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Bertha Rosa Limpo

Bertha Rosa Limpo

1957 Receitas de peixes

Bertha Rosa Limpo. – Lisboa: Fábrica Nacional de Margarinas, [D. L. 1957]. – (Margarina do Chefe; 1) Selo de Mar collection

1957 Receitas de carnes

Bertha Rosa Limpo. – Lisboa: Fábrica Nacional de Margarinas, [D. L. 1957]. – (Margarina do Chefe; 3) Selo de Mar collection

Culinária e Etiqueta em Portugal nos Anos 30: as Propostas de Estela Brandão

 

Isabel M. R. Mendes Drumond Braga

Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras e CIDEHUS-UE

isabeldrumondbraga@hotmail.com

PDF Culinária e Etiqueta em Portugal nos Anos 30: as Propostas de Estela Brandão

Resumo:
As propostas culinárias portuguesas dos anos 30 do século XX revelam uma significativa capacidade de adaptação às novas realidades económicas do período entre as duas guerras mundiais, ao mesmo tempo que se dirigem a públicos diferenciados, com destaque para os menos abastados e com fraca formação. É neste contexto que surgem obras pensadas para ensinar a preparar refeições simples, económicas e variadas, a par de conselhos básicos relativos ao aproveitamento de restos, a truques para poupar, bem como regras de etiqueta e um conjunto de preparações muito diversificadas relativas a questões que poderíamos definir como de economia doméstica em sentido lato, uma vez que abrangem matérias tão distintas como tirar nódoas, lavar loiça, cuidar da criação, entre outras.

No âmbito deste texto, pretende-se estudar o contributo conservador de Estela Brandão, através da sua obra em três volumes intitulada Arte e Economia (1937–1940) e de outra intitulada Regras de Bem Viver na Sociedade (1938), com vista a ensinar e preparar jovens pouco conhecedoras das realidades domésticas. Esta abordagem será complementada com a comparação com outras publicações da época, designadamente alguns livros de receitas de Rosa Maria e de Branca Miraflor, autoras que, no mesmo período, demonstraram preocupações semelhantes.

Palavras-chave: Culinária; Economia doméstica; Estela Brandão; Portugal; século XX.

1. Contexto Político

Em 1916, o governo liderado por Afonso Costa optou pela entrada de Portugal na I Guerra Mundial, ao lado da Inglaterra, França, Itália, Bélgica, Rússia e outros países, contra a Alemanha, a Áustria e os seus aliados. Foram várias as motivações subjacentes a esta decisão. Por um lado, o Partido Democrático, então no poder e dominador da máquina eleitoral, conseguiu congregar os portugueses em torno de um projecto comum, apresentado como patriótico, logrando o apoio de outro partido, o Evolucionista, enquanto os próprios monárquicos cessaram temporariamente as tentativas restauracionistas. Por outro lado, o regime republicano português alcançou uma maior aceitação por parte da Inglaterra, que nunca havia visto com bons olhos a proclamação da República em 1910. Acresce ainda o facto de Portugal demarcar claramente a sua posição face a Espanha, país neutral e acusado por muitos de simpatias germanófilas, bem como a necessidade de defender as colónias africanas da cobiça alemã.

Em 1917, tropas portuguesas — o denominado Corpo Expedicionário Português —, organizado pelo ministro da Guerra, general Norton de Matos, passaram a intervir no teatro de guerra europeu, enquanto outros contingentes foram destacados para defender Angola e Moçambique dos ataques alemães. A guerra trouxe consigo uma profunda crise económica e social: aumento do custo de vida, escassez de géneros de primeira necessidade, fome, desemprego, agitações populares, assaltos a estabelecimentos comerciais e greves.

A participação portuguesa no conflito, que para grande parte da população pouco significava, sobretudo no teatro europeu, gerou um crescente descontentamento social e político, contribuindo para o golpe de Estado liderado por Sidónio Pais, em Dezembro de 1917. O novo chefe do governo, acusado por alguns sectores de germanofilia, reduziu o esforço de guerra de Portugal. A I Guerra Mundial terminou em Novembro de 1918, tendo o país sido reconhecido entre os vencedores e confirmada a posse das suas colónias.

Nos anos que se seguiram ao fim do conflito, Portugal continuou a sentir de forma intensa as suas sequelas, com inflação, desvalorização da moeda, falência de instituições bancárias e um empobrecimento generalizado da população. A conjuntura era, consequentemente, bastante desfavorável do ponto de vista económico, situação que não melhorou nos anos seguintes, nem no plano interno nem no contexto internacional.

A grande crise económica que se seguiu a 1929 levou os Estados europeus ao desenvolvimento de uma mentalidade autárcica, entrincheirando-se nas suas fronteiras económicas, fechando-se aos contactos com o exterior e reforçando as barreiras alfandegárias. Este nacionalismo económico contribuiu para o reavivar de velhos ódios e inimizades, que se agudizaram com a subida ao poder, na Alemanha, de Hitler, em 1933. No seu livro Mein Kampf (1923), este apresentara um programa claramente expansionista, assente na vingança pela derrota sofrida em 1918, na criação de uma “Grande Alemanha”, reunindo todos os povos de sangue germânico, e na constituição de um “espaço vital” alemão, o que implicaria uma expansão em direcção ao Leste.

Em Outubro de 1936, constituiu-se o eixo Roma–Berlim. No mês seguinte, foi criado o Pacto Anti-Komintern, ao qual aderiu o Japão. A solidariedade entre os regimes totalitários europeus manifestou-se de forma particularmente evidente nas visitas de Mussolini a Berlim, em Setembro de 1937, e de Hitler a Roma, em Maio de 1938. Entre Julho de 1936 e Março de 1939 decorreu a Guerra Civil de Espanha, o primeiro palco em que se defrontaram os blocos que mais tarde se oporiam na II Guerra Mundial, servindo igualmente de campo de ensaio para novas técnicas e materiais bélicos.

A Conferência de Munique, realizada a 29 e 30 de Setembro de 1938, reuniu Hitler, Mussolini e os primeiros-ministros da Inglaterra e da França. Estes últimos cederam às exigências alemãs, conduzindo à desagregação da Checoslováquia enquanto Estado soberano. À referida conferência seguiram-se acordos bilaterais entre a Alemanha e a Inglaterra e entre a Alemanha e a França, reafirmando-se formalmente as relações pacíficas entre esses países. Acreditou-se, então, que a guerra teria sido evitada.

Todavia, em Março de 1939, contrariando os compromissos assumidos, Hitler ordenou a invasão de Praga e instituiu o Protectorado da Boémia-Morávia. No mês seguinte, Mussolini procedeu à anexação da Albânia. A 1 de Setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polónia e, dois dias depois, a França e a Inglaterra declararam-lhe guerra. Tinha início a II Guerra Mundial (1939–1945), que opôs os Aliados — Inglaterra, França, Estados Unidos da América, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, entre outros — às Potências do Eixo, constituídas pela Alemanha, Itália e Japão.

1 Marques 1991a: 709-717; Martinez 2001: 135-319; Rosas 2009: 245-406.

A grande crise económica que se seguiu a 1929 levou os Estados europeus ao desenvolvimento de uma mentalidade autárcica, entrincheirando-se nas suas fronteiras económicas, fechando-se aos contactos com o exterior e aumentando as barreiras alfandegárias. Este nacionalismo económico contribuiu para o reavivar de velhos ódios e inimizades, que se agudizaram com a subida ao poder, na Alemanha, de Hitler, em 1933, o qual, no seu livro Mein Kampf (1923), apresentara um programa claramente expansionista: vingar a derrota sofrida em 1918, criar uma “Grande Alemanha”, constituída por todos os povos de sangue germânico, e estabelecer um “espaço vital” alemão, o que implicaria uma expansão em direcção ao Leste.

Em Outubro de 1936, constituiu-se o eixo Roma–Berlim. No mês seguinte, foi criado o Pacto Anti-Komintern, ao qual aderiu o Japão. A solidariedade entre os dois regimes totalitários europeus manifestou-se de forma particularmente evidente nas visitas de Mussolini a Berlim, em Setembro de 1937, e de Hitler a Roma, em Maio de 1938. Entre Julho de 1936 e Março de 1939 decorreu a Guerra Civil de Espanha, o primeiro teatro em que se confrontaram os blocos que mais tarde estariam em oposição na II Guerra Mundial, para além de aí se terem testado novas técnicas e materiais bélicos.

A Conferência de Munique, realizada a 29 e 30 de Setembro de 1938, reuniu Hitler, Mussolini e os primeiros-ministros da Inglaterra e da França. Estes últimos cederam às exigências alemãs, o que conduziu ao desaparecimento da Checoslováquia enquanto Estado soberano. À referida conferência seguiram-se acordos bilaterais entre a Alemanha e a Inglaterra, e entre a Alemanha e a França, reafirmando-se formalmente as relações pacíficas entre esses Estados. Acreditou-se, então, que a guerra fora evitada.

Todavia, em Março de 1939, contrariando os compromissos assumidos na Conferência de Munique, Hitler ordenou a invasão de Praga e instituiu o Protectorado da Boémia-Morávia. No mês seguinte, Mussolini procedeu à anexação da Albânia. A 1 de Setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polónia e, dois dias depois, a França e a Inglaterra declararam-lhe guerra. Tinha começado a II Guerra Mundial (1939–1945), que opôs os chamados Aliados — Inglaterra, França, Estados Unidos da América, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, entre outros — às denominadas Potências do Eixo, constituídas pela Alemanha, Itália e Japão.²

Em Portugal, o Estado Novo manteve a aliança histórica com a Inglaterra, mas estreitou igualmente relações com países onde vigoravam regimes de tipo fascista, como a Itália e a Alemanha. No caso de Espanha, António de Oliveira Salazarapoiou o levantamento militar de 1936, conduzido contra um governo de coligação socialista e comunista, que deu origem à Guerra Civil e culminou na vitória do general Francisco Franco, conduzindo à institucionalização de um regime ideologicamente aparentado com o português.

A posição de Salazar foi, contudo, oficialmente de neutralidade, uma vez que, embora ideologicamente próximo da Alemanha e da Itália, não pretendia romper a duradoura ligação diplomática e estratégica de Portugal à Inglaterra. Ainda assim, existiam no país sectores de opinião favoráveis quer à Alemanha quer à Inglaterra.³

Do ponto de vista económico, Portugal não era autossuficiente em termos alimentares, dependendo do abastecimento externo de numerosos géneros. A política agrícola do Estado Novo revelou-se globalmente pouco eficaz, apesar de, precisamente durante os anos 1930, a denominada Campanha do Trigo ter apresentado, numa fase inicial, resultados aparentemente promissores, com o aumento da área cultivada. Esses resultados esgotaram-se, porém, à entrada da II Guerra Mundial. Assim, o conflito armado limitou-se a tornar mais evidentes as vulnerabilidades estruturais da economia portuguesa.⁴

2 Sobre a II Guerra Mundial, a bibliografia . muito vasta. Cf., de entre outros, por exemplo, Parker 1989; Gibert 2009.

3 Sobre a posi..o pol.tica de Salazar face . II Guerra Mundial, cf. Meneses 2010: 249-357.

4 Nunes, Brito 1992: 319-321; Rosas 1994: 322-327.

 2. As Propostas Culinárias
No período entre as duas Guerras Mundiais, concretamente na década
de 30, surgiram vários livros de receitas destinados a públicos menos exigentes, isto é, pessoas menos abastadas e com fraca formação. A I Guerra Mundial implicou uma simplificação dietética, aliada à escassez dos géneros
alimentares e ao consequente racionamento, o que levou a alterações nos hábitos gastronómicos, com a diminuição de pratos por refeição, pondo fim à longa herança de sumptuosas refeições quotidianas entre os abastados. A II Guerra Mundial consolidou esta realidade 5. O mesmo aconteceu na Itália de
Mussolini 6 e em Espanha, um espaço que conheceu uma situação mais agravada em resultado da Guerra Civil 7. Neste contexto, e em Portugal, destaquem-se os casos das autoras Estela Brandão, Rosa Maria e Branca Miraflor, cujas obras, no entanto, não se destinaram exatamente ao mesmo tipo de leitoras. Estela Ramalho Nunes de Sá Brandão (1889-1960) cursou Belas Artes, estudou piano no Conservatório de Música do Porto e exerceu funções docentes em línguas e em música. Foi autora de obras para crianças e colaborou em jornais do Norte de Portugal, designadamente Correio do Minho (Braga) e Estrela do Minho (Vila Nova de Famalicão), usando o pseudónimo Simone.
No primeiro, assinou uma coluna intitulada “Para vós, minhas Senhoras” que, posteriormente, reuniu em livro sob o mesmo título, publicado em 1938 8. Nestas crónicas sobre vários assuntos, em particular acerca das funções das mulheres no lar, demonstrou de forma cabal o seu posicionamento conservador, como já foi salientado por Maria Teresa Santos 9. Escreveu também um manual de etiqueta, intitulado Regras de Bem Viver na Sociedade, publicado igualmente em 1938. A obra, dividida em 24 capítulos, remeteu várias vezes para o seu livro mais conhecido Arte e Economia, designadamente quando referiu ceias e refeições cerimoniosas. No prólogo, esclareceu os propósitos que nortearam a publicação: “dando publicidade a este livrinho, pensei ser útil àqueles que, por um capricho da sorte, foram colocados numa esfera social superior àquela onde foram nascidos e criados. Hoje em dia é isto um caso vulgar. E daí o verem-se às vezes em embaraços, para proceder como manda a etiqueta e as praxes sociais”10. Ou seja, a autora fez alusão ao fenómeno cíclico de ascensão social, que sempre deu origem a públicos cujo poder económico aumentou mas que necessitavam de ser educados, pois não tinham tido uma formação de base própria do meio ao qual acabavam de ascender 11.

