sobremesa. Quando não havia prato de peixe a sopa era preparada com alguma espécie marítima. Os almoços apresentados eram mais sóbrios. Não apresentaram nem sopa nem sobremesa mas insistiram ou num prato de peixe e num de carne ou em preparados de ovos, hortaliças e carne ou ovos, massas e carne.

Quadro I

Menus de Almoço

Peixe ensopado com ervilhas

Entrecôte florentino com batatas à inglesa

Ovos com cerveja

Soufflé de várias hortaliças

Coelho à caçador

Bacalhau com queijo

Bifes à Sorel com batatas salteadas

Ovos mexidos com espinafres

Gnocci ao gratin

Pombos fritos à burguesa

Exemplos de Menus de Almoço e de Jantar propostos por Isalita

Menus de Jantar

Sopa de camarão
Croquetes de carne
Pato assado com batatas palha
Esparregado de espinafres
Maçãs no forno

Sopa de grão com espinafres
Filetes de linguado Marinetta
Rolo de carne picada com hortaliça à jardineira
Pudim de couve-flor
Creme de baunilha

Sopa de puré de cenouras e tomates
Pudim de peixe
Lombo de porco assado
Pepinos recheados
Tigelinhas finas

Sopa de pargo
Rissóis de galinha
Lombo à tirolês
Favas estufadas com coentros
Doce de castanhas inteiras

Cronologicamente próxima surgiu Agarena de Leon, com a obra The Family Kitchen, publicada em 1926 38. Em termos de título e de conteúdo, a autora marcou o toque dos livros de cozinha escritos a pensar nas donas de casa que tinham que preparar refeições com poucos recursos, toque esse que vai manter-se além dos efeitos da II Guerra Mundial (1939–1945). Por seu lado, em 1929, Alinanda ficou conhecida pela The Art of Eating Well 39, com toque francês, desenhos para facilitar determinadas preparações e fotografias a preto e branco de alguns pratos já preparados. Alinanda terá inspirado, anos depois, o texto de Auronanda, uma obra um pouco mais sofisticada.

A partir dos anos 30, Rosa Maria, de quem nada se sabe, marcou gerações de mulheres na cozinha, através das suas diferentes obras, com destaque para A Cosinheira das Cosinheiras (com 30 edições em 1982) 40. Esta autora popularizou-se nos anos 50 através de títulos como 100 Maneiras de Cozinhar Acepipes, Molhos e Saladas 41, 100 Maneiras de Cozinhar Bacalhau 42, 100 Maneiras de Cozinhar Aves 43, 100 Maneiras de Cozinhar Ovos 44, 100 Maneiras de Cozinhar Peixes 45, 100 Maneiras de fazer Sopas 46, 100 Maneiras de Cozinha Vegetariana 47 e 100 Maneiras de Fazer Doces Económicos 48 (todos com edições até ao final do século XX). Se bem que, em boa parte dos casos, se desconheça a data da primeira edição da maioria das suas obras, sabemos que no período entre as duas Grandes Guerras, já Rosa Maria publicava livros apelando aos baixos custos. São exemplos Como se Almoça por 1$50: 100 Almoços Diferentes 49, saída em 1933, e Como se janta por 3$00: 100 Jantares Diferentes 50, cuja data de publicação se desconhece.

Rosa Maria terá tido como rival outra autora sua contemporânea, pois, em data desconhecida, mas entre os anos 30 e 50, apareceram as populares e pequenas obras de Clara T. Costa: Family Sewing Guide 51, cuja nona edição é de 1952 e a 10.ª de 1962, e The Family Jam Maker: A Practical Method for Making Jams, Puddings, Ice Cream and Jellies 52, cuja sétima edição, revista e aumentada, é de 1957 e a oitava de 1964, obras que se pautaram por directrizes e interesses semelhantes. As obras de Rosa Maria, mormente A Cosinheira das Cosinheiras, pretenderam aliar higiene, ideias sobre nutrição, sobriedade alimentar, saúde, receitas práticas e economia. Dirigidas às donas de casa, visavam facilitar as tarefas daquelas no que à alimentação familiar se referia. A autora teve em conta as necessidades calóricas das pessoas de acordo com a idade, a actividade física e as estações do ano, caracterizou os alimentos e propôs regimes específicos para diabéticos, artríticos e ainda os que apresentam problemas de estômago, fígado e rins. Antes de passar às receitas, apresentadas por ordem alfabética, primeiro os salgados e depois os doces, ainda apresentou um capítulo acerca da necessidade de cozinhar os alimentos. Em certos momentos não faltaram considerações de teor moral. Por exemplo, ao referir-se ao vinho, explicitou: “do abuso do vinho têm resultado terríveis enfermidades, como a delirium tremens, a loucura, doenças de fígado, etc. e não menor número de desordens e desgraças de ordem moral, que têm levado muitos ao degredo, à penitenciária e ao patíbulo”53.

Rosa Maria, logo no início das receitas salgadas, incluiu açorda à andaluza, açorda de bacalhau à alentejana e açorda à portuguesa. Recordemos que esta última era um prato consumido por pobres e remediados desde sempre, além de ser o prato nacional infantil. Por exemplo, em O Cozinheiro Indispensavel, obra do final do século XIX, pode ler-se: “a açorda é um preparado de cozinha muito usado em grande parte do nosso país e fora dele e com que em muitas localidades alimentam de preferência as crianças, desde que as separam do leite até que atingem certa idade”54. Por outro lado, já antes, nos anos 20 da mesma centúria, a inglesa Marianne Baillie sublinhou, em tom crítico, que as crianças portuguesas eram alimentadas exclusivamente com uma espécie de papa feita com pão, água, azeite e alho, isto é, açorda 55.

