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2008 Culinária no feminino: Os primeiros livros de receitas escritos por portuguesas
- Autor do artigo Por canthecan_bfmhxg
- Data do artigo Julho 28, 2008
Culinária no feminino: os primeiros livros de receitas escritos por portuguesas
Isabel M. R. Mendes Drumond Braga
Caderno Espaço Feminino, v.19, n.01, Jan./Jul. 2008
Resumo: O presente texto tem como objetivo o estudo dos primeiros livros de cozinha escritos por portuguesas durante o século XX, tendo em conta o enquadramento sócio político da época.
Palavras-chave: livros de culinária; mulheres; Portugal.
Isabel M. R. Mendes Drumond Braga, Professora Auxiliar com Agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
isabeldrumondbraga@hotmail.com
Introdução
Antes do século XX, a publicação de livros de receitas em Portugal foi escassa 2 comparativamente com outros espaços europeus 3, tais como Espanha, França, Inglaterra e Itália. De qualquer modo, duas obras marcaram o panorama nacional durante séculos, a de Domingos Rodrigues, intitulada Arte de Cozinha, publicada pela primeira vez em 1680 4, e a de Lucas Rigaud, saída dos prelos cem anos depois e intitulada Nova Arte de Cozinha 5. Ambas conheceram sucessivas edições e foram objecto de plágio quer em outros livros quer em publicações periódicas de Oitocentos 6. Exclusivamente dedicada à doçaria, apareceu, em 1788, a discreta Arte Nova e Curiosa para Conserveiros, Confeiteiros e Copeiros 7.
Foi necessário esperar pelo século XX para as mulheres portuguesas se aventurarem na escrita da denominada “culinária de papel”, na expressão de Laura Graziela Gomes e Lívia Barbosa 8. Efectivamente, se bem que, desde sempre, muitas mulheres se tenham dedicado à cozinha foi só tardiamente que passaram a produzir receituários publicados, embora os cadernos de receitas manuscritos para uso particular fizessem parte do quotidiano, tanto de freiras 9 como de leigas. Por exemplo, em 1818, D. José Trasimundo, futuro marquês de Fronteira e Alorna, deu conta da circulação de receitas familiares manuscritas. A propósito de certo jantar em Portalegre, pôde registar nas suas Memórias:
tivemos um esplêndido jantar, onde a doçaria era imensa e a velha senhora, forte conserveira, queria dar-nos a receita de todos os bons doces que, com gosto, provámos. Eu fiz a aquisição de várias receitas que trouxe a minha sogra, que muito as apreciou, porque tinha estado em Portalegre e lembrava-se sempre das guloseimas da terra 10.
Um primeiro paradoxo se faz notar. Isto é, se desde sempre abundaram as cozinheiras, também é verdade que os grandes nomes da arte culinária foram quase sempre do sexo masculino. E tal verificação é tanto mais verdadeira quanto se recua cronologicamente. Imagem estereotipada ou não, certo é que, segundo Leo Moulin, por toda a Europa, a cozinheira estava associada à confecção dos pratos tradicionais e saborosos, que se repetiam sem perspectivas de inovação, enquanto o cozinheiro era o artista artesão, o monarca absoluto da cozinha, dotado de espírito inventivo 11. Assim se compreende que o século XIX tenha assistido, um pouco por todo o lado, à diferenciação clara entre o cozinheiro profissional, o maître, e o cozinheiro doméstico, frequentemente uma cozinheira 12.
Em Portugal, a situação foi semelhante à de outros países europeus 13. Isto é, no século XIX, foram comuns os anúncios publicados nos jornais solicitando cozinheiras e criadas que dominassem a arte culinária, como por exemplo, “precisa-se de uma criada que saiba bem cozinhar, dando boas abonações” ou “precisa-se de uma criada que saiba coser e engomar e de uma cozinheira”14, mas o destaque foi para João da Mata, o mais célebre e emblemático chef de então. Este começou por ser moço de cozinha, passou a cozinheiro em várias casas de Lisboa, depois de ter feito a sua aprendizagem com especialistas franceses. Em 1848, abriu uma casa de pasto na rua do Alecrim, em Lisboa. Mais tarde, em 1858, optou por um espaço maior na rua do Ouro e, em 1864, criou os hotéis Mata. Foi autor de um opúsculo denominado Arte de Servir á Mesa ou Preceitos Uteis para Creados e Dono de Casas (1872) e de um famoso livro intitulado Arte de Cozinha, publicado em 1876, com quatro edições até 190015.