5 Sobre esta realidade, cf. Marques 1991b: 617-626.

6 Sobre a Itália de Mussolini, nos anos 30, e em concreto sobre o pouco entusiasmo a nível local pelo fascismo, cf. Corner 2015: 221-250, passim.

7 Sobre os problemas da fome durante a Guerra Civil Espanhola, cf., de entre outros, Romero Samper 2013: 159-190. Não obstante, a propaganda política recorria ao turismo político, investindo na hospitalidade dos visitantes, os quais eram controlados politicamente. Sobre esta matéria, cf. García 2006: 287-308.

8 Sobre alguns elementos biográficos de Estela Brandão, cf. Oliveira 1981: 168; Santos 2005: 324.

9 Santos 2005: 324.

10 Brandão 1938a: 5.

11 Sobre estas matérias, cf. Visser 1991: 69-78 passim; Braga 2004: 13-14.

A obra mais conhecida de Estela Brandão, publicada em 1934 e com segunda edição aumentada entre 1937 e 1940, intitulou-se Arte e Economia. Foi dedicada à neta, Maria de Lourdes Brandão d’Almeida, e dividida em três volumes. O primeiro abordou a culinária, o segundo as receções, ceias, chás, doces e licores, continuando a fornecer receitas, e o terceiro uma enciclopédia caseira além de dois tratados sobre criação de aves e coelhos. No prólogo, pediu a benevolência das leitoras e apresentou a obra, finalizando: “parece-me ser assim útil às meninas inexperientes, que se vejam em dificuldades na sua vida caseira, desejando-lhes que encontrem no meu trabalho um conselho amigo e poderoso auxiliar”12. Em Arte e Economia, Estela Brandão começou por fornecer ementas para 30 dias, coligidas a partir de receituários que não identificou, das cozinhas portuguesa e francesa. Afirmou que as receitas constituíam fórmulas garantidas, todas delicadas”14. Estela Brandão tornou, desde logo, muito claro que era urbana mas que escrevia para mulheres das cidades e das zonas rurais. No início do volume dedicado à culinária, considerou que “as refeições abundantes e pesadas entorpecem o espírito, amolentam a vontade e arruínam a saúde e a bolsa”15. Deteve-se também no que entendeu ser uma gestão racional dos recursos das famílias, ao escrever: “a economia é para todos útil, mormente àqueles cujos meios de fortuna não abundam. Porém, deve ser uma economia inteligente que abrangerá em último lugar a mesa, pois a alimentação sã e abundante representa uma grande economia: no médico, farmácia e nas aflições que nos causa os filhos ou o marido doente ou enfraquecidos”16

“Para vós, minhas Senhoras”

“Regras de Bem Viver na Sociedade”

Neste sentido, era imprescindível que as donas de casa fossem dotadas de um conjunto de qualidades, a saber: paciência, tenacidade, bom humor e atitudes com vista a facilitar a economia 17, matérias que irá desenvolver ao longo de algumas páginas. Apesar de tudo, pressupôs, em vários momentos, que se estava a dirigir a mulheres em cujas casas havia uma ou duas criadas, mas que com estas dividiam tarefas domésticas 18. Por exemplo, no terceiro volume apresentou um manual para a criada de sala e um outro para a de cozinha e considerou: “hoje em dia, com a carestia da vida, rara é a casa que pode ter mais que duas criadas, a não ser que as pessoas da casa sejam em número elevado, que careçam de muito pessoal para a boa organização do ménage” […] “havendo como é uso, duas criadas, a de sala levantar-se-á às 7 ½ no inverno e às 7 no verão”19. Ou seja, dirige-se a um público feminino alfabetizado com meios mais do que escassos mas menos do que abundantes.

Ao longo da obra, Estela Brandão insistiu em questões básicas de pontualidade, de higiene e de elegância doméstica. Sugeriu a aquisição de um relógio para a cozinha, a comunicação de instruções precisas por parte da dona de casa à criada acerca dos horários das refeições, para os preparados não chegarem frios à mesa e um conjunto de medidas que deveriam ser implementadas visando a boa ordem e limpeza quer das instalações onde eram preparados e servidos os alimentos quer dos utensílios, sem esquecer os panos e os aventais 20. A elegância da mesa das refeições e da sala onde eram tomadas foram assuntos abordados em vários momentos 21. Por exemplo: “as toalhas e guardanapos quanto possível da cor das flores ou, pelo menos, barras da mesma cor em fundo branco. Para jantar é sempre mais elegante e belo a toalha branca, mas no campo e na praia dá um ar alegre e vistoso essas toalhas bordadas com barras garridas”22 ou “a comida mal apresentada, perde metade do seu sabor”23. Era a tradicional aliança entre valor gastronómico dos pratos e apresentação dos mesmos 24.

12 Brandão 1937: n. num.

13 Brandão 1937: 9.

14 Brandão 1937: 9.

15 Brandão 1937: 10.

16 Brandão 1937: 14.

17 Brandão 1937: 10-21.

18 Sobre esta realidade em outros espaços, cf. Capatti, Montanari 2002: 301.

19 Brandão 1940: 9.

20 Sobre a organização e a limpeza do espaço doméstico, cf. Silva 2008: 108-121.

21 Este tipo de preocupações também era visível nas revistas femininas. Cf., por exemplo, Braga 2007: 216-217.

22 Brandão 1937: 19.

23 Brandão 1940: 27.

24 Capatti, Montanari 2002: 228.

Figs 1, 2, 3 – Duas capas e um frontispicio da obra de Estela Brandão, Arte e Economia.

O receituário de cozinha apresentado no primeiro volume compreendeu 30 ementas de almoço e outras tantas de jantar, num total de 382 preparados. Genericamente, pode afirmar-se que as refeições foram constituídas por entrada, apenas nos almoços, dois pratos e sobremesa, embora em alguns casos o segundo prato não fosse mais do que o acompanhamento do primeiro. O jantar foi sempre objeto de mais atenções, apresentando, em alguns dias, duas sobremesas, uma de doce outra de fruta. Realce para o facto de as receitas de entradas terem sido fornecidas à parte e depois de esclarecimentos básicos prévios: “em quase todos os almoços é bonito servir as entradas próprias, que constituem um belo aperitivo. As entradas clássicas, tais como manteiga, rabanetes, azeitonas, camarões, sardinhas de lata, fiambre, paio, foie-gras, tudo isto não tem preparação especial […] fora essas entradas há muitas outras que se preparam com antecedência e que se podem classificar em entradas quentes e frias”25. Das primeiras forneceu 17 e das segundas 10. A sobremesa também mereceu comentários: “não é dispensável, faz parte do alimento, pois contém na sua maior parte ovos, leite, substâncias muito nutritivas, permitindo ficar com o estômago leve e trabalhar logo após a refeição sem prejuízo para a saúde”26.

Nas receitas não se verificou a separação entre ingredientes e modos de preparação e nem sempre se indicaram as quantidades de todos os géneros, nem tão pouco os tempos de preparação e de cozedura, aspetos que constituem marcas de um arcaísmo significativo, pois são características que se podem encontrar nos livros de cozinha anteriores ao século XIX. Se bem que Estela Brandão, quando indicou quantidades, o tenha feito utilizando o sistema métrico-decimal, o que não é para estranhar uma vez que estava em vigor desde 1852, numa receita, “doce de viúvas”, chegou a referir as libras 27. Como se assumiu como compiladora e não como autora, torna-se evidente que possuía, como todas as pessoas que cozinham, receitas de várias épocas e proveniências. Por outro lado, em alguns casos, o receituário indicou que deveria ser utilizada certa massa ou determinado molho mas não remeteu para a seção da obra onde os mesmos se encontravam. Por exemplo, na receita de “couve-flor alourada”, podem ver-se algumas destas questões: “Coze-se a couve-flor em água temperada de sal. Faz-se um molho branco com leite, farinha e manteiga, Unta-se um prato de ir ao forno, com manteiga. Escorrese a couve-flor da água, parte-se em bocadinhos e mistura-se no molho, que também leva pimenta, e uma ou duas colheres de queijo ralado. Polvilha-se esta massa, depois de estar no prato de ir ao forno, com queijo e pão ralado, regando-se com um pouco de manteiga e leva-se ao forno para tostar”28.

Os ingredientes utilizados foram muito variados e no âmbito deste texto não pretendemos fazer uma análise exaustiva dessa matéria. Contudo, queremos salientar que não raras vezes se referiu a conhaque, kirsch e rum, entre as bebidas, e a ingredientes eventualmente considerados mais mimosos e pouco comuns como os palitos a la reine, cuja receita forneceu, e os champignons, que nunca traduziu. Apesar de referir que compilara receitas portuguesas e francesas, alguma influência italiana também se fez sentir, nem que tenha sido por via indireta, pois integrou preparados com aletria e macarrão, sem esquecer pratos de risotto. Em sentido oposto, importa salientar a presença de diversos pratos em que não se identificaram as espécies de peixe e de carne e em que tais géneros foram utilizados picados, a par de receitas com as partes menos nobres das carnes, designadamente dobrada, fígado, línguas, mãos, miolos e rins. Ainda neste crepes, bacalhau, peixes, legumes, batatas, arroz e massas, macarrão, miúdos de vaca, salsicharia, carnes, sobremesas várias, pudins e cremes. Esta opção, aliada, em alguns casos, à maneira pouca clara de escrever – não obstante ter sido autora de um Manual Prático da Arte de Redigir, publicado em 1957 – e à própria arrumação da obra, vem demonstrar estarmos perante uma pessoa muito pouco organizada, uma das características que começou por enaltecer nas donas de casa. No segundo volume de Arte e Economia, a autora dedicou-se às receções familiares, íntimas e cerimoniosas, definindo cada categoria e fornecendo receitas, num total de 278, que entendeu adequadas para esses momentos. Mais uma vez, o aparecimento das considerações e dos vários assuntos não foi o mais metódico. Referiu-se ao chá, café, chocolate e chocolate com ovos e às maneiras de preparar estas bebidas, em seguida forneceu uma lista de utensílios para fazer “toda a qualidade de doces”, passou para o açúcar em calda, para os pontos de açúcar e para os glacés 30. Posteriormente, apresentou sugestões de receitas para três merendas íntimas, três chás íntimos e 10 chás cerimoniosos. Seguiu-se uma secção sobre a ceia de Natal à moda do Minho, outra sobre a ceia de Natal, presumivelmente do resto do país, uma outra para o dia 31 de dezembro. Fez marcha atrás e regressou ao lunch do dia de Natal para saltar em seguida para o do dia 1 de janeiro.

Enalteceu a maneira de servir o chá, naturalmente pela dona da casa ou por uma menina da família, o qual deveria ser acompanhado por torradas ou pãezinhos, bolos secos, doces de ovos e, por fim, bombons, amêndoas, rebuçados, etc.31, numa mesa bonita e bem decorada. Mas foram as ceias natalícias que mais a terão fascinado: “as ceias de Natal têm, em cada país, seus usos e costumes. Em Portugal, variam um pouco de Norte a Sul. No Norte, ainda se conserva a tradição (aliás bem interessante e comovente) de reunir toda a família no dia 24, para a clássica ceia de Natal, que é servida das 8 para as 9 da noite”32.

25 Brandão 1937: 99.

26 Brandão 1937: 10.

27 Brandão 1937: 51.

28 Brandão 1937: 26.

 

29 Brandão 1937: 35, 56. Sobre a questão dos aproveitamentos, cf. Braga 2007: 221; Braga 2008: 117-141; Braga 2012: 201-226 e Vaquinhas, Guimarães 2011: 194-221. Para o espaço italiano, cf., por exemplo, Mafai 2008: 99-100.

30 Brandão 1939: 14-20.

31 Brandão 1939: 14. 32 Brandão 1939: 55.

32 Brandão 1939: 55.

Fig. 4 – Capa da obra de Rosa Maria, A Cosinheira das Cosinheiras.

