Categoria: Sub Menus
2.2 Colunas 2.2.2 De Gastronomia
- Autor do artigo Por canthecan_bfmhxg
- Data do artigo Dezembro 17, 2025
2.2 Colunas
2.2.2 De Gastronomia
638
APERITIVO
Almanaque . — Lisboa . — (Out. 1959), p. [146]
BN P.P. 10517 V.
639
ÁVILA, Artur d’
Sabores / Artur d’Ávila
Tempo Livre . — Lisboa . — N. 1 (Nov. 1990) — n. 15 (Fev. 1992)
Coluna de periodicidade regular, versando as características gastronómicas das diferentes regiões de Portugal, com indicação de alguns restaurantes mais representativos
BN P.P. 14849 V.
640
O BOM Garfo
Correio da Manhã . — Lisboa . — A. 2, n. 603 (29 Nov. 1980), p. 17
BN J. 3929 V.
641
CALVÁRIO, José Emílio
Mercado de Santa Clara / José Emílio Calvário
Elle . — Lisboa . — N. 1 (Out. 1988), p. [93], coln. Restaurantes
BN P.P. 18886 V.
642
CAMPOS, Maria do Rosário Castiço de, e outro
Curiosidades lousanenses — Gastronomia / Maria do Rosário Castiço de Campos, João Pedro Mascarenhas de Lemos
Arunce . — Lousã . — N. 1 (Jun. 1989), p. 83-89
BN P.P. 19638 V.
643
CARDOSO, Miguel Esteves, 1955-
O Papa [Açorda] / Miguel Esteves Cardoso
K . — Lisboa . — N. 1 (Out. 1990), p. 94, coln. Restaurantes
BN P.P. 19959 V.
644
COMER… pela medida grande / o Gargan… Minha
Modas e Bordados . — Lisboa . — N. 3245 (17 Abr. 1974), p. 39, coln. [Gastronomia]
BN J. 4139 M.
645
CONSTANT, Daniel
Aproveite o seu domingo / Daniel Constant
O Primeiro de Janeiro . — Porto . — A. 84, n. 65 (7 Mar. 1952), p. [8], coln. Turismo e Gastronomia
BN J. 2044 G.
646
D. [OM] Pipas, pseud.
António
A Capital . — Lisboa . — S. 2, a. 10, n. 3209 (27 Ago. 1977), p. 19, coln. A Mesa do Dia
Pseud. colectivo
BN J. 2860 V.
647
GARFO & Faca
Diário de Lisboa . — Lisboa . — A. 67, n. 22367 (20 Maio 1987)
Coluna semanal de gastronomia
BN J. 4349 M.
648
GIL, José Nogueira
Restaurante / José Nogueira Gil
Público . — Lisboa . — N. 2296 (23 Jun. 1996), «Pública», p. 67
Coluna semanal
BN J. 4894 V.
649
GOUCHA, Manuel Luís, 1954-
Bom garfo / Manuel Luís Goucha
Semanário . — Lisboa . — A. 4, n. 176 (4 Abr. 1987), supl. Olá, p. 46
BN J. 4341 V.
650
GOUCHA, Manuel Luís, 1954-
Patchuka, de branco… / Manuel Luís Goucha
O Jornal . — Lisboa . — A. 9, n. 471 (2-8 Mar. 1984), 2.º Caderno, p. 16, coln. Em Banho Manel
BN J. 3472 V.
651
GOUCHA, Manuel Luís, 1954-
Lambareiro me confesso… / Manuel Luís Goucha
Sábado . — Lisboa . — A. 1, n. 1 (25 Jun. 1988), p. 125-126, coln. Sopa de Letras
BN P.P. 18683 V.
652
GUIMARÃES, Manuel
À mesa com… / Manuel Guimarães
Tempo Livre . — Lisboa . — N. 24 (Dez. 1992)
Coluna de periodicidade regular, versando curiosidades gastronómicas sobre figuras conhecidas ou acontecimentos
BN P.P. 14849 V.
653
GUIMARÃES, Manuel
De mesa em mesa / por Manuel Guimarães
A Capital . — Lisboa . — A. 29, n. 9050 (25 Jan. 1997), A Capital ao Sábado
Coluna semanal
BN J. 2860 V.
654
GUTIERREZ, José
Sabores / José Gutierrez
Tempo Livre . — Lisboa . — N. 16 (Mar. 1992)
Coluna mensal, versando as características gastronómicas e vinícolas de diferentes regiões de Portugal, com indicação de alguns restaurantes mais representativos
BN P.P. 14849 V.
655
HERVIAS Y MENDIZÁBAL, Alfredo
Coração, cabeça e estômago / Alfredo Hervias y Mendizábal
O Independente . — Lisboa . — N. 401 (19 Jan. 1996), supl. Vida
Coluna de periodicidade regular, de crítica gastronómica e receitas
BN J. 4716 V.
656
INSPECTOR Gourmet, pseud.
Dos mitos e dos bifes
Almanaque . — Lisboa . — (Jun. 1960), p. [150]-153, coln. Culinária
Pseud. de Luís Sittau Monteiro (?)
BN P.P. 10517 V.
657
LAPA, Melo
Amêndoa a rainha da doçaria portuguesa / Melo Lapa
Diário de Notícias . — Lisboa . — A. 112, n. 42953 (25 Out. 1986), supl. Jornal da Comida, p. [49]-52
BN J. 2501 G.
658
A MELGA no prato
Diário de Lisboa . — Lisboa . — A. 51, n. 17445 (17 Jul. 1971), supl. A Mosca, p. 10
Assinado por Manuel Pedrosa (?), pseud. de Luís Sittau Monteiro
BN J. 4349 M.
659
MENDES, Alfredo
O pão-de-ló de Margaride : comer e chorar por mais / Alfredo Mendes; fot. Ângela Velhote
Diário de Notícias . — Lisboa . — (26 Ago. 1990), supl. DN Magazine, p. 40-42
BN J. 2501 G.
660
MESTRE, Januário, e outro
Restaurar a restauração / Januário Mestre e Severiano Fortes
K . — Lisboa . — N. 2 (Nov. 1990), p. 90, coln. Restaurantes
BN P.P. 19959 V.
661
MIRANDA, José, e outro
A grande festa esquecida / José Miranda e Fernando Fernandes
K . — Lisboa . — N. 3 (Dez. 1990), p. 102, coln. Restaurantes
BN P.P. 19959 V.
662
MODESTO, Maria de Lourdes, 1930-
No «Costa Azul» : um erro irresistível / Maria de Lourdes Modesto
Observador . — Lisboa . — N. 1 (19-25 Fev. 1971), p. 84, coln. A Mesa
BN P.P. 13228 V.
663
MONTEIRO, Luís de Sittau, 1926-1993
Comer (e bem) à borda d’água / Luís de Sittau Monteiro
Semanário . — Lisboa . — A. 2, n. 94 (7 Set. 1985), p. 42, coln. Ao Sabor do Dia
BN J. 4341 V.
664
MONTEIRO, Luís de Sittau, 1926-1993
Taberna do «Caldeiro» : outro restaurante aberto ao domingo / Luís de Sittau Monteiro
O Jornal . — Lisboa . — A. 1, n. 42 (13-19 Fev. 1976), p. 31
BN J. 3472 V.
665
MORAIS, Alfredo de, 1872-1971
Um jantar de poetas / Alfredo de Morais
O Cronista . — Lisboa . — A. 1, n. 14 (4 Dez. 1954), p. 3, coln. Gastronomia
BN J. 717 A.
666
MORAIS, Alfredo de, 1872-1971
Quatro bifes célebres há cinquenta anos / Alfredo de Moraes
Panorama . — Lisboa . — S. 2, n. 12 (1955), p. [76-89], coln. Gastronomia
Receitas de : Bife «À Marraro», «À Faustino», «À Jansen» e «À Inglesa»
BN J. 5308 B.
667
PAIXÃO, Jorge
Portofino… / Jorge Paixão
Elle . — Lisboa . — N. 6 (Mar. 1989), p. [22], coln. Actu-elle : Restaurantes
BN P.P. 18683 V.
668
PESSOA, Ana Maria, 1957-
Conventual : a tradição… / Ana Maria Pessoa
Elle . — Lisboa . — N. 6 (Mar. 1989), p. [22], coln. Actu-elle : Restaurantes
BN P.P. 18683 V.
669
PRAÇA, Afonso
As «virtudes» do borrego / Afonso Praça
O Jornal . — Lisboa . — A. 13, n. 638 (15-21 Maio 1987), supl. O Jornal Ilustrado, p. 37, coln. Faca e Garfo
BN J. 3472 V.
670
QUITÉRIO, José
Crónica gastronómica / José Quitério
Tilt . — Lisboa . — N. 3 ([1975]), p. 17-18
BN P.P. 13377 V.
671
QUITÉRIO, José
As manjedouras da cultura / José Quitério
Expresso . — Lisboa . — N. 581 (17 Dez. 1983), supl. A Revista, p. 9R, coln. Sobre Mesas
A coluna continuou com o tit. À Mesa
BN J. 1299 A.
672
RAMOS, David Lopes
Oh xara oh que linda xara ! / David Lopes Ramos
O Diário . — Lisboa . — A. 13, n. 4239 (5 Nov. 1988), supl. Tempos Livres, p. [1], coln. Cozido à Portuguesa
BN J. 3602 V.
673
RESTAURANTE Porto de Abrigo; Cervejaria Nova América
República . — Lisboa . — S. 2, a. 61, n. 14788 (1 Abr. 1972), supl. Fim de Semana, p. V-VI, coln. Gastronomia
BN J. 1552 G.
674
RESTAURANTES
Diário de Notícias . — Lisboa . — N. 46693 (26 Out. 1996), «Outonos», p. 44
Coluna semanal
BN J. 2501 G.
675
SOARES, Manuel Inês
Sabores do mês / Manuel Inês Soares
Tempo Livre . — Lisboa . — N. 49 (Mar. 1995)-
Coluna mensal, dedicada a um roteiro de pratos típicos e respectivos restaurantes
BN P.P. 14849 V.
676
UMA TARTE à noite […]
Grande Reportagem . — Lisboa . — N. 1 (7-13 Dez. 1984), p. [15], coln. …E Sabores
BN P.P. 17279 V.
677
TORGAL, Gonçalo dos Reis
Pequeno roteiro de tascos e tasquinhas e algumas histórias de comer / Gonçalo dos Reis Torgal
O Comércio do Porto . — Porto . — A. 123, n. 305 (5 Abr. 1987), supl. Finalmente… Domingo, p. 15, coln. Panela ao Lume
BN J. 2045 G.
678
VACONDEUS, Filipa
Restaurante «Pelé» / Filipa Vacondeus
O País . — Lisboa . — A. 3, n. 105 (6 Jan. 1978), p. 22, coln. Gastronomia
BN J. 3596 V.
679
VALADAS, Félix, pseud.
Nelson Reis e uma opção (adiável) : o «Saraiva’s» / Félix Valadas
Negócios . — Lisboa . — N. 15 (25 Dez. [1981]-24 Jan. 1982), p. 45-48, coln. A Mesa do Canto
Félix Barradas é pseud. de Cristóvão Moreira
BN P.P. 15626 V.
680
VIDIGAL, Rogério
Rota que luz assim, é de ouro / Rogério Vidigal
Diário de Lisboa . — Lisboa . — A. 66, n. 22199 (25 Out. 1986), p. 10, coln. [Gastronomia]
BN J. 4349 M.
681
VIEGAS, Francisco José, 1962-
Coração & Estômago / Francisco José Viegas
Visão . — Lisboa . — N. 186 (10 a 16 Out. 1996), p. 92
Coluna semanal
BN P.P. 21072 V.
2.2 Colunas 2.2.1 De Culinária
- Autor do artigo Por canthecan_bfmhxg
- Data do artigo Dezembro 17, 2025
2.2 Colunas
2.2.1 De Culinária
581
ALGUMAS receitas para ti…
Nós as Mulheres . — Lisboa . — ([Mar. 1978]), p. [10]
Publicação do Movimento Democrático das Mulheres
BN P.P. 4202 A.
582
ALTA cozinha
Diário Illustrado . — Lisboa . — A. 26, n. 8714
(23 Jun. 1897), p. [1] — n. 8894 (27 Dez. 1897), p. [1]
Coluna (saiu 130 vezes) com receita em Francês
BN J. 1244 G.
583
Ao gosto do Chefe
Semanário . — Lisboa . — N. 674 (19 Out. 1996), «Olá»,
p. 78
Coluna semanal, com receitas
BN J. 4341 V.
584
Arte culinaria
O Lisboa-Coimbra . — Lisboa . — A. 1, n. 1 (4 Out. 1889),
p. 7
Com receitas
BN J. 3580 12 M.
585
BAR & Mesa
Casa Cláudia . — Linda-a-Velha . — A. 9, n. 106 (Nov. 1996)
Coluna mensal com receitas
BN P.P. 18677 V.
586
BOA mesa
Bem Viver . — Lisboa . — A. 1, n. 2 (Fev. 1953)
Revista dir. por Fernanda de Castro, il. por Inês Guerreiro e cujo n. é
totalmente dedicado à cozinha
BN P.P. 10029 V.
587
BRITO, Olga de
Petiscos madeirenses / Olga de Brito
Jornal-Magazine da Mulher . — Lisboa . — A. 2, n. 21 (Maio
1952), p. 38
Com receitas
BN J. 4703 B.
588
Como se fazem merengues
O Jornal da Mulher . — Lisboa . — A. 1, n. 12 (20 Dez.
1910), p. 115
Receita
BN J. 1806 B
589
COMPOTAS e geleias
Jornal-Magazine da Mulher . — Lisboa . — N. 3 (Ago. 1950),
p. 29
Com receitas
BN J. 4703 B.
590
CONCEIÇÃO
Cozinha e casa de jantar / Conceição
Jornal-Magazine da Mulher . — Lisboa . — N. 1 (Jun. 1950);
n. 2 (Jul. 1950)
Com receitas
BN J. 4703 B.
591
COZINHA da Caras
Caras . — Lisboa . — N. 61 (2 Nov. 1996)
Coluna semanal com receitas
BN P.P. 22441 V.
592
CULINÁRIA
Correio da Manhã . — Lisboa . — N. 6326 (1 Set. 1996),
«Correio de Domingo», p. [50]
Coluna semanal
BN J. 3929 V.
593
CULINÁRIA
Família Cristã . — Lisboa . — A. 13, n. 7 (Jul. 1996)
Coluna mensal
BN P.P. 10138 V.
594
CULINÁRIA
Jornal-Magazine da Mulher . — Lisboa . — A. 1, n. 6 (Dez.
1950) — a. 2, n. 15 (Nov. 1951)
Com receitas
BN J. 4703 B.
595
CULINÁRIA
Nova Gente . — Lisboa . — N. 1 (22-28 Set. 1976), p. 49
Coluna de culinária com receitas
BN P.P. 3925 A.
596
CULINÁRIA / G. A.
Selecções Femininas . — Lisboa . — A. 1, n. 1 (Maio 1954) —
n. 7 (Natal 1954)
Coluna de receitas
BN P.P. 10086 V.
597
CULINÁRIA
A Sementeira . — Lisboa . — S. 2, a. 1, n. 2 (Fev. 1916), p. 30
BN J. 3653 B.
598
A CULINÁRIA
Vida Feminina . — Lisboa . — A. 1, n. 4 (Jul. 1925), p. 14;
a. 1, n. 6 ([Ago. 1925]), p. 17
Com receitas
BN J. 2686 4 B.
599
CURSO elementar de pastelaria : para senhoras e meninas
O Jornal da Mulher . — Lisboa . — A. 1, n. 9 (5 Nov. 1910),
p. 73-74; n. 10 (20 Nov. 1910), p. 79; n. 11 (5 Dez. 1910),
p. 98; a. 2, n. 13 (5 Jan. 1911), p. 123; n. 15 (5 Fev. 1911),
p. 142; n. 16 (20 Fev. 1911), p. 154; n. 19 (30 Maio 1911),
p. 191; n. 21 (30 Jun. 1911), p. 215
Tem indicação de que continua, mas não mais aparece . — Sem receitas
BN J. 1806 B.
600
OS DOCES de Natal
Jornal-Magazine da Mulher . — Lisboa . — A. 2, n. 16 (Dez.
1951), p. 21
Com receitas
BN J. 4703 B.
601
ESQUECIDAS do Convento de Odivelas
Mulheres Magazine . — Lisboa . — S. 2, n. 3 (Jan. 1990),
p. 49
BN P.P. 4135 A.
602
FIGUEIREDO, C. Fróis de
Sopa da pedra / C. Fróis de Figueiredo
O Ponto . — Lisboa . — A. 1, n. 12 (22 Jan. 1981), p. 31,
coln. Prá Mesa
BN J. 4101 V.
603
FONSECA, Isabel Roque da
Conchas à mesa! / por Isabel Roque da Fonseca
Máxima . — Lisboa . — A. 1, n. 8 (Maio 1989)
Coluna com receitas
BN P.P. 18885 V.
604
GASTRONOMIA
Almanach das Familias [para] 1894 . — Lisboa . — (1893),
p. 50-90
Com receitas
BN P.P. 335 V
605
GOUCHA, Manuel Luís, 1954-
Cozinha / Manuel Luís Goucha
Máxima . — Lisboa . — A. 1, n. 6 (Mar. 1989)
Coluna com receitas
BN P.P. 18885 V.