2 Veja-se o elenco que dá conta das existências da Biblioteca Nacional de Portugal, Livros portugueses de cozinha. 2. ed., coordenação e pesquisa bibliográfica de Manuela Rêgo. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1998.
3 SIMON PALMER, Carmen. Bibliografia de la gastronomía española: Notas para su realización. Madrid: Ediciones Velazquez, 1978; MENNELL, Stephen. All Manners of Food: Eating and Taste in England and France from the Middle Ages to the Present. 2. ed. Urbana and Chicago: University of Illinois Press, 1996, pp. 166–199; HYMAN, Philip; HYMAN, Mary. Imprimer la Cuisine: Les Livres de Cuisine en France entre le XVe et le XVIe siècles. In: FLANDRIN, Jean Paul; MONTANARI, Massimo (dir.). Histoire de l’Alimentation. Paris: Fayard, 1996, p. 643–655; HYMAN, Philip; HYMAN, Mary. Livres et Cuisine au XIXe siècle. In: À Table au XIXe siècle. Paris: Musée d’Orsay, Flammarion, 2001, p. 80–89; LAURIOUX, Bruno. Le Règne de Taillevent: Livres et pratiques culinaires à la fin du Moyen Âge. Paris: Publications de la Sorbonne, 1997; EHLERT, Trude. Les manuscrits culinaires médiévaux témoignent-ils d’un modèle alimentaire allemand?. In: BRUEGL, Martin; LAURIOUX, Bruno (dir.). Histoire et identités alimentaires en Europe. [s.l.]: Hachette, 2002, p. 121–136; LEHMANN, Gilly. The British Housewife: Cookery books, cooking and society in Eighteenth-Century Britain. [s.n.]: Prospect Books, 2003.
4 RODRIGUES, Domingos. Arte de Cozinha. Leitura, apresentação, notas e glossário por Maria da Graça Pericão e Maria Isabel Faria. [Lisboa]: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987 [a primeira edição é de 1680].
5 RIGAUD, Lucas. Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de Cozinha […]. 3. ed. Lisboa: Oficina de Simão Tadeu Ferreira, 1798 [a primeira edição é de 1780].
6 Sobre estas obras, cf. BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. Portugal à Mesa: Alimentação, Etiqueta e Sociabilidade (1800–1815). Lisboa: Hugin, 2000, p. 103–114; Idem, Alimentação e Códigos Comportamentais na segunda metade do século XIX. In BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. Do Primeiro Almoço à Ceia: Estudos de História da Alimentação. Sintra: Colares Editora, 2004, p. 119–156.
7 Arte Nova e Curiosa para Conserveiros, Confeiteiros e Copeiros. Estudo e actualização do texto de Isabel M. R. Mendes Drumond Braga. Sintra: Colares, 2004.
8 GOMES, Laura Graziela; BARBOSA, Lívia. Culinária de Papel. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 33, p. 1–22, 2004 (consultado na versão on-line disponível em http://www.cpdoc.fgv.br/revista/asp/dsp).
9 O Livro da Última Freira de Odivelas. Introdução, actualização do texto e notas de Maria Isabel de Vasconcelos Cabral. Lisboa: Verbo, 1999.
10 Memórias de Marquês de Fronteira e d’Alorna D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861. Revistas e coordenadas por Ernesto Campos de Andrada. Edição em fac-símile da edição de Coimbra: Imprensa da Universidade, 1926–1932, vol. 1. [Lisboa]: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986, p. 365.
11 MOULIN, Leo. Les Liturgies de la Table: Une Histoire Culturelle du Manger et du Boire. [Paris]: Albin Michel, 1989, p. 184.