Nas considerações que publicou teve preocupações de adequação da ingestão dos alimentos às épocas do ano. Por exemplo, entendeu que, “no inverno, o chocolate é muito indicado, não só por ser um bom alimento, agradável ao paladar, como tem a vantagem de aquecer e confortar. Sempre que ele se sirva, deve fazer-se acompanhar com torradas e um copo de água fria, evitando servir nessa ocasião iguarias de carne ou conserva”33 ou aindaque “não deve porém faltar nestas ocasiões frutas frescas no verão, compotas, nozes e figos secos no inverno”34.
As receitas apresentadas neste volume foram divididas em várias secções: pãezinhos diversos, neles incluindo scones e torradas com mel e nozes; doces diversos, uma miscelânea tão abrangente que contém aletria, arroz doce, cremes, crepes, frutas assadas e cristalizadas, marrons glacés, massapães, nuvens, ovos-moles, pastéis, pudins, queques, rabanadas, sonhos, tortas, de entre outros preparados; e ainda as secções de bolos, incluindo um de noiva; biscoitos, rebuçados, compotas, sorvetes, carapinhadas, bebidas geladas, bebidas quentes e, finalmente, licores.
No último volume, além dos referidos manuais para as criadas de sala e para as de cozinha, Estela Brandão incluiu uma rubrica intitulada “O que todas as donas de casa devem saber”. Trata-se de uma mini enciclopédia organizada por ordem alfabética e com informações diversificadas: conselhos e remédios para resolver problemas de saúde (por exemplo aftas, anginas, desmaios, eczema, enjoos, enxaquecas, dores reumáticas, insónias e queimaduras), e de higiene do lar (limpar armas, chapéus, joias, nódoas, objetos de cobre e vidros, evitar a oxidação de metais e exterminar baratas, formigas, pulgas e ratos), conservar alimentos (azeitonas, evitar o ranço do azeite, eliminá-lo da manteiga) e outros bens, tais como peles; manipular preparados para obter cremes de beleza e para a barba ou ainda para evitar a queda de cabelo e a caspa, ou eliminar as rugas e os pelos ou extirpar os calos. A obra terminou com dois manuais acerca da criação de aves e de coelhos, com informações sobre as raças e as formas de as escolher, além de referências às doenças dos animais e às formas de atuar 35. Ou seja, sendo uma mulher urbana não descurou a presença de casas citadinas com quintais onde se criavam espécies de pelo e de pena – pensemos no que chegou a ser protagonizado por Maria de Jesus Caetano Freire, a governanta de Salazar, que criou galinhas e coelhos nos pátios e jardins das residências particulares e oficiais do presidente do Conselho 36 – e, naturalmente, as casas rurais habitadas por famílias cujas mulheres teriam interesse em informações sobre criação de galinhas e de coelhos.

Arte e Economia é, como o título indica, mais do que um livro de culinária. Aparentemente, consistiu numa miscelânea de assuntos díspares, mas que não eram assim entendidos nem no passado nem na época em que escreveu. Culinária, cosmética, farmacopeia e todo um conjunto de receitas para limpar e cuidar de produtos domésticos eram matérias que tinham como palco as cozinhas das casas, e que se produziam a partir das heranças de conhecimentos de alimentação e saúde antigos, elaborados e reelaborados de acordo com as práticas e a integração de novos produtos. A união destas matérias era então uma realidade, pelos produtos, pelas técnicas e pelos locais de produção utilizados, quase sempre os mesmos ou com variantes pouco acentuadas. Vejamos de que modo Estela Brandão se aproximou ou se afastou de autoras suas contemporâneas que visaram propósitos semelhantes, designadamente de Rosa Maria e de Branca Miraflor. A primeira é uma figura de quem nada se sabe, publicou diversos livros de cozinha, todos eles pautados pela ideia base de permitir às donas de casa realizar pratos económicos. A obra de maior sucesso foi A Cosinheira das Cosinheiras, com 30 edições até 1982. Desconhece-se a data da primeira edição. A autora pretendeu aliar higiene, ideias sobre nutrição, sobriedade alimentar, saúde, receitas práticas e economia. Dirigida às donas de casa, visava facilitar as tarefas daquelas no que à alimentação familiar se referia. Rosa Maria teve em conta as necessidades calóricas das pessoas de acordo com a idade, a atividade física e as estações do ano, caracterizou alimentos e propôs regimes específicos para diabéticos, artríticos e ainda para os doentes de estômago, fígado e rins. Antes de passar às receitas, apresentadas por ordem alfabética, primeiro os salgados e depois os doces, ainda escreveu um capítulo acerca da necessidade de cozinhar os alimentos. Em certos momentos não faltaram considerações de teor moral. Por exemplo, ao referir-se ao vinho, explicitou: “do abuso do vinho têm resultado terríveis enfermidades, como a delirium tremens, a loucura, doenças de fígado, etc. e não menor número de desordens e desgraças de ordem moral, que têm levado muitos ao degredo, à penitenciária e ao patíbulo”37.

33 Brandão 1939: 12.
34 Brandão 1939: 13.
35 Brandão 1940.
36 Vieira 2010: 49–50, 69.

Figs 5 e 6 – Capas de duas obras de Rosa Maria

Arte e Economia é, como o título indica, mais do que um livro de culinária. Aparentemente, consistiu numa miscelânea de assuntos díspares, mas que não eram assim entendidos nem no passado nem na época em que escreveu. Culinária, cosmética, farmacopeia e todo um conjunto de receitas para limpar e cuidar de produtos domésticos eram matérias que tinham como palco as cozinhas das casas, e que se produziam a partir das heranças de conhecimentos de alimentação e saúde antigos, elaborados e reelaborados de acordo com as práticas e a integração de novos produtos. A união destas matérias era então uma realidade, pelos produtos, pelas técnicas e pelos locais de produção utilizados, quase sempre os mesmos ou com variantes pouco acentuadas. Vejamos de que modo Estela Brandão se aproximou ou se afastou de autoras suas contemporâneas que visaram propósitos semelhantes, designadamente de Rosa Maria e de Branca Miraflor. A primeira é uma figura de quem nada se sabe, publicou diversos livros de cozinha, todos eles pautados pela ideia base de permitir às donas de casa realizar pratos económicos. A obra de maior sucesso foi A Cosinheira das Cosinheiras, com 30 edições até 1982. Desconhece-se a data da primeira edição. A autora pretendeu aliar higiene, ideias sobre nutrição, sobriedade alimentar, saúde, receitas práticas e economia. Dirigida às donas de casa, visava facilitar as tarefas daquelas no que à alimentação familiar se referia. Rosa Maria teve em conta as necessidades calóricas das pessoas de acordo com a idade, a atividade física e as estações do ano, caracterizou alimentos e propôs regimes específicos para diabéticos, artríticos e ainda para os doentes de estômago, fígado e rins. Antes de passar às receitas, apresentadas por ordem alfabética, primeiro os salgados e depois os doces, ainda escreveu um capítulo acerca da necessidade de cozinhar os alimentos. Em certos momentos não faltaram considerações de teor moral. Por exemplo, ao referir-se ao vinho, explicitou: “do abuso do vinho têm resultado terríveis enfermidades, como a delirium tremens, a loucura, doenças de fígado, etc. e não menor número de desordens e desgraças de ordem moral, que têm levado muitos ao degredo, à penitenciária e ao patíbulo”37.

As dificuldades económicas e a necessidade de simplificar as refeições levaram à elaboração de menus simples e baratos, divulgados em livros de baixo custo, vendidos a 1$00. Rosa Maria, no prefácio de um deles, Como se Almoça por 1$50: 100 Almoços Diferentes, a isso mesmo se referiu, em 1933, data da primeira edição 38. O mesmo aconteceu na obra Como se Janta por 3$00. 100 Jantares Diferentes, publicada igualmente em 1933 39. Ambos os livros conheceram três saídas até 1936. O primeiro composto por 40 páginas, o segundo por 52. Foram impressos em papel de má qualidade, com caracteres pequenos e sem índices. As receitas apresentadas eram naturalmente simples e económicas, sendo de destacar que entre elas não se contaram sobremesas, entendidas como um luxo, e que aparecem sempre os preços dos géneros, tendo em conta o mercado de Lisboa. Rosa Maria explicitou, numa nota de abertura dirigida às leitoras, que: “ao elaborar estes menus económicos, tive em mira facilitar-vos, perante a escassez de recursos, uma série de almoços práticos e variados sem que com eles tenham que gastar mais do que o orçamento, porém estes almoços quando cozinhados em conjunto (para duas ou três pessoas) devem sair mais económicos, podendo por isso, aumentar as quantidades nutritivas, tais como manteiga, azeite, carne, ovos, etc. […] não orçamentei vários temperos, tais como salsa, pimenta, noz-moscada, etc. mas isso são de um valor tão insignificante que no orçamento de uma família de três pessoas, pode haver um aumento de dez centavos diários”40. Em 1937, eventualmente aproveitando o sucesso de Rosa Maria, Branca Miraflor publicou Como se Almoça por pouco Dinheiro, obra composta por 28 menus diferentes, num total de 120 receitas 41. De novo não há receitas de sobremesas, sendo as de salgados apresentadas para cada dia, num total de quatro ou cinco. Não se indicaram os preços dos géneros. Neste caso, a redação das receitas foi bastante arcaica, não se fazendo a separação entre produtos e modo de preparação.

Nas 28 ementas diferentes, Branca Miraflor começou sempre por apresentar uma sopa e terminou com uma salada, com exceção de sete refeições em que esta preparação deu lugar a alguma outra de legumes cozinhados. O destaque, em termos de peixe, foi para o bacalhau, presente em 14 dos 28 menus, isto é, em metade. A sardinha, igualmente um peixe barato42, ficou parcamente representada com apenas três receitas, a par de duas de caldeirada e, com um exemplo de cada, cação, carapau, congro, pescada, peixe do rio e sarda. No extremo oposto, uma receita de marisco, com lagosta, e outras com moluscos bivalves não particularmente dispendiosos: amêijoas e ostras.

37 Maria 1950: n. num.
38 Maria 1933: n. num.
39 Maria 1936: n. num.
40 Maria 1933: n. num.
41 Miraflor 1937.
42 Cf., a respeito dos consumos de bacalhau e de sardinha, Braga 2012: 889–893.

No domínio da carne, predominaram as receitas de vísceras, em particular fígado, a par daquelas em que os enchidos constituíam o conduto. Encontra-se ainda uma com bifes, e outras com pássaros, cabeça de porco, chispe e mãos de carneiro. Estão ausentes preparados com aves de caça e de criação, cabrito e coelho. Os ovos marcaram presença em oito preparados, três dos quais sob a forma de omelete. De resto, muitos preparados com arroz, alguns com batatas e uma presença significativa de legumes, alguns consumidos em verde, nas saladas, e de leguminosas.

Ou seja, tal como o título indica, estamos perante um conjunto de receitas bastante simples e económicas, destinadas a um público com baixos rendimentos e com poucas exigências a nível quer da preparação quer da apresentação dos pratos, a qual, aliás, nunca foi mencionada. Se a estas características juntarmos a ausência de sobremesas e a redação elementar das receitas, sem indicação das quantidades, dos tempos de preparação e de cocção e das porções, percebemos sem dificuldade estarmos perante um texto muito elementar destinado a assegurar o trivial dos menos abastados.

Fig. 8 – Página da obra de Branca Miraflor, na qual se apresenta o segundo menu completo e o início do terceiro.

3. Em jeito de balanço

Perante as três autoras, torna-se claro que sabemos muito mais sobre Estela Brandão do que sobre Rosa Maria ou Branca Miraflor. Em comum, tiveram preocupações no sentido de fornecer receitas que compilaram ao serviço de mulheres com menos conhecimentos e, eventualmente, com menos posses. Se as três autoras se inseriram no grupo de mulheres que, no século XX, se dedicou à publicação de receituários fáceis, acessíveis43, e sem imagens, também é certo que visaram públicos diferenciados, isto é, mulheres com mais posses no caso de Estela Brandão e mulheres mais simples e com menos meios, no caso das restantes. Nos três casos, as autoras não foram cozinheiros criadores, artistas artesãos, monarcas absolutos da cozinha, dotados de espírito inventivo, como Leo Moulin definiu os maîtres 44, foram pessoas que ficaram associadas à confeção dos pratos comuns e saborosos, que se repetiam sem perspetivas de inovação, o que, no âmbito dos seus propósitos, foi cabalmente conseguido, tal como aconteceu em outros espaços, caso da Itália fascista, em que não obstante as diferenças regionais, a frugalidade imperou, com exceção das refeições oficiais em que a etiqueta continuou a implicar sumptuosas refeições 45.

44 Cf. Moulin 1989: 184 e as amplas considerações de Capatti, Montanari 2002: 293–303.
45 Sobre esta matéria, cf. Mafai 2008: 85–89 e, em registo fotográfico, as imagens de mesas e de refeições de vários espaços italianos da época, no catálogo dirigido por Segredo 2015.
46 Brandão 1938a: 45.
47 Brandão 1938a: 207.
48 Brandão 1938a: 169–170.
49 Brandão 1938a: 104.