606
GOUCHA, Manuel Luís, 1954-
Cozinha económica / por Manuel Luís Goucha
TV Guia . — Lisboa . — A. 18, n. 904 (1 a 7 Jun. 1996), p. 136
Com receitas
BN P.P. 15283 V.
607
GUIMARÃES, Matilde
Matilde Guimarães revela os segredos dos comeres
alentejanos : [entrevista acerca do livro «Comeres
Alentejanos» / conduzida por] Laura Torres
Máxima . — Lisboa . — A. 2, n. 19 (Abr. 1990), p. 182-183,
185 e [187-191]
Com receitas do livro acima citado
BN P.P. 18885 V.
608
GULODICES / Y
ABC . — Lisboa . — A. 2, n. 74 (8 Dez. 1921), p. [10]
Com receitas
BN J. 2507 M.
609
GULODICES : preparação de «Marrons glacés» / Gulosa
ABC . — Lisboa . — A. 5, n. 227 (20 Nov. 1924), p. [6]
Com receita
BN J. 2507 M.
610
IDEIAS com chocolate : [receitas Nestlé]
Prática & Criativa . — Queluz . — N. 1 (Mar. 1991)
Coluna de receitas
BN P.P. 20310 V.
611
Licor de flor de laranja; Pão de ló à franceza
O Recreio : jornal das famílias . — Lisboa . — N. 10
(Out. 1937), p. 234-235, coln. Economia Domestica
Nesta coluna aparecem receitas várias, entre as quais de culinária
BN P.P. 11722 V.
612
MARIA
Perdizes de conserva / Maria
Panorama . — Lisboa . — S. 4, n. 7 (Set. 1963), p. [34],
coln. Cozinha Portuguesa
BN J. 5308 B.
613
MARTINS, Maria
Receita / Maria Martins
Público . — Lisboa . — N. 2296 (23 Jun. 1996), «Pública»,
p. 66
Coluna semanal
BN J. 4894 V.
614
MILENA
Culinária / Milena
Jornal-Magazine da Mulher . — Lisboa . — A. 1, n. 7
(Jan. 1951), p. 27
Com receitas
BN J. 4703 B.
615
MODESTO, Maria de Lourdes, 1930-
Brandade de bacalhau / Maria de Lourdes Modesto
Marie Claire . — Lisboa . — N. 1 (Nov. 1988), p. 166-169,
coln. Cozinha Marie Claire
BN P.P. 18919 V.
616
MODESTO, Maria de Lourdes, 1930-
Lagosta suada / Maria de Lourdes Modesto
Panorama . — Lisboa . — S. 4, n. 2 (Jun. 1962), p. [58-59],
coln. Cozinha Portuguesa
BN J. 5308 B.
617
A NOSSA casa
Jornal-Magazine da Mulher . — Lisboa . — A. 2, n. 22
(Dez. 1952), p. 24
Com receitas
BN J. 4703 B.
618
PARA fazer a bôca dôce…
Jornal da Favorita . — Lisboa . — A. 1, n. 1 (1 Out. 1950) —
a. 26, n. 303 (Dez. 1975)
Coluna com receitas
BN J. 1591 V.
619
PARAÍSO, Albertina
[Receitas] / Albertina Paraiso
Almanach das Senhoras Portuguezas e Brazileiras para
1888 . — Porto . — (imp. 1887), p. 53-54, 64, 78, 80, 83, 92,
95, 106, 109, 112, 118, 127, 140, 168 e 172
BN P.P. 6405 P.
620
PARREIRA, Maria de Castro
Jantar de festa / Maria de Castro Parreira
Panorama . — Lisboa . — S. 4, n. 12 (Dez. 1964), p. [25]-27,
coln. Cozinha Portuguesa
Ementa e receitas
BN J. 5308 B.
621
PEQUENOS quéques de farinha d’arroz
O Jornal da Mulher . — Lisboa . — A. 1, n. 9 (5 Nov. 1910),
p. 72
Receita
BN J. 1806 B.
622
PIC-NIC
O Jornal da Mulher . — Lisboa . — A. 2, n. 23 (30 Jul. 1911),
p. 238
Receitas
BN J. 1806 B.
623
PORRU, Maria Paola
Culinária / Maria Paola
K . — Lisboa . — N. 2 (Nov. 1990)
Coluna de periodicidade regular
BN P.P. 19959 V.
624
PROENÇA, Maria
Cozinha Marie Claire / Maria Proença
Marie Claire . — Lisboa . — N. 38 (Dez. 1991)
Coluna com receitas
BN P.P. 18919 V.
625
RECEITA
ABC . — Lisboa . — A. 1, n. 2 (22 Jul. 1920), p. 12, coln.
Confidencias femininas do «ABC»; a. 1, n. 3 (29 Jul. 1920),
p. 14; a. 1, n. 4 (5 Ago. 1920), p. 14
BN J. 2507 M.
626
RECEITAS
Lar . — Porto . — N. 1 (Abr. 1936) — n. 12 (Mar. 1937)
BN J. 2928 B.
627
RECEITAS caseiras
Manual das Familias . — Lisboa . — ([189-?]), p. 3
BN J. 2455 46 M.
628
RECEITAS especiais
Prática & Criativa . — Queluz . — N. 1 (Mar. 1991)
BN P.P. 20310 V.
629
RECEITAS Pescanova
Inspirações . — Lisboa . — A. 2, n. 20 (Set. 1996), p. 49
BN P.P. 22290 V.
630
REIS, Fernando
Culinária nativa de S. Tomé : o calulu / Fernando Reis
Panorama . — Lisboa . — S. 4, n. 11 (Jun. 1964), p. 48, coln.
Cozinha Portuguesa
BN J. 5308 B.
631
RESTAURANTE Nobre
Diário de Notícias . — Lisboa . — N. 46611 (3 Nov. 1996),
«Notícias Magazine», p. 78-80, coln. «Mesa à Portuguesa»
Com receitas
BN J. 2501 G
632
SEGREDOS de culinária / Y
ABC . — Lisboa . — A. 4, n. 166 (20 Set. 1923), p. [7]
Com receitas
BN J. 2507 B.
633
SÉNICA, Deolinda
Culinária / Deolinda Sénica
Mulher d’Abril . — Lisboa . — N. 1 ([1980]), p. 9
Receitas
BN P.P. 15592 V.
634
SOUSA, Sofia de
Secção culinaria / Sophia de Sousa
Jornal de Agricultura e Horticultura Pratica . — Porto . —
A. 1, n. 1 (1 Jan. 1894), p. 11
Com receitas
BN J. 966 13 P
635
TRADIÇÕES culinárias
A Idade não conta . — Loures . — N. 7 (Maio 1995)
Coluna, com receitas, de periodicidade irregular
BN P.P. 21760 V.
636
AS TRANSFORMAÇÕES porque [sic] pode passar um bolo… / Y
ABC . — Lisboa . — A. 2, n. 95 (4 Maio 1922), p. 7
Com receitas
BN J. 2507 M.
637
VACONDEUS, Filipa
As minhas receitas / Filipa Vacondeus
TV Mais . — Lisboa . — A. 3, n. 136 (1 Set. 1995)
Coluna de periodicidade regular
BN P.P. 21035 V.
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Publicações Periódicas
- Autor do artigo Por canthecan_bfmhxg
- Data do artigo Dezembro 17, 2025
Publicações Periódicas
Sobre o cozinhado dos alimentos que se não comem crus: Uma leitura das práticas culinárias segundo o Tratado Completo de Cozinha e de Copa de Carlos Bento da Maia (1904)
Sandra Morais - Universidade de Coimbra
sfernandesmorais@gmail.com
Doutoranda em Patrimónios Alimentares: Culturas e Identidades na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
CHSC – Centro de História Sociedade e Cultura e CIES-ISCTE – Centro de Investigação e Estudos em Sociologia
Resumo
O Tratado Completo de Cozinha e de Copa, escrito por Carlos Bento da Maia, é uma obra de referência que marcou a difusão do saber culinário ao longo da primeira metade do século XX. Apesar da reconhecida importância deste livro e do autor no panorama da literatura culinária portuguesa são escassos os estudos que lhe foram dedicados.
Neste trabalho refletimos sobre as práticas culinárias portuguesas na sua dimensão histórica, centrando-nos nos contributos da literatura culinária e estabelecendo relações com os aspetos materiais e culturais da confecção alimentar no espaço doméstico. Apresentamos os resultados de uma análise quantitativa e qualitativa com base em 495 receitas do livro em estudo, suportando-nos nas apreciações que Bento da Maia registou na secção “Sobre o cozinhado dos alimentos que se não comem crus”.
A caracterização do receituário, atendendo aos métodos e técnicas culinárias, e particularmente às técnicas de cocção e de conservação dos alimentos, proporcionou uma interpretação à luz da cronologia da transição energética e tecnológica das primeiras décadas de 1900 em Portugal, destacando o papel destes fatores na evolução das práticas culinárias, contribuindo simultaneamente para ampliar o conhecimento da literatura culinária portuguesa do século XX.
Palavras–chave
Literatura culinária, Práticas culinárias, Cozinha Portuguesa, Energia e Tecnologia, Século XX.
Introdução
O título escolhido por Carlos Bento da Maia para o seu livro – Tratado Completo de Cozinha e de Copa – não foi fortuito: trata-se de facto de um manual extenso e minucioso. Relevante para a difusão da arte culinária ao longo da primeira metade do século XX, e aberta a múltiplas perspetivas de análise, esta obra não foi, contudo, objeto de muitos estudos.
A cozinha, enquanto prática social e cultural, reflete dinâmicas históricas, materiais e tecnológicas, e o Tratado constitui uma fonte privilegiada para compreender estas interseções no contexto português. Neste estudo, analisamos as práticas culinárias descritas na obra, com particular atenção à secção “Sobre o cozinhado dos alimentos que se não comem crus”, considerando-as à luz das transições energéticas e tecnológicas das primeiras décadas do século XX em Portugal, em particular, no caso de Lisboa.
Esta investigação visa caracterizar as técnicas e métodos culinários registados no Tratado, com destaque para os processos de cocção e conservação dos alimentos. A análise baseia-se numa amostra representativa de 495 receitas, permitindo compreender os métodos mais frequentes na obra e identificar indícios das transformações em curso nas cozinhas portuguesas daquele período.
Estruturamos o artigo em quatro partes. Na primeira, fazemos uma breve contextualização da literatura culinária portuguesa e do cenário tecnológico do período em análise. Na segunda, apresentamos dados biográficos de Carlos Bento da Maia e uma visão geral do Tratado Completo de Cozinha e de Copa, com especial atenção para a secção “Sobre o cozinhado dos alimentos que se não comem crus”. Prosseguimos com a análise quantitativa e qualitativa das técnicas culinárias presentes no receituário e concluímos tecendo algumas considerações acerca dos resultados alcançados.
A literatura culinária portuguesa do século XX
O Tratado Completo de Cozinha e de Copa, de Bento da Maia, sendo considerado uma obra de referência produzida em Portugal na primeira metade do século XX, não foi objeto de uma análise aprofundada. Contudo, aspetos relevantes do livro foram tratados no âmbito da história da alimentação. A título de exemplo, as ementas sugeridas por Bento da Maia no seu Tratado foram estudadas e comparadas com as publicadas vinte anos mais tarde na Ilustração Portuguesa, numa análise da dieta e das mudanças dos hábitos alimentares ao longo das primeiras décadas do século XX.2 Procurando ecos de marcadores da identidade culinária regional e nacional, na literatura culinária do início do século passado, o Tratado Completo de Cozinha e de Copa foi destacado pelo pioneirismo face ao número de receitas regionais incluídas, sobretudo do Alentejo e Trás-os-Montes, apesar de não se assumir como um livro de cozinha portuguesa. 3 A obra de Bento da Maia foi igualmente analisada no estudo sobre a introdução dos francesismos culinários na língua portuguesa, sublinhando-se o recurso a vocabulário português e o aportuguesamento de termos culinários. 4
Sendo escassas as reflexões sobre a obra que motivou este estudo, certo é que a literatura culinária portuguesa do século XX, extensa e diversificada, foi objeto de investigação por autores de referência, que realçaram as características próprias desse legado, atendendo ao contexto social, político e económico da época, bem como às influências nas práticas alimentares dos portugueses. Em BiblioAlimentaria, um trabalho de apresentação do acervo documental e bibliográfico da Universidade Coimbra, pertinente para os estudos da alimentação, surgem artigos, mais ou menos exaustivos, de livros de culinária publicados no início do século XX, como por exemplo, Manual Completo de Cozinha Moderna (1910), O cozinheiro Prático (1912) ou a edição da década de 1930 de Isalita. 5 A apreciação da obra Cosinha Portuguesa (2ª ed.1902) mereceu uma análise detalhada do seu conteúdo, sublinhando o enquadramento num movimento de afirmação do nacionalismo culinário.6 Igualmente objeto de análise foram os primeiros livros de receitas escritos por mulheres portuguesas, tratando o conteúdo das obras num diálogo com os papéis exercidos pelas mulheres nos finais do século XIX e início do século XX.7 Isabel Drumond Braga e Maria Cecília Pilla 8 estudaram os livros de Rosa Maria, em Portugal e no Brasil, publicações populares durante a primeira metade do século passado. O processo de criação e construção de um best seller no contexto dos livros de cozinha portuguesa, o Livro de Pantagruel, inspirou igualmente estudos 9. Uma obra pioneira enquanto marcador de um receituário nacional, Cozinha Portuguesa de António Maria de Oliveira Bello (OLLEBOMA) foi analisada por Fábio Guerreiro. 10 Raquel Mouta contribuiu para esclarecer o papel de Odette Cortes Valente na construção da identidade culinária regional acompanhando as iniciativas editoriais iniciadas em 1962. 11 Sobre uma obra mais recente, e de reconhecida importância na fixação de uma matriz da cozinha tradicional, é o trabalho desenvolvido por Margarida Abreu sobre o livro Cozinha Tradicional Portuguesa de Maria de Lurdes Modesto, 12 que apresenta uma análise exaustiva do seu conteúdo e a contextualização no universo das publicações dedicadas à cozinha portuguesa. São ainda relevantes diversos estudos sobre publicações periódicas femininas portuguesas do início do século XX tratando, no seu conjunto, temas como a divulgação e formação culinária, os ideais de economia doméstica, a publicidade aos eletrodomésticos, a promoção das modernas energias, as influências internacionais e a construção da identidade da cozinha portuguesa. 13
No enquadramento do tema deste estudo, ainda no quadro da literatura culinária, importa conhecer o panorama editorial da época e as eventuais influências na obra literária do autor em questão. A obra de Bento da Maia surgiu numa época, inaugurada no século XIX, marcada pela crescente diversificação de publicações culinárias destinadas ao grande público.14 Ainda na década de 1870, conheceram-se títulos importantes da literatura da especialidade: O Cosinheiro dos Cosinheiros de Paul Plantier (1870) e a Arte de Cozinha de João da Matta (1876). Numa breve análise, constatamos que são notórias as semelhanças das explanações, redação e estrutura nas secções “Sobre o cozinhado dos alimentos que se não comem crus” de Bento da Maia e “Preparação e Cocção dos Alimentos” 15 de Paul Plantier. A falta de originalidade na abordagem de Bento da Maia é contrabalançada com aspetos distintivos do discurso transmitido, como o tom didático, as noções sobre refrigeração dos alimentos e a apresentação de tecnologia culinária inovadora.
Um pouco mais perto da data de publicação do Tratado Completo de Cozinha e de Copa salientam-se obras como A cosinha Portuguesa, Arte Culinária e Preliminares (1899) editado pela Imprensa Académica de Coimbra, reunindo contributos de inúmeras senhoras, o Cosinheiro dos Pobres (1901) de Michaela Brites de Sá Carneiro e, um pouco mais tarde, Manual Completo de Cozinha Moderna (1910). Estas obras, dedicadas às donas de casa, são exemplos da afirmação da identidade culinária nacional e da propagação de edições destinadas a grupos sociais com menos poder de compra.16 O Tratado de Bento da Maia partilha estas características, nomeadamente por coligir contributos de inúmeras colaboradoras, como veremos adiante.
1 Esta investigação foi financiada pela FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito de uma bolsa individual de doutoramento (referência 2022.11930.BD)
2 Marques 1991: 619–621.
3 Braga 2014.
4 Cândido 2021.
5 Soares e Gomes 2018.
6 Soares 2018.
7 Braga 2008.
8 Braga e Pilla 2018.
9 Braga e Castro 2013; Braga 2023.
10 Guerreiro 2018.
11 Mouta 2023.
12 Abreu 2018.
13 cf. Agostinho 2007; Guimarães 2007; Gomes 2011; Braga e Braga 2012; Braga 2020a; Braga 2020b; Iken 2019; Iken 2023; Pardal 2023.