12 MENNELL, Stephen. All Manners of Food […], p. 200–201.
13 Para França, cf. PERROT, Michelle. Personagens e Papéis. In: ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges (dir.). História da Vida Privada. Tradução portuguesa com revisão científica de Armando Luís de Carvalho Homem, vol. 4 (Da Revolução à Grande Guerra). Porto: Afrontamento, 1990, p. 179–184. Para o Brasil, marcado por outras realidades, o recurso a negros para cozinheiros era igualmente uma realidade. Cf. ELKAREH, Almir Chaiban; HERNÁN BRUIT, Héctor. Cozinhar e Comer, em Casa e na Rua: Culinária e Gastronomia na Corte do Império do Brasil. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 33, 2004, p. 1–23 (consultável na versão on-line disponível em http://www.cpdoc.fgv.br/revista/asp/dsp).
14 O Grátis: Jornal de Annuncios e do Comercio, n. 33, de 1 mar. 1837.
Um primeiro paradoxo se faz notar. Isto é, se desde sempre abundaram as cozinheiras, também é verdade que os grandes nomes da arte culinária foram quase sempre do sexo masculino. E tal verificação é tanto mais verdadeira quanto se recua cronologicamente. Imagem estereotipada ou não, certo é que, segundo Leo Moulin, por toda a Europa, a cozinheira estava associada à confecção dos pratos tradicionais e saborosos, que se repetiam sem perspectivas de inovação, enquanto o cozinheiro era o artista artesão, o monarca absoluto da cozinha, dotado de espírito inventivo 11. Assim se compreende que o século XIX tenha assistido, um pouco por todo o lado, à diferenciação clara entre o cozinheiro profissional, o maître, e o cozinheiro doméstico, frequentemente uma cozinheira 12.
Em Portugal, a situação foi semelhante à de outros países europeus 13. Isto é, no século XIX, foram comuns os anúncios publicados nos jornais solicitando cozinheiras e criadas que dominassem a arte culinária, como por exemplo, “precisa-se de uma criada que saiba bem cozinhar, dando boas abonações” ou “precisa-se de uma criada que saiba coser e engomar e de uma cozinheira”14, mas o destaque foi para João da Mata, o mais célebre e emblemático chef de então. Este começou por ser moço de cozinha, passou a cozinheiro em várias casas de Lisboa, depois de ter feito a sua aprendizagem com especialistas franceses. Em 1848, abriu uma casa de pasto na rua do Alecrim, em Lisboa. Mais tarde, em 1858, optou por um espaço maior na rua do Ouro e, em 1864, criou os hotéis Mata. Foi autor de um opúsculo denominado Arte de Servir á Mesa ou Preceitos Uteis para Creados e Dono de Casas (1872) e de um famoso livro intitulado Arte de Cozinha, publicado em 1876, com quatro edições até 190015.
A culinária no feminino passava quer pela contratação de uma cozinheira para as casas abastadas quer pelo ensino das mulheres de acordo com a secular trilogia de boas esposas, boas mães e boas donas de casa 16. Efectivamente, ao longo dos séculos XIX e XX, em leituras recreativas com fins moralizantes e de acordo, inclusivamente, com os programas escolares, incutiam-se noções de economia doméstica visando a formação das boas donas de casa. Por exemplo, numa obra de Julie Fertiault, traduzida para português por Alfredo Pimenta, em 1877, pode ler-se “a ciência da economia é para a mulher a ciência por excelência. Não há situação alguma pecuniária que isente uma dona de casa, uma mãe de família, da obrigação de ser económica”17. Uma outra obra, do final do século XIX, igualmente traduzida, intitulada Economia Doméstica, dedicou muitas páginas à questão alimentar, sempre na perspectiva de definir as necessidades, os diferentes tipos de alimentos, a maneira de os preparar e os utensílios necessários para tal 18.