Se tivéssemos que escolher uma única palavra para definir Estela Brandão não teríamos dúvida em optar por conservadora. Efetivamente, esta autora, que sempre se colocou no papel de quem tem conhecimentos para ensinar aos demais em várias áreas, como antes referimos, demonstrou, de forma sistemática, atitudes ao arrepio de qualquer tipo de novidade ou inovação quer ao nível das práticas sociais quer em relação aos próprios avanços científicos e tecnológicos. As crónicas que juntou sob o título Para vós, minhas Senhoras, em 1938, forneceram elementos inequívocos a esse respeito. Vejamos alguns exemplos. Numa, intitulada “Mulheres”, criou uma tipologia: “há diversas categorias de mulheres: as que nasceram para mães, boas, indulgentes, piedosas; as que nasceram para amantes: tentadoras perigosas; e as que nasceram para flirtar, banais, vaidosas e também perigosas, trazendo atrás de si uma corte de admiradores”46. Escusado será salientar que só as primeiras eram dignas. Numa outra, sobre feminismo, definiu-o de forma peculiar, reafirmando o secular entendimento do papel da mulher: “consiste em preencher condignamente os vossos deveres de mulher, de mãe, de esposa, de filha ou de irmã. Quem sabe se qualquer de vós não desejou uma profissão masculina: advogada, médica, por exemplo […] fazer do vosso lar um ninho acolhedor, sorridente e confortável, onde o marido e os filhos, se unam felizes em volta do lume vivificador e amigo […] é honrar o vosso marido, é governar a casa com senso e economia, equilibrando o orçamento, evitando todas as despesas inúteis”47. Na crónica “Carpideiras” deteve-se nas questões familiares e religiosas: “É certo que as famílias numerosas têm maior despesa. Mas, nas famílias pequenas, quantas vezes se despende em luxo e em frivolidades o que os outros gastam no indispensável e útil […] é preciso elevar a alma ao céu, com uma fé ardente em Deus, e um amor absoluto ao marido,aos filhos e à família. A religião é um sustentáculo poderoso para vencer todas as dificuldades, tornando-nos fortes para a luta, carinhosas e meigas, mesmo quando tenhamos razões para o contrário. Sendo assim, todos podem ser felizes, cooperando para o bem comum, da família, da sociedade e da pátria”48. Finalmente, em “O Poder da Vontade”, não escamoteou a sua simpatia política: “há pessoas, porém, para quem o trabalho é uma distração. É nestes seres de eleição, que se encontram os génios, os grandes produtores cerebrais, os chefes, os autênticos homens de Estado, como Salazar e poucos mais”49.

Conservadora no que se refere ao entendimento do papel da mulher na sociedade, defensora dos ideais propagados pelo Estado Novo, sistematizados na máxima “Deus, Pátria e Família”, apreciadora de Salazar e crítica de tudo o que representasse qualquer tipo de novidade, chegou ao ponto de escrever contra o cinema falado e o que entendeu ser o ritmo de vida moderno. Sobre o primeiro, designado animatógrafo, depois de fazer o elenco dos prejuízos que causava nas crianças, designadamente excitação e doenças várias, rematou: “não sei por que razão foi necessário dar voz às figuras que se movem na tela apenas em sombras”50. Sobre o segundo, as opiniões foram, no mínimo, bizarras: “a música, as notícias de sensação, chegam-nos pelas ondas hertzianas, por meio da telefonia sem fios, em segundos apenas. O correio já se faz por via aérea e há casais ultramodernos que escolhem o avião para a sua lua-de-mel. Tudo gira numa velocidade doida, atordoando-se, enervando-se, para alcançar os seus fins com a máxima rapidez”51.

Não obstante, uma crónica mostra alguma sensibilidade para os problemas relativos ao trabalho feminino e uma outra inesperada ousadia. Na primeira, intitulada “O Drama da Rua”, pode ler-se: “há uma sociedade protectora dos animais, multam-se as pessoas que seguram os frangos pelas patas com a cabeça para baixo. Não há, porém, ninguém que interceda a favor da mulher, que evite que a sobrecarreguem demasiado, que não permita que puxem às carroças como animais, e que pelo menos lhes conceda um certo alívio e descanso nos últimos dois meses de gravidez”52. Se nesta se focou nas mulheres dos grupos mais desfavorecidos, tentando sensibilizar as leitoras para o problema, numa outra intitulada “Delicadeza Matrimonial”, o público-alvo foi o mesmo mas as ações seriam protagonizadas por mulheres menos desprotegidas socialmente. Nesta crónica pode ler-se: “aconselho a todas aquelas cujo marido tiver por hábito ler à mesa o jornal, levantar-se colocar no seu lugar o cão ou o gato, e terminar a refeição na cozinha, onde certamente a criada terá mais atenções para com ela”53. À ousadia, certamente mais para provocar do que para executar, seguiu-se o tom habitual: “a hora da refeição é uma hora sagrada, devendo pairar sempre a alegria e bom humor. Os antigos pagavam aos bobos para os divertirem enquanto comiam. Para que o alimento seja profícuo e salutar é preciso que um bem-estar moral, que uma disposição alegre, domine todos os espíritos”54.

Reflexo da época e ao serviço da época, as publicações destas autoras estiveram em consonância com a simplificação dietética, aliada à escassez dos géneros alimentares e às dificuldades económicas do período entre as duas guerras. A publicidade, que aqui não tratámos, encaminhou-se, como seria de esperar, exatamente no mesmo sentido. Viviam-se tempos de alterações dos hábitos gastronómicos, com a diminuição de pratos por refeição, pondo fim à longa herança de sumptuosas refeições quotidianas entre os abastados. A II Guerra Mundial (1939–1945) consolidará estas realidades.

Estela Brandão foi autora, no âmbito aqui em estudo, de um manual de etiqueta, de crónicas e de uma obra de culinária e de economia doméstica, enquanto Rosa Maria e Branca Miraflor se limitaram à publicação de obras de cozinha. Todos estes trabalhos, publicados durante o Estado Novo (1933–1974), serviram totalmente os ideais do regime, quer no que se refere aos entendimentos dos grandes valores, bem visíveis no caso de Estela Brandão, menos evidentes no caso das outras autoras, quer na prática quotidiana, situação semelhante à que se viveu em Itália, durante o fascismo (1922–1943) 55. Poupar, reaproveitar 56, obedecer, tratar do lar, educar as crianças e servir os maridos foram objetivos divulgados por diversos meios.

Lembremos, em especial, que, por decreto de 8 de dezembro de 1937, o ministro da Educação Nacional, António Carneiro Pacheco, criou a Mocidade Portuguesa Feminina 57, a qual teve um papel muito ativo nas escolas, junto das alunas e fora delas através da publicação de revistas, de acordo com as idades das meninas 58. Em carta datada de 29 de março de 1949, consequentemente após o período que aqui se tratou, Maria Manuela de Mendonça, então aluna do liceu lisboeta D. Filipa de Lencastre, escreveu: “eu agora tenho umas aulas muito engraçadas de culinária. Aprendemos a fazer uns pratos muito complicados, mas principalmente doces. São da Mocidade [Portuguesa Feminina] e tudo aquilo decorre numa brincadeira que sei lá! Somos seis de cada vez e depois de termos feito os pratos, vamos para a mesa, numa salinha contígua à cozinha, servimo-nos umas às outras, sob a vigilância da professora que por vezes também se associa à nossa refeiçãozinha”59. A análise dos cadernos das alunas permite ter uma ideia clara das opções seguidas nos liceus 60.

Reflexo da época e ao serviço da época, as publicações destas autoras estiveram em consonância com a simplificação dietética, aliada à escassez dos géneros alimentares e às dificuldades económicas do período entre as duas guerras. A publicidade, que aqui não tratámos, encaminhou-se, como seria de esperar, exatamente no mesmo sentido 61. Viviam-se tempos de alterações dos hábitos gastronómicos, com a diminuição de pratos por refeição, pondo fim à longa herança de sumptuosas refeições quotidianas entre os abastados. A II Guerra Mundial (1939–1945) consolidará estas realidades.

Isabel M. R. Mendes Drumond Braga

50 Brandão 1938a: 30. Sobre esta matéria, sabe-se que não foi caso único. Na Assembleia Nacional, concretamente em 1939, na segunda legislatura, o “animatógrafo” e os seus efeitos foram objeto de discussão, por parte da deputada e médica Domitila de Carvalho, cf. Braga 2016.
51 Brandão 1938a: 123.
53 Brandão 1938a: 259.
54 Brandão 1938a: 260–261.
55 Helstosky 2004: 90–99. Agradeço ao Doutor António José Marques da Silva a indicação desta obra.
56 Vaquinhas, Guimarães 2011: 194–221.
57 Sobre a Mocidade Portuguesa Feminina, cf. Pimentel 2001 e Pimentel 2007.
58 Braga, Braga 2012: 201–226.
59 Mendonça 2013: 75–76.
60 Sobre esta matéria, cf. Braga 2008: 117–141. Para a Itália fascista, cf. Capatti, Montanari 2002: 302–303.

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2008 Culinária no feminino: Os primeiros livros de receitas escritos por portuguesas

Culinária no feminino: os primeiros livros de receitas escritos por portuguesas

Isabel M. R. Mendes Drumond Braga

Caderno Espaço Feminino, v.19, n.01, Jan./Jul. 2008

Resumo: O presente texto tem como objetivo o estudo dos primeiros livros de cozinha escritos por portuguesas durante o século XX, tendo em conta o enquadramento sócio político da época.

Palavras-chave: livros de culinária; mulheres; Portugal.

Isabel M. R. Mendes Drumond Braga, Professora Auxiliar com Agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

isabeldrumondbraga@hotmail.com

PDF Culinária no feminino

Introdução

Antes do século XX, a publicação de livros de receitas em Portugal foi escassa 2 comparativamente com outros espaços europeus 3, tais como Espanha, França, Inglaterra e Itália. De qualquer modo, duas obras marcaram o panorama nacional durante séculos, a de Domingos Rodrigues, intitulada Arte de Cozinha, publicada pela primeira vez em 1680 4, e a de Lucas Rigaud, saída dos prelos cem anos depois e intitulada Nova Arte de Cozinha 5. Ambas conheceram sucessivas edições e foram objecto de plágio quer em outros livros quer em publicações periódicas de Oitocentos 6. Exclusivamente dedicada à doçaria, apareceu, em 1788, a discreta Arte Nova e Curiosa para Conserveiros, Confeiteiros e Copeiros 7.

Foi necessário esperar pelo século XX para as mulheres portuguesas se aventurarem na escrita da denominada “culinária de papel”, na expressão de Laura Graziela Gomes e Lívia Barbosa 8. Efectivamente, se bem que, desde sempre, muitas mulheres se tenham dedicado à cozinha foi só tardiamente que passaram a produzir receituários publicados, embora os cadernos de receitas manuscritos para uso particular fizessem parte do quotidiano, tanto de freiras 9 como de leigas. Por exemplo, em 1818, D. José Trasimundo, futuro marquês de Fronteira e Alorna, deu conta da circulação de receitas familiares manuscritas. A propósito de certo jantar em Portalegre, pôde registar nas suas Memórias:

tivemos um esplêndido jantar, onde a doçaria era imensa  e a velha senhora, forte conserveira, queria dar-nos a receita de todos os bons doces que, com gosto, provámos. Eu fiz a aquisição de várias receitas que trouxe a minha sogra, que muito as apreciou, porque tinha estado em Portalegre e lembrava-se sempre das guloseimas da terra 10.

Um primeiro paradoxo se faz notar. Isto é, se desde sempre abundaram as cozinheiras, também é verdade que os grandes nomes da arte culinária foram quase sempre do sexo masculino. E tal verificação é tanto mais verdadeira quanto se recua cronologicamente. Imagem estereotipada ou não, certo é que, segundo Leo Moulin, por toda a Europa, a cozinheira estava associada à confecção dos pratos tradicionais e saborosos, que se repetiam sem perspectivas de inovação, enquanto o cozinheiro era o artista artesão, o monarca absoluto da cozinha, dotado de espírito inventivo 11. Assim se compreende que o século XIX tenha assistido, um pouco por todo o lado, à diferenciação clara entre o cozinheiro profissional, o maître, e o cozinheiro doméstico, frequentemente uma cozinheira 12.

Em Portugal, a situação foi semelhante à de outros países europeus 13. Isto é, no século XIX, foram comuns os anúncios publicados nos jornais solicitando cozinheiras e criadas que dominassem a arte culinária, como por exemplo, “precisa-se de uma criada que saiba bem cozinhar, dando boas abonações” ou “precisa-se de uma criada que saiba coser e engomar e de uma cozinheira”14, mas o destaque foi para João da Mata, o mais célebre e emblemático chef de então. Este começou por ser moço de cozinha, passou a cozinheiro em várias casas de Lisboa, depois de ter feito a sua aprendizagem com especialistas franceses. Em 1848, abriu uma casa de pasto na rua do Alecrim, em Lisboa. Mais tarde, em 1858, optou por um espaço maior na rua do Ouro e, em 1864, criou os hotéis Mata. Foi autor de um opúsculo denominado Arte de Servir á Mesa ou Preceitos Uteis para Creados e Dono de Casas (1872) e de um famoso livro intitulado Arte de Cozinha, publicado em 1876, com quatro edições até 190015.