14 Soares e Gomes 2018: 39.
15 Plantier 1890: 1-7.
16 Soares 2018:163; Cândido 2021: 30.
Energia e tecnologia culinária em Portugal no início do século XX
A publicação do Tratado Completo de Cozinha de Copa ocorre na primeira década do século XX, época marcada pela difusão tecnológica, de produtos e serviços, como sejam a água canalizada, o aquecimento a carvão, a iluminação a gás ou os novos equipamentos domésticos, que elevaram os padrões de conforto material nos domicílios face às épocas anteriores.17 Relativamente à adopção de novas energias, vivia-se a primeira fase da transição energética em Portugal, compreendida entre finais do século XIX e a Primeira Guerra Mundial, caracterizada pela substituição da lenha e do carvão vegetal pelo carvão mineral ou pelo coque, e coincidindo com os primeiros avanços no uso do gás e da eletricidade.18 Em Lisboa, a iluminação a gás teve início em 1848, seguindo-se o Porto em 1855 e Coimbra um ano mais tarde.19 A eletricidade chega também aos grandes centros urbanos portugueses entre finais do século XIX e o início do século XX, com aplicação sobretudo na iluminação pública, nos transportes e comunicações.20 Apesar do progressivo aumento do consumo de gás e eletricidade até à Primeira Guerra Mundial, foi modesta a sua aplicação no quotidiano doméstico, e ainda mais, nas cozinhas portuguesas.21 Na realidade, os padrões de consumo dos combustíveis evoluíram de forma muito diferente consoante as camadas sociais, as condições socioprofissionais ou a localização geográfica. A distinção entre o meio rural e o meio urbano assume importância, sendo que as duas maiores cidades, Lisboa e Porto, assistiram a transformações relativamente mais cedo. A proximidade do mar, e por essa via, a facilidade em aceder a combustíveis importados (carvão mineral e querosene), a distância considerável dos fornecedores de lenha e carvão vegetal, a adoção precoce de gás de cidade e eletricidade são alguns dos fatores explicativos.22
A partir de finais do século XIX comprova-se a utilização do carvão mineral nas casas lisboetas, não tanto para cozinhar, mas sobretudo para aquecimento, dada a falta de fogões capazes de minimizar os incómodos do fumo provocado pela combustão deste tipo de carvão comparativamente com o carvão vegetal.23 Todavia, o carvão mineral chega às cozinhas por outra via, através do gás que é destilado a partir desse mineral. Em Lisboa, o relatório de gestão de 1892/93 das Companhias Reunidas de Gás e Electricidade (CRGE)24, a empresa que detinha o monopólio da produção e distribuição de gás e eletricidade na capital portuguesa, contabiliza 4 970 fogões em serviço para 13 848 consumidores de gás, ou seja, cerca de 36% dos consumidores servidos pela rede teriam já um aparelho a gás.25
É um sucesso relativo, pois o gás servia uma pequena faixa da população lisboeta e, embora com um número crescente de consumidores, manteve-se restrito aos residentes em locais servidos pela rede de distribuição e com poder de compra. Relativamente a outras cidades do país servidas por redes de gás, os escassos dados existentes para a cidade do Porto, atestam uma difusão mais lenta do fogão a gás face à capital. Os termos dos contratos celebrados com a Companhia Portuense de Iluminação a Gás em 1874 estipulavam que o fornecimento doméstico abrangia apenas o período do pôr ao nascer do sol, pelo que o uso do gás seria, predominantemente, para fins de iluminação.26 Vincando esta ideia, em 1918 há notícia de que apenas 10% dos consumidores de gás portuenses possuíam fogão (710 aparelhos), revelando a fraca adesão ao uso do gás para cozinhar na segunda maior cidade do país.27
As classes menos abastadas, residentes nestas cidades, poderiam beneficiar indiretamente do aumento do consumo de gás, recorrendo ao coque como alternativa aos combustíveis tradicionais. O coque, resíduo produzido na destilação do carvão mineral, com atributos semelhantes ao carvão vegetal, possibilitava a diversificação dos combustíveis domésticos nos grupos sociais com menos recursos económicos. Estudos realizados comprovam que, no caso de Lisboa, até à primeira década do século XX, o consumidor manteve a preferência pelo carvão vegetal, mesmo sendo o coque vendido a um preço inferior. Em 1911, por exemplo, era cerca de 60% mais barato do que o sucedâneo. 28 Esta decisão explica-se essencialmente pela mudança tecnológica requerida para o uso deste combustível. A combustão do coque, para ser eficiente, requer ventilação inferior, grelhas que permitam o fluxo de ar e a remoção de cinzas. 29 Os fogões, fogareiros, grelhas e as panelas de ferro tornam-se essenciais, implicando um investimento inicial dissuasor da mudança.30
Até à Primeira Guerra Mundial, e à medida que a oferta de equipamentos aumenta no mercado, o coque difunde-se nas casas lisboetas. Na primeira década do século XX, os consumos de coque representavam 56% do total dos combustíveis e em 1914 era aquele que mais vendia na capital do país.31 No meio rural, as mudanças não foram sentidas tão cedo, pelo que a lenha e o carvão vegetal continuaram a alimentar as lareiras e fornos das cozinhas, os únicos equipamentos mencionados, a par de alguns fogareiros a petróleo, nos Inquéritos à Habitação Rural levados a cabo já em plena década de 1940.32 Uma década mais tarde, a taxa de cobertura da eletricidade no meio rural era de 8,5% e inexistente no caso do gás canalizado.33
17 Cascão 2011.
18 Henriques 2006.
19 Matos 2011: 118.
20 Figueira 2018: 16-17.
21 Matos et al. 2005; Bussola e Henriques 2006.
22 Henriques 2011.
23 Bussola e Teives 2005.
24 Resultante da fusão entre a Companhia Lisbonense de Iluminação a Gás (1848) e a Companhia Gás de Lisboa (1887), constituiu-se, a 10 de junho de 1891, em Lisboa, a sociedade Companhias Reunidas de Gás e Eletricidade (CRGE), para produzir e distribuir gás e eletricidade e que permaneceu em atividade até 1975.
25 Relatório do Conselho de Administração das CRGE, 1892/93: 6.
26 Matos 2011: 126.
27 Henriques 2006: 62.
28 Henriques 2006: 72; Segundo a mesma fonte, em 1858 o carvão vegetal era vendido a 320 réis a arroba e o coque a 160 réis. Para 1911 os valores são, respetivamente, 206 réis e 130 réis. Esta comparação de preços, só é possível por serem combustíveis com um poder calorifico semelhante. A título indicativo, refira-se que o preço do gás à época variava consoante o fim a que se destinavam, sendo de 55 réis para iluminação e de 35 réis para cozinha e aquecimento em 1898/99. Neste caso, não se pode estabelecer uma comparação com os combustíveis tradicionais com base no preço devido às diferenças do poder calorífico, aos custos de instalação, incluindo a aquisição de fogões a gás e às condições de acesso à rede de distribuição.
29 Wright 1970: 82-83.
30 Henriques 2006: 72.
31 Henriques 2006: 77.
32 Barros 1947; Basto 1943.
33 Henriques 2011: 123.
Esta síntese revela a coexistência de diferentes realidades nas cozinhas portuguesas, mesmo nas cozinhas lisboetas, na época em estudo. Os fogões de ferro fundido (para uso de lenha, coque ou carvão mineral) estavam já bastante disseminados, existindo uma diversidade de modelos e preços no mercado. A partir da análise do Almanach Comercial de Lisboa de 1890 e do Anuário Comercial de 1910, Sofia Teives Henriques concluiu que, nesse período, o número de casas comerciais fornecedoras de fogões mais do que duplicou na capital.34 Confirmamos igualmente a diversidade de modelos e preços deste tipo de fogões pela consulta dos catálogos dos Armazéns Grandella no período entre 1904 e 1910. 35 Relativamente ao fogão a gás, foi lenta a difusão na cidade de Lisboa, apesar de lhe serem reconhecidas vantagens em termos de controlo de temperatura, de consumo do combustível ou facilidade de limpeza, requerendo, contudo, treino para aprendizagem do manuseio correto e seguro. Desde finais do século XIX, na capital portuguesa, eram comercializados pelas CRGE e progressivamente foram aparecendo em lojas da especialidade. Um anúncio no Almanaque Palhares de 1904 refere que nos “Novos Armazéns de Exposição” situados na Rua da Boa Vista 33 se encontra o “mais variado e extraordinário sortimento de aparelhos a gaz e electricidade vindos do estrangeiro”, destacando os fogões de sala e cosinha para gaz”.36 Todavia, o sucesso dos fogões a gás assinalado nos relatórios das CRGE na década de 1890, não foi favorecido pela conjuntura das primeiras décadas do século XX. O conflito mundial (1914-1918) implicou quebra de produção de gás devido à dificuldade em obter carvão britânico, tornando inevitável o regresso aos combustíveis tradicionais.37 O número de clientes de gás decresce significativamente nesse período,38 travando a progressão das tecnologias domésticas a ele associadas. A recuperação ocorrerá ao longo da década de 1930, altura de grandes investimentos em campanhas publicitárias por parte das CRGE, apostando grandemente na venda de fogões a gás. Dados estatísticos para 1936 informam que dos 24 225 clientes de gás na capital, 38,7% dispunham de um fogareiro a gás ou fogão sem forno; 12,08% tinham um fogão alugado à companhia e 18,71% possuíam um fogão com forno.39 A consolidação desta tendência virá a acontecer só em período posterior à Segunda Grande Guerra, em virtude de políticas públicas e tarifárias.40
Bento da Maia, na secção “Generalidades”, dedicou algumas palavras aos fogões, ilustrando a realidade heterogénea que Portugal conhecia à época, em termos de combustíveis e tecnologia para cozinhar. O autor reconhece a superioridade do fogão a gás, acessível aos habitantes das cidades providas desse combustível, por “não apresentar dificuldades ao acender” e permitir “graduar facilmente a quantidade de calor necessário”.41 Os modelos mais sofisticados existentes à época assemelhavam-se ainda aos fogões a lenha de ferro fundido, tendo forno, vários queimadores e uma caldeira para aquecimento de água. Os modelos mais simples, aqueles que eram oferecidos ou alugados aos clientes pelas CRGE, possuíam dois queimadores e uma grelha, como ilustrado no folheto publicitário “O Gaz” (Figura 1).
Em segundo lugar, o autor coloca os fogões de fogo circular alimentados a carvão de pedra, coque ou a lenha, mais difíceis de acender e de graduar o calor, mas preferíveis para algumas confeções, como sejam os pudins. 42 Quanto aos fogareiros a carvão vegetal considera-os dispendiosos e limitativos das operações culinárias. Não detalha os modos de aquecimento usados na cozinha rural que considera “bastante grosseiros“ e perfeitamente conhecidos de qualquer dona de casa experiente na cozinha em fogo aberto, adiantando apenas notas sobre as formas de acender o lume.43
34 Henriques 2006: 75.
35 Catálogo Geral dos Grandes Armazéns Grandella (1904); Catálogo Geral de Inverno dos Grandes Armazéns Grandella (1908/1909); Catálogo Especial dos Grandes Armazéns Grandella (1910).
36 Almanach Palhares de 1904: 746.
37 Problemas na produção de gás, durante o conflito, afetaram os preços e condições do serviço, obrigando ao encerramento da fábrica em Lisboa em 1917.
38 Em 1914 as CRGE contavam 37 690 consumidores de gás e em 1920 restavam 11 822 segundo Henriques 2006: 100.
42 Maia 1904: 8
43 Maia 1904: 8.
39 Morais 2024: 7.
40 Bussola 2004; Matos e Bussola 2021; Pardal 2023.
41 Maia 1904: 7.
Carlos Bento da Maia: o autor e a obra
Carlos Bento da Maia é o pseudónimo de Carlos Bandeira de Melo, homem multifacetado que se distinguiu como militar, escritor e empresário. Nasceu a 13 de janeiro de 1848 em Lisboa, na freguesia de Santa Isabel. Foi o segundo dos três filhos de António Bandeira de Melo e de Maria José da Anunciação Lupi.44 Casou-se com Maria Rita do Couto em dezembro de 1870. Tendo enviuvado em 1893, casou-se pela segunda vez, com Elzira Clementina Peixoto em 1894. Morreu em 26 de maio de 1924. 45 Militar de carreira, assentou praça como voluntário aos 19 anos, no regimento de Artilharia nº1 em 15 de outubro de 1867. Concluído o curso da Escola do Exército em 1871, progride na carreira como oficial do exército, tendo assumido cargos de direção na Fundição de Canhões, no Depósito Geral de Material de Guerra e na Fábrica de Armas.46 Foi condecorado como Oficial da Real Ordem de S. Bento de Aviz (1895). Reformou-se em 1899, tendo a patente de coronel, declarada que foi a incapacidade para todo o serviço pela junta hospitalar de inspeção.47 A vida do autor do Tratado Completo de Cozinha e de Copa não se resumiu às armas. Juntamente com Ricardo Loureiro e Eduardo Lupi fundou, em 1879, a Empresa Cerâmica de Lisboa. 48 Esta empresa mereceu um artigo na revista O Occidente, 49 acompanhado de uma fotografia de Carlos Bandeira de Melo (Figura 2).
O prólogo do Tratado indica que o autor conhecia, à data da publicação, o funcionamento quer do Asilo da Ajuda, quer do Asilo de Santo António, embora desconheçamos quando teve início a colaboração com a instituição asilar.50 Em 1913, o pedagogo António Alfredo Alves, nos Anais da Academia de Estudos Livres, destacou o empenho de Bandeira de Melo na educação doméstica:
Sobre o ponto da educação doméstica, o ensino que nesta casa se ministra parece-nos o mais completo entre todos os estabelecimentos similares. Um dos diretores é o general Sr. Bandeira de Melo, uma alta competência no assunto; os seus livros de cozinha e de corte publicados com o pseudónimo de Carlos Bento da Maia dão-lhe um lugar de destaque entre as pessoas que se têm dedicado ao ensino doméstico.51
A multiplicidade de interesses, e a “paixão pela vulgarização dos conhecimentos de utilização imediata”52 explicam a ampla gama de temas explorados pelo coronel de artilharia. Entre eles destacam-se: engenharia e construção, economia doméstica, poupança de combustíveis, culinária, alfaiataria, jogos de cartas e inclusivamente traduziu para português o romance O luxo dos outros de Paulo Bourget. Assim sendo, ao Tratado Completo de Cozinha e de Copa somam-se inúmeros títulos assinados por Bento da Maia: Elementos de Arte Culinária (s.d.); Manual de Cozinha e de Copa (reedições e atualizações em 1934, 1941,1959, 1975 e 1982)53; Hygiene da habitação (1883); Economia doméstica: modos de poupar combustível nas cozinhas: caixa Norueguesa (1917); Caes, cimentos e gêssos (1917); Tratado elementar de risco e de corte de roupa (1907); Livro de paciências selecionadas e descritas (2.ª ed em 1919).54 O autor apenas assume a sua verdadeira identidade em publicações no âmbito da engenharia e construção, como sejam, os artigos apresentados na revista A Construcção Moderna entre 1903 e 1906. Contudo, o nome que prevaleceu foi Bento da Maia, o pseudónimo de um coronel do exército que ficou para história como um general na cozinha.
44 Processo Individual do Coronel Carlos Bandeira de Melo (Arquivo Histórico Militar).
45 Folhas de Matrícula de Carlos Bandeira de Melo. Livros de Matrícula do Pessoal, Registo (1878-1808) dos Oficiais e Indivíduos com graduação de Oficial do Estado-Maior de Artilharia
46 Folhas de Matrícula de Carlos Bandeira de Melo. Livros de Matrícula do Pessoal, Registo dos Oficiais e Indivíduos com graduação de Oficial do Estado-Maior de Artilharia (1878-1808).
47 Folhas de Matrícula de Carlos Bandeira de Melo. Livros de Matrícula do Pessoal, Registo dos Oficiais e Indivíduos com graduação de Oficial do Estado-Maior de Artilharia (1878-1808); Processo Individual do Coronel Carlos Bandeira de Melo (Arquivo Histórico Militar).
48 Inquérito Industrial de 1881: 93-94.
49 Revista O Occidente, de 30 de julho de 1905: 165.
50 Maia 1904: 2.
51 Alves 1913: 246.
52 Alves 1913: 246.
53 São publicações de pequena dimensão e acessíveis ao público com menos poder de compra, conforme explica o autor no prólogo.
54 cf. Rego 1998:69-70 e Catálogo nacional de dados bibliográficos – PORBASE.
O Tratado Completo de Cozinha e de Copa
A primeira edição do Tratado Completo de Cozinha e de Copa (1904) resultou, segundo o autor, do bom acolhimento que teve a publicação em fascículos dos Elementos de Arte Culinária. 55 Este trabalho de Bento da Maia, do qual desconhecemos a data de edição, integrou a Collecção do povo: scientifica, artistica, industrial e agrícola da editora Guimarães, Libânio & Cª.56 Trata-se de um pequeno livro (70 páginas) dedicado à arte culinária, e estrutura-se em cinco partes: “Generalidades” onde se introduzem princípios gerais de cozinha; “Receitas d’algumas iguarias“ (40 receitas); “Chá, Café e Leite”; “Doces” (50 receitas) e “Serviço de mesa” tratando a forma de servir as iguarias bem como a distribuição dos vinhos durante a refeição. A publicação em fascículos foi também a estratégia adotada pela editora Guimarães & C.ª, para lançamento da obra mais emblemática de Bento da Maia. Segundo um folheto publicitário da época “o livro das donas de casa e a mais útil das publicações”, um verdadeiro Tratado Completo de Cozinha, seria distribuído em fascículos, tornando-se acessível ao público com menos poder aquisitivo (Figura 3).