30 Ibidem, p. 220.

31 Suplemento Auxiliar do Programa de Culinária. Lisboa: Mocidade Portuguesa Feminina, 1969.
32 Ibidem, p. 5.

33 Estas informações foram obtidas através de um trabalho prático apresentado por Isabel Maria Henriques Pedro, no seminário de Temas de História Moderna, do Mestrado em Didáctica da História, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no ano lectivo de 2007–2008, por nós leccionado.

34 MARQUES, A. H. de Oliveira. A Alimentação. In: MARQUES, A. H. de Oliveira (Coord.). Portugal da Monarquia para a República (Nova História de Portugal, direcção de Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques, v. 11). Lisboa: Presença, 1991, p. 619.

35 SOUSA, Sofia de. Real confeiteiro português e brasileiro. Lisboa: Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, 1904.

36 O cosinheiro dos cosinheiros: Colecção de mais de 1000 Receitas. Lisboa: Tipografia Luso-Britânica, 1870.

37 ISALITA. Dôces e cosinhados: Receitas escolhidas. Lisboa: Centro Gráfico Colonial, 1925.

38 LEÃO, Agarena de. A cosinheira familiar. Lisboa: Tipografia A Rápida, 1926.

39 ALINANDA. Arte de bem comer. Porto: Domingos de Oliveira, 1929.

40 MARIA, Rosa. A cosinheira das cosinheiras: higiene alimentar e mais de 500 receitas para cozinhar, fazer doces, gelados, compota, etc. 30. ed. Porto: Civilização, 1982.

41 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar acepipes, molhos e saladas. Porto: Livraria Civilização, 1956.

42 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar bacalhau. Porto: Livraria Civilização, 1956.

43 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar aves. Porto: Livraria Civilização, 1956.

44 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar ovos. Porto: Livraria Civilização, 1956.

45 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar peixes. Porto: Livraria Civilização, 1961.

46 MARIA, Rosa. 100 maneiras de fazer sopas. Porto: Livraria Civilização, 1965.

47 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinha vegetariana para uso das famílias. Porto: Livraria Civilização, 1956.

48 MARIA, Rosa. 100 maneiras de fazer doces económicos: bolos, pudins, compotas, sorvetes, etc. Lisboa: Empresa Literária Universal, [1958].

49 MARIA, Rosa. Como se almoça por 1$50: 100 almoços diferentes. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1933.

50 MARIA, Rosa. Como se janta por 3$00: 100 jantares diferentes. Lisboa: Empresa Literária Universal, [s.d.].

51 COSTA, Clara T. Family Sewing Guide. Lisboa: Empresa Literária Universal, [1952].

52 COSTA, Clara T. A doceira familiar: método práctico de fazer doces, pudins, sorvetes, compotas… 7. ed., rev. e aum. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1957.

 

53 MARIA, Rosa. A cosinheira das cosinheias […], p. 13.

54 O cozinheiro indispensavel: Repositorio dos melhores processos de preparar as mais saborosas iguarias […]. Porto: Livraria Internacional de Ernest Chardron, 1894, p. 21.

55 BAILLIE, Marianne. Lisbon in the years 1821, 1822, 1823, v. 1. Londres: John Murray, 1824, p. 111.

Rosa Maria apresentou uma novidade, pois serviu-se de uma forma poética 56 para dar a receita da açorda à portuguesa:

Pão de trigo, sem ter sombra de joio;
Azeite do melhor, de Santarém;
Alho do mais pequeno, e do saloio;
Ponha no lume brandinho e mexa bem;
Sal que não seja inglês – porque é remédio,
Toda a criança assim alimentada
É capaz de deitar abaixo um prédio
Quatro meses depois de desmamada.

Com este bom pitéu, sem refogados,
Invenção puramente lusitana,
Os ilustres varões assinalados
Passaram além da Taprobana.
Fortes p’la açorda, demos nós aos mouros,
Como se sabe, uma fatal derrota;
E abiscoitámos majestosos louros
Para os nobres troféus de Aljubarrota.

A assinalar o final da II Guerra Mundial, a cantora lírica Berta Rosa Limpo (1981) publicou, em 1945, The Book of Pantagruel, um clássico que, em 1997, deu ao prelo a 63.ª ed., com revisão e actualização de Maria Manuela Limpo Caetano. Esta é uma obra ímpar no panorama editorial culinário português, contando originariamente com 1500 receitas, muitas delas de cunho vincadamente internacional. Ao contrário de quase todas as obras anteriores, este livro de culinária não foi escrito a pensar nos remediados. No prefácio da primeira edição, a autora confessou a sua paixão pela culinária, a primeira compilação das receitas de família, que levou a efeito em 1914, e o contacto directo com chefes cozinheiros franceses e italianos dos diferentes hotéis europeus por onde passava em digressão, que lhe forneceram receitas diversas. Deu igualmente conta que todas as receitas haviam sido experimentadas e que todas davam bons resultados se seguidas as instruções à risca 57.