2 Veja-se o elenco que dá conta das existências da Biblioteca Nacional de Portugal, Livros portugueses de cozinha. 2. ed., coordenação e pesquisa bibliográfica de Manuela Rêgo. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1998.

3 SIMON PALMER, Carmen. Bibliografia de la gastronomía española: Notas para su realización. Madrid: Ediciones Velazquez, 1978; MENNELL, Stephen. All Manners of Food: Eating and Taste in England and France from the Middle Ages to the Present. 2. ed. Urbana and Chicago: University of Illinois Press, 1996, pp. 166–199; HYMAN, Philip; HYMAN, Mary. Imprimer la Cuisine: Les Livres de Cuisine en France entre le XVe et le XVIe siècles. In: FLANDRIN, Jean Paul; MONTANARI, Massimo (dir.). Histoire de l’Alimentation. Paris: Fayard, 1996, p. 643–655; HYMAN, Philip; HYMAN, Mary. Livres et Cuisine au XIXe siècle. In: À Table au XIXe siècle. Paris: Musée d’Orsay, Flammarion, 2001, p. 80–89; LAURIOUX, Bruno. Le Règne de Taillevent: Livres et pratiques culinaires à la fin du Moyen Âge. Paris: Publications de la Sorbonne, 1997; EHLERT, Trude. Les manuscrits culinaires médiévaux témoignent-ils d’un modèle alimentaire allemand?. In: BRUEGL, Martin; LAURIOUX, Bruno (dir.). Histoire et identités alimentaires en Europe. [s.l.]: Hachette, 2002, p. 121–136; LEHMANN, Gilly. The British Housewife: Cookery books, cooking and society in Eighteenth-Century Britain. [s.n.]: Prospect Books, 2003.

4 RODRIGUES, Domingos. Arte de Cozinha. Leitura, apresentação, notas e glossário por Maria da Graça Pericão e Maria Isabel Faria. [Lisboa]: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987 [a primeira edição é de 1680].

5 RIGAUD, Lucas. Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de Cozinha […]. 3. ed. Lisboa: Oficina de Simão Tadeu Ferreira, 1798 [a primeira edição é de 1780].

6 Sobre estas obras, cf. BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. Portugal à Mesa: Alimentação, Etiqueta e Sociabilidade (1800–1815). Lisboa: Hugin, 2000, p. 103–114; Idem, Alimentação e Códigos Comportamentais na segunda metade do século XIX. In BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. Do Primeiro Almoço à Ceia: Estudos de História da Alimentação. Sintra: Colares Editora, 2004, p. 119–156.

7 Arte Nova e Curiosa para Conserveiros, Confeiteiros e Copeiros. Estudo e actualização do texto de Isabel M. R. Mendes Drumond Braga. Sintra: Colares, 2004.

8 GOMES, Laura Graziela; BARBOSA, Lívia. Culinária de Papel. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 33, p. 1–22, 2004 (consultado na versão on-line disponível em http://www.cpdoc.fgv.br/revista/asp/dsp).

9 O Livro da Última Freira de Odivelas. Introdução, actualização do texto e notas de Maria Isabel de Vasconcelos Cabral. Lisboa: Verbo, 1999.

10 Memórias de Marquês de Fronteira e d’Alorna D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861. Revistas e coordenadas por Ernesto Campos de Andrada. Edição em fac-símile da edição de Coimbra: Imprensa da Universidade, 1926–1932, vol. 1. [Lisboa]: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986, p. 365.

11 MOULIN, Leo. Les Liturgies de la Table: Une Histoire Culturelle du Manger et du Boire. [Paris]: Albin Michel, 1989, p. 184.

12 MENNELL, Stephen. All Manners of Food […], p. 200–201.

13 Para França, cf. PERROT, Michelle. Personagens e Papéis. In: ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges (dir.). História da Vida Privada. Tradução portuguesa com revisão científica de Armando Luís de Carvalho Homem, vol. 4 (Da Revolução à Grande Guerra). Porto: Afrontamento, 1990, p. 179–184. Para o Brasil, marcado por outras realidades, o recurso a negros para cozinheiros era igualmente uma realidade. Cf. ELKAREH, Almir Chaiban; HERNÁN BRUIT, Héctor. Cozinhar e Comer, em Casa e na Rua: Culinária e Gastronomia na Corte do Império do Brasil. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 33, 2004, p. 1–23 (consultável na versão on-line disponível em http://www.cpdoc.fgv.br/revista/asp/dsp).

14 O Grátis: Jornal de Annuncios e do Comercio, n. 33, de 1 mar. 1837.

Um primeiro paradoxo se faz notar. Isto é, se desde sempre abundaram as cozinheiras, também é verdade que os grandes nomes da arte culinária foram quase sempre do sexo masculino. E tal verificação é tanto mais verdadeira quanto se recua cronologicamente. Imagem estereotipada ou não, certo é que, segundo Leo Moulin, por toda a Europa, a cozinheira estava associada à confecção dos pratos tradicionais e saborosos, que se repetiam sem perspectivas de inovação, enquanto o cozinheiro era o artista artesão, o monarca absoluto da cozinha, dotado de espírito inventivo 11. Assim se compreende que o século XIX tenha assistido, um pouco por todo o lado, à diferenciação clara entre o cozinheiro profissional, o maître, e o cozinheiro doméstico, frequentemente uma cozinheira 12.

Em Portugal, a situação foi semelhante à de outros países europeus 13. Isto é, no século XIX, foram comuns os anúncios publicados nos jornais solicitando cozinheiras e criadas que dominassem a arte culinária, como por exemplo, “precisa-se de uma criada que saiba bem cozinhar, dando boas abonações” ou “precisa-se de uma criada que saiba coser e engomar e de uma cozinheira”14, mas o destaque foi para João da Mata, o mais célebre e emblemático chef de então. Este começou por ser moço de cozinha, passou a cozinheiro em várias casas de Lisboa, depois de ter feito a sua aprendizagem com especialistas franceses. Em 1848, abriu uma casa de pasto na rua do Alecrim, em Lisboa. Mais tarde, em 1858, optou por um espaço maior na rua do Ouro e, em 1864, criou os hotéis Mata. Foi autor de um opúsculo denominado Arte de Servir á Mesa ou Preceitos Uteis para Creados e Dono de Casas (1872) e de um famoso livro intitulado Arte de Cozinha, publicado em 1876, com quatro edições até 190015.

A culinária no feminino passava quer pela contratação de uma cozinheira para as casas abastadas quer pelo ensino das mulheres de acordo com a secular trilogia de boas esposas, boas mães e boas donas de casa 16. Efectivamente, ao longo dos séculos XIX e XX, em leituras recreativas com fins moralizantes e de acordo, inclusivamente, com os programas escolares, incutiam-se noções de economia doméstica visando a formação das boas donas de casa. Por exemplo, numa obra de Julie Fertiault, traduzida para português por Alfredo Pimenta, em 1877, pode ler-se “a ciência da economia é para a mulher a ciência por excelência. Não há situação alguma pecuniária que isente uma dona de casa, uma mãe de família, da obrigação de ser económica”17. Uma outra obra, do final do século XIX, igualmente traduzida, intitulada Economia Doméstica, dedicou muitas páginas à questão alimentar, sempre na perspectiva de definir as necessidades, os diferentes tipos de alimentos, a maneira de os preparar e os utensílios necessários para tal 18.

No século XX, as mesmas práticas mantiveram-se. Sendo de salientar dois tipos de obras, umas dedicadas às senhoras endinheiradas e outras às mulheres mais pobres. Exemplificativa do primeiro grupo é, por exemplo, um volumoso livro de Virgínia de Castro e Almeida, publicado em 1906 e com sucessivas edições, intitulado Como devo Governar a minha Casa, no qual a cozinha, os alimentos e as práticas alimentares ocuparam papel de relevo. Aí pode ler-se: “a cozinha está completamente entregue ao cozinheiro ou cozinheira, mas exige o especial cuidado da dona de casa […] a cozinha é a grande consumidora dos recursos financeiros e é preciso que dela não saia apenas o sustento indispensável mas sim um pouco de prazer, sobretudo para o dono da casa que tanto contribui para as despesas”19. Em dado momento, a autora lembra que não é necessário ter-se um cozinheiro, pois o segredo é “saber dirigir bem a cozinheira”20, naturalmente a quem se paga menos, numa clara hierarquia masculino feminino à volta dos tachos.

15 FERRO, João Pedro. Arqueologia dos hábitos alimentares. Introdução de A. H. de Oliveira Marques. Lisboa: Dom Quixote, 1996, p. 127–129.

16 BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. A Educação Feminina em Portugal no século XVIII: Tradição ou Inovação. In BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. Cultura, Religião e Quotidiano: Portugal século XVIII. Lisboa: Hugin, 2005, p. 135–163.

17 FERTIAULT, Julie. A felicidade na família: Cartas d’uma Mãe a sua Filha. Tradução de Alfredo Pimenta. Porto: Ernesto Chardron; Braga: Eugénio Chardron, 1877, p. 69.

18 NEWSHOLME, Arthur; SCOTT, Margarida Leonor. Economia domestica com os preceitos de hygiene applicados á vida e arranjos da casa. Tradução de Alberto Telles. Lisboa: Tipografia da Academia Real das Ciências, 1893.

19 ALMEIDA, Virgínia de Castro e. Como devo governar a minha casa. Modificação e adaptação do livro italiano de Giulia Ferraris Tamburini. 3. ed. Lisboa: Clássica, 1924, p. 135.

20 Ibidem, p. 136.

Outra parcela de mulheres jovens e com poucos recursos era visada por um pequeno manual de Economia Doméstica. Este, destinado às alunas das terceira e quarta classes do ensino primário (actual terceiro e quarto anos do ensino básico), publicado em 1928, em harmonia com a legislação daquele ano 21, definiu a dita economia doméstica como “a ciência da felicidade e da prosperidade da família”22, nela englobando, entre os deveres da dona de casa, “saber cozinhar, fazer a barrela, olhar pela casa, talhar, coser, consertar as peças de vestuário simples da família e conhecer a higiene, que é a arte de conservar e melhorar a saúde e de evitar as doenças”23. As alunas da terceira classe acabavam o ano com a matéria do capítulo 10, sobre a cozinha, a baixela de preparar os alimentos, os utensílios e sua conservação e, finalmente, a lavagem da louça. Assim, recomendava-se que a cozinha fosse arejada, iluminada e asseada, que o trem de cozinha fosse composto por tábua de picar, tábua de amanhar peixe, tábua de estender massas, máquina de preparar picados, espremedor, batedeira para ovos, passador, funil, aparelho para cortar batatas, facas e serrote; sugeria-se especialmente louça de barro e de alumínio e indicavam-se os produtos específicos para a limpeza de determinados utensílios (por exemplo, sal e vinagre para limpar cobre e água carbonatada para barro)24.

A matéria da quarta classe era toda dedicada à alimentação, nomeadamente objectivos da mesma, necessidades humanas, escolha dos alimentos, refeições, papel das mulheres na luta contra o alcoolismo, conservação dos alimentos, receitas de ovos, sopas, carne e peixe, além de indicações acerca das compras. Sobressaem conselhos acerca da maneira de poupar. Por exemplo, “ao caldo de porco juntam-se batatas, feijões, couves que dizem bem com o excesso de gordura do caldo. Obtém-se, assim, duma só vez, uma refeição inteira e consegue-se desta forma economizar tempo e dinheiro”25. Um capítulo é integralmente dedicado ao aproveitamento dos restos de comida, aliando conselhos práticos e reflexões morais, ligadas à importância da poupança.

Além dos manuais escolares e dos livros de conselhos úteis para o governo da casa dedicados às mulheres, em algumas revistas, mesmo de carácter mundano, estas temáticas chegaram a aparecer. Tal é o caso, por exemplo, da ABC. Durante os últimos anos da Primeira República (1910–1926), a revista incluiu nas suas páginas alguns artigos sobre alimentação e, mais raramente, etiqueta ou, mais genericamente, sobre os cuidados do lar. Não eram estas as temáticas preferidas desta revista, que nunca teve nenhuma secção sobre estes assuntos mas, mesmo assim, de forma esporádica, incluiu alguns artigos. Nestas parcas contribuições, as preocupações abrangeram sobretudo a área da culinária, através da indicação de algumas receitas, uma parte delas de teor regional, sem esquecer a apresentação e decoração da mesa das refeições, em particular das familiares 26.