O Tratado Completo de Cozinha e de Copa é uma obra de divulgação de conhecimentos técnicos de cozinha, inclusive sobre higiene e segurança alimentar e tecnologia culinária, versando temas que vão além de uma extensa lista de receitas culinárias e que o autor ambicionava ver adotado como manual de estudo no ensino de culinária, conforme esclarece no prólogo.57 O autor revela-se um tecnólogo interessado em divulgar as inovações mais recentes.58 Dirige-se às donas de casa, visando preencher lacunas na educação doméstica praticada em Portugal, tema muito debatido, na transição do século XIX para o século XX, na sociedade portuguesa.59 A preocupação com a preparação da mulher para as atividades domésticas, marcada por preceitos higienistas, pela promoção da saúde infantil, pela regeneração através do trabalho e do conhecimento científico, era transversal à sociedade. Não se dirigia exclusivamente às mulheres do povo ou às acolhidas em instituições asilares, futuras criadas ou modestas donas de casa esposas de operários, mas também a senhoras das classes abastadas, a quem competia a administração do lar e a orientação do pessoal ao seu serviço.60 A título de exemplo, veja-se o excerto de um artigo publicado pelo Conde de Bertiandos, em 1903, que traduz o espírito das considerações tecidas na época:
Não aprende a classe elevada certos misteres, presuppondo que elles serão ensinados ás pessoas que a hão-de servir; mas, como nas espheras mais baixas a mulher ou não é educada ou recebe educação de nenhum prestimo, nem as senhoras obteem facilmente uma creada que saiba sel-o, nem sabem ensinal-a.61
A popularidade de Bento da Maia enquanto autor de literatura culinária é comprovada pelas múltiplas edições dos seus livros. O Manual de Cozinha, que mencionámos anteriormente, é disso exemplo. Quanto ao Tratado Completo de Cozinha e de Copa, além da edição de 1904 teve reedições recentes, em 1984 e em 1995, pela editora Dom Quixote. 62 Este clássico da literatura culinária portuguesa manteve influência na primeira metade do século XX. Berta Rosa Limpo, no prefácio de O Livro de Pantagruel, afirmava ser o livro mais popular na altura do seu casamento em 1909. 63
O Tratado estrutura-se em sete partes: “Generalidades”; “Algumas palavras acerca dos alimentos de origem animal e vegetal”; “Considerações sobre o cozinhado dos alimentos que se não comem crus”; “Iguarias diversas”; “Doces”; “Café, Chá, Chocolate, Coca”; “Conservas”. Inclui uma secção de “Ementas”, com 60 propostas de almoços e jantares. O “Dicionário”, contando 145 entradas, encerra o livro. As múltiplas ilustrações de produtos, utensílios de cozinha e até da aplicação de técnicas culinárias sublinham o carácter didático do livro.
Na primeira edição contabilizamos 1360 receitas distribuídas entre iguarias diversas (941), doces (392) e conservas (27). Apresentam-se ordenadas alfabeticamente, sendo precedidas de explicações sobre os ingredientes ou pratos sugeridos.
O autor não dedicou o livro à cozinha portuguesa. Contudo, há um número significativo de receitas que identificam no nome a sua origem regional (por exemplo “Figuinhos de capa rôta de Torres Novas”),64 remetem para uma forma de preparar alimentos à moda de certa região (por exemplo “leitão recheado à moda da Beira Alta”) 65 ou assumem um carácter nacional (por exemplo “Lebre à portuguesa ou lebrada”).66 Ao analisarmos as designações de origem mencionadas nas receitas, verificamos que das 1360 receitas, 270 (20%) incluem o nome de um país ou região. Destas, 150 (56%) são estrangeiras e 120 (44%) são nacionais. Destacam-se, neste último caso, os pratos alentejanos e ribatejanos (54), bem como os transmontanos (20), conforme haviam concluído estudos anteriores.67 Contudo, o receituário compilado por Bento da Maia resultou de numerosas receitas enviadas por colaboradoras.68 Desta feita, o número considerável de designações nacionais ou regionais relaciona-se, também, com o facto de serem incluídas nos títulos das receitas as localidades das remetentes.
Uma nota na receita de “Empadão de bacalhau” é esclarecedora:
Esta receita, como varias outras, foi-nos enviada amavel e espontaneamente por uma assinante do Crato, à qual agradecemos cordialmente a sua colaboração e gentileza. Para podermos dar logar a maior parte d’estas receitas fomos obrigados a alterar alguns dos títulos d’elas, mas em todas as d’esta origem, alteradas ou não, posemos a indicação (Crato) pela qual a nossa desconhecida colaboradora poderá reconhecê-las.69
O receituário apresentado por Bento da Maia denota influências da literatura culinária produzida em Portugal, na transição do século XIX para o século XX, mas também de tratadistas franceses, a quem o autor alude sem nunca os identificar.70 Reconhecendo não se tratar de um profissional, confessa que aproveitou um grande número de indicações alheias sem experimentá-las, correndo o risco de reproduzir erros.71 Ainda assim, O Tratado Completo de Cozinha e de Copa colheu grande sucesso, com uma proposta de cozinha onde, lado a lado, encontramos pratos da cozinha popular e da cozinha internacional, nomeadamente francesa.
55 Maia 1904:1.
56 Reimpresso em 2012 pela editora Apenas Livros. A editora Guimarães, Libanio & Cª foi assim designada entre 1899 e 1903, ano em que por dissolução da sociedade, passou a apresentar-se como Guimarães & C.ª Melo 2024.
57 Maia 1904: 2.
58 Bento da Maia fez questão de, por exemplo, viajar até Paris para visitar a Exposição Universal de 1900, conforme justifica no pedido de licença para se ausentar do reino que consta do Processo Individual.
59 Vaquinhas & Cascão 1993; Vaquinhas 2000; Guinote 2006; Pintassilgo 2008.
60 Braga 2008; Vaquinhas e Guimarães 2011.
61 Conde de Bertiandos 1903: 9. Decorre do artigo publicado no Correio Nacional de 4 de Setembro de 1903, editado no mesmo ano em livro intitulado A Princeza na Cosinha, prefaciado de Germano da Silva.
62 cf. Rego 1998:56-57 e catálogo nacional de dados bibliográficos – PORBASE.
63 Limpo 1947: XV.
64 Maia 1904: 560.
65 Maia 1904: 285.
66 Maia 1904: 283.
67 Braga 2014; Cândido 2021; Cândido & Mataloto 2021.
68 Maia 1904: 449.
69 Maia 1904: 214.
70 Maia 1904: 329.
71 Maia 1904: 447-448.
Considerações sobre o cozinhado dos alimentos que se não comem crus
Bento da Maia desenvolveu uma secção dedicada aos “processos gerais de cozinha”, mais concretamente às técnicas, métodos de cocção e de conservação dos alimentos pelo frio. Constituída apenas por dez páginas (79-88), essa secção oferece conteúdo relevante para analisar as práticas culinárias no início do século XX em Portugal. Além disso, permite observar reflexos do desenvolvimento tecnológico das cozinhas da época na literatura culinária.
Esta secção inaugura com algumas considerações sobre os principais modos de cozinhar os alimentos, abarcando seis subtítulos: “Modo de estufar as carnes vermelhas ou brancas”; “Modo de grelhar as carnes de vaca, de aves e de peixes”; “Modo de assar carnes”; “Modo geral de fazer frituras”; “Modo de fazer croquetes”; “Resfriamento das diferentes substâncias”. Nas considerações iniciais o autor dedica atenção à cocção, afirmando serem quatro os modos de cozinhar os alimentos: Cozer em água estranha (ao ordinário ou ao vapor), cozer nos próprios líquidos (i.e., estufar), frigir e assar 72 (englobando assar e grelhar como se entende pelo desenvolvimento posterior). Cada método é explicado atendendo aos resultados obtidos, aos utensílios adequados, à intensidade do fogo, ao controlo de temperaturas ou até mesmo aos aparelhos inovadores disponíveis.
A cozedura em água estranha é a técnica em que o autor mais se demora, tratando de explicitar a natureza e a importância dos caldos obtidos, efeitos da ação do calor na cocção das carnes ou de descrever técnicas e utensílios usados para desengordurar um caldo. A especial atenção dedicada à cozedura em água estranha entende-se por ser técnica de base de muitas receitas, sendo também digna de nota a referência do autor ao “jantar clássico português”,73 composto de sopa, cozido e arroz, cuja execução depende exclusivamente deste método de cocção. No que se refere à cozedura nos próprios líquidos, Bento da Maia explica que para estufar carnes vermelhas ou brancas se deve usar uma caçarola com tampa que vede bem e forno ou fogão em lume brando. Recomenda o forno pela distribuição uniforme do calor, mas acrescenta que se o calor for de foco inferior é aconselhável colocar brasas sobre a tampa para alcançar um efeito semelhante.
Para grelhar as carnes de vaca, peixes ou aves, Bento da Maia indica o recurso a “fogo vivo e de curta chama”74 sobre uma grelha com inclinação conveniente para que a gordura escorra para reservatórios sem atingir o fogo. Neste caso, o autor estabelece que se pode usar um espeto rotativo, alertando para que, neste caso, o fogo seja “igual e forte, mas que não carbonize a carne”.75
É no tópico dedicado ao “assamento” que encontramos referências explícitas ao funcionamento de fornos e fogões a gás, que como referimos anteriormente, eram inovações, que se difundiam lentamente nas cozinhas urbanas da época, sobretudo em Lisboa. Destacamos a descrição feita por Bento da Maia dos modernos aparelhos para assar no espeto: caixas oblongas alimentadas a gás através de um tubo na parte anterior e inferior para aquecimento e cujo calor se gradua abrindo mais ou menos a respetiva torneira.76 Embora não exista uma ilustração deste aparelho a acompanhar o texto, ponderamos tratar-se de um modelo idêntico ao do livro Manual da Cozinheira publicado na mesma época (Figura 4):77
Como as carnes também se assam em tabuleiros, o autor esclarece-nos que “nos fogões a gás ordinários há na parte inferior tabuleiros côncavos para assar pelo processo mais comum” sendo que o calor se distribui na parte superior, a partir de tubos laterais, de cujos orifícios saem dardos de fogo”.78 Consciente de que esta tecnologia ainda estava ao alcance de poucos, Bento da Maia propõe um método para assar acessível a quem não dispusesse de um fogão, ou seja, recorrendo a uma panela sobre lume brando.79 Sobre o funcionamento dos fornos e fogões da época interessa complementar com as observações de Bento da Maia incluídas em “Explicações Prévias” na secção de “Doces”.
Tendo perceção da importância do controlo da temperatura no bom resultado da confeção de doçaria, o autor defende que devia ser “observada com termómetros apropriados”, dado que a simples indicação de “forno forte, médio ou brando, por si, quasi nada exprimem”80 mas, por falta de elementos, não são indicadas quaisquer temperaturas em graus Celsius.
As frituras em manteiga, banha ou azeite também são objeto de explicação acrescentando sugestões práticas para elevar a qualidade dos resultados, como por exemplo, a adição de um pouco de vinho branco ao polme para que “vaporizando-se este pela elevação da temperatura” se obtenham fritos mais leves.81 Bento da Maia demonstra com estas observações que conhecimentos elementares de química e de física são essenciais para a prática culinária, devendo idealmente fazer parte da formação da dona de casa como defende no prefácio do livro.
Além da cocção, o autor dá a conhecer métodos de conservação pelo frio, indicando técnicas para o arrefecimento que vão desde “envolver em pano molhado exposto a corrente ar”82 até ao uso de misturas frigoríficas, sendo a mais simples composta por sal e gelo. As propostas de refrigeração e congelação por processos químicos entendem-se no contexto tecnológico da época. Não há referências à refrigeração mecânica neste Tratado. Os aparelhos frigoríficos, nas primeiras décadas do século XX, em Portugal, restringiam-se ao sector industrial.83 Mesmo depois da introdução da refrigeração elétrica para uso doméstico, na década de 1920, continuaram a ser objetos muito raros. A difusão destes aparelhos foi lenta. Na década de 1930 apenas 0,05% dos consumidores de eletricidade residentes na capital portuguesa possuíam frigorífico.84
72 Maia 1904: 80.
73 Maia 1904: 80.
74 Maia 1904: 82.
75 Maia 1904: 84.
76 Maia 1904: 84-85.
77 Manual da Cozinheira. Guia completo de cosinha e copa util a todas as mães de família, cosinheiras, restaurants, casas de pasto, hoteis, etc., etc. c. 1900: 331.
78 Maia 1904: 85.
79 Maia 1904: 85.
80 Maia 1904: 451.
81 Maia1904: 86.
82 Maia 1904: 87.
83 Marques e Serrão 1991: 625.
84 Henriques 2006.
Análise das técnicas e métodos culinários nas receitas do Tratado Completo de Cozinha e de Copa
No ponto anterior apresentámos uma síntese das técnicas e métodos culinários presentes na terceira parte do Tratado Completo de Cozinha e de Copa. Comprovámos que a classificação feita por Bento da Maia não se afasta daquela que hoje encontramos em literatura de referência 85 e que sintetizamos:
Analisamos uma amostra de receitas do Tratado Completo de Cozinha e de Copa, quanto às técnicas e métodos culinários, atendendo às definições registadas em Considerações sobre o cozinhado dos alimentos se que não comem crus, complementando-as com a síntese proposta na Tabela 1.86
A dimensão da amostra foi calculada com base em métodos probabilísticos de amostragem aleatória estratificada, garantindo uma representação adequada dos diferentes tipos de preparações culinárias do receituário para um nível de confiança de 95% e uma margem de erro de 5%. 87 Consideramos as três categorias de receitas definidas pelo autor do livro subdivididas em dezassete subcategorias estabelecidas com base em características comuns. A amostra assim construída totaliza 273 receitas de “Iguarias Diversas”, 195 receitas de “Doces” e 27 de “Conservas”, num total de 495 receitas (36,5% do total), distribuídas pelas seguintes categorias (Gráfico 1):
Cada receita da amostra foi classificada atendendo às técnicas de cocção e de conservação, podendo ser atribuída mais do que uma técnica a cada receita, respeitando a descrição do processo de confeção. Apuramos as frequências relativas, determinando as técnicas predominantes e registamos, sempre que possível, as indicações fornecidas relativamente ao controlo do tempo, temperatura e utensílios utilizados. Por fim, analisamos a consistência dos dados por meio de testes estatísticos, 88 que permitiram avaliar se as proporções observadas para os métodos de cocção e conservação mais frequentes na amostra são estatisticamente representativas do total de receitas. Esta análise reforçou a validade da abordagem escolhida e a robustez das inferências pretendidas.
Os resultados obtidos mostram que a cozedura, correspondente à fervura em líquidos estranhos na definição de Bento da Maia, é o método utilizado em 247 (cerca de 50%) das receita analisadas, requerido em 112 receitas de “Iguarias diversas” e em 135 preparados de doçaria e conservas. Se contabilizarmos o recurso à “cozedura nos próprios líquidos”, ou seja, estufar, então verificamos que 67% dos pratos recorrem a estes métodos de cocção. Para este resultado contribuem os preparados de carnes, bem como os caldos e sopas, mas também a doçaria, que na sua confeção depende muitas vezes da cozedura em açúcar, evidente sobretudo nas compotas e doces de frutas. Os líquidos mencionados para a cozedura são a água, o açúcar, pontualmente o leite, o vinho e ainda o mel. Os grelhados na brasa são pouco frequentes, apenas mencionados em 12 receitas da nossa amostra (menos de 3%). Recorre-se ao forno em 147 receitas (30%) para assar as carnes e os peixes, mas, sobretudo, para cozer bolos, pães, bolachas, biscoitos e pudins, existindo 88 preparados doces que requerem este tipo de cocção. No que toca às frituras, apresentam-se em 87 receitas, menos de 18% da amostra, muito associadas à confeção de peixes e mariscos.
A Tabela 2 sintetiza os resultados da análise:
A combinação de diferentes métodos de cocção numa mesma receita é pouco frequente: 65% requerem apenas uma técnica de cocção, ao passo que 23% combinam duas técnicas (frequentemente uma cozedura prévia finalizada no forno). Os casos que exigem 3 ou mais métodos de cozedura são exceção (9 registos), existindo ainda receitas, que não requerem nenhum tipo de cocção (como alguns sorvetes e gelados). São escassas as orientações sobre o tempo de cozedura, embora presentes no Tratado, como já o eram em livros publicados anteriormente, nomeadamente nos de João da Matta e de Paul Plantier, tendo inclusive este último disponibilizado uma tabela com os tempos de cozedura recomendados consoante o tipo de carne.89 Na amostra analisada, apenas em 52 receitas é feita referência ao tempo de preparação ou de cozedura, expresso em minutos, horas ou até dias, como no caso da receita de chucrute (20 dias). As cozeduras mais demoradas, exigindo fogo brando, com indicações que variam entre os 60 e 240 minutos 90 são mencionadas nos caldos (por exemplo caldo de perdiz, 180 min) 91, nos estufados (por exemplo capão estufado,120 min) 92 e mais raramente em pratos de forno como as empadas (por exemplo Empada de pombos à francesa,120 minutos) 93 ou doces como o babá polaco (120 min) 94.
Quanto à temperatura, as indicações são exclusivamente qualitativas, recorrendo a expressões como “fogo forte”, 95 “lume brando”, 96 “forno quente como para cozer o pão”97 assim como aos diferentes pontos de açúcar, aferidos por observação atenta, nunca sendo apresentadas temperaturas em graus Celsius ou equivalentes. Cruzando estes resultados com a relação entre técnicas culinárias, combustíveis e fases tecnológicas na cozinha, que Caroline Davidson 98 estabeleceu num estudo pioneiro para a ilhas britânicas, apercebemo-nos que as técnicas destacadas na caracterização deste receituário são aquelas que a autora associou à cozinha em fogo aberto, em que as operações de cozedura em água ou outros líquidos são, além de grelhar, as predominantes. São práticas culinárias associadas à cozinha de lareira, fornalha e fornos de lenha/carvão vegetal. A introdução do fogão, seja ele a lenha, carvão mineral, coque ou gás permitiu, além da facilidade de uso de um forno a qualquer momento e do controlo de temperaturas, potenciar a simultaneidade de diferentes operações, aumentando a complexidade da cocção numa mesma receita, e facilitando a combinação de técnicas. É certo que a sofisticação de um prato não depende exclusivamente dos métodos de cocção, mas é uma variável a considerar a par dos ingredientes e temperos, técnicas de cisão e de apresentação.