Nos anos 50, destaque para Auronanda com a Arte de bem Saborear, saída dos prelos em 1952 58, um volumoso livro que faz lembrar o de Alinanda e o de Berta Rosa Limpo e em cujo prefácio se alude à importância da culinária para agradar ao marido. A obra refere a preparação dos alimentos e o material de cozinha e de limpeza, incluiu o desenho de diversos objectos para preparar os alimentos, de um glossário, onde aparecem termos portugueses e franceses (como por exemplo chifonnade, ciseler, glacer…), uma tabela de equivalência de pesos e medidas e muitas receitas de carácter internacional, a par de estampas coloridas de pratos preparados.

Na mesma década de 50, Libânia de Sousa Alves publicou pequenas obras de cozinha e de doçaria, nomeadamente The Best Cooking Recipes 59, The Best Natural Cooking Recipes 60 e Selected sweets 61while Mirene ficou conhecida como autora do Cooks' Treasure 62, cuja terceira edição é de 1957. Estas autoras e estas obras pouco ou nada acrescentaram de relevante ao panorama editorial de então; o mesmo se pode afirmar em relação aos livros de doçaria de Maria Olímpia Areal: Doces Familiares 63, esta com quatro edições, e O Meu Livro de Doces 64.

Finalmente, referência para Maria de Lurdes Modesto (1930–…), a mais mediática autora, com vasta obra publicada desde a década de 50 e cuja fama começou por se alicerçar em programas de televisão, onde preparava receitas em directo. Foi professora em várias escolas femininas, manteve programas de culinária na rádio e tem colaborado activamente em jornais e revistas com colunas de cozinha. Entre os seus livros, destaque para Selected Recipes 65 e para Traditional Portuguese cuisine 66, uma área que tem privilegiado em termos de divulgação. Trata-se de um livro ilustrado e organizado tendo em conta as diferentes regiões do país, incluindo os arquipélagos da Madeira e dos Açores 67.

Não sendo, no início do século XX, a culinária entendida como algo particularmente importante, do ponto de vista da obtenção de notoriedade social, nota-se, tanto no feminino como no masculino, o recurso a anagramas e a pseudónimos para esconder o verdadeiro nome. Assim, Agarena de Leão é o anagrama de Helena de Aragão, enquanto Auronanda é o pseudónimo de Aurora Jardim Aranha, Isalita o de Maria Isabel Campos Henriques, Mirene o de Maria Irene Andrade Braga da Silva Teixeira e Francine Dupré o de Maria de Lurdes Modesto que, entretanto, o abandonou, acompanhando o crescente interesse e popularidade que o público lhe foi dispensando.

56 MARIA, Rosa. A cosinheira das cosinheiras […], p. 23. Comentem-se alguns passos da receita, nomeadamente o uso do azeite da mais emblemática região produtora portuguesa, o do alho proveniente da região saloia, isto é, à volta de Lisboa, especialmente a zona de Sintra; e do sal português, de grande qualidade e objecto de exportação desde cedo.

57 LIMPO, Berta Rosa. The Book of Pantagruel. Lisboa: Círculo de Leitores, 1997, que inclui o prefácio da primeira edição em páginas não numeradas.

58 AURONANDA. Arte de bem saborear. Porto: Livraria Simões Lopes, 1952.

59 ALVES, Libânia de Sousa. As melhores receitas de cozinha. [s.l.]: Edição do Autor, [1955].

60 ALVES, Libânia de Sousa. As melhores receitas de cozinha natural. [s.l.]: Edição do Autor, [1956].

61 ALVES, Libânia de Sousa. Doces seleccionados. Porto: Edição do Autor, [1955].

62 MIRENE. Tesouro das cozinheiras. Porto: Porto Editora, [s.d.].

63 AREAL, Maria Olímpia. Doces familiares. 2. ed. Porto: Asa, 1959. Desconhecemos a data da primeira edição.

64 AREAL, Maria Olímpia. O meu livro de doces: receitas seleccionadas e experimentadas. Porto: Edição do Autor, 1953.

65 MODESTO, Maria de Lurdes. Receitas escolhidas. Lisboa: Verbo, 1978.

66 MODESTO, Maria de Lurdes. Traditional Portuguese cuisine. 3. ed. Lisboa: Verbo, 1982.

67 Sobre Maria de Lurdes Modesto, cf. http://www.iplb.pt (Maria de Lurdes Modesto), consultado a 13 abr. 2008.

3.

Ao longo do século XX, as mulheres portuguesas despertaram para a publicação de livros de cozinha. Das autoras, com excepção de Maria de Lurdes Modesto, pouco ou nada sabemos; contudo, as obras que existem permitem levar a efeito estudos mais desenvolvidos. De qualquer modo, algumas ideias parecem claras. As autoras do princípio do século foram particularmente tributárias das obras escritas na centúria de Oitocentos, recolhendo e copiando o que de mais simples essas obras apresentavam. Por outro lado, como as principais preocupações de uma boa parte das autoras foram no sentido de produzir textos básicos para o serviço das donas de casa, tentando fornecer receitas apetitosas e económicas, a que não foram alheios a austeridade, a escassez de alimentos, o racionamento e a pobreza de uma parte significativa da população, em especial mas não exclusivamente durante os períodos de guerra, as propostas apresentadas passaram muito pela insistência na simplicidade e sobriedade, ao mesmo tempo que forneceram indicações nutricionais, o que não deixava de ser coadjuvado na publicidade e no ensino ministrado às raparigas na área da economia doméstica, uma matéria sob a atenção da Mocidade Portuguesa Feminina.