Durante o Estado Novo (1933–1974), Salazar não descurou as mulheres, tentando mantê-las em casa e moldá-las de acordo com os seus ideais políticos 27. Assim, os manuais escolares dedicados ao sexo feminino fizeram eco do ideal educativo que privilegiava o governo da casa 28, ao mesmo tempo que se tornou obrigatória a inscrição na Mocidade Portuguesa Feminina das jovens entre os sete e os 14 anos e das alunas que frequentassem o primeiro ciclo do liceu, por decreto de 1937 29. A organização deveria educar a mulher nas perspectivas moral, cívica, física e social. Era nesta última vertente que se incluía a vida doméstica. A presidente do Movimento, Maria Guardiola, não deixou de notar que toda a mulher deveria ser educada para defender a trilogia Deus, Pátria e Família 30.

21 Concretamente decreto n.º 16077, publicado no Diário do Governo, 1.ª série, n. 247, de 26 out. 1928.
22 Economia Doméstica: 3.ª e 4.ª Classes para o Ensino Primário Elementar. Porto: Figueirinhas, 1928, p. 3.
23 Ibidem, p. 4.
24 Ibidem, pp. 27–30.
25 Ibidem, p. 51.

26 BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. Alimentação e Publicidade Alimentar na Revista ABC (1920–1926). In: SILVA, Carlos Guardado da (Coord.). Turres Veteres IX. História da Alimentação. Lisboa: Colibri; Torres Vedras: Câmara Municipal, 2006, p. 215–225.

27 Sobre esta realidade, cf. BELO, Maria; ALÃO, Ana Paula; CABRAL, Iolanda Neves. O Estado Novo e as Mulheres. In: O Estado Novo: das origens ao fim da autarcia (1926–1959), v. 2. Lisboa: Fragmentos, 1987, p. 263–279.

28 MÁXIMO, Maria Elsa dos Santos Costa. A Política Educativa no Estado Novo em Relação à Mulher, no Tempo do Ministro António Faria Carneiro Pacheco (1936–1940): Contributo para a História do Género em Portugal. Lisboa: Dissertação de Mestrado em Didáctica da História, 2007.

29 Trata-se do decreto n.º 28262, de 8 de Dezembro de 1937. Cf. PIMENTEL, Irene Flunser. História das organizações femininas do Estado Novo. Lisboa: Temas e Debates, 2001, p. 202.

30 Ibidem, p. 220.

A Mocidade Portuguesa Feminina levava a efeito publicações de entre as quais vale a pena referir um Suplemento Auxiliar ao Programa de Culinária, aparecido em 1969 31. Nele, alude-se a dois tipos de mulheres, as que faziam as tarefas domésticas e as que as superintendem. Por exemplo, logo no início da brochura, pode ler-se: “mesmo dispondo de uma cozinheira e, embora o emprego (se o tiver) lhe ocupe grande parte do seu tempo, não deve [a mulher] deixar de aproveitar alguns momentos diários para dar um pouco de assistência à cozinha”32. Seguem-se informações acerca das condições físicas das cozinhas, dos materiais para preparar os alimentos e higienizar o equipamento, além da explicação técnica dos termos cozedura, guisado, estufado, assado, grelhado, fritura, salteado e pontos de açúcar, tendo em conta que alimentos poderiam sofrer determinadas operações e como essas mesmas operações deveriam ser levadas a efeito.

A análise de um caderno de actividades circumescolares, do final do Estado Novo, concretamente do ano lectivo de 1970–1971, pertença de Isabel Maria Henriques Pedro, então aluna do Liceu Nacional Infanta D. Maria (Coimbra), mostra-nos a vertente prática da transmissão dos conhecimentos formativos das futuras donas de casa 33. Efectivamente, as actividades circum-escolares eram compostas por aulas teóricas sobre economia doméstica, governo da casa e alimentação e aulas práticas de culinária, durante as quais se procedia à elaboração de um prato (não particularmente requintado) e, enquanto aquele cozia, era ditada a receita, lavada a louça e arrumada a cozinha. No final, eram dadas indicações acerca do modo de apresentar o prato, finalizando a aula prática com a prova. As receitas nem sempre indicam separadamente ingredientes e processos de execução; as quantidades e os tipos de carne ficaram quase sempre omissas, tal como os tempos de cozedura e os tipos de fornos. De notar ainda que a maior parte das receitas de carne era preparada com aquele ingrediente passado, o que, naturalmente, pressupõe a possibilidade de aproveitamento de restos.

A culinária aparece, pois, muito mais ligada à satisfação das necessidades básicas das famílias do que à ostentação, ao luxo e à criatividade proporcionados pelos chefs. Assim, no quadro doméstico reinam as cozinheiras que são simultaneamente as donas de casa, ou as cozinheiras que servem pessoas mais abastadas. A coadjuvar esta verificação, atente-se na publicidade que, de forma sistemática, explora a ligação entre os elementos do sexo feminino e a cozinha, no que se refere aos diferentes produtos que se relacionam com a preparação e confecção dos alimentos.

31 Suplemento Auxiliar do Programa de Culinária. Lisboa: Mocidade Portuguesa Feminina, 1969.

32 Ibidem, p. 5.

33 Estas informações foram obtidas através de um trabalho prático apresentado por Isabel Maria Henriques Pedro, no seminário de Temas de História Moderna, do Mestrado em Didáctica da História, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no ano lectivo de 2007–2008, por nós leccionado.

Figs 3 e 4 – Publicidade que associa mulheres e preparações alimentares

(Lisboa, Biblioteca Nacional).

2.

Apesar do quadro em questão não ser o mais favorável à produção de livros de cozinha no feminino, nem todas as mulheres se limitaram a “preparar as receitas de cabeça”. De facto, no século XX, algumas passaram à impressão das suas criações. Sem pretensões de exaustividade, quer de autores quer de obras, e excluindo compilações, colunas de jornais e agendas com receitas de cozinha, salientaremos as mais relevantes obras escritas por mulheres durante a última centúria, centrando-nos nas pioneiras. É certo que a I Guerra Mundial (1914–1918) implicou uma simplificação dietética, aliada à escassez dos géneros alimentares e ao consequente racionamento, o que levou a alterações nos hábitos gastronómicos, com a diminuição de pratos por refeição 34, pondo fim à longa herança de sumptuosas refeições quotidianas entre os abastados. Mas é certo também que é antes do conflito bélico que aparece o primeiro livro de doçaria publicado por uma mulher. Trata-se de Sofia de Sousa, a autora do Real Confeiteiro Português e Brasileiro, publicado em 1904 35, obra tributária de uma outra anónima publicada no século XIX, O Cosinheiro dos Cosinheiros 36, consequentemente apresentando um conjunto de receitas não inovadoras.

Se passarmos para os livros de cozinha mais generalistas, então a primeira autora foi Isalita, com Doces e Cosinhados: Receitas Escolhidas, publicado em 1925 e com 25 edições até 1977 37. Na obra, a autora propôs menus diários de almoços e jantares quotidianos e de refeições mais sumptuosas, uma lista de hors-d’oeuvres e um vasto conjunto de receitas agrupadas nas seguintes tipologias: sopas, molhos, ovos, peixe, entradas, soufflés, carnes, aves e caça, galantines, mousses, aproveitamentos de carnes assadas e aves, massas, massas italianas, batatas, tomates, pimentos, alcachofras, espargos, beringelas, cenouras, couves, couve-flor, pepinos, chuchus, espinafres, favas, ervilhas, feijão, alfaces, castanhas, brócolos, nabos, arroz, saladas, geleia, doces de fruta, pudins, doces de fim de jantar, soufflés, massas (para doces), doces para chá, bolachas, biscoitos, pães para chá e sorvetes. Como se pode verificar, Isalita começou pelos pratos salgados e terminou nos doces, criando muitas subdivisões nas preparações à base de legumes. A obra é importante, serviu de inspiração a outros livros e foi objecto de cópia por parte de autoras menores. De notar algumas constantes entre os menus de almoços e jantares.

Isalita, de cujos menus propostos escolhemos alguns patentes no quadro acima, investiu sobretudo nos jantares compostos sempre por sopa e, regra geral, prato de peixe, prato de carne, acompanhamento de legumes e sobremesa. Quando não havia prato de peixe a sopa era preparada com alguma espécie marítima. Os almoços apresentados eram mais sóbrios. Não apresentaram nem sopa nem sobremesa mas insistiram ou num prato de peixe e num de carne ou em preparados de ovos, hortaliças e carne ou ovos, massas e carne.

Quadro I

Menus de Almoço

Peixe ensopado com ervilhas

Entrecôte florentino com batatas à inglesa

Ovos com cerveja

Soufflé de várias hortaliças

Coelho à caçador

Bacalhau com queijo

Bifes à Sorel com batatas salteadas

Ovos mexidos com espinafres

Gnocci ao gratin

Pombos fritos à burguesa

Exemplos de Menus de Almoço e de Jantar propostos por Isalita

Menus de Jantar

Sopa de camarão
Croquetes de carne
Pato assado com batatas palha
Esparregado de espinafres
Maçãs no forno

Sopa de grão com espinafres
Filetes de linguado Marinetta
Rolo de carne picada com hortaliça à jardineira
Pudim de couve-flor
Creme de baunilha

Sopa de puré de cenouras e tomates
Pudim de peixe
Lombo de porco assado
Pepinos recheados
Tigelinhas finas

Sopa de pargo
Rissóis de galinha
Lombo à tirolês
Favas estufadas com coentros
Doce de castanhas inteiras

Cronologicamente próxima surgiu Agarena de Leão, com a obra A Cosinha Familiar, publicada em 1926 38. Em termos de título e de conteúdo, a autora marcou o toque dos livros de cozinha escritos a pensar nas donas de casa que tinham que preparar refeições com poucos recursos, toque esse que vai manter-se além dos efeitos da II Guerra Mundial (1939–1945). Por seu lado, em 1929, Alinanda ficou conhecida pela Arte de Bem Comer 39, com toque francês, desenhos para facilitar determinadas preparações e fotografias a preto e branco de alguns pratos já preparados. Alinanda terá inspirado, anos depois, o texto de Auronanda, uma obra um pouco mais sofisticada.

A partir dos anos 30, Rosa Maria, de quem nada se sabe, marcou gerações de mulheres na cozinha, através das suas diferentes obras, com destaque para A Cosinheira das Cosinheiras (com 30 edições em 1982) 40. Esta autora popularizou-se nos anos 50 através de títulos como 100 Maneiras de Cozinhar Acepipes, Molhos e Saladas 41, 100 Maneiras de Cozinhar Bacalhau 42, 100 Maneiras de Cozinhar Aves 43, 100 Maneiras de Cozinhar Ovos 44, 100 Maneiras de Cozinhar Peixes 45, 100 Maneiras de fazer Sopas 46, 100 Maneiras de Cozinha Vegetariana 47 e 100 Maneiras de Fazer Doces Económicos 48 (todos com edições até ao final do século XX). Se bem que, em boa parte dos casos, se desconheça a data da primeira edição da maioria das suas obras, sabemos que no período entre as duas Grandes Guerras, já Rosa Maria publicava livros apelando aos baixos custos. São exemplos Como se Almoça por 1$50: 100 Almoços Diferentes 49, saída em 1933, e Como se janta por 3$00: 100 Jantares Diferentes 50, cuja data de publicação se desconhece.

Rosa Maria terá tido como rival outra autora sua contemporânea, pois, em data desconhecida, mas entre os anos 30 e 50, apareceram as populares e pequenas obras de Clara T. Costa: Guia da Cosinheira Familiar 51, cuja nona edição é de 1952 e a 10.ª de 1962, e A Doceira Familiar: Método Práticto de Fazer Doces, Pudins, Sorvetes, Compotas 52, cuja sétima edição, revista e aumentada, é de 1957 e a oitava de 1964, obras que se pautaram por directrizes e interesses semelhantes. As obras de Rosa Maria, mormente A Cosinheira das Cosinheiras, pretenderam aliar higiene, ideias sobre nutrição, sobriedade alimentar, saúde, receitas práticas e economia. Dirigidas às donas de casa, visavam facilitar as tarefas daquelas no que à alimentação familiar se referia. A autora teve em conta as necessidades calóricas das pessoas de acordo com a idade, a actividade física e as estações do ano, caracterizou os alimentos e propôs regimes específicos para diabéticos, artríticos e ainda os que apresentam problemas de estômago, fígado e rins. Antes de passar às receitas, apresentadas por ordem alfabética, primeiro os salgados e depois os doces, ainda apresentou um capítulo acerca da necessidade de cozinhar os alimentos. Em certos momentos não faltaram considerações de teor moral. Por exemplo, ao referir-se ao vinho, explicitou: “do abuso do vinho têm resultado terríveis enfermidades, como a delirium tremens, a loucura, doenças de fígado, etc. e não menor número de desordens e desgraças de ordem moral, que têm levado muitos ao degredo, à penitenciária e ao patíbulo”53.

Rosa Maria, logo no início das receitas salgadas, incluiu açorda à andaluza, açorda de bacalhau à alentejana e açorda à portuguesa. Recordemos que esta última era um prato consumido por pobres e remediados desde sempre, além de ser o prato nacional infantil. Por exemplo, em O Cozinheiro Indispensavel, obra do final do século XIX, pode ler-se: “a açorda é um preparado de cozinha muito usado em grande parte do nosso país e fora dele e com que em muitas localidades alimentam de preferência as crianças, desde que as separam do leite até que atingem certa idade”54. Por outro lado, já antes, nos anos 20 da mesma centúria, a inglesa Marianne Baillie sublinhou, em tom crítico, que as crianças portuguesas eram alimentadas exclusivamente com uma espécie de papa feita com pão, água, azeite e alho, isto é, açorda 55.