Outro aspeto interessante na análise diz respeito às referências aos utensílios necessários para a cocção. Desta feita, são frequentemente requeridas caçarolas e panelas (de ferro, esmaltadas, de aluminite ou de loiça) para cozer e estufar, assim como frigideiras, sertãs ou salteadeiras para fritar ou saltear. Com menos frequência, são mencionadas as vasilhas, assadeiras, tabuleiros e pingadeiras de ir ao forno, assim como as formas ou latas, torteiras e pudineiras. Excecionais, são as menções a grelhas e espetos para assados. Há observações dignas de nota, como por exemplo, nas receitas de “linguado cozido em vinho branco à francesa”,99 de “filetes de lebre”,100 de “ pargo assado”,101 e até de “pão em fatias torradas com manteiga”,102 Bento da Maia oferece indicações para o uso de fogões a gás, testemunhando conhecimentos acerca desta tecnologia.
Os métodos de conservação são referidos em 74 (15%) das receitas da amostra. O mais comum é a conservação pelo uso de açúcar, álcool ou ácidos, nomeadamente no caso das frutas, em doces e conservas. A refrigeração é mencionada em 18% deste grupo de receitas que requerem métodos de conservação, nomeadamente a refrigeração não mecânica, que o autor expõe no livro. A salga, a secagem, a fumagem e até a pasteurização estão representadas na amostra, embora com pouca expressão como se observa no Gráfico 2:
85 McGee 2004; Symons 2003.
86 Relativamente aos métodos de conservação apoiamo-nos nas observações do autor completando com a categorização obtida a partir de Symons 2003.
87 Levy e Lemeshow 2013. Para a seleção dos elementos da amostra, a lista de receitas foi seriada numericamente, em folha de cálculo, sorteando-se os números através de um gerador automático de números aleatórios.
88 Mais concretamente o teste binomial (bilateral).
89 Plantier 1890:9.
90 Para facilitar a análise, optámos por converter em minutos todas as referências apresentadas pelo autor.
91 Maia 1904:159.
92 Maia 1904:167.
93 Maia 1904: 213.
94 Maia 1904: 468.
95 p.ex. Maia 1904: 299; Maia 1904: 456.
96 p.ex. Maia 1904: 171; Maia 1904: 585.
97 p.ex. Maia 1904: 499; Maia 1904: 599.
98 Davidson 1983.
99 Maia 1904: 291.
100 Maia 1904: 284.
101 Maia 1904: 340.
102 Maia 1904: 347.
- Etiquetas CARLOS BENTO DA MAIA AUTOR, ESTUDOS ACADEMICOS
2018 À Mesa com Ramalho Ortigão
- Autor do artigo Por canthecan_bfmhxg
- Data do artigo Maio 1, 2018
À Mesa com Ramalho Ortigão
2018
TÍTULO: À Mesa com Ramalho Ortigão
SUB TÍTULO:
AUTOR: Maria Antónia Goes
NOTAS DE AUTORIA:
PREFÁCIO:
SUPORTE: Impresso
GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia
DATA DE PUBLICAÇÃO: maio de 2018
DEPÓSITO LEGAL:
EDIÇÃO:
LOCAL:
EDITORA: Colares Editora
TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR:
ENCADERNAÇÃO: Capa Mole
FORMATO / DIMENSÕES: 56 x 228 x 14 mm
NÚMERO DE PÁGINAS:
COLECÇÃO:
ISBN/ISSN:
COLECÇÃO DE: SELO DE MAR
REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 00
OBSERVAÇÕES:
Rosa Maria para a elite, Rosa Maria para o povo. Culinária brasileira e culinária portuguesa na primeira metade do século XX
- Autor do artigo Por canthecan_bfmhxg
- Data do artigo Janeiro 2, 2018
2018 Rosa Maria para a elite, Rosa Maria para o povo. Culinária brasileira e culinária portuguesa na primeira metade do século XX
Isabel Maria Mendes Ribeiro Drumond Braga*
Universidade de Lisboa Lisboa – Portugal
Maria Cecilia Barreto Amorim Pilla**
Pontifícia Universidade Católica do Paraná Curitiba – Paraná – Brasil
Contatos
Isabel Maria Mendes Ribeiro Drumond Braga
* Doutora em História Económica e Social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Faculdade de Letras – Alameda da Universidade 1600-214 – Lisboa – Portugal
isabeldrumondbraga@hotmail.com
Maria Cecilia Barreto Amorim Pilla
R. Imaculada Conceição, 1155 – 80215-901 – Curitiba – Paraná
ceciliapilla@yahoo.com.br
** Doutora em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professora da Pontifícia Universidade
Católica do Paraná, onde também é coordenadora do Programa de Pós-Graduação – Mestrado em Direitos Humanos e Políticas Públicas.
Resumo
Este artigo pretende comparar dois livros de culinária publicados nos anos de 1930, que, apesar de possuírem autoras com o mesmo nome, Rosa Maria, tiveram conteúdos e dirigiram-se a públicos completamente diferentes. No Brasil, foi publicada a obra de Rosa Maria, com o nome Arte de comer bem, cuja primeira edição apareceu em 1931, e, em Portugal, crê-se que em 1932, igualmente por Rosa Maria, apareceu A cosinheira das cosinheiras. A arte de comer bem. Higiene alimentar e mais de 500 receitas para cosinhar, fazer doces, gelados, compotas etc. Neste sentido, importa proceder a uma abordagem exploratória das duas fontes, respondendo a algumas questões consideradas pertinentes.
Palavras-chave
Livros de receitas – espaços do feminino – Brasil – Portugal – Rosa Maria.
***Em vista de as publicações em Portugal e Brasil terem o mesmo nome de autor, acrescemos, nas notas de rodapé, as letras [P] e [B] após o autor para identificar a procedência dessas publicações.
As signatárias deste artigo, em momento de debate acerca de livros de cozinha do século XX, deram-se conta de uma estranha realidade: em Portugal e no Brasil havia dois livros de culinária aparentemente da mesma autora, com a mesma capa e com títulos afins. Ou seja, no Brasil foi publicada a obra de Rosa Maria, intitulada Arte de comer bem, cuja primeira edição apareceu em 1931, e, em Portugal, crê-se que em 1932, igualmente por Rosa Maria, apareceu A cosinheira das cosinheiras. A arte de comer bem. Higiene alimentar e mais de 500 receitas para cosinhar, fazer doces, gelados, compotas etc. Porém, os conteúdos e os públicos-alvo foram bastante diferenciados. Desde logo, algumas perguntas se colocaram: tratar-se-ia da mesma autora? Era portuguesa ou brasileira? Duas pessoas teriam usado o mesmo pseudónimo? Que motivos teriam levado a autora, caso fosse a mesma pessoa, a usar discursos distintos sobre culinária nos dois lados do Atlântico? Impunha-se tentar esclarecer o imbróglio.
1. Se bem que, desde sempre, muitas mulheres se tenham dedicado à cozinha, foi só tardiamente que passaram a produzir receituários publicados, embora os cadernos de receitas manuscritos para uso particular fizessem parte do quotidiano, tanto de freiras como de leigas,¹ o mesmo acontecendo relativamente aos recortes e colagens de receitas em cadernos, facilitados pelo aumento da alfabetização durante o século XX, tornando a prática de colecionar receitas muito comum nos lares.² Afinal, predominava a ideia de que “lugar de mulher é na cozinha”, originando que parte das práticas femininas permanecessem invisíveis durante muito tempo.³
1 Conforme as pesquisas de BRAGA, Isabel Maria Ribeiro Mendes Drumond. Culinária e etiqueta em Portugal nos anos 30: as propostas de Estela Brandão. In: SOARES, Carmen (org.). Patrimónios alimentares de aquém e além mar. 1ª edição. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra; Annablume, 2015, p. 591–610. BRAGA, Isabel Maria Ribeiro Mendes Drumond. Culinária no feminino: os primeiros livros de receitas escritos por portuguesas. Caderno Espaço Feminino, vol. 19, n. 1, Uberlândia, jan./jul. 2008, p. 117–141. ABRAHÃO, Eliane Morelli. A escrita culinária: permanências e transformações. Campinas (1863–1940). In: SOARES, Carmen (org.). Patrimónios alimentares de aquém e além mar. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra; Annablume, 2015, p. 47–56.
2 CAPATTI, Alberto; MONTANARI, Massimo. La cuisine italienne: histoire d’une culture. Paris: Seuil, 2002, p. 207.
3 MENASCHE, Renata; ABDALA, Mônica. Comida e gênero: repensando teorias e práticas. Caderno Espaço Feminino, vol. 19, n. 1, Uberlândia, jan./jul. 2008, p. 7. Sob essa perspectiva, a historiografia recente tem produzido trabalhos que relacionaram cultura da alimentação e estudos de gênero, o que, no âmbito deste artigo, não constitui objeto nem objetivo. Ressalte-se, contudo, que são estudos recentes, sobretudo a partir dos anos de 1990. Salientem-se, como sugestões de leitura, o vol. 19, n.º 1 da revista Caderno Espaço Feminino, de 2008, ligado ao Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade Federal de Uberlândia, que publicou um dossiê sobre arte, comida e gênero dirigido pelas professoras Renata Menasche e Mônica Abdala (autoras da apresentação), constituindo-se como a primeira revista brasileira a ter tal iniciativa (cf. http://www.seer.ufu.br/index.php/neguem/issue/view/233/showToc). Em 2012, os Cadernos Pagu, n.º 39, revista de estudos de gênero da Unicamp, publicaram um dossiê especificamente sobre a temática, dirigido pelas historiadoras Leila Algranti e Wanessa Asfora, o qual compreende vários artigos que abordam as relações entre alimentação e o feminino (cf. https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/8645050). Desde então, muitas têm sido as iniciativas de pesquisa nesse sentido.
Com exceção da publicação brasileira a cargo dos irmãos Laemmert (Eduardo e Henrique), pioneiros do mercado livreiro e tipográfico do Brasil, da obra A doceira brasileira, ou nova guia manual para se fazerem todas as espécies de doces, cuja primeira edição, sem data, presume-se que editada em 1850 — uma compilação de manuscritos da autoria de uma dama da alta sociedade imperial de nome Anna Maria das Virgens Pereira Rabello e Gavinho (1832–1856), realizada por Constança Oliva de Lima, que habitualmente aparece referenciada como sua autora —, foi necessário esperar pelo século XX para as mulheres portuguesas e brasileiras se aventurarem na publicação da denominada “culinária de papel”,⁴ apresentando receituários completos, compostos por pratos salgados e doces.
Por outro lado, vale a pena referir que, para Carlos Alberto Dória,⁵ a primeira sistematização da cozinha brasileira de “vertente culta” deu-se com o livro Cozinheiro nacional, de autor anónimo, que surgiu na década de 1870, como “uma forma despersonalizada de comer nos grandes centros urbanos”, com influência da culinária francesa que se contrapôs às cozinhas locais. O autor desse primeiro livro de culinária preocupou-se menos em ensinar a cozinhar do que em “apresentar a nossa flora e fauna como passíveis de serem tratadas à maneira de qualquer outro ingrediente europeu assemelhado”.⁶
Desde logo, um paradoxo se fez notar: se desde sempre abundaram as cozinheiras, também é verdade que os grandes nomes da arte culinária foram quase sempre do sexo masculino. E tal verificação é tanto mais verdadeira quanto se recua cronologicamente. Imagem estereotipada ou não, certo é que, segundo Leo Moulin, por toda a Europa, a cozinheira esteve associada à confecção dos pratos tradicionais e saborosos, que se repetiam sem perspectivas de inovação, enquanto o cozinheiro era o artista artecomidasão, o monarca absoluto da cozinha, dotado de espírito inventivo.⁷ Assim se compreende que o século XIX tenha assistido, um pouco por todo o lado, à diferenciação clara entre o cozinheiro profissional, o maître, e o cozinheiro doméstico, frequentemente uma cozinheira,⁸ e que na actualidade essa divisão tenha assumido algum radicalismo.⁹
Embora o interesse e o valor dos receituários enquanto fontes históricas já tenham sido evidenciados, importa lembrar que o estudo dos mesmos permite percecionar as práticas alimentares e os gostos, independentemente de fornecerem informações acerca do que se poderia comer e não necessariamente do que se comia. Isto significa que os livros de receitas são, como bem os definiu Bruno Laurioux,¹⁰ objetos plurais, isto é, podem e merecem igualmente ser abordados na ótica das artes mecânicas e dos saberes práticos e até na do estudo da história do livro. A análise dos livros de cozinha deve, portanto, focar-se nos autores e nos leitores, nos conteúdos, designadamente nas permanências e nas inovações culinárias, mas também nos utensílios referenciados e nas artes da mesa, cuja abordagem mais completa parece ser a de Gilly Lehmann,¹¹ relativa à Inglaterra, e a de vários autores para Espanha.¹²
É a partir desta perspetiva conceptual que iremos realizar o nosso estudo. É também a partir desta perspetiva que se compreende a referência, em 1923 (edição 14.071, p. 2), à autora na qualidade de mãe da noiva Lilah Leonardos, que se casaria no dia seguinte à nota social com Hugo Dutra Hamann. O sogro da autora foi cônsul-geral da Grécia no Brasil durante 45 anos. Esses são indícios de que, por trás de Rosa Maria do Brasil, havia uma mulher de destaque na sociedade, mãe de família, casada com um homem de estirpe importante, predicados que lhe conferiam uma certa autoridade quando o assunto era reunir convidados em torno de uma bela mesa.
Referiu o autor da matéria “Literatura, entre molhos e assados”, publicada no jornal Diário de Notícias, que os livros de cozinha rendiam muitos direitos de autor para as suas criadoras e mencionou que Marieta Leonardos, então com a 21.ª edição da sua A arte de comer bem, publicada pela Editora Livraria São José, havia recebido 200 mil cruzeiros. Para o articulista, este género literário obtinha sempre muito boas vendas.
Sob o pseudónimo de Rosa Maria, Marieta de Oliveira Leonardos, membro de uma ilustre família brasileira, publicou Arte de comer bem em 1931. No ano de 1953, na sua vigésima primeira edição, já havia vendido mais de 100 mil exemplares, e o livro tinha praticamente dobrado de tamanho, chegando a quase 800 páginas.
4 GOMES, Laura Graziela; BARBOSA, Lívia. Culinária de papel. Estudos Históricos, n. 33, Rio de Janeiro, jan./jun. 2004, p. 1–22.
5 DÓRIA, Carlos Alberto. Formação da culinária brasileira. Escritos sobre a cozinha inzoneira. São Paulo: Três Estrelas, 2014, p. 27.
6 Idem, p. 114.
7 MOULIN, Léo. Les liturgies de la table. Une histoire culturelle du manger et du boire. [Paris]: Albin Michel, 1989, p. 184.
8 MENNELL, Stephen. All manners of food. Eating and taste in England and France from the Middle Ages to the present. Urbana e Chicago: University of Illinois Press, 1999, p. 200–201.
9 NERY, Rui Vieira. Chefs vs cozinheiras. O Jornal das Boas Notícias, vol. 33, 01/09/2016, p. 5.
10 LAURIOUX, Bruno. Le règne de Taillevent. Livres et pratiques culinaires à la fin du Moyen Âge. Paris: Publications de la Sorbonne, 1997, p. 13.
11 LEHMANN, Gilly. The British housewife. Cookery books, cooking and society in eighteenth-century Britain. [s. l.]: Prospect Books, 2003.
12 La cocina en su tinta. Madrid: Biblioteca Nacional de España, 2010.
13 O livro tem prefácio do embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Carlos Martins, e introdução de Gilberto Freyre. Segundo o prefaciador, traz uma listagem de biografias concisas das maiores personalidades do mundo latino-americano daquele período.
Como personalidade ilustre da sociedade carioca que foi, Marieta de Oliveira Leonardos, casada com Henry Leonardos, foi citada no livro Who’s Who in Latin America,¹³ como mãe do geólogo Othon Henry Leonardos. Apareceu na coluna social do jornal O Paiz, em 30 de abril de 1923 (edição 14.071, p. 2) na qualidade de mãe da noiva Lilah Leonardos, que se casaria no dia seguinte à nota social com Hugo Dutra Hamann. O sogro da autora foi cônsul-geral da Grécia no Brasil durante 45 anos. Esses são indícios de que, por trás de Rosa Maria do Brasil, havia uma mulher de destaque na sociedade, mãe de família, casada com um homem de estirpe importante, predicados que lhe conferiam uma certa autoridade quando o assunto era reunir convidados em torno de uma bela mesa.
Referiu o autor da matéria “Literatura, entre molhos e assados”, publicada no jornal Diário de Notícias, que os livros de cozinha rendiam muitos direitos de autor para as suas criadoras e mencionou que Marieta Leonardos, então com a 21ª edição da sua A arte de comer bem, publicada pela Editora Livraria São José, havia recebido 200 mil cruzeiros. Para o articulista, este género literário obtinha sempre muito boas vendas.