No final do século, tudo mudou; veja-se o caso de Maria de Lurdes Modesto que, no contexto português, conheceu alguma mediatização, a par de outras autoras que apareceram a partir dos anos 80, se bem que sem conseguirem destronar a pioneira da culinária na televisão e na rádio. Tal como nos manuais de economia doméstica, nos livros de receitas também se perfilam duas grandes linhas: as obras sofisticadas, com referências à culinária internacional, mormente à francesa e, secundariamente, à italiana, e as obras mais populares. Entre as primeiras refiram-se as de Alinanda, Berta Rosa Limpo e Auronanda, pois todas as restantes visaram um público mais modesto, mas desejoso de aprender a cozinhar e a poupar, a bem do equilíbrio do orçamento familiar. Note-se que um autor, que comungava destes ideais e escreveu obras afins às referidas, Manuel da Mata, assinou os seus livros como Febrónia Mimoso, eventualmente para chegar mais facilmente às donas de casa.

A par dos livros das autoras referidas também deveremos juntar os que foram escritos e assinados por homens, quer os generalistas quer os exclusivamente dedicados à doçaria, e cujos conteúdos também não se afastam cabalmente do que foi enunciado ao longo deste estudo. Efectivamente, a culinária no masculino conheceu alguns nomes com relevância; seja-nos permitido lembrar Carlos Bento da Maia e Olleboma, isto é, António Maria de Oliveira Belo, sem esquecer Emanuel Ribeiro, que só se interessou por doçaria. Nestes casos, particularmente nos dois primeiros, estamos perante obras que marcaram gerações de cozinheiros.

Finalmente, realcemos três aspectos: por um lado, a longevidade de muitos títulos, com sucessivas edições ao longo dos tempos, o que se relaciona com o facto de o Estado Novo ter incutido na população não só a trilogia Deus, Pátria e Família como ter incentivado quer a prática da poupança familiar quer a má vontade face à mudança, assegurando que sucessivas gerações continuassem a adquirir as mesmas obras, reproduzindo, assim, os mesmos modelos, realidade, aliás, que ultrapassou o final da Ditadura; por outro lado, o pouco apreço da culinária enquanto actividade, que estava longe de assegurar a quem a praticava o sucesso mediático que os actuais chefs alcançam. Ou seja, durante uma boa parte do século XX, a culinária no feminino era, antes de mais, a possibilidade de bem alimentar as famílias, uma tarefa eminentemente pertença das mulheres e, em especial, das donas de casa; e, finalmente, a necessidade de se proceder ao estudo comparativo de todas as obras de culinária para perceber as inspirações e os plágios, tão frequentes nestas matérias. Para isso, o apuramento das datas das primeiras edições e a comparação dos receituários, quer ao nível dos títulos quer dos conteúdos, revela-se fundamental enquanto linha de investigação susceptível de aprofundar os conhecimentos nestas matérias.

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15 Sugestões culinárias para molhos e temperos para saladas Calvé : Calvé dá gosto

15 Sugestões culinárias para molhos e temperos para saladas Calvé:

Calvé dá gosto

TITLE: 15 Sugestões culinárias para molhos e temperos para saladas Calvé:

SUB TITLE: Calvé dá gosto

AUTHOR: 

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO: Maria de Lurdes Modesto

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 

DEPÓSITO LEGAL: D.L. 1990

EDIÇÃO:

LOCAL: Sacavém

PUBLISHER: FIMA

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: Col. Particular

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: 

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 7

OBSERVAÇÕES:

7.
Sugestões culinárias para molhos e temperos para saladas Calvé : Calvé dá gosto / pref. Maria de Lurdes Modesto. – Sacavém : FIMA, [1990]. – Col. Particular

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1979 Cozinha Tradicional Portuguesa

Traditional Portuguese cuisine

1979

TITLE: Traditional Portuguese cuisine

SUB TITLE: 

AUTHOR: Maria de Lourdes Modesto

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: Verbo

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: 
SELO DE MAR
Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: 

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 375

OBSERVAÇÕES:

375
MODESTO, Maria de Lourdes, 1930–
Cozinha tradicional portuguesa / Maria de Lourdes Modesto; textos introdutórios das regiões de António Manuel Couto Viana; fot. de Augusto Cabrita, Homem Cardoso. — 3.ª ed. — Lisboa: Verbo, 1982.
BN S.A5. 9097 V.

Outras ed.:
— 4.ª ed. — imp. 1983 (S.A6.1163 V.)
— 5.ª ed. — imp. 1984 (S.A6.1824 V.)
— 8.ª ed. — 1989 (S.A6.8020 V.)
— 15.ª ed. — 1995 (S.A7.9295 V.)

