Também as meninas que davam os seus primeiros passos na confeção de receitas, por seu turno, tinham ao seu dispor a “Cozinha para principiantes”. Procurando cobrir todas as necessidades de um público feminino sofisticado e, em alguns casos, já colocado no mercado de trabalho e, por essa razão, com menos tempo para se dedicar a um (muitas vezes) demorado labor culinário, Cancella de Abreu contempla conselhos e (in)formação tanto para momentos em que se espera um maior requinte na mesa doméstica (em “Há convidados”), como para ocasiões de menor disponibilidade para cozinhar (em “Se tem pouco tempo”). Testemunho inegável de que, nessas décadas de 60 e 70 do século xx, a gastronomia adquirira já em Portugal a importância que se traduz na emergência nos media da figura do gourmet encontramo‑la na criação de uma rubrica denominada “Segredos de um gastrónomo”. Célebres eram também os responsáveis pelas cozinhas dos mais afamados restaurantes e cozinhas de hotéis, pelo que se abriu um espaço na revista para entrevistas a esses experts da arte culinária (a “Página do Chef”). Na senda da filosofia segundo a qual a mesa é um espaço de divertimento, e fazendo jus ao espírito fundador da “avó” Annona, a Banquete oferece ao seu leitor uma “Página humorística”. Fruto da realidade da época, aí se encontra, por exemplo, a piada baseada em estereótipos colonialistas, conforme imagem abaixo apresentada.
Impõe‑se uma observação final ao grafismo da revista, em que se destaca um esforço em apresentar bastantes imagens, que nos primeiros números são maioritariamente ilustrações, com uma paleta de cores ainda pouco variada. À medida que os anos vão passando, registam‑se melhorias assinaláveis a este nível, com uma presença cada vez maior da fotografia e um aumento da policromia.
A periodicidade da revista e a sua identidade são abaladas pela mudança de regime político ocorrida em abril de 74. Assim, entre junho e dezembro desse ano são publicados três números duplos (junho‑julho, n.º 172; agosto ‑setembro, n.º 173; outubro‑novembro, n.º 174), sendo a última revista, a 175, publicada em dezembro desse ano sob o formato de índice geral das receitas de toda a coleção. Suspensa durante dois anos, a revista tem um fugaz renascimento, resumido à edição de um número, o 176 de dezembro de 1977.
No editorial que dirige nesse último número às suas “queridas, dedicadas e habituais leitoras” (p. 2), Maria Emília Cancella de Abreu explica as causas políticas que estiveram por detrás da suspensão do periódico culinário. A reestruturação da anterior empresa nacional Cidla dera lugar à Petrogal, nova proprietária da revista, tendo sido necessários dois anos para se atingir a estabilização que permitiu retomar a publicação herdada da estrutura anterior. Embora não tenha prosseguido, a obra evidenciava uma viragem que novos ventos impunham à redação editorial. Reduz‑se drasticamente o espaço de formação e lazer, passando a aposta a residir no predomínio técnico da apresentação de receitas. Uma nota final, denunciadora da inflação a que se assistira no período que mediou entre a série contínua de 1960‑1974 e a que se tentava reiniciar em 1977. O custo por revista quase triplicou, passando de 7$50 (preço do n.º 174) para 20$00 cada.