No século XX, as mesmas práticas mantiveram-se. Sendo de salientar dois tipos de obras, umas dedicadas às senhoras endinheiradas e outras às mulheres mais pobres. Exemplificativa do primeiro grupo é, por exemplo, um volumoso livro de Virgínia de Castro e Almeida, publicado em 1906 e com sucessivas edições, intitulado Como devo Governar a minha Casa, no qual a cozinha, os alimentos e as práticas alimentares ocuparam papel de relevo. Aí pode ler-se: “a cozinha está completamente entregue ao cozinheiro ou cozinheira, mas exige o especial cuidado da dona de casa […] a cozinha é a grande consumidora dos recursos financeiros e é preciso que dela não saia apenas o sustento indispensável mas sim um pouco de prazer, sobretudo para o dono da casa que tanto contribui para as despesas”19. Em dado momento, a autora lembra que não é necessário ter-se um cozinheiro, pois o segredo é “saber dirigir bem a cozinheira”20, naturalmente a quem se paga menos, numa clara hierarquia masculino feminino à volta dos tachos.
15 FERRO, João Pedro. Arqueologia dos hábitos alimentares. Introdução de A. H. de Oliveira Marques. Lisboa: Dom Quixote, 1996, p. 127–129.
16 BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. A Educação Feminina em Portugal no século XVIII: Tradição ou Inovação. In BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. Cultura, Religião e Quotidiano: Portugal século XVIII. Lisboa: Hugin, 2005, p. 135–163.
17 FERTIAULT, Julie. A felicidade na família: Cartas d’uma Mãe a sua Filha. Tradução de Alfredo Pimenta. Porto: Ernesto Chardron; Braga: Eugénio Chardron, 1877, p. 69.
18 NEWSHOLME, Arthur; SCOTT, Margarida Leonor. Economia domestica com os preceitos de hygiene applicados á vida e arranjos da casa. Tradução de Alberto Telles. Lisboa: Tipografia da Academia Real das Ciências, 1893.
19 ALMEIDA, Virgínia de Castro e. Como devo governar a minha casa. Modificação e adaptação do livro italiano de Giulia Ferraris Tamburini. 3. ed. Lisboa: Clássica, 1924, p. 135.
20 Ibidem, p. 136.
Outra parcela de mulheres jovens e com poucos recursos era visada por um pequeno manual de Economia Doméstica. Este, destinado às alunas das terceira e quarta classes do ensino primário (actual terceiro e quarto anos do ensino básico), publicado em 1928, em harmonia com a legislação daquele ano 21, definiu a dita economia doméstica como “a ciência da felicidade e da prosperidade da família”22, nela englobando, entre os deveres da dona de casa, “saber cozinhar, fazer a barrela, olhar pela casa, talhar, coser, consertar as peças de vestuário simples da família e conhecer a higiene, que é a arte de conservar e melhorar a saúde e de evitar as doenças”23. As alunas da terceira classe acabavam o ano com a matéria do capítulo 10, sobre a cozinha, a baixela de preparar os alimentos, os utensílios e sua conservação e, finalmente, a lavagem da louça. Assim, recomendava-se que a cozinha fosse arejada, iluminada e asseada, que o trem de cozinha fosse composto por tábua de picar, tábua de amanhar peixe, tábua de estender massas, máquina de preparar picados, espremedor, batedeira para ovos, passador, funil, aparelho para cortar batatas, facas e serrote; sugeria-se especialmente louça de barro e de alumínio e indicavam-se os produtos específicos para a limpeza de determinados utensílios (por exemplo, sal e vinagre para limpar cobre e água carbonatada para barro)24.
A matéria da quarta classe era toda dedicada à alimentação, nomeadamente objectivos da mesma, necessidades humanas, escolha dos alimentos, refeições, papel das mulheres na luta contra o alcoolismo, conservação dos alimentos, receitas de ovos, sopas, carne e peixe, além de indicações acerca das compras. Sobressaem conselhos acerca da maneira de poupar. Por exemplo, “ao caldo de porco juntam-se batatas, feijões, couves que dizem bem com o excesso de gordura do caldo. Obtém-se, assim, duma só vez, uma refeição inteira e consegue-se desta forma economizar tempo e dinheiro”25. Um capítulo é integralmente dedicado ao aproveitamento dos restos de comida, aliando conselhos práticos e reflexões morais, ligadas à importância da poupança.