As cookery was not seen as particularly important at the beginning of the 20th century from the point of view of gaining social notoriety, both women and men resorted to anagrams and pseudonyms to hide their real names. Thus, Agarena de Leon is an anagram of Helena de Aragãowhile Auronanda is the pseudonym of Aurora Jardim Aranha, Isalita The Maria Isabel Campos Henriques, Mirene The Maria Irene Andrade Braga da Silva Teixeira e Francine Dupré, that of Maria de Lurdes Modesto who, in the meantime, abandoned it, following the growing interest and popularity that the public was giving it.

in Women's cookery: the first recipe books written by Portuguese women. Isabel M. R. Mendes Drumond Braga

DESDE há vinte anos que me dedico a um lento mas emocionante levantamento do património culinário português.
Lento, porque se nos deparam segredos a desvendar, relutâncias a vencer, variantes a ensaiar, tempos, misturas e doseamentos a experimentar. Mas levantamento emocionante, porque se revelam sabedorias seculares, usos, costumes e, sobretudo, imaginação que, as mais das vezes, nos fazem sentir o pulsar de uma vida, de uma família, de uma região, de um país.

Para esta recolha, para a construção, passo a passo, deste roteiro gastronómico, recebi o contributo, em cada região, de numerosas pessoas. Os seus nomes (não todos, infelizmente, pois seriam largas centenas) aí ficam para que conste — e eu, assim, singelamente, lhes agradeça.

Agradecimento que desejaria extensivo a tantos e tantos participantes do «Concurso de Cozinha e Doçaria Regional Portuguesa», realizado em 1961, através da televisão, cujas informações recuperei para este trabalho.

Recolhi então milhares de receitas, enviadas de todos os recantos do País, a maior parte com genuínas raízes locais. Trabalhei-as durante estes vinte anos. Tentei desvendar-lhes as origens — algumas bem humildes e perdidas na noite dos tempos. Procurei fixar-lhes, experiência após experiência, os tempos e as medidas adequadas, por entre a infinidade de variantes que cada receita comporta. Fui o mais rigorosa possível na descrição da confecção e dos ingredientes. Mas a precisão das fórmulas matemáticas não tem lugar na cozinha tradicional, em que pontifica uma certa dose de salutar criatividade e intuição.

Por fim, desse labor de duas décadas, seleccionei as oitocentas receitas que compõem este volume. Curnonsky, o príncipe da gastronomia francesa, descreveu a culinária regional francesa em apenas 325 receitas. Pelo meu lado, devo confessar que as oitocentas receitas escolhidas não bastam para esgotar todas as variantes do riquíssimo repertório culinário português. Mas são plenamente suficientes — disso estou certa — para constituírem a mais completa recolha que até hoje se realizou deste Portugal gastronómico, de que muitos só conhecem meras visões parcelares.

Dois critérios presidiram à escolha das receitas que integram este livro: representatividade e autenticidade. De cada região, incluíram-se os pratos mais característicos, confeccionados e apresentados como é de uso e costume na terra portuguesa que os concebeu. E cada um acompanhado de uma nota «biográfica», localizando-lhe a origem e traçando-lhe a evolução.

 

Mas não é só do passado que se trata neste livro. As oitocentas receitas que contém estão vivas e saudáveis, como as mãos que diariamente ainda as preparam em milhares de lares portugueses, conservando a nossa tradição gastronómica e projectando-a no futuro.

Nesse sentido, entendo também este livro como uma forma de combate em prol da revitalização do nosso património culinário e contra a insidiosa invasão de uma certa «cozinha internacional», impessoal, soturna e monótona, que já alastrou por muitos restaurantes e ameaça também entrar-nos pela casa dentro.

A melhor barreira contra essa praga é, sem dúvida, a cozinha familiar, em que se preservam e renovam as preciosas receitas ancestrais. Os constrangimentos da vida moderna não são obstáculo: o receituário das nossas avós também tem soluções para a falta de tempo e de meios. Mas, sempre, preservando o que é essencial: a alegria, a imaginação, o prazer de estar à mesa.

Ao mesmo tempo reencontramos a nossa identidade, a nossa maneira original de ser e de sentir — que se manifesta com toda a sua diversidade e exuberância no receituário tradicional.

A elaboração deste livro foi, pois, para mim uma experiência enriquecedora, pelo que me ajudou a descobrir e a compreender melhor o nosso País. Estou certa de que o mesmo terão sentido aqueles que comigo mais directamente trabalharam — e por cuja colaboração devo aqui expressar o meu profundo reconhecimento: desde os autores das fotografias, que comigo percorreram Portugal de lés a lés, ao editor, que pacientemente aguardou durante anos a publicação desta obra, necessariamente morosa, possibilitando-me todas as condições para um trabalho completo e reflectido.

É sempre possível fazer melhor. Mas já sentirei que a minha missão foi cumprida se aqueles que lerem este livro — e sobretudo aqueles que me confiaram as receitas e os segredos da cozinha tradicional portuguesa — reconhecerem nele a imagem gastronómica da velha Nação que somos.

Foi esse o meu objectivo. Oxalá, no final, todos sintam que esta é a verdadeira cozinha portuguesa.

Maria de Lourdes Modesto

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1978 Receitas Escolhidas

Selected Recipes

1978

TITLE: Selected Recipes

SUB TITLE: 

AUTHOR: Maria de Lurdes Modesto

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1978

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: Verbo

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: 
SELO DE MAR
Selo de Mar collection

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN S.A. 58826 V.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 380

OBSERVAÇÕES:

380
MODESTO, Maria de Lourdes, 1930–
Receitas escolhidas / Maria de Lourdes Modesto. — 2.ª ed., rev. e aum. — Lisboa: Verbo, imp. 1982.
BN S.A. 58826 V.