30 Ibidem, p. 220.

31 Suplemento Auxiliar do Programa de Culinária. Lisboa: Mocidade Portuguesa Feminina, 1969.
32 Ibidem, p. 5.

33 Estas informações foram obtidas através de um trabalho prático apresentado por Isabel Maria Henriques Pedro, no seminário de Temas de História Moderna, do Mestrado em Didáctica da História, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no ano lectivo de 2007–2008, por nós leccionado.

34 MARQUES, A. H. de Oliveira. A Alimentação. In: MARQUES, A. H. de Oliveira (Coord.). Portugal da Monarquia para a República (Nova História de Portugal, direcção de Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques, v. 11). Lisboa: Presença, 1991, p. 619.

35 SOUSA, Sofia de. Real confeiteiro português e brasileiro. Lisboa: Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, 1904.

36 O cosinheiro dos cosinheiros: Colecção de mais de 1000 Receitas. Lisboa: Tipografia Luso-Britânica, 1870.

37 ISALITA. Dôces e cosinhados: Receitas escolhidas. Lisboa: Centro Gráfico Colonial, 1925.

38 LEÃO, Agarena de. A cosinheira familiar. Lisboa: Tipografia A Rápida, 1926.

39 ALINANDA. Arte de bem comer. Porto: Domingos de Oliveira, 1929.

40 MARIA, Rosa. A cosinheira das cosinheiras: higiene alimentar e mais de 500 receitas para cozinhar, fazer doces, gelados, compota, etc. 30. ed. Porto: Civilização, 1982.

41 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar acepipes, molhos e saladas. Porto: Livraria Civilização, 1956.

42 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar bacalhau. Porto: Livraria Civilização, 1956.

43 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar aves. Porto: Livraria Civilização, 1956.

44 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar ovos. Porto: Livraria Civilização, 1956.

45 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar peixes. Porto: Livraria Civilização, 1961.

46 MARIA, Rosa. 100 maneiras de fazer sopas. Porto: Livraria Civilização, 1965.

47 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinha vegetariana para uso das famílias. Porto: Livraria Civilização, 1956.

48 MARIA, Rosa. 100 maneiras de fazer doces económicos: bolos, pudins, compotas, sorvetes, etc. Lisboa: Empresa Literária Universal, [1958].

49 MARIA, Rosa. Como se almoça por 1$50: 100 almoços diferentes. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1933.

50 MARIA, Rosa. Como se janta por 3$00: 100 jantares diferentes. Lisboa: Empresa Literária Universal, [s.d.].

51 COSTA, Clara T. Guia da Cosinheira Familiar. Lisboa: Empresa Literária Universal, [1952].

52 COSTA, Clara T. A doceira familiar: método práctico de fazer doces, pudins, sorvetes, compotas… 7. ed., rev. e aum. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1957.

 

53 MARIA, Rosa. A cosinheira das cosinheias […], p. 13.

54 O cozinheiro indispensavel: Repositorio dos melhores processos de preparar as mais saborosas iguarias […]. Porto: Livraria Internacional de Ernest Chardron, 1894, p. 21.

55 BAILLIE, Marianne. Lisbon in the years 1821, 1822, 1823, v. 1. Londres: John Murray, 1824, p. 111.

Rosa Maria apresentou uma novidade, pois serviu-se de uma forma poética 56 para dar a receita da açorda à portuguesa:

Pão de trigo, sem ter sombra de joio;
Azeite do melhor, de Santarém;
Alho do mais pequeno, e do saloio;
Ponha no lume brandinho e mexa bem;
Sal que não seja inglês – porque é remédio,
Toda a criança assim alimentada
É capaz de deitar abaixo um prédio
Quatro meses depois de desmamada.

Com este bom pitéu, sem refogados,
Invenção puramente lusitana,
Os ilustres varões assinalados
Passaram além da Taprobana.
Fortes p’la açorda, demos nós aos mouros,
Como se sabe, uma fatal derrota;
E abiscoitámos majestosos louros
Para os nobres troféus de Aljubarrota.

A assinalar o final da II Guerra Mundial, a cantora lírica Berta Rosa Limpo (1981) publicou, em 1945, O Livro de Pantagruel, um clássico que, em 1997, deu ao prelo a 63.ª ed., com revisão e actualização de Maria Manuela Limpo Caetano. Esta é uma obra ímpar no panorama editorial culinário português, contando originariamente com 1500 receitas, muitas delas de cunho vincadamente internacional. Ao contrário de quase todas as obras anteriores, este livro de culinária não foi escrito a pensar nos remediados. No prefácio da primeira edição, a autora confessou a sua paixão pela culinária, a primeira compilação das receitas de família, que levou a efeito em 1914, e o contacto directo com chefes cozinheiros franceses e italianos dos diferentes hotéis europeus por onde passava em digressão, que lhe forneceram receitas diversas. Deu igualmente conta que todas as receitas haviam sido experimentadas e que todas davam bons resultados se seguidas as instruções à risca 57.

Nos anos 50, destaque para Auronanda com a Arte de bem Saborear, saída dos prelos em 1952 58, um volumoso livro que faz lembrar o de Alinanda e o de Berta Rosa Limpo e em cujo prefácio se alude à importância da culinária para agradar ao marido. A obra refere a preparação dos alimentos e o material de cozinha e de limpeza, incluiu o desenho de diversos objectos para preparar os alimentos, de um glossário, onde aparecem termos portugueses e franceses (como por exemplo chifonnade, ciseler, glacer…), uma tabela de equivalência de pesos e medidas e muitas receitas de carácter internacional, a par de estampas coloridas de pratos preparados.

Na mesma década de 50, Libânia de Sousa Alves publicou pequenas obras de cozinha e de doçaria, nomeadamente As Melhores Receitas de Cozinha 59, As Melhores Receitas de Cozinha Natural 60 e Doces Seleccionados 61, enquanto Mirene ficou conhecida como autora do Tesouro das Cozinheiras 62, cuja terceira edição é de 1957. Estas autoras e estas obras pouco ou nada acrescentaram de relevante ao panorama editorial de então; o mesmo se pode afirmar em relação aos livros de doçaria de Maria Olímpia Areal: Doces Familiares 63, esta com quatro edições, e O Meu Livro de Doces 64.

Finalmente, referência para Maria de Lurdes Modesto (1930–…), a mais mediática autora, com vasta obra publicada desde a década de 50 e cuja fama começou por se alicerçar em programas de televisão, onde preparava receitas em directo. Foi professora em várias escolas femininas, manteve programas de culinária na rádio e tem colaborado activamente em jornais e revistas com colunas de cozinha. Entre os seus livros, destaque para Receitas Escolhidas 65 e para Cozinha Tradicional Portuguesa 66, uma área que tem privilegiado em termos de divulgação. Trata-se de um livro ilustrado e organizado tendo em conta as diferentes regiões do país, incluindo os arquipélagos da Madeira e dos Açores 67.

Não sendo, no início do século XX, a culinária entendida como algo particularmente importante, do ponto de vista da obtenção de notoriedade social, nota-se, tanto no feminino como no masculino, o recurso a anagramas e a pseudónimos para esconder o verdadeiro nome. Assim, Agarena de Leão é o anagrama de Helena de Aragão, enquanto Auronanda é o pseudónimo de Aurora Jardim Aranha, Isalita o de Maria Isabel Campos Henriques, Mirene o de Maria Irene Andrade Braga da Silva Teixeira e Francine Dupré o de Maria de Lurdes Modesto que, entretanto, o abandonou, acompanhando o crescente interesse e popularidade que o público lhe foi dispensando.

56 MARIA, Rosa. A cosinheira das cosinheiras […], p. 23. Comentem-se alguns passos da receita, nomeadamente o uso do azeite da mais emblemática região produtora portuguesa, o do alho proveniente da região saloia, isto é, à volta de Lisboa, especialmente a zona de Sintra; e do sal português, de grande qualidade e objecto de exportação desde cedo.

57 LIMPO, Berta Rosa. O Livro de Pantagruel. Lisboa: Círculo de Leitores, 1997, que inclui o prefácio da primeira edição em páginas não numeradas.

58 AURONANDA. Arte de bem saborear. Porto: Livraria Simões Lopes, 1952.

59 ALVES, Libânia de Sousa. As melhores receitas de cozinha. [s.l.]: Edição do Autor, [1955].

60 ALVES, Libânia de Sousa. As melhores receitas de cozinha natural. [s.l.]: Edição do Autor, [1956].

61 ALVES, Libânia de Sousa. Doces seleccionados. Porto: Edição do Autor, [1955].

62 MIRENE. Tesouro das cozinheiras. Porto: Porto Editora, [s.d.].

63 AREAL, Maria Olímpia. Doces familiares. 2. ed. Porto: Asa, 1959. Desconhecemos a data da primeira edição.

64 AREAL, Maria Olímpia. O meu livro de doces: receitas seleccionadas e experimentadas. Porto: Edição do Autor, 1953.

65 MODESTO, Maria de Lurdes. Receitas escolhidas. Lisboa: Verbo, 1978.

66 MODESTO, Maria de Lurdes. Cozinha Tradicional Portuguesa. 3. ed. Lisboa: Verbo, 1982.

67 Sobre Maria de Lurdes Modesto, cf. http://www.iplb.pt (Maria de Lurdes Modesto), consultado a 13 abr. 2008.

3.

Ao longo do século XX, as mulheres portuguesas despertaram para a publicação de livros de cozinha. Das autoras, com excepção de Maria de Lurdes Modesto, pouco ou nada sabemos; contudo, as obras que existem permitem levar a efeito estudos mais desenvolvidos. De qualquer modo, algumas ideias parecem claras. As autoras do princípio do século foram particularmente tributárias das obras escritas na centúria de Oitocentos, recolhendo e copiando o que de mais simples essas obras apresentavam. Por outro lado, como as principais preocupações de uma boa parte das autoras foram no sentido de produzir textos básicos para o serviço das donas de casa, tentando fornecer receitas apetitosas e económicas, a que não foram alheios a austeridade, a escassez de alimentos, o racionamento e a pobreza de uma parte significativa da população, em especial mas não exclusivamente durante os períodos de guerra, as propostas apresentadas passaram muito pela insistência na simplicidade e sobriedade, ao mesmo tempo que forneceram indicações nutricionais, o que não deixava de ser coadjuvado na publicidade e no ensino ministrado às raparigas na área da economia doméstica, uma matéria sob a atenção da Mocidade Portuguesa Feminina.

No final do século, tudo mudou; veja-se o caso de Maria de Lurdes Modesto que, no contexto português, conheceu alguma mediatização, a par de outras autoras que apareceram a partir dos anos 80, se bem que sem conseguirem destronar a pioneira da culinária na televisão e na rádio. Tal como nos manuais de economia doméstica, nos livros de receitas também se perfilam duas grandes linhas: as obras sofisticadas, com referências à culinária internacional, mormente à francesa e, secundariamente, à italiana, e as obras mais populares. Entre as primeiras refiram-se as de Alinanda, Berta Rosa Limpo e Auronanda, pois todas as restantes visaram um público mais modesto, mas desejoso de aprender a cozinhar e a poupar, a bem do equilíbrio do orçamento familiar. Note-se que um autor, que comungava destes ideais e escreveu obras afins às referidas, Manuel da Mata, assinou os seus livros como Febrónia Mimoso, eventualmente para chegar mais facilmente às donas de casa.

A par dos livros das autoras referidas também deveremos juntar os que foram escritos e assinados por homens, quer os generalistas quer os exclusivamente dedicados à doçaria, e cujos conteúdos também não se afastam cabalmente do que foi enunciado ao longo deste estudo. Efectivamente, a culinária no masculino conheceu alguns nomes com relevância; seja-nos permitido lembrar Carlos Bento da Maia e Olleboma, isto é, António Maria de Oliveira Belo, sem esquecer Emanuel Ribeiro, que só se interessou por doçaria. Nestes casos, particularmente nos dois primeiros, estamos perante obras que marcaram gerações de cozinheiros.

Finalmente, realcemos três aspectos: por um lado, a longevidade de muitos títulos, com sucessivas edições ao longo dos tempos, o que se relaciona com o facto de o Estado Novo ter incutido na população não só a trilogia Deus, Pátria e Família como ter incentivado quer a prática da poupança familiar quer a má vontade face à mudança, assegurando que sucessivas gerações continuassem a adquirir as mesmas obras, reproduzindo, assim, os mesmos modelos, realidade, aliás, que ultrapassou o final da Ditadura; por outro lado, o pouco apreço da culinária enquanto actividade, que estava longe de assegurar a quem a praticava o sucesso mediático que os actuais chefs alcançam. Ou seja, durante uma boa parte do século XX, a culinária no feminino era, antes de mais, a possibilidade de bem alimentar as famílias, uma tarefa eminentemente pertença das mulheres e, em especial, das donas de casa; e, finalmente, a necessidade de se proceder ao estudo comparativo de todas as obras de culinária para perceber as inspirações e os plágios, tão frequentes nestas matérias. Para isso, o apuramento das datas das primeiras edições e a comparação dos receituários, quer ao nível dos títulos quer dos conteúdos, revela-se fundamental enquanto linha de investigação susceptível de aprofundar os conhecimentos nestas matérias.