Desde as primeiras edições, Rosa Maria dedicou o livro a uma “filha”. Para credibilizar esta situação, encontram-se pequenos diálogos, em forma de cartas trocadas entre ambas em momentos críticos. Neste contexto, a autora socorre a “filha” durante as suas aflições, designadamente quando tinha visitas de cerimónia para o jantar. Assim, Rosa Maria, de certa forma, orientava, na pessoa dessa suposta mãe, todas as mulheres que se encontrassem perante dificuldades no preparo de quitutes para o seu quotidiano, fosse de festa ou não.
Provavelmente procurando dar uma procedência nobre às suas receitas, logo na primeira carta de Rosa Maria à sua “filha”, ela busca contar-lhe a origem da maioria das receitas que compõem o repertório que lhe oferece. Na verdade, assegura ela, eram resultado de uma rica compilação composta de receitas em parte oriundas de uma certa “tia Ritinha”, rica fazendeira que gostava ela própria de confeccionar os seus pratos; somadas a estas, as que pertenceram ao maître-d’hôtel do conde Fé d’Ostiani, que haviam sido dadas à avó da mocinha. Este último teria sido um nobre e diplomata italiano que passara um tempo da sua vida no Brasil e, sendo ele um gourmet, segundo ela, não se havia conformado com a cozinha nacional brasileira daquela época, provavelmente em meados do século XIX.
O conde Alexandre Fé d’Ostiani realmente existiu e foi embaixador da Sardenha no Brasil, tendo sido merecedor, inclusive, de um poema de Álvaro de Azevedo em seu livro Lira dos vinte anos, segundo Esteves.¹⁴ Provavelmente, ficou muito conhecido pela sociedade brasileira da época por ter sido casado com a filha de um riquíssimo fazendeiro brasileiro, o comendador Joaquim José de Souza Breves, com quem o dito fidalgo teve um grande litígio pela guarda legítima de sua filha.
A primeira edição de A arte de comer bem foi publicada pela editora Officina Industrial Graphica, localizada na rua da Misericórdia, número 74, na cidade do Rio de Janeiro. Foi apresentada em capa dura e sem ilustrações e podia ser encontrada à venda na mesma cidade, na Livraria Quaresma,¹⁵ que foi sua depositária. No ano de 1933, o livro lançou a segunda e a terceira edições, já ampliadas e com capa ilustrada, como as da figura abaixo, imagem que acompanhou todas as suas edições até à década de 1950. Em 1938, na sua 9.ª edição, teve um curto período de edição por H. Leonardos. Na década de 1940, a eminente editora Freitas Bastos¹⁶ assumiu a publicação do livro, que se encontrava na sua 15.ª edição. Na década de 1950, já ampliada para quase 800 páginas e muitas vezes apresentada em dois volumes, Rosa Maria passou para o comando da Editora São José.¹⁷
A edição de 1953 foi a última supervisionada e revista diretamente pela autora. É a própria quem o declara numa carta de apresentação dirigida à “filha”: “Agora com quase 80 anos de idade, será esta a última revisão feita por mim”, diz Rosa Maria.¹⁸ Mesmo assim, o título continuou a ser comercializado até à década de 1980, quando passou para a Editora Record. Neste artigo, pretendemos abordar as primeiras edições, especialmente a primeira e a terceira, pois, recorde-se, são de 1931 e de 1933, um ano anterior e um posterior à edição portuguesa, que é de 1932.
Preocupada sempre em orientar a filha, Rosa Maria incluiu, no meio das suas receitas, uma ou outra cartinha ou lembrete que, por vezes, designou de recado. Tal é, por exemplo, o caso do que aparece transcrito infra, por ocasião de um jantar de cerimónia, em que sugeriu como sobremesa “Charlotte crua de maçãs, pastelinhos e bonbons”:
Minha filha,
Penso haver-te poupado muitas horas de trabalho, visto não teres um maître-d’hôtel, mas afirmo que não farás má figura com o teu primeiro jantar. Poderás trocar algum prato se te for mais conveniente e comprares os bonbons feitos. Isto é mais prático, mas lembro-te que os poderás também fazer com uma semana de antecipação e guardá-los em lata.¹⁹
14 ESTEVES, Antônio Roberto. O romance histórico brasileiro contemporâneo (1975–2000). São Paulo: Unesp, 2010, p. 108.
15 A Livraria Quaresma foi uma livraria e editora fundada no Rio de Janeiro no final do século XIX por Pedro da Silva Quaresma, classificado como um editor que fazia livros “para o povo”, publicava todos os tipos de temas que pudessem fazer sucesso com as massas, segundo Souza e Crippa (2014, p. 187).
16 É interessante mencionar que a Editora Freitas Bastos, localizada no Rio de Janeiro e fundada em 1917, publicava principalmente livros jurídicos, técnicos e científicos. Contudo, assumiu publicar o livro A arte de comer bem, classificando-o como da área da saúde.
17 Iniciando as suas atividades como livraria, a São José alcançou sucesso no final dos anos de 1940, justamente quando começou a editar o livro de Rosa Maria. É interessante notar que foi nessa época que a São José passou para a administração de Walter Alves da Cunha e de Carlos Ribeiro. Este último tinha sido livreiro na Livraria Quaresma, que foi depositária de A arte de comer bem desde a sua primeira edição.
18 ROSA MARIA [B]. A arte de comer bem. 21ª edição. Rio de Janeiro: Livraria São José Editora, 1953, p. 5.
19 ROSA MARIA [B], op. cit., 931, p. 25.
Todas as edições seguiram sempre o mesmo modelo, primeiramente as sugestões de cardápios especiais, secundadas por receitas e opções de substituições. Depois, receitas de balas, glacês e drinks. Pelo meio de tudo isso, uma cartinha carinhosa, da autoria de uma mãe cuidadosa, que pretende ser a autora, encaminhada à sua filha recém-casada. Os cardápios estão repletos de receitas estrangeiras e de algumas iguarias da culinária brasileira, acrescentadas a partir da terceira edição, de 1933, com “pratos especiais para a roça, conservas e doces rústicos”.²⁰ Inclui também uma parte sobre medidas, utensílios e conselhos práticos. Igualmente, é a partir da segunda e da terceira edições que passa a integrar, ao longo do livro, uma série de dizeres, pensamentos e provérbios, na sua maioria de pensadores estrangeiros. Uma observação curiosa é que, quando são pensadores franceses, a autora faz a citação em francês sem incluir a tradução, mas, no caso de autores de outras nacionalidades, traduz para a língua portuguesa. Ora, a aprendizagem do francês na época não era um requisito básico na educação das mocinhas de uma certa elite brasileira?
“Contendo jantares, almoços, chás e receitas, todas escolhidas, simplificadas e experimentadas”, é assim que é apresentada A arte de comer bem, em 1931. Em dez partes que abarcam jantares e almoços de cerimónia; almoços para estrangeiros; jantares e almoços de pouca cerimónia; jantares e almoços íntimos; jantares e almoços simples; jantares variados para intelectuais, epicuristas e vegetarianos; e ainda recepções e chás de cerimónia; caldas, glacés, balas, suspiros, sorvetes e bebidas. É deste modo que Rosa Maria orientou as mulheres brasileiras das camadas médias e altas das cidades e do campo nos seus afazeres quotidianos do receber bem.
É possível observar alguns princípios que orientaram a autora ao encaminhar as receitas às suas leitoras. O primeiro é que elas aparecem, na sua maioria, sob a forma de sugestão de menus. Isso acontece tanto em relação às ocasiões de formalidade como em circunstâncias menos formais, nomeadamente nos momentos do quotidiano. Há ainda momentos em que são apresentadas sugestões para chás e recepções; nestes casos, incluindo uma listagem de receitas e composições para esses encontros ou comemorações.
O que se vê nas duas primeiras partes da obra,²¹ que contêm quatro jantares, quatro almoços de cerimónia, dois almoços e dois jantares para convivas estrangeiros, é uma regularidade que consiste em ter sempre, para os jantares, sopas como entrada, servidas estas logo após um cocktail, e, nos almoços, a sugestão de uma outra entrada, seja uma “barquette de caviar” ou “melão gelado em fatias”. Uma outra constante é a variedade na apresentação dos pratos, respeitando sempre o princípio da presença de um com aves, um com carnes vermelhas e um outro com peixes, mariscos, moluscos ou crustáceos, dessa forma atendendo a todos os gostos. Observou-se também a sugestão de três sobremesas e o encerramento com frutas, cafés e licores.
A terceira e a quarta partes trazem seis jantares e seis almoços de pouca cerimónia, e 12 jantares e 12 almoços mais íntimos. Verifica-se a manutenção das sopas para os jantares e de outras entradas para os almoços, mas os cocktails deixaram de ser indicados. No final da refeição, sugerem-se apenas frutas e café, sem referências ao licor. Também há uma redução no número de receitas de sobremesas. Enquanto nas ocasiões de maior cerimónia as ementas contêm três sobremesas, nestas trazem somente duas propostas.
Para a quinta parte, que contém 12 jantares e 12 almoços simples, o mesmo padrão é mantido, com sugestões de primeiro, segundo e terceiro pratos; no entanto, retiraram-se as frutas, ficando somente o café para encerrar a refeição. Há também uma nota no final dessa parte, quando Rosa Maria se dirige à sua “filha”, aconselhando-a que, se esta desejar uma maior simplicidade, deverá suprimir um dos pratos.
E, na sexta parte, contendo três jantares variados para intelectuais, epicuristas e vegetarianos, há um retorno a todo o glamour contido nas duas primeiras partes do livro, quando a sofisticação dos serviços e os ingredientes foram considerados os mais raros e desejados, como o caviar, a lagosta, o peru e as anchovas. É justamente na presença e na ausência de certos ingredientes que se percebem nuances da formalidade ou da intimidade nas refeições.
20 Quando Rosa Maria se refere à “comida da roça”, fá-lo provavelmente em contraposição à “comida da cidade”, ou seja, no sentido de que seria uma comida que integraria maioritariamente ingredientes da considerada herança nacional, bem como modos de fazer relacionados a tempos em que não se dispunha de matérias e métodos considerados modernos, como a ajuda de electrodomésticos que estavam aos poucos a ser inseridos nas cozinhas das áreas urbanizadas. Não o faz com o sentido de julgá-la como uma comida simples ou menos requintada. Sobre essa questão há muitos estudos interessantes, tais como o de Jesus Contreras e Mabel Gracia (2011), em Alimentação, sociedade e cultura, especialmente no capítulo denominado “Segurança e insegurança alimentar” (2011, p. 333–388); Claude Fischler, em El (h)omnívoro, especialmente na segunda parte, em que fala sobre as transformações do comensal moderno; e Tachos e panelas, de Claudia Lima (1999). Para Rosa Maria, o ingrediente por excelência da “comida da roça” é o porco, ainda que ressalte que “matar, pelar, abrir e esvaziá-lo” não é tarefa da cozinheira (1933, p. 444), ainda que pareça ser sua tarefa, sim, aproveitá-lo por inteiro (da cabeça às entranhas). Junto ao porco vem a caça (coelho, tatu, paca) e ingredientes considerados “típicos” da cozinha nacional, tais como couve, farinha de milho, abóbora, carne seca, entre outros.
21 As primeiras edições seguem um mesmo padrão, sendo que a terceira edição é ampliada, ou seja, apresenta uma adenda ao que foi apresentado na primeira edição. As primeiras seis partes são iguais, em conteúdo e nomenclatura. A partir da sétima parte há algum tipo de novidade. A primeira edição é estruturada em dez partes e a terceira em doze partes. Esta última traz de novo, na sétima parte, um cocktail party; e dois capítulos novos, contendo jantares de arte, almoços ajantarados, ceias, pratos especiais para a roça e para a praia, conservas, doces rústicos; e uma parte com orientações sobre medidas, utensílios necessários, termos de cozinha e conselhos práticos.
Por exemplo, vê-se que, para todas as ocasiões, mantém-se a estrutura do menu em, no mínimo, três serviços (primeiro, segundo e terceiro pratos). O que diferencia as ocasiões são pormenores sutis de requinte no preparo de alguma iguaria ou da raridade, e não somente do preço, de algum ingrediente. As primeiras seis partes contabilizam aproximadamente 680 receitas, das quais podemos ter indicações de alguns de seus principais ingredientes no quadro 1. Os outros quatro (para a primeira edição) ou seis capítulos (para a terceira edição) contabilizam, aproximadamente, entre 180 e 250 receitas. Destas, destacam-se sanduíches, doces, sorvetes, biscoitos, bolos e petit-fours.
A variedade em aparecer iguarias contendo três elementos — mar (peixes, moluscos e crustáceos), terra (porco, vaca, carneiro) e céu (galinha e peru) — mantém-se, tal como nas partes que incluem jantares e almoços. Da mesma forma que nas primeiras partes, o que se vê também é a gradação entre ocasiões mais formais (ou de cerimónia, como a autora chama), com ingredientes mais raros, caros e preparações mais sofisticadas, e ocasiões menos formais (com menor cerimónia), com ingredientes e pratos menos requintados, mais simples e mais baratos, mas não menos cuidados e bem servidos.
Ao longo de todo o livro, o que se percebe é uma orientação no sentido de deixar, mesmo nos momentos mais íntimos, um toque de refinamento, evidenciando que o livro de Rosa Maria do Brasil inclui receitas para serem executadas, ou pelo menos supervisionadas, diretamente pelas donas da casa. E estas não eram de poucas posses, pois quem poderia, no seu quotidiano simples, oferecer menus de três serviços, contendo “empadinhas de camarão”, “timbale milanesa”, “pudim dinamarquês”, “pato recheado de cebolas” ou “carambolas em calda”?
Ainda que, na terceira edição, na sua décima primeira parte, a autora tenha incluído como acrescento “pratos especiais para a roça e pratos especiais para a praia”, fê-lo junto a dois jantares de arte, seis almoços ajantarados e seis ceias, e ainda doces rústicos. O que se apreende é que, assim, mantém o toque de sofisticação ao trazer, junto ao quibebe, couve mineira com farofa e carne seca frita, carpes à la maroilles, croquettes noix ou mélon Shéhérezade, ainda que em partes separadas (respectivamente, pratos da roça e almoços ajantarados).
E, ainda, não se pode deixar de mencionar a décima parte, intitulada “A arte de beber bem”. Esta contém, além de receitas e sugestões de bebidas variadas, também as formas e ocasiões de as servir. São cocktails (55 com bebidas e outros oito de crustáceos); sours (três); cobblers (três); daysies (três); juleps (quatro); smachs (três); coolers (três); fizzes (seis); flips(quatro); slings (um); toddyes (dois); crustas (dois); pousses (três); grogs (oito); egg-nogs (cinco); tom-and-jerry (dois); punchs (11); cups (cinco); refrescos (23); cálices (três); ratafiás (sete); licores (10); diversas bebidas (quatro). E ainda, para fechar o capítulo, incluiu três receitas extraviadas de sorvetes de frutas (caju, manga e damasco). O que estariam estas últimas a fazer no capítulo “A arte de beber bem”?
Com o processo de urbanização e industrialização que varreu a Europa no século XIX e chegou ao Brasil mais tardiamente, não só se modificaram os hábitos citadinos e de trabalho no âmbito do público, como, sobretudo, o lar também sofreu transformações. Pense-se no caso da entrada de uma série de utensílios e electrodomésticos que vieram cozinha adentro, causando inovações nos processos de cocção dos alimentos. Junto às novidades técnico-científicas de administração do lar, também surgiram novos livros de cozinha, que pretenderam auxiliar as mulheres das mais diversas camadas sociais e dar mais eficiência à arte de cozinhar. Teutenberg²² afirma que, nesse período, “a cozinha deixou de ser mais um cômodo dos fundos, sem importância, para se tornar um lugar de trabalho, à altura dos outros cômodos da casa”.
Nesse “novo lar eficiente”, as maneiras de preparar os alimentos e de os apresentar na sala de jantar têm muitos dos seus preceitos documentados nos livros de receitas. Para Teutenberg,²³ os primeiros sinais de uma “cozinha burguesa” manifestaram-se no século XIX, por meio de livros de culinária que mesclavam receitas com reflexões literárias. Estes livros deixaram de ser destinados aos grandes cozinheiros para se focarem nas donas de casa comuns, ainda que alguns se destinassem às mulheres das classes mais abastadas. Ora, é interessante verificar que o livro da Rosa Maria brasileira faz isso mesmo, pois cada nova entrada de cardápios, cada qual composta de vários pratos que formavam uma refeição, vinha sempre acompanhada de dizeres de pensadores famosos, na sua grande maioria franceses.
Em Portugal, as informações acerca da biografia de Rosa Maria são paupérrimas. O desconhecimento do verdadeiro nome da autora tem impedido que se conheçam alguns traços biográficos e que se faça a necessária contextualização. Na obra que aqui se estuda, a própria referiu, acerca dos doces, que eram receitas experimentadas, presume-se que por si mesma, e, acerca dos pontos de açúcar, confessou não ser especialista.²⁴ Ao longo do livro, mencionou diferenças de preparação de determinados pratos em Portugal e no estrangeiro, conhecimento que poderá ter sido obtido por experiência em viagens ou por mera leitura de receituários estrangeiros, mas nada acrescentou que permitisse vislumbrar a sua formação.