Outras ed.:
— 3.ª ed. — imp. 1988 (S.A. 66576 V.)
— 1996

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1960 Grande enciclopédia da Cozinha

Grande enciclopédia da Cozinha

(s.d.) 1960

TITLE: Grande enciclopédia da Cozinha

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AUTHOR: Maria de Lurdes Modesto

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO: Fernando de Castro Pires de Lima

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: (s.d.) 1960

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: 

PUBLISHER: Editorial Verbo

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 2 volumes com 442 (6) e 452 (6) páginas

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE:
SELO DE MAR
Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN S.A. 31056-57 V.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 242

OBSERVAÇÕES:

242

GRANDE enciclopédia de cozinha / dir. Maria de Lourdes Modesto. — Lisboa : Verbo, [D.L. 1960]. — 2 vol.
BN S.A. 31056-57 V.

prefácio

A conservação da espécie, lei inexorável da Natureza, não escapa ao Homem, que, para subsistir, tem de alimentar-se, função primordial que sobreleva todas as outras. Mas, ser inteligente, rei da Criação, cônscio do papel que desempenha no Mundo, procura a todo o transe afastar-se de tudo o que possa confundi-lo com os outros animais. De início, como estes, os alimentos seriam o que apanhasse às mãos, mais pròpriamente poderosas garras, numa luta feita de astúcia, de força e de permanente terror. Até ao dia, entre todos glorioso, em que conseguiu fazer lume, a sua barba hirsuta empastava-se no sangue da carne crua do animal que matara, ou dos despojos abandonados, como restos dum festim, pelos gigantes da floresta. Esse sabor da carne fresca, palpitante, que hoje nos causa náuseas, ainda havia de subsistir através dos séculos, e vemos, por exemplo, os Hunos, cavaleiros infatigáveis que dormiam montados, meterem debaixo de si, para simplesmente os aquecer, pedaços de carne, que depois devoravam em silêncio, com os olhos miudinhos postos nesse Ocidente onde em breve iriam espalhar, flagelo de Deus, o pavor, a ruína e a morte.
O homem apurado não se resignava a ser assim, e a arte da cozinha acompanhou, de perto, as civilizações e sempre constituiu um dos seus maiores requintes.

Na antiga Grécia, à frugalidade, tanto tempo seguida, dos filósofos, sucedeu, pelo contacto com o Oriente, o gosto da boa mesa, do conforto e do bem-estar. Cozinheiro, não o era quem queria, mas só depois de obter aprovação em cursos complicados e profundos. Para alguns mestres, eram indispensáveis conhecimentos preliminares de astrologia, arquitectura e ciência militar, porque o sabor dos alimentos varia com a posição dos astros, não é indiferente a situação da cozinha, e a ordem e a disciplina, a táctica e a estratégia, para a escolha do momento próprio, têm capital importância.

Com uma preparação assim, que mergulhava até aos alicerces e subia até à subtileza, os bons cozinheiros — tão raros como hoje — tornavam-se personagens de relevo, frequentemente célebres, incensados pelos poetas e merecendo a honra de serem citados por Platão e Aristóteles.

A rusticidade romana, nisto como em tantas outras coisas, veio a polir-se no convívio com os vencidos, mas extraviando-se nos desmandos e exageros próprios de quem domina o Mundo. Os ricos entraram à compita na sumptuosidade das baixelas e na originalidade das iguarias, cujas matérias-primas iam buscar-se a regiões, por vezes longínquas, do imenso império. Vinham da Espanha os coelhos e as salmouras para os ovos; da Gália a salsicharia; da Grécia os faisões; da África as trufas; da Ásia Menor, os pavões; do Oriente as especiarias; e os vinhos da Grécia e da Sicília. A raridade e a excentricidade eram, porém, de bom- …tom, e os snobs chegaram ao ponto de exigir línguas de rouxinol, miolos de papagaio e trombas de elefante! Tudo isto — muitas receitas chegaram até nós — seria hoje dum gosto muito discutível, mesmo admitindo que o estômago consentisse…

Mas os antigos amavam a magnificência, as cores berrantes, os pratos profusamente ornamentados, as peças inteiras que derreavam os ombros dos escravos e concitavam a admiração dos convivas:

«Os olhos fulgem sob as cr’ôas de verbenas,
Passam guisados mil, nadando em molhos flavos,
E em belos pratos de ouro os céleres escravos
Trazem nobres pavões de consteladas penas.
Três grandes javalis e dois veados inteiros
Produzem mudo assombro…»

escreveu Eugénio de Castro em versos rutilantes como jóias, ao evocar um festim de Herodes Antipas, aquele mesmo festim que, a pedido de Salomé, havia de terminar com a decapitação de João Baptista.

Compreendia-se que estes banquetes, verdadeiramente monstruosos, arruinassem os anfitriões, ainda que fossem riquíssimos, como aconteceu a Apicius, autor de dez livros de cozinha, que preferiu suicidar-se a renunciar às opulências e exotismo da mesa.

As pessoas, porém, que se continham numa sobriedade racional e elegante, ainda eram muitas, sobretudo entre os homens cultos.

Vejamos, por exemplo, por simples curiosidade, a ementa de um jantar que Juvenal, o famoso autor das Sátiras, ofereceu a um amigo: ovos; galinha; um cabrito gordo, com mais leite do que sangue; espargos da montanha; uvas, peras e maçãs.