Além dos manuais escolares e dos livros de conselhos úteis para o governo da casa dedicados às mulheres, em algumas revistas, mesmo de carácter mundano, estas temáticas chegaram a aparecer. Tal é o caso, por exemplo, da ABC. Durante os últimos anos da Primeira República (1910–1926), a revista incluiu nas suas páginas alguns artigos sobre alimentação e, mais raramente, etiqueta ou, mais genericamente, sobre os cuidados do lar. Não eram estas as temáticas preferidas desta revista, que nunca teve nenhuma secção sobre estes assuntos mas, mesmo assim, de forma esporádica, incluiu alguns artigos. Nestas parcas contribuições, as preocupações abrangeram sobretudo a área da culinária, através da indicação de algumas receitas, uma parte delas de teor regional, sem esquecer a apresentação e decoração da mesa das refeições, em particular das familiares 26.
Durante o Estado Novo (1933–1974), Salazar não descurou as mulheres, tentando mantê-las em casa e moldá-las de acordo com os seus ideais políticos 27. Assim, os manuais escolares dedicados ao sexo feminino fizeram eco do ideal educativo que privilegiava o governo da casa 28, ao mesmo tempo que se tornou obrigatória a inscrição na Mocidade Portuguesa Feminina das jovens entre os sete e os 14 anos e das alunas que frequentassem o primeiro ciclo do liceu, por decreto de 1937 29. A organização deveria educar a mulher nas perspectivas moral, cívica, física e social. Era nesta última vertente que se incluía a vida doméstica. A presidente do Movimento, Maria Guardiola, não deixou de notar que toda a mulher deveria ser educada para defender a trilogia Deus, Pátria e Família 30.
21 Concretamente decreto n.º 16077, publicado no Diário do Governo, 1.ª série, n. 247, de 26 out. 1928.
22 Economia Doméstica: 3.ª e 4.ª Classes para o Ensino Primário Elementar. Porto: Figueirinhas, 1928, p. 3.
23 Ibidem, p. 4.
24 Ibidem, pp. 27–30.
25 Ibidem, p. 51.
26 BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. Alimentação e Publicidade Alimentar na Revista ABC (1920–1926). In: SILVA, Carlos Guardado da (Coord.). Turres Veteres IX. História da Alimentação. Lisboa: Colibri; Torres Vedras: Câmara Municipal, 2006, p. 215–225.
27 Sobre esta realidade, cf. BELO, Maria; ALÃO, Ana Paula; CABRAL, Iolanda Neves. O Estado Novo e as Mulheres. In: O Estado Novo: das origens ao fim da autarcia (1926–1959), v. 2. Lisboa: Fragmentos, 1987, p. 263–279.
28 MÁXIMO, Maria Elsa dos Santos Costa. A Política Educativa no Estado Novo em Relação à Mulher, no Tempo do Ministro António Faria Carneiro Pacheco (1936–1940): Contributo para a História do Género em Portugal. Lisboa: Dissertação de Mestrado em Didáctica da História, 2007.
29 Trata-se do decreto n.º 28262, de 8 de Dezembro de 1937. Cf. PIMENTEL, Irene Flunser. História das organizações femininas do Estado Novo. Lisboa: Temas e Debates, 2001, p. 202.
30 Ibidem, p. 220.
A Mocidade Portuguesa Feminina levava a efeito publicações de entre as quais vale a pena referir um Suplemento Auxiliar ao Programa de Culinária, aparecido em 1969 31. Nele, alude-se a dois tipos de mulheres, as que faziam as tarefas domésticas e as que as superintendem. Por exemplo, logo no início da brochura, pode ler-se: “mesmo dispondo de uma cozinheira e, embora o emprego (se o tiver) lhe ocupe grande parte do seu tempo, não deve [a mulher] deixar de aproveitar alguns momentos diários para dar um pouco de assistência à cozinha”32. Seguem-se informações acerca das condições físicas das cozinhas, dos materiais para preparar os alimentos e higienizar o equipamento, além da explicação técnica dos termos cozedura, guisado, estufado, assado, grelhado, fritura, salteado e pontos de açúcar, tendo em conta que alimentos poderiam sofrer determinadas operações e como essas mesmas operações deveriam ser levadas a efeito.