Entretanto, no intuito de obter dados concretos, entrámos em contacto com a Editora Civilização e apurámos que Rosa Maria era, na verdade, um senhor chamado Gaspar de Almeida, pai de um funcionário da filial da editora de Lisboa. Este era igualmente editor, eventualmente da Empresa Literária Universal, a quem Américo Fraga Lamares (anterior administrador da Civilização) comprava algumas edições. A inexistência de arquivos e a ausência de colegas contemporâneos desta figura, que há muito deixara a empresa, implicam a inexistência de certezas. Aparentemente, Gaspar de Almeida também foi autor de Cartas de amor para namorados, saídas na Empresa Literária Universal, com edições em 1950, 1964, 1967, 1969, 1970, 1971, 1972, 1973, 1974, 1976, 1978, 1980, 1981 e 1986, sob o pseudónimo de Maria Celeste. Traduziu ainda Arte de encadernar os livros e Fabrico de inseticidas.²⁵ Estas e outras traduções do francês foram dadas ao prelo em obra intitulada Trabalha para ti: podes ganhar o dinheiro que precisas, publicada pela Empresa Literária Universal em 1939. Sob o pseudónimo de Maria Celeste encontram-se ainda Histórias de Bertoldo e Bertoldinho, da Civilização, com edições em 1953, 1954 e 1955, e a adaptação de As mil e uma noites contadas às crianças (1955 e 1957).
Rosa Maria ignorou o bom gosto como virtude social no âmbito da vida mundana²⁶ e publicou diversos livros de cozinha, todos eles pautados pela ideia de permitir às donas de casa realizar pratos econômicos. A obra de maior sucesso foi a referida A cosinheira das cosinheiras, com 32 edições até 1999. As primeiras ficaram a cargo da Empresa Literária Universal, com sede em Lisboa, e, pelo menos a partir da nona, de 1955, da Civilização Editora no Porto. A mesma autora, tendo em conta as dificuldades econômicas e a necessidade de simplificar as refeições, procurou divulgar a elaboração de menus simples e baratos, através de livros de baixo custo, vendidos a 1$00. No prefácio de um deles, Como se almoça por 1$50: 100 almoços diferentes, a isso mesmo se referiu em 1933. O mesmo aconteceu na obra Como se janta por 3$00. 100 jantares diferentes, publicada no mesmo ano. Ambos conheceram três edições até 1936. As receitas apresentadas eram naturalmente simples e econômicas, sendo de destacar que entre elas não se contaram sobremesas, entendidas como um luxo, e que apareceram sempre os preços dos gêneros, tendo em conta o mercado de Lisboa.²⁷ Em 1956, Rosa Maria publicou oito livros, cada um dos quais com 100 receitas (100 maneiras de cozinhar…), agrupadas por acepipes, molhos e saladas; bacalhau, carne, doces, ovos, peixe, sopas e cozinha vegetariana. Mais uma vez, o público-alvo foi a comunidade de leitoras pouco abastadas, mas preocupadas com as refeições diárias das famílias.²⁸ No que se refere à Cosinheira das cosinheiras, se excetuarmos a atualização ortográfica e o tipo de papel, as edições mantiveram-se sem alterações. Consequentemente, o conteúdo da obra não sofreu nem revisões nem adendas.
Rosa Maria pretendeu aliar higiene, ideias sobre nutrição, sobriedade alimentar, saúde, receitas práticas e economia. Abriu com uma página dedicada “Às Senhoras que dirigem o lar doméstico”, na qual patenteou os seus objetivos, a saber, a apresentação de receitas práticas de salgados e de doces para facilitar a vida das donas de casa. Em seguida, tornou clara a ligação entre alimentação e saúde, um tópico muito corrente desde a Época Moderna, acrescentando que havia fornecido receitas específicas para determinados quadros clínicos. Entendendo que comer bem não era sinônimo de comer muito, ressaltou a necessidade de consumir alimentos agradáveis ao paladar e com o valor calórico adequado. A referência a matérias de economia doméstica apareceu disseminada: “É preciso não desperdiçarem a maior riqueza, a saúde, cozinhando sem método, sem organização, sem valor nutritivo e, muitas vezes, a par da perda da saúde, ainda a ruína da bolsa”.
As páginas seguintes, sob o título “A cosinheira das cosinheiras”, foram ocupadas a dissertar sobre a necessidade de alimentos de acordo com o sexo, a idade, as estações do ano e um maior ou menor sedentarismo. Seguiram-se considerações sobre os alimentos, na realidade, sobre estes e determinados preparos, considerando-se que o caldo era o primeiro prato de todas as mesas. Em seguida, caracterizou as carnes, designadamente as de boi, cavalo novo e burro, carneiro, vaca, vitela, peru e pato, galinha e, finalmente, porco, de acordo com o que entendeu como a melhor hierarquia em termos de qualidade.
Os peixes foram objeto de curtíssimas observações, sendo entendidos como pouco alimentícios, embora se tenham ressalvado pescadas, linguados e pargos, “pratos do meio de muita estimação”, para quebrar a monotonia das carnes. Mariscos, ovos, manteiga, azeite, arroz, considerado um produto econômico; legumes, hortaliças, batata, pão de trigo, de milho, frutas, água, vinho, bebidas brancas, cerveja, café, chá e chocolate, particularmente relevante para pessoas de constituições fracas e anêmicas, foram também objeto de atenção. Esta seção terminou com a apresentação de diversos quadros nos quais se podem ver informações sobre o valor calórico dos alimentos, o tempo de digestão e o que deveria ser a alimentação “normal” de uma pessoa, a qual deveria consumir 2.405 calorias por dia.³¹
Antes de iniciar as páginas dedicadas às receitas, Rosa Maria referiu-se brevemente aos diversos regimes alimentares para doentes e explicitou as razões para se cozinharem os alimentos, ou seja, tal prática permitia um processo preliminar de digestão, eliminar organismos nefastos e tornar os alimentos mais agradáveis. Ao longo destes preâmbulos foi mostrando ser conhecedora da realidade envolvente, designadamente da pobreza rural, ao escrever: “Com duas boas tigelas de caldo, dois pedaços de pão, 4 ou 6 sardinhas, alimentam-se, à falta de melhores refeições, milhares e milhares de trabalhadores rurais, que vergam nos campos de sol a sol, sob a ação dum trabalho violento”³² ou “o pão de milho, a batata, a hortaliça, a sardinha e o bacalhau constituem quase exclusivamente a alimentação dos aldeões portugueses”.³³
Se, face a estas realidades, nada propôs, em relação aos de médios recursos assinalou a carne de carneiro como uma boa opção, uma vez que era superior às de vaca e de vitela e “pelo seu preço nos talhos, muito inferior ao da carne vacum, oferece a muita gente das classes menos abastadas um recurso precioso, pois que, além de mais barato, é um grande reparador das despesas do organismo e um alimento saboroso quando bem preparado na cozinha”.³⁴
Num país vinhateiro como Portugal, a questão do alcoolismo era um problema sério. Se bem que o Estado Novo não tenha definido uma política vinícola, não deixou de promover diversas medidas para incentivar o aumento do consumo do vinho e das uvas, chegando, através da Junta Nacional do Vinho, a promover um concurso de cartazes. Ficaram famosos slogans como “Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses” e “Comam uvas, bebam vinho”. Os cartazes foram distribuídos por tabernas, mercearias, casas de pasto e barbearias. O vinho era apresentado como um complemento ou um substituto de refeição e, apesar de alguns médicos se mostrarem preocupados com os efeitos do consumo excessivo, outros, bem como as autoridades, entendiam que o alcoolismo era resultado do consumo de bebidas brancas e nunca da ingestão de vinho.³⁵
Rosa Maria esteve relativamente bem enquadrada nesta questão, ao considerar o vinho um alimento, o qual deveria ser consumido em “porção racional”, durante as refeições. Em excesso, levava a doenças mortais e à “prática de crimes hediondíssimos”.³⁶ Já as bebidas brancas eram “um veneno”, que davam “aos hospitais, aos cemitérios e às prisões um contingente horroroso”.³⁷ Poderiam ser toleradas em circunstâncias específicas, como no mar ou após a chuva, quando não se podia mudar de roupa.
Em alguns passos da obra, Rosa Maria forneceu às leitoras informações genéricas acerca do significado de esparregado, maionese, papas, sopa e carapinhada, além de ter esclarecido a complicada arte dos pontos de açúcar.³⁸ Explicou ainda com pormenor o modo de amanhar peixe, abrir crustáceos, limpar moluscos e arranjar vísceras.³⁹ No primeiro caso, atente-se no que escreveu acerca da maionese: “é um prato frio importado da cozinha francesa em que entra o molho do mesmo nome ou o molho tártaro, prato geralmente complexo e que, bem preparado, apresenta não só um sabor delicado como um aspeto muito agradável”.⁴⁰
Como em qualquer livro de cozinha, houve que fazer escolhas no que se refere à disposição das receitas: a sucessão dos pratos em cada refeição, de acordo com uma ementa diária ou semanal, ou por ordem alfabética dentro de cada tipologia. No caso da obra em estudo, a opção recaiu na forma de organização em várias seções: receitas para cozinhar, isto é, pratos salgados; doces práticos; carapinhadas; compotas; geleias; e queijadas. Como qualquer outra tentativa de organização dos receituários, esta oferece alguns problemas, designadamente uma imprecisão geral no capítulo dos salgados e uma subdivisão peculiar dos doces. Mas as questões não ficaram por aqui.
A obra foi sendo impressa com pouco cuidado, em papel de má qualidade, embora tenha conhecido capa dura e em cores. Nem sempre os títulos das seções corresponderam aos do índice, ao mesmo tempo em que há receitas como, por exemplo, “Feijão verde panado ou à milanesa (vagens)”,⁴¹ que não constam do referido índice.⁴² Dentro de cada seção, o receituário foi organizado por ordem alfabética, embora, em alguns casos, se encontrem exceções, ao mesmo tempo que apareceram receitas com a mesma designação, com conteúdos distintos e nem sempre em sequência, caso, por exemplo, de “Bife à inglesa”.⁴³ Ou seja, estamos perante uma autora que domina o português básico, não particularmente cuidado, e edições sem revisão e de baixa qualidade formal e material, na maioria dos casos das mais antigas.
Tentemos uma arrumação das receitas que se pretende mais clara, o que não nos deve fazer esquecer a presença de carnes e de peixes diferentes na mesma receita ou de sopas que contêm carne ou peixe, ou ainda de saladas com aves ou com crustáceos, por exemplo. Por outro lado, importa fazer referência à presença de ingredientes para vários bolsos. Se bem que Rosa Maria, nas considerações que traz antes das receitas, tenha dado pouca importância ao peixe, o número de preparados deste género foi o mais significativo, atingindo os 139, isto é, 27% do total das receitas e 39% das receitas salgadas, sendo de salientar que as receitas de bacalhau, então um alimento barato, ultrapassaram a centena.⁴⁴ No reino da carne, tenha-se em conta que, além de algumas receitas de vaca e de vitela, encontram-se muitas com partes não nobres das carnes. Ou seja, o receituário salgado é predominantemente económico, composto essencialmente por peixes como bacalhau e sardinha e por carnes diversas, incluindo aves, contando-se ainda algumas receitas de vísceras de vaca e de porco. Note-se que, mesmo assim, carnes vermelhas e aves representaram apenas 18% do total. Açordas, caldos e outras sopas, pratos genericamente económicos, tal como os de vegetais, estiveram igualmente bem representados. O grande investimento parece ter sido no capítulo dos doces (30%). Nestes encontram-se bolos grandes e pequenos, compotas e geleias de frutos, carapinhadas, gelados, pudins e outros doces de colher. O açúcar reinou, bem como os ovos e as amêndoas secas, sem esquecer os frutos frescos.
al como nos mais antigos livros de cozinha publicados em Portugal desde o século XVII,⁴⁵ a autora optou por não fazer a separação entre ingredientes e modo de preparação no que se referiu aos salgados, com exceção das receitas de “Bacalhau panado e frito” e de “Massa tenra sem ovos para frituras recheadas”.⁴⁶ Já no que se referiu aos doces, essa separação foi prática corrente em cerca de metade das receitas, o que parece evidenciar a cópia de receitas de obras muito diferenciadas e de épocas diferentes.
Por outro lado, tal como no passado, na maior parte das receitas de salgados, as indicações sobre quantidades ou estão omissas ou são parciais ou, mais raramente, definem-se em termos de proporções. Tais foram os casos, por exemplo, de “Arroz de pato”, de “Bacalhau à portuguesa” e de “Bacalhau verde”.⁴⁷ Em consonância, o número de porções que cada receita proporcionava esteve igualmente omisso, com exceção da receita de “Sopa de tomates”.⁴⁸ Quando um preparado necessitava de um molho, nem sempre se remeteu para a seção e para a página em que a receita do mesmo se encontrava.⁴⁹
22 TEUTENBERG, Hans J. O nascimento da era do consumo moderna. In: História do sabor. São Paulo: Senac, 2009, p. 233–261, p. 253.
23 Idem, p. 256.
24 ROSA MARIA [P]. A cosinheira das cosinheiras: a arte de comer bem. Higiene alimentar e mais de 500 receitas para cosinhar, fazer doces, gelados, compotas etc. 3ª edição. Lisboa: Empresa Literária Universal, [s. d.], p. 148–150.
25 Agradecemos reconhecidamente ao senhor António Alas, da Editora Civilização, o envio destas informações que, pela primeira vez, permitem tornar público o verdadeiro nome por trás do pseudónimo Rosa Maria.
26 FLANDRIN, Jean-Louis. A distinção pelo gosto. In: História da vida privada, vol. 3. Porto: Edições Afrontamento, 1990, p. 308.
27 BRAGA, Isabel Maria Ribeiro Mendes Drumond. A culinária portuguesa no tempo da II Guerra Mundial: as receitas, o racionamento e as soluções alternativas. Revista de História Helikon, vol. 2, n. 3, Curitiba, jan./jul. 2015, p. 1–23. Disponível em: http://www2.pucpr.br/reol/pb/index.php/helikon?dd1=15296&dd99=view&dd98=pb. Acesso em: 31/05/2017.
28 Sobre refeições diárias sugere-se ver: BRAGA, Isabel Maria Ribeiro Mendes Drumond; OLIVEIRA, Ricardo Pessa de. Azeite, manteiga ou margarina? As gorduras alimentares em Rosa Maria no Portugal de meados do século XX. Salento. L’Idomeneo, 2015, p. 177–196. Disponível em: http://siba-ese.unisalento.it/index.php/idomeneo/article/viewFile/16048/13883. Acesso em: 04/02/2017. DOI: 10.1285/i20380313v20p17; e BRAGA, Isabel Maria Ribeiro Mendes Drumond. Culinária e etiqueta em Portugal nos anos 30: as propostas de Estela Brandão. In: SOARES, Carmen (org.). Patrimónios alimentares de aquém e além mar. 1ª edição. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra; Annablume, 2015, p. 591–610.
29 ROSA MARIA [P]. A cosinheira das cosinheiras: a arte de comer bem. 3ª edição. Lisboa: Empresa Literária Universal, s.d., p. 5.
30 FLANDRIN, Jean-Louis. A distinção pelo gosto. História da vida privada, vol. 3. Porto: Edições Afrontamento, 1990, p. 274.
31 A relação entre alimentação, sexo, idade, condição física e atividade é conhecida desde a clássica teoria dos humores da Antiguidade. As elaborações médicas do século XX parecem ser conhecidas de forma indireta pela autora que, contudo, ignoraria o cálculo da taxa metabólica basal (TMB), ou seja: TMB-Mulher = 66,5 + (9,56 × peso) + (1,85 × altura) – (4,68 × idade); TMB-Homem = 66,5 + (13,7 × peso) + (5 × altura) – (6,8 × idade); um método, mesmo assim, falível e dependente da atividade física dos indivíduos, para se perceber a quantidade necessária de calorias diárias. Esta preocupação começou no século XIX, mas só a partir de 1919 os investigadores americanos James Arthur Harris e Francis Gano Benedict tentaram sistematizar as informações existentes sobre o metabolismo basal com o desenvolvimento de equações a partir de medidas antropométricas. Cf. WAHRLICH, Vivian; ANJOS, Luís Antônio dos. Aspectos históricos e metodológicos da medição e estimativa da taxa metabólica basal: uma revisão da literatura. Cadernos de Saúde Pública, vol. 17, n. 4, Rio de Janeiro, jul./ago. 2001, p. 801–817.
32 ROSA MARIA [P], op. cit., p. 9.
33 Idem, p. 12.
34 ROSA MARIA [P], op. cit., p. 9–10.
35 FREIRE, Dulce. Produzir e beber vinho. A questão do vinho no Estado Novo (1929–1939). Lisboa: Âncora Editora, 2010, p. 200–204.
36 Idem, p. 13–14.
37 Idem, p. 14.
38 Idem, p. 87, 104, 119, 138, 149, 176.
39 Idem, p. 84, 98, 102, 132.
40 Idem, p. 104.
41 ROSA MARIA [P], op. cit., p. 144.
42 A situação alterou-se em edições posteriores. Idem, p. 61, 63.
44 Sobre o consumo do bacalhau enquanto alimento dos mais desfavorecidos, bem como as repercussões na literatura popular, cf. BRAGA, Isabel Maria Ribeiro Mendes Drumond. Morue. In: POULAIN, Jean-Pierre (dir.). Dictionnaire des cultures alimentaires. Paris: PUF, 2012.
45 Sobre os livros de cozinha dos séculos XVII e XVIII, cf. BRAGA, Isabel Maria Ribeiro Mendes Drumond. Do primeiro almoço à ceia. Estudos de história da alimentação. Sintra: Colares Editora, 2004; e BRAGA, Isabel Maria Ribeiro Mendes Drumond. Domingos Rodrigues e a arte de cozinha: uma vida pouco conhecida, uma obra muito usada. Lisboa: Círculo de Leitores, 2017, p. 7–48 (Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa).