O jantar, que se realizava ao cair da tarde, era a refeição principal, e os Gregos e os Romanos gostavam de tomá-la em companhia de amigos. As outras refeições, que muitos suprimiam, eram extremamente simples, tomadas à pressa, como hoje num snack-bar. Os espíritos delicados buscavam naquelas horas de lassidão e repouso, mais do que um fim, o pretexto para, na ocasião da sobremesa — o simpósio dos Gregos — conversarem sobre Arte, Literatura e Filosofia. O próprio Marcial, o dos terríveis e libérrimos Epigramas, ao fazer um convite em que anunciava a ementa acrescentava que haveria graciosos sem fel, franqueza que os não assustaria no dia seguinte e que nem uma palavra se diria de que houvessem de arrepender-se.

Exemplos destes atenuavam um pouco a vida, sob tantos aspectos cruel e repugnante, da velha Roma imperial. Com a invasão dos Bárbaros, grandezas e misérias ficaram sepultadas nas ruínas dos palácios e dos templos, e a vasta literatura que se ocupava de cozinha perdeu-se para sempre nos incêndios de Alexandria.

A implantação definitiva do Cristianismo, com o seu espírito de austeridade e de renúncia, de que os ascetas, isolados na solidão das suas grutas, eram os guardas vigilantes e um anátema vivo que fulminava todos quantos enveredavam pelos caminhos da sensualidade e da gula, ressuscitou o preceito simples, a pura função vegetativa «comer para viver». Em todo o período vastíssimo da Idade Média regressou-se, de certo modo, aos tempos primitivos, e a caça, exercida pelos senhores feudais, com normas e minúcias que enchem tratados, era a principal fornecedora das mesas nobres.

A Renascença, com a sua admiração desmedida e tanta vez insensata pela Antiguidade Clássica, traria, com o seu amor ao luxo e às artes que falavam aos sentidos, o gosto dos vinhos capitosos e das suculentas vitualhas. E, até nesse ramo, os descobrimentos dos Portugueses influenciaram profundamente os usos e costumes, trazendo para a Europa produtos novos,

ou outros de que os Ocidentais haviam perdido a memória. Renascida, triunfante, a arte culinária, que, mais tarde, no século XVII, viria a fazer uma vítima que ficou célebre: Vatel, mordomo do Grande Condé, o qual, vendo que não chegava a tempo o peixe que devia figurar no jantar que seu amo oferecia a Luís XIV, considerou-se desonrado e atravessou-se na própria espada. De então, e à parte, é claro, os pratos regionais, a cozinha, sobretudo a francesa, atingiu perfeições ignoradas, pela criteriosa selecção das peças, a sábia confecção dos molhos e a larga aplicação dos produtos hortícolas.

Hoje abundam os livros de receitas, os tratados de cozinha, os livros que ensinam a ornamentar as travessas e as mesas. Efectivamente, nunca se tornou tão necessário saber cozinhar bem como na época actual. Porque, cozinhar bem, contràriamente ao que muita gente pensa, não é cozinhar caro, antes representa um valor económico no aproveitamento daquilo que, para os ignorantes, só serve para dar aos gatos.

Saber cozinhar é uma honra, e cultivar uma arte que foi amada dos deuses, os quais, cansados da insipidez da ambrosia, dilatavam as narinas sôfregas para melhor sorverem o aroma forte das reses votivas.

As ligações da Culinária com a Estética parecem ser íntimas, tão grande é o número de escritores e artistas que a ela se dedicavam ou a tinham em grande conta.

No estrangeiro, são legião. Entre nós, Bulhão Pato, por exemplo, poeta interessantíssimo, é, decerto, mais conhecido pela sua caldeirada do que pelos seus poemas; e Eça de Queirós mostra-se-nos um gourmet por excelência, tantas são as suas alusões à mesa delicada, aos vinhos «que falam à alma» e, também, à velha cozinha portuguesa, pesada, talvez, mas consoladora e saborosíssima. Ficará para sempre famoso, como ilustração dum contraste, a ceia do 202, nos Campos Elíseos, com o peixe do grão-duque, encharcado no elevador, e o «barão de Paulliac», cordeiro das lezírias, e, num vetusto solar de Portugal, as favas e o frango assado, cozinhados por uma avó de olhos vesgos, «que tinham um paladar de génio»…

Presente-se bem que Jacinto, o super-requintado Jacinto, foi pela cozinha que começou a iniciar-se nas coisas de Portugal, que depois viria a amar, sincera e enternecidamente.

Simples apodo histórico, como o de Tripéiros aos Portuenses, perpetuar-se-á na celebríssima dobrada que os nossos cozinheiros, em competições internacionais, têm elevado a invejadas culminâncias, arrebatando valorosamente o troféu do vencedor. E quantos exemplos mais não poderíamos citar!

Depois — com vista às senhoras ciumentas… —, mais do que a telefonia, mais do que a televisão, os pratos variados e bem feitos prendem os maridos aos lares. E muitas noivas, que em tudo pensam menos nos tachos e panelas, muito lucrarão com a leitura desta obra, não vá suceder… Mas é melhor contar. Após a primeira refeição por ela preparada, perguntava uma recém-casada ao marido, cheia de solicitude e carinho:

— Diz-me querido, de que prato gostaste mais?
— Das sardinhas de conserva.

A obra monumental da Senhora D. Maria de Lourdes Modesto, eminente especialista, verdadeira doutora em Culinária, evitará, certamente, a ironia destas respostas.