A análise de um caderno de actividades circumescolares, do final do Estado Novo, concretamente do ano lectivo de 1970–1971, pertença de Isabel Maria Henriques Pedro, então aluna do Liceu Nacional Infanta D. Maria (Coimbra), mostra-nos a vertente prática da transmissão dos conhecimentos formativos das futuras donas de casa 33. Efectivamente, as actividades circum-escolares eram compostas por aulas teóricas sobre economia doméstica, governo da casa e alimentação e aulas práticas de culinária, durante as quais se procedia à elaboração de um prato (não particularmente requintado) e, enquanto aquele cozia, era ditada a receita, lavada a louça e arrumada a cozinha. No final, eram dadas indicações acerca do modo de apresentar o prato, finalizando a aula prática com a prova. As receitas nem sempre indicam separadamente ingredientes e processos de execução; as quantidades e os tipos de carne ficaram quase sempre omissas, tal como os tempos de cozedura e os tipos de fornos. De notar ainda que a maior parte das receitas de carne era preparada com aquele ingrediente passado, o que, naturalmente, pressupõe a possibilidade de aproveitamento de restos.
A culinária aparece, pois, muito mais ligada à satisfação das necessidades básicas das famílias do que à ostentação, ao luxo e à criatividade proporcionados pelos chefs. Assim, no quadro doméstico reinam as cozinheiras que são simultaneamente as donas de casa, ou as cozinheiras que servem pessoas mais abastadas. A coadjuvar esta verificação, atente-se na publicidade que, de forma sistemática, explora a ligação entre os elementos do sexo feminino e a cozinha, no que se refere aos diferentes produtos que se relacionam com a preparação e confecção dos alimentos.
31 Suplemento Auxiliar do Programa de Culinária. Lisboa: Mocidade Portuguesa Feminina, 1969.
32 Ibidem, p. 5.
33 Estas informações foram obtidas através de um trabalho prático apresentado por Isabel Maria Henriques Pedro, no seminário de Temas de História Moderna, do Mestrado em Didáctica da História, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no ano lectivo de 2007–2008, por nós leccionado.
Figs 3 e 4 – Publicidade que associa mulheres e preparações alimentares
(Lisboa, Biblioteca Nacional).
2.
Apesar do quadro em questão não ser o mais favorável à produção de livros de cozinha no feminino, nem todas as mulheres se limitaram a “preparar as receitas de cabeça”. De facto, no século XX, algumas passaram à impressão das suas criações. Sem pretensões de exaustividade, quer de autores quer de obras, e excluindo compilações, colunas de jornais e agendas com receitas de cozinha, salientaremos as mais relevantes obras escritas por mulheres durante a última centúria, centrando-nos nas pioneiras. É certo que a I Guerra Mundial (1914–1918) implicou uma simplificação dietética, aliada à escassez dos géneros alimentares e ao consequente racionamento, o que levou a alterações nos hábitos gastronómicos, com a diminuição de pratos por refeição 34, pondo fim à longa herança de sumptuosas refeições quotidianas entre os abastados. Mas é certo também que é antes do conflito bélico que aparece o primeiro livro de doçaria publicado por uma mulher. Trata-se de Sofia de Sousa, a autora do Real Confeiteiro Português e Brasileiro, publicado em 1904 35, obra tributária de uma outra anónima publicada no século XIX, O Cosinheiro dos Cosinheiros 36, consequentemente apresentando um conjunto de receitas não inovadoras.