46 ROSA MARIA [P], op. cit., p. 42, 109.
47 ROSA MARIA [P], op. cit., p. 30, 54.
48 Idem, p. 143.
49 Idem, p. 25, 32, 60, 84.
Na impossibilidade de exemplificar todas as questões, veja-se o caso da receita de “Arroz de amêijoas”:
“Lavam-se em água corrente as amêijoas de maneira a tirar toda a areia que estas têm. Põem-se a cozer e logo que estejam abertas, deitam-se num refogado de cebola, azeite, salsa picada, pimenta, sal, cravo-de-cabecinha e uma pitada de colorau doce. Depois de todas bem refogadas, junta-se-lhe a água e deixa-se ferver, e logo que ferva, lava-se o arroz e deita-se dentro até cozer. Prova-se, e manda-se servir uma vez que esteja ao vosso paladar. Se for tempo de tomates, não vos esqueçais de lhe deitar alguns depois de lhe tirardes a casca e a semente”.⁵⁰
Como se compreende, na primeira metade do século XX, a questão da sazonalidade dos alimentos tinha um peso bastante diferente do da atualidade. Apesar da conservação de géneros ser uma realidade desde tempos recuados, está bem patente a dependência de alguns alimentos da estação própria. Veja-se o caso do tomate, na receita supracitada e em outras.
Por exemplo, em “Arroz de camarão” pode ler-se: “tomates se os houver”; em “Cação de caldeirada” esclarece-se: “à falta de tomate fresco, pode empregar-se a conserva de calda, ou a massa, mas esta, em geral, quando comprada no mercado, não é de confiança”. Já em “Molho de tomate”, a opção é pacífica: “no tempo em que não há tomates frescos pode empregar-se massa de tomate ou calda de tomate em conserva”. Finalmente, em “Sopa de grão com arroz ou com massa”, uma possibilidade passava por juntar ervilhas ao preparado “no tempo” delas, pois ficava “muito gostosa”.⁵¹
Rosa Maria mostrou reservas acerca do consumo de tomate em conserva produzido industrialmente, como se verificou. Porém, nas receitas de doce, oscilou entre a preparação de geleias a partir da mão de vaca e o seu uso em folhas, ou seja, o consumo de um produto já processado, o que pode, de novo, evidenciar a cópia de receitas de épocas e proveniências diversas.
Sendo um livro de receitas básicas, pensadas para o dia a dia e para pessoas com recursos médios, não se verifica uma preocupação constante com os aproveitamentos das sobras ou com chamadas de atenção para os pratos económicos. Mesmo assim, em “Ovos com carne cozida” pode ler-se: “um dos bons processos de aproveitar a carne cozida que sobra dos jantares é cozinhá-la com ovos”;⁵² em “Sopa de carne à portuguesa” dá-se uma opção mais acessível: “estas sopas também se podem, por espírito de economia, substituir a carne por ossos de vaca ou vitela, que dão muito bom gosto e saem muito baratos”⁵³ e, em “Sopa à alentejana”, pode ler-se que é “muito rápida e económica”.⁵⁴
De alguma forma, semelhante foi a preocupação em preparar pratos rápidos e económicos para visitas inesperadas. Na receita de “Atum em maionese”, aconselhou:
“…as donas de casa previdentes e que dispõem dalguns meios têm sempre a sua despensa fornecida de elementos com os quais, à última hora, preparem uma iguaria, quando a chegada de um comensal inesperado torna necessário o acrescentamento do jantar. É manjar clássico para esses acrescentamentos o chouriço com ovos, mas os elementos a aproveitar são vários, e entre eles figura o atum de conserva em azeite, com o qual, num quarto de hora, se prepara uma boa maionese.”⁵⁵
A autora salientou alguns produtos locais que lhe pareceram particularmente bons, como o azeite de Santarém e as couves tronchudas do Douro, e apresentou alguns pratos regionais: “Açorda à alentejana”, “Bacalhau à moda do Porto”, “Bacalhau à portuense”, “Bacalhau de cebolada à alentejana”, “Bacalhau à Ericeira”, “Bacalhau albardado à moda de Águeda”, “Bacalhau com couve-flor à transmontana”, “Bacalhau em açorda à alentejana”, “Bacalhau em arroz à moda do Crato”, “Bacalhau à moda de Lamego”, “Carneiro à transmontana”, “Coelho à transmontana”, “Rosbife à portuense”, “Sopa à alentejana”, “Tripas à moda do Porto”, além de muitas outras receitas “à portuguesa”.
Encontram-se ainda muitos pratos que remetem para uma proveniência estrangeira,⁵⁶ tais como “Açorda à andaluza”, “Ameijoas à espanhola”, “Arraia à valenciana”, “Bacalhau à alsaciana”, “Bacalhau à espanhola”, “Bacalhau à aragonesa”, “Bacalhau à biscainho”, “Bacalhau à Cádis”, “Bacalhau à Chantilly”, “Bacalhau à inglesa”, “Bacalhau ao gratem à provençal”, “Bacalhau à parisiense”, “Bacalhau à provençal”, “Bacalhau à sevilhana”, “Bife à inglesa”, “Brócolos à italiana”, “Costeletas à milanesa”, “Dobrada à milanesa”, “Feijão branco à italiana”, “Frango à inglesa”, “Linguado à valenciana”, “Macarrão à italiana”, “Massa folhada à francesa”, “Molho à espanhola”, “Peru recheado à brasileira”⁵⁷, “Pudim de peixe à francesa”, “Repolho fresco à alemã” e “Salada de tomate à italiana”.
No capítulo dos doces, a inspiração mais recorrente parece ter sido o Brasil, não apenas nas designações como também em diversos doces com coco: “Baba de moça”, “Baba de moça com coco”, “Biscoitos de coco à sinhazinha”, “Compota à sinhazinha”, “Corações de moça”, “Pudim à Tijuca”, “Pudim de pão à brasileira” e “Queques de coco”. Refiram-se ainda “Pudim francês”, “Queques parisienses” e “Tigelinhas espanholas”.
Em termos regionais, apresentaram-se: “Fatias doces de Braga”, “Fidalguinhos de Braga”, “Maneizinhos de Elvas”, “Mulatos de Torres”, “Ovos-moles de Aveiro”, “Palitos de Oeiras”, “Pudim de ovos à moda de Coimbra”, “Queijadas de Estremoz”, “Queijadas da Madeira” e “Queijadas de Sintra”. Neste último caso, deu a fonte: “esta receita foi-me dada por uma criada que se dizia sobrinha da queijadeira sintrense Matilde e confirmada por pessoas da terra”.⁵⁸
Rosa Maria, em “Tripas à moda do Porto”, fez saber as diferenças do modo de preparar este prato em casa e nos restaurantes, considerando que neles “suprime-se em geral o trabalho de passar o feijão e juntam-se vários temperos, como cebola e louro, com os quais conseguem um prato muito mais indigesto”.⁵⁹ De resto, nunca se preocupou muito com a apresentação das iguarias, tendo só pontualmente dado sugestões.
Os utensílios de cozinha referidos foram muito pouco sofisticados. Num caso, a alusão remeteu para o passado, com o uso da sorveteira e a explicação acerca do funcionamento da mesma,⁶⁰ objeto que só se tornará obsoleto na segunda metade da centúria, quando o frigorífico começou a ser divulgado entre os particulares.⁶¹ Em “Bife à inglesa”, Rosa Maria considerou ser necessário um fogão e uma grelha com disposições especiais e, em “Ovos estrelados à portuguesa”, informou acerca da existência de frigideiras para estrelar ovos separados uns dos outros,⁶² o que parece evidenciar uma novidade para a época, uma vez que explicou as características da peça.
A análise das receitas, como se verificou, pode colocar em perspetiva domínios diferenciados, tais como os ingredientes, os utensílios, as técnicas culinárias e o produto final obtido. Ao identificar os géneros alimentares e os objetos que foram referenciados, vão desfilando permanências e mudanças, quer na própria obra quer quando se procede à comparação com outros receituários semelhantes de anos próximos. Basicamente, em Rosa Maria para o povo, predominou esmagadoramente o uso de produtos in natura, desconfiando-se, mas não excluindo, a calda de tomate e a gelatina industriais, o que evidencia a compilação de receitas de várias épocas. Não há referências a novidades para a cozinha, em especial no que se refere aos eletrodomésticos, cuja expansão se dará nos anos seguintes à II Guerra Mundial. A designação dos pratos remeteu para o nacional, para o regional e, mais modestamente, para o estrangeiro, o que está em consonância com a preparação de refeições comuns e pouco sofisticadas, com escasso investimento na apresentação dos pratos.
50 Idem, p. 27.
51 Idem, p. 29, 66, 112, 140.
52 ROSA MARIA [P], op. cit., p. 116.
53 Idem, p. 139.
54 Idem, p. 144.
55 Idem, p. 29–30.
56 Tenha-se em conta que os pratos “à moda de” e os pratos genuinamente de determinado local são realidades distintas. No caso das receitas “à moda de”, poderemos estar apenas a combinar ingredientes e modos de preparação típicos de um determinado local sem que nesse mesmo local se faça aquele prato dessa mesma maneira, enquanto, no caso das receitas nas quais se indica serem genuinamente de certo país ou região, estaremos perante uma receita efetivamente originária de determinado espaço. Cf. BRAGA, Isabel Maria Ribeiro Mendes Drumond. Influências estrangeiras nos livros de cozinha portugueses (séculos XVI–XIX): alguns problemas de análise. Estudos em homenagem ao prof. doutor José Marques, vol. 2. Porto: Faculdade de Letras, 2006.
57 A autora fez notar que “o peru recheado é o principal prato dos banquetes brasileiros”. Cf. ROSA MARIA [P], op. cit., p. 123.
58 ROSA MARIA [P], op. cit., p. 189.
59 Idem, p. 146.
60 Idem, p. 176. Sobre as sorveteiras, cf. BRAGA, Isabel Maria Ribeiro Mendes Drumond. Gelados. História de uma doce e fresca tentação. Sintra: Colares Editora, 2003.
61 BRAGA, Isabel Maria Ribeiro Mendes Drumond. Sabores e segredos. Receituários conventuais portugueses da Época Moderna. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra; Annablume, 2015.
62 ROSA MARIA [P], op. cit., p. 61, 117–118.
4 Rosa Maria para a elite, Rosa Maria para o povo: duas pessoas bem diferentes, isto é, uma mulher da sociedade carioca, Marieta de Oliveira Leonardos, e um homem, Gaspar de Almeida, funcionário de uma editora. Provavelmente pelos diferentes meios de que eram oriundos, as preocupações foram igualmente distintas: Rosa Maria do Brasil esteve atenta à sofisticação e ao luxo à mesa; Rosa Maria de Portugal, às pessoas com posses reduzidas, mas com anseios de apresentar diversidade de preparados às famílias durante as refeições do quotidiano. Duas autorias com destinatários diferentes, numa época em que ainda não havia um discurso de aproximação entre os dois tipos de culinária propostos. Como afirmou Paul Freedman,⁶³ foram as sociedades que desenvolveram o luxo e o artifício as mesmas que reagiram contra a excessiva elaboração dos pratos e procuraram redescobrir a simplicidade e a pureza dos pratos.Ao contrário da Rosa Maria do povo, a Rosa Maria para a elite não se dirigiu às mulheres em geral, mas sim a todas aquelas que se identificassem com os conselhos dados à sua “filha”. Estas certamente não seriam as que efetivamente iriam cozinhar, mas sim aquelas que deveriam supervisionar as refeições, escolher os cardápios e cuidar da apresentação da mesa. É o que se extrai de: “Mandar-te-ei receitas tão explicadas, que será bastante lê-las para a tua cozinheira do trivial, e, em pouco tempo, garanto-te que a transformarás em cozinheira de forno e fogão”.⁶⁴
Neste sentido, Rosa Maria para a elite preocupou-se mais em apresentar ementas para situações variadas, das mais luxuosas às mais simples, para a cidade, para a praia, para a roça, sem nunca perder de vista o requinte. Mas nunca, ao contrário da Rosa Maria para o povo, trouxe valores nutritivos ou conselhos de higiene alimentar, nem prestou atenção aos diabéticos ou aos homens e mulheres que trabalhavam “violentamente no campo, na oficina” e que, por isso, precisavam de alimentos que lhes fornecessem calorias para a sua recuperação.⁶⁵
Não encontramos nesta conselhos da literatura francesa, como os de Émile Zola ou de Voltaire, nem menus para almoços e jantares para epicuristas, intelectuais ou vegetarianos; em contrapartida, foram fornecidos regimes recomendados a artríticos, diabéticos e aos que sofriam de males dos rins, do fígado ou do estômago, bem como orientações dirigidas aos trabalhadores comuns e às donas de casa que faziam elas mesmas a comida e cuidavam das suas casas.
Pessoas diferentes, obras com objetivos diversos e com públicos igualmente distintos. Porém, como se explicam a adoção do mesmo pseudónimo, da mesma imagem de capa e de títulos semelhantes, em anos próximos, em dois países separados pelo oceano Atlântico? Lamentavelmente, para estas perguntas, no atual estado da investigação, apenas conseguimos formular hipóteses. O mesmo pseudónimo, Rosa Maria, terá sido uma coincidência? Se admitirmos que sim, já temos mais dificuldade em aceitar novo acaso para a imagem da capa, cuja autoria se desconhece. Contactos comerciais entre as duas editoras? Circulação de elementos das chefias ou dos criadores das capas de ambas as empresas? Tanto mais que, saliente-se, a capa original terá sido da editora portuguesa, uma vez que a edição brasileira de 1931 não tinha imagem. Por outro lado, em Portugal a capa manteve-se inalterada, ao contrário do que aconteceu no Brasil, onde se verificaram algumas variantes nas edições posteriores. Mais fácil parece ser a questão do título, pois é semelhante, mas não uma cópia.
Embora não haja estudos específicos sobre as editoras das obras em estudo, nem em Portugal nem no Brasil,⁶⁶ que permitam situar e clarificar a relevância deste género editorial que, no século XX, se tornou independente, pode afirmar-se que, no âmbito da produção e comercialização deste tipo de livros, estamos perante edições de sucesso, com tiragens elevadas, responsáveis pelo lucro comercial. A situação contrasta com a dos séculos anteriores, quando este tipo de publicações constituiu um setor pouco importante da edição, mesmo quando alguns títulos eram vendidos durante mais de 100 anos.⁶⁷
Em suma, a investigação levada a efeito permitiu uma abordagem comparada das duas obras em estudo, salientando as principais características de ambas, bem como as diferenças mais salientes, ao mesmo tempo que avançou no conhecimento da biografia de ambas as autorias, uma das quais um homem que, entendendo ser a culinária e a cozinha em geral matéria de mulheres, não hesitou em adotar um nome feminino para se impor junto ao público, presumivelmente constituído quase totalmente por mulheres.
63 FREEDMAN, Paul. A new history of cuisine. In: Idem (ed.). Food: the history of taste. Londres: Thames and Hudson, 2007, p. 18.
64 ROSA MARIA [B]. A arte de comer bem. Rio de Janeiro: Officina Industrial Graphica, 1931, p. 7.
65 ROSA MARIA [P]. A cosinheira das cosinheiras: a arte de comer bem. Higiene alimentar e mais de 500 receitas para cosinhar, fazer doces, gelados, compotas etc. 3ª edição. Lisboa: Empresa Literária Universal, s.d.
66 A título de sugestão de leitura sobre a temática, cf. BRAGANÇA, Aníbal; ABREU, Márcia (org.). Impresso no Brasil: dois séculos de livros brasileiros. São Paulo: Editora Unesp, 2010.
67 Situação semelhante verificou-se em França. Cf. HYMAN, Philip; HYMAN, Mary. Imprimer la cuisine: les livres de cuisine en France entre le XVe et le XIXe siècle. In: FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo (dir.). Histoire de l’alimentation. Paris: Fayard, 1997.
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2017 Sabores da Mesa na Obra de Miguel Torga
- Autor do artigo Por canthecan_bfmhxg
- Data do artigo Novembro 1, 2017
Sabores da Mesa na Obra de Miguel Torga
2017
TÍTULO: Sabores da Mesa na Obra de Miguel Torga
SUB TÍTULO:
AUTOR: Dina Fernanda Ferreira de Sousa
NOTAS DE AUTORIA:
PREFÁCIO: Eloísa Álvarez
SUPORTE: Impresso
GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia
DATA DE PUBLICAÇÃO: novembro de 2017
DEPÓSITO LEGAL:
EDIÇÃO:
LOCAL:
EDITORA: Colares Editora
TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR:
ENCADERNAÇÃO: Capa Mole
FORMATO / DIMENSÕES: 56 x 228 x 14 mm
NÚMERO DE PÁGINAS:
COLECÇÃO:
ISBN/ISSN:
COLECÇÃO DE: SELO DE MAR
REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 00
OBSERVAÇÕES:
2016 À Mesa com Eça de Queirós
- Autor do artigo Por canthecan_bfmhxg
- Data do artigo Março 1, 2016
À Mesa com Eça de Queirós
2016
TÍTULO: À Mesa com Eça de Queirós
SUB TÍTULO:
AUTOR: Maria Antónia Goes
NOTAS DE AUTORIA:
PREFÁCIO: Loy Rolim
SUPORTE: Impresso
GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia
DATA DE PUBLICAÇÃO: março de 2016
DEPÓSITO LEGAL:
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EDITORA: Colares Editora
TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR:
ENCADERNAÇÃO: Capa Mole
FORMATO / DIMENSÕES: 56 x 228 x 14 mm
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REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 00
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