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LIVROS posts individuais

1957 Receitas de peixes

Receitas de peixes

1957

TÍTULO: Receitas de peixes

SUB TÍTULO: 

AUTOR: Bertha Rosa Limpo

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1957

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: Lisboa

EDITORA: Fábrica Nacional de Margarinas

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO: Margarina do Chefe; 1

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE:
SELO DE MAR
Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN S.A. 27496 P.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 282

OBSERVAÇÕES:

282

LIMPO, Berta Rosa, ?–1981
Receitas de peixes / Bertha Rosa Limpo. – Lisboa: Fábrica Nacional de Margarinas, [D. L. 1957]. –
(Margarina do Chefe; 1)
BN S.A. 27496 P.

Categorias
LIVROS posts individuais

1957 Receitas de ovos, legumes e molhos

Receitas de ovos, legumes e molhos

1957

TÍTULO: Receitas de ovos, legumes e molhos

SUB TÍTULO: 

AUTOR: Bertha Rosa Limpo

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1957

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: Lisboa

EDITORA: Fábrica Nacional de Margarinas

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO: Margarina do Chefe; 4

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE:
SELO DE MAR
Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN S.A. 27510 P.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 281

OBSERVAÇÕES:

281

LIMPO, Berta Rosa, ?–1981
Receitas de ovos, legumes e molhos / Bertha Rosa-Limpo. – Lisboa: Fábrica Nacional de Margarinas, [D. L. 1957]. – (Margarina do Chefe; 4)
BN S.A. 27510 P.

Categorias
LIVROS posts individuais

1957 Receitas de carnes

Receitas de carnes

1957

TÍTULO: Receitas de carnes

SUB TÍTULO: 

AUTOR: Bertha Rosa Limpo

NOTAS DE AUTORIA: 

PREFÁCIO:

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1957

DEPÓSITO LEGAL: 

EDIÇÃO:

LOCAL: Lisboa

EDITORA: Fábrica Nacional de Margarinas

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: 

ENCADERNAÇÃO: 

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 

COLECÇÃO: Margarina do Chefe; 3

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: Biblioteca Nacional (de Portugal).

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN S.A. 27509 P.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 280

OBSERVAÇÕES:

280

LIMPO, Berta Rosa, ?–1981
Receitas de carnes / Bertha Rosa-Limpo. – Lisboa: Fábrica Nacional de Margarinas, [D. L. 1957]. – (Margarina do Chefe; 3)
BN S.A. 27509 P.

Categorias
LIVROS SELO DE MAR collection

1945 O Livro de Pantagruel

1945 - O Livro de Pantagruel

Cozinha - Doçarias - Bebidas

TÍTULO: O Livro de Pantagruel

SUB TÍTULO: Cozinha – Doçarias – Bebidas

AUTOR: Bertha Rosa Limpo

NOTAS DE AUTORIA: Feminino

PREFÁCIO: Bertha Rosa Limpo

SUPORTE: Impresso

GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia

DATA  DE PUBLICAÇÃO: 1946

DEPÓSITO LEGAL: 1945

EDIÇÃO: 1ª edição (74.ª edições)

LOCAL: Lisboa

EDITORA: Editorial O Século

TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR: Soc. Nac. de Tipografia

ENCADERNAÇÃO: Capa dura

FORMATO / DIMENSÕES: 

NÚMERO DE PÁGINAS: 1012, 12 p

COLECÇÃO:

ISBN/ISSN:

COLECÇÃO DE: SELO DE MAR 16ª edição

REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998: BN S.A. 14324 V.

NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 278

OBSERVAÇÕES:

278
LIMPO, Berta Rosa, ?–1981
O Livro de Pantagruel / Bertha Rosa-Limpo. – Lisboa:
O Século, 1945

BN S.A. 14324 V.

Outras ed.:
– [10.ª ed.] – 1950 (S.A. 15663 V.; S.A. 15824 V.)
– 1952 (S.A. 16582 V.; S.A. 16976/7/8 V.)
– 15.ª ed. – 1955 (S.A. 17550 V.)
– 16.ª ed. – 1955 (S.A. 20934 V.)
– 17.ª ed. – 1955 (S.A. 20933 V.)
– 18.ª ed. – 1955 (S.A. 20932 V.)
– 19.ª ed. – 1955 (S.A. 22187 V.)
– [D. L. 1970] (S.A. 37613 V.; S.A. 37989 V.)
– [D. L. 1971] (S.A. 39616 V.; S.A. 39758 V.)
– 27.ª ed. / colab. de Jorge Brum do Canto e Maria Manuela Limpo
Caetano. – imp. 1973. – 2 vol. (S.A. 41906–07 V.)
– 28.ª ed. – imp. 1973 (S.A. 43746–47 V.)
– 31.ª ed. – imp. 1976 (S.A. 48075–76 V.)
– 32.ª ed. – imp. 1976 (S.A. 48181–82 V.)
– 39.ª ed. – imp. 1986 (S.A. 64975 V.)

16ª edição - 1955 - O Livro de Pantagruel

SELO DE MAR

Frontispício  1ª edição

“Culinária no Feminino: Os Primeiros Livros de Receitas Escritos por Portuguesas”, Caderno Espaço Feminino, vol. 19, n.º 1, Uberlândia Minas Gerais), 2008, pp. 117-141.

Isabel M. R. Mendes Drumond Braga

A assinalar o final da II Guerra Mundial, a cantora lírica Berta Rosa Limpo (1981), publicou em 1945, O Livro de Pantagruel, um clássico que, em 1997, deu ao prelo a 63ª ed., com revisão e actualização de Maria Manuela Limpo Caetano. Esta é uma obra  ímpar no panorama editorial culinário português, contando originariamente com 1500 receitas, muitas delas de cunho vincadamente internacional. Ao contrário de quase todos as obras anteriores, este livro de culinária não foi escrito a pensar nos remediados. No prefácio da primeira edição, a autora confessou a sua paixão pela culinária, a primeira compilação das receitas de família, que levou a efeito em 1914, e o contacto directo com chefes cozinheiros franceses e italianos dos diferentes hotéis europeus por onde passava em digressão, que lhe forneceram receitas diversas. Deu igualmente conta que todas as receitas haviam sido experimentadas e que todas davam bons resultados se seguidas as instruções à risca.

Texto em BiBlioAlimentAriA

Alimentação, Saúde e Sociabilidade à Mesa no acervo bibliográfico da Universidade de Coimbra

Carmen Soares (Coord.)

Imprensa da Universidade de Coimbra
Coimbra University Press

LIMPO, Bertha Rosa,

O livro de Pantagruel (1955)

A autora (1893‑1981) é uma compiladora confessa e reconhecida a todas as “cozinheiras amadoras” que lhe foram oferecendo as suas receitas, conforme deixa claro na primeira página do livro, denominada “página de honra”, uma espécie de tabula gratulatoria com os nomes de amigas que a agraciaram ao longo dos anos com o seu saber culinário.

A máxima escolhida por Berta Rosa Limpo para “cartão de visitas” daquela que foi, dentro do género literário em apreço, a obra mais editada em Portugal ao longo de todo o século XX 35, com 75 edições, denuncia a filiação da autora na conceção de mesa como espaço de convívio e sociabilização (de raízes clássicas gregas milenares), condensada na frase: “grande sabedoria é comer e beber em boa companhia”, impressa em letras capitais na página que antecede o prefácio (pp. IX‑XIII).

Seguem‑se os prefácios, primeiro o da autora, depois o de amigos por ela escolhidos. Atentemos nas palavras de Berta Rosa  Limpo, uma vez que visam testemunhar, na primeira pessoa, a relação (inesperada, mas íntima) de uma artista do canto e do piano, senhora e dona de casa de boas famílias, com uma arte igualmente requintada, ainda que subvalorizada (ou mesmo menosprezada), a arte da (boa) cozinha. Escritas num registo de proximidade com as leitoras, essas palavras destinam‑se a cativá‑las pelo retrato que, num discurso descontraído, bem‑humorado e repleto do glamour, apresentam da autora e da obra. O público leitor, como sempre, é um coletivo feminino, que se revê no modelo de vida da escritora ou a ele aspira. De menina curiosa, criativa e aventureira – que na ausência da mãe brincava aos teatrinhos líricos e servia às amiguinhas umas “petisqueiras” confecionadas com produtos surripiados da farta despensa – Berta muito cedo (com apenas 15 anos) assume o papel de esposa e dona de casa, inexperiente é certo, mas resoluta em tornar‑se uma anfitriã afamada também pelo requinte das suas receções. A biografia que faz desses anos de aprendizagem empenhada e voluntariosa dos segredos da cozinha revela a harmonia que, neste domínio como noutros, deve haver entre conhecimento teórico e prático. É dessa sua propensão natural para acumular saber com metodologia que nasce, cedo (em 1914, aos 20 anos de idade), a Berta autora de livros de receitas. A escrita, conforme a própria revela, é fruto do seu trabalho de salvaguarda do património culinário familiar (composto pelas “boas receitas que existiam na família”, p. XI), do seu labor de colecionista (na recolha de receitas pelos lugares por onde viajava, sendo que o seu elevado nível social a colocou em contacto com a alta cozinha estrangeira então mais prestigiada, a francesa e a italiana) e da criatividade do seu génio. É com uma pitada de orgulho que Berta Rosa Limpo revela o rigor e método dessa tarefa de pesquisa (p. IX):

“Assim, por aí fora, fui enchendo cadernos, cadernos ordenados, com os seus competentes índices, de receitas experimentadas, corrigidas, aperfeiçoadas e também algumas… inventadas”.

Conhecedora da psicologia feminina, a autora revela‑se mestra na arte da captação de futuras compradoras do seu livro. Assim, conjuga na escrita “ingredientes” que persuadiriam as leitoras: deleite, eficiência, economia, simplicidade, requinte, fiabilidade e sedução. Para tal a autora garante, respetivamente: receitas saborosas, conselhos úteis e práticos, preparados a preços módicos (diferentemente das “receitas quase impraticáveis, por dispendiosíssimas” de outros livros), de fácil execução, alheios ao “vulgar” (“conhecido de toda e qualquer banal cozinheira”, p. XII), todos experimentados e excelentes trunfos na arte de seduzir os maridos (“que ficam pelo “beicinho”, se, depois de um dia de intenso trabalho, as suas mulheres lhes fizerem servir um jantar apetitoso e bem servido”, p. XIII).

Já no que se refere às receitas que foram sendo publicadas nas sucessivas edições, é de assinalar que a mudança da matriz burguesa e requintada (inicialmente marcada por uma oferta orientada para os gostos das elites, dominados pelos padrões francês e italiano) se dá em 1952, com a publicação da 11.ª edição. Introduzem‑se, então, rubricas culinárias que denunciam preocupações economicistas e orientadas para um público económica e socialmente mais diversificado. Dessas reorientações dão conta o aparecimento das seguintes novas quatro rubricas: cozidos, bacalhau, enchidos e alimentação para crianças. Também a aproximação à culinária nacional faz parte das principais renovações desta edição, com uma presença clara de cozinha portuguesa, muito em especial no setor da doçaria. Aí deparamos com títulos de exemplos da culinária dos territórios portugueses (Biscoitos de Torres Novas, Biscoitos dos Açores, Bolos de Elvas, Coimbras, Pratas de Cascais, Bolo de mel do Algarve, Bolo de mel da Ilha da Madeira, Quéques de Odivelas, Bolos algarvios, Bolos de Lisboa, Broas de Alcobaça, Queijinhos da Madeira, Rolo‑torta de Viana – com 7 receitas diferentes – Tigelas de Abrantes, Bolo Coimbra, Pasteis de Tentúgal, Nógado do Algarve), da “cozinha de autora” (Bolo de chocolate à minha moda) e da culinária honorífica (com nomes próprios de várias pessoas, como: Palitos Maria de Lourdes, Bolos da Olga, Bolo Maria Alice e Pudim Adelina, entre outros), categoria em que não está ausente a “culinária dos afetos” familiares (Argolas da prima Maria, Bolos da Tia Aniquinha, Bolos da Tia Rosa, Quadrados da Tia Anica, Bolo da prima Guiomar, Maçãs da Tia Firmina e Arroz doce à moda da minha Mãe). Importa notar que a renovação editorial da obra, ocorrida com a 11.ª edição, correspondeu a uma duplicação do número total de receitas, que passou de 1500 para 3000!

(CS)