Fernando de Castro Pires de Lima

duas palavras

O CRIADOR, OBRIGANDO O HOMEM A COMER PARA VIVER,
CONVIDA-O PELO APETITE E RECOMPENSA-O PELO PRAZER.

BRILLAT-SAVARIN

A arte de cozinhar tem sido através dos tempos, através de sucessivas gerações, o resultado do esforço bem conhecido e apreciado das donas de casa.
Fruto muitas vezes de graves apreensões e desconsolos, alternando com sucessos e auréolas de fama, um bom prato faz história, quer seja apresentado à mesa dum anfitrião quer seja descrito com mais ou menos pormenor, com mais ou menos sabor a quem o saiba preparar.
Porque uma invenção séria em cozinha é o resultado de várias experiências e diferentes aprovações, a alimentação deixou de ser para a dona de casa de hoje um acto irreflectido, um acaso. Ela sabe que da alimentação dependem a saúde, o bem-estar e o humor dos seus familiares.

Grande Enciclopédia da Cozinha surge no momento em que a dona de casa reclama essa consciência gastronómica que Alexandre Dumas resumia nesta célebre frase: Os animais comem, os homens alimentam-se e os filósofos gastronomizam.

Grande Enciclopédia da Cozinha não pretende ser um livro de receitas. Procura, antes, para a dona de casa um guia útil onde encontrará um sem-número de artifícios da técnica da arte culinária, para a jovem mais ou menos inexperiente um professor incansável e para o amador de bons pratos um excitante para o apetite e onde, de quando em vez, encontrará uma história ou comentário que o farão sorrir.

Assim não tivemos a preocupação de que as receitas incluídas nesta obra fossem originais. Procurámos sobretudo adaptar as fórmulas clássicas aos tempos modernos e ao paladar actual; de velhas fórmulas fizemos novas receitas. Simplificámos principalmente, porque hoje, em cozinha, simplicidade é sinónimo de bom gosto.

O método, a prática e a experiência são factores muito importantes; é por isso que muitas das receitas incluídas neste livro não trazem as quantidades determinadas.
Ninguém desconhece que a cozinha é ao mesmo tempo uma ciência e uma arte — uma ciência não se inventa, portanto também não se inventa um artista culinário.

Grande Enciclopédia da Cozinha é pois uma homenagem a todos os que sabem que a cozinha é, ao mesmo tempo, uma ciência e uma arte.

Maria de Lourdes Modesto

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(.s.d.) Receitas escolhidas para si

Receitas escolhidas para si

[s. d.]

TITLE: Receitas escolhidas para si

SUB TITLE: 

AUTHOR: Francine Dupré

NOTAS DE AUTORIA: Francine Dupré, pseudónimo de Maria de Lourdes Modesto

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: [s. d.]

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: Inst. Culinário da Margarina Vaqueiro

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE:
SELO DE MAR

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: 

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 

OBSERVAÇÕES:

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1955 Receitas apetitosas

Receitas apetitosas

1955

TITLE: Receitas apetitosas

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AUTHOR: Francine Dupré

NOTAS DE AUTORIA: Francine Dupré, pseudónimo de Maria de Lourdes Modesto

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO:1955

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO: 1.ª edição
Outras ed.:
– 2.ª ed. – 1955 (S.A. 27004 P.)
– 3.ª ed. – 1956 (S.A. 27004P.)

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: Inst. Culinário da Margarina Vaqueiro

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE:
SELO DE MAR
Colecção Particular

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN S.A. 26904 P.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 376

OBSERVAÇÕES:

377

MODESTO, Maria de Lourdes, 1930–
Receitas apetitosas / por Francine Dupré. – [Lisboa]: Inst. Culinário da Margarina Vaqueiro, imp. 1955

BN S.A. 26904 P.

Outras ed.:
– 2.ª ed. – 1955 (S.A. 27004 P.)
– 3.ª ed. – 1956 (S.A. 27004P.)

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(.s.d.) Receitas escolhidas para si

Receitas escolhidas para si

[s. d.]

TITLE: Receitas escolhidas para si

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AUTHOR: Francine Dupré

NOTAS DE AUTORIA: Francine Dupré, pseudónimo de Maria de Lourdes Modesto

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: [s. d.]

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: Inst. Culinário da Margarina Vaqueiro

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE:
SELO DE MAR
Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN S.A. 81360 V.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 381

OBSERVAÇÕES:

381

MODESTO, Maria de Lourdes, 1930–
Receitas escolhidas para si / por Francine Dupré. – Lisboa: Inst. Culinário da Margarina Vaqueiro, [s. d.]

BN S.A. 81360 V.

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(s.d.) Boa cozinha todos os dias

Boa cozinha todos os dias

[s.d.]

TITLE: Boa cozinha todos os dias

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AUTHOR: Francine Dupré

NOTAS DE AUTORIA: Francine Dupré, pseud. de Maria de Lourdes Modesto

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: [s.d.]

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: Lisbon

PUBLISHER: Inst. Culinário da Margarina Vaqueiro

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE:
SELO DE MAR
Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: 

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 373

OBSERVAÇÕES:

373

MODESTO, Maria de Lourdes, 1930–
Boa cozinha todos os dias / por Francine Dupré. – Lisboa: Inst. Culinário da Margarina Vaqueiro, [s.d.]

Francine Dupré, pseud. de Maria de Lourdes Modesto

Col. Particular