Só um século mais tarde, um francês, Parmentier, aconselhou ao rei Luís XVI a divulgação desse tubérculo, a batata, rico em propriedades nutritivas e de tão excelente paladar que merecia ser servido em qualquer mesa, mesmo a do Rei.
Aceite e experimentada na corte, a batata em breve era bem recebida pelos nobres e pelo povo, faminto por alguns anos de escassez de alimentos.
Em breve a sua plantação se activava e divulgava, expandindo-se pela Europa e, depois, pelo Mundo inteiro.
Entre os antigos livros portugueses, de culinária, avulta um, escrito em 1765 por Domingos Rodrigues, cozinheiro do rei D. João V.
Esse tratado, muito bem feito, intitulava-se: «Arte de cozinha, dividida em três partes».
O êxito que obteve foi tanto que teve três edições.
O seu autor compilara as receitas do receituário tradicional, provindo dos conventos onde, nesse tempo, se praticava com verdadeira maestria a arte de bem cozinhar.
Quem ler hoje, alguns desses velhos livros, as complicadas receitas, verdadeiramente assombrosas, das iguarias que se comiam então, fica espantado, tanto pela diversidade dos elementos que as compunham como pela sua quantidade.
Alguns desses elementos são tão antagónicos entre si, que chegaríamos a duvidar da excelência de paladar dos nossos antepassados se não nos lembrássemos de muitos pratos tradicionais que chegaram até aos nossos dias, para regalo dos gulosos «gourmets», a quem também não esquecem as doçarias conventuais que constituem muitas das especialidades de terras do nosso país, e que são sempre um motivo de grande prazer para os apreciadores.
Muitos foram os amadores da arte de cozinhar que a ela se renderam e prestaram preito, no século passado e no século em que vivemos.
Poetas, escritores, artistas, médicos, industriais, comerciantes, políticos, oficiais do exército, donos de hotéis, cozinheiros, enfim, foram muitos os bons gastrónomos que editaram livros sobre culinária ou deixaram o seu nome ligado a receitas da arte de cozinhar, que ainda hoje os lembra.
Alexandre Dumas, pai, Carlos Bandeira de Melo, sob o pseudónimo de Carlos Bento da Maia, Paul Plantier, João da Mata, António Maria de Oliveira Melo, escondido sob o nome de Olleboma, Bulhão Pato, Luciano Cordeiro, Teixeira de Vasconcelos, Albino Forjaz de Sampaio, dr. Samuel Maia e tantos outros, todos eles cultores desta arte tão antiga e que, no entanto, é sempre nova.
Muitas senhoras se dedicaram igualmente à difícil tarefa de bem cozinhar.
Em todos os tempos agradou à Mulher preparar os alimentos em deliciosas receitas, muitas da sua autoria.
Nas grandes casas, como nos conventos e mosteiros, a mulher se entregou com prazer à confecção de iguarias que deixaram nome e seguidores.
Ainda hoje, através de livros, dão a sua excelente comparticipação ao apuramento constante da boa cozinha, tanto estrangeira como portuguesa.
São bem conhecidos os nomes de Isalita, Alda de Azevedo, Agrena de Leão, Bertha Rosa Limpo, Mirene, Francine Dupré, Irene Vincy, Maria de Lourdes Modesto e muitas outras.
Compilando, seleccionando, inventando receitas e fazendo-as conhecer através de livros e, mais modernamente, em programas radiofónicos e pela televisão, a mulher de hoje, como a de ontem, trabalha para o constante aperfeiçoamento da gastronomia.
Até que o homem da idade atómica não descubra a alimentação por meio de gotas ou pílulas, vamos cultivando, com maior ou menor saber, esta difícil, mas agradável arte, tão antiga, de bem cozinhar.
Eis a razão de mais um livro depois dos milhares que se têm escrito desde Aspicius e que, esperamos, mereça agrado e bom acolhimento, pois é vosso.