Se passarmos para os livros de cozinha mais generalistas, então a primeira autora foi Isalita, com Doces e Cosinhados: Receitas Escolhidas, publicado em 1925 e com 25 edições até 1977 37. Na obra, a autora propôs menus diários de almoços e jantares quotidianos e de refeições mais sumptuosas, uma lista de hors-d’oeuvres e um vasto conjunto de receitas agrupadas nas seguintes tipologias: sopas, molhos, ovos, peixe, entradas, soufflés, carnes, aves e caça, galantines, mousses, aproveitamentos de carnes assadas e aves, massas, massas italianas, batatas, tomates, pimentos, alcachofras, espargos, beringelas, cenouras, couves, couve-flor, pepinos, chuchus, espinafres, favas, ervilhas, feijão, alfaces, castanhas, brócolos, nabos, arroz, saladas, geleia, doces de fruta, pudins, doces de fim de jantar, soufflés, massas (para doces), doces para chá, bolachas, biscoitos, pães para chá e sorvetes. Como se pode verificar, Isalita começou pelos pratos salgados e terminou nos doces, criando muitas subdivisões nas preparações à base de legumes. A obra é importante, serviu de inspiração a outros livros e foi objecto de cópia por parte de autoras menores. De notar algumas constantes entre os menus de almoços e jantares.
Isalita, de cujos menus propostos escolhemos alguns patentes no quadro acima, investiu sobretudo nos jantares compostos sempre por sopa e, regra geral, prato de peixe, prato de carne, acompanhamento de legumes e sobremesa. Quando não havia prato de peixe a sopa era preparada com alguma espécie marítima. Os almoços apresentados eram mais sóbrios. Não apresentaram nem sopa nem sobremesa mas insistiram ou num prato de peixe e num de carne ou em preparados de ovos, hortaliças e carne ou ovos, massas e carne.
Quadro I
Menus de Almoço
Peixe ensopado com ervilhas
Entrecôte florentino com batatas à inglesa
Ovos com cerveja
Soufflé de várias hortaliças
Coelho à caçador
Bacalhau com queijo
Bifes à Sorel com batatas salteadas
Ovos mexidos com espinafres
Gnocci ao gratin
Pombos fritos à burguesa
Exemplos de Menus de Almoço e de Jantar propostos por Isalita
Menus de Jantar
Sopa de camarão
Croquetes de carne
Pato assado com batatas palha
Esparregado de espinafres
Maçãs no forno
Sopa de grão com espinafres
Filetes de linguado Marinetta
Rolo de carne picada com hortaliça à jardineira
Pudim de couve-flor
Creme de baunilha
Sopa de puré de cenouras e tomates
Pudim de peixe
Lombo de porco assado
Pepinos recheados
Tigelinhas finas
Sopa de pargo
Rissóis de galinha
Lombo à tirolês
Favas estufadas com coentros
Doce de castanhas inteiras
Cronologicamente próxima surgiu Agarena de Leão, com a obra A Cosinha Familiar, publicada em 1926 38. Em termos de título e de conteúdo, a autora marcou o toque dos livros de cozinha escritos a pensar nas donas de casa que tinham que preparar refeições com poucos recursos, toque esse que vai manter-se além dos efeitos da II Guerra Mundial (1939–1945). Por seu lado, em 1929, Alinanda ficou conhecida pela Arte de Bem Comer 39, com toque francês, desenhos para facilitar determinadas preparações e fotografias a preto e branco de alguns pratos já preparados. Alinanda terá inspirado, anos depois, o texto de Auronanda, uma obra um pouco mais sofisticada.
A partir dos anos 30, Rosa Maria, de quem nada se sabe, marcou gerações de mulheres na cozinha, através das suas diferentes obras, com destaque para A Cosinheira das Cosinheiras (com 30 edições em 1982) 40. Esta autora popularizou-se nos anos 50 através de títulos como 100 Maneiras de Cozinhar Acepipes, Molhos e Saladas 41, 100 Maneiras de Cozinhar Bacalhau 42, 100 Maneiras de Cozinhar Aves 43, 100 Maneiras de Cozinhar Ovos 44, 100 Maneiras de Cozinhar Peixes 45, 100 Maneiras de fazer Sopas 46, 100 Maneiras de Cozinha Vegetariana 47 e 100 Maneiras de Fazer Doces Económicos 48 (todos com edições até ao final do século XX). Se bem que, em boa parte dos casos, se desconheça a data da primeira edição da maioria das suas obras, sabemos que no período entre as duas Grandes Guerras, já Rosa Maria publicava livros apelando aos baixos custos. São exemplos Como se Almoça por 1$50: 100 Almoços Diferentes 49, saída em 1933, e Como se janta por 3$00: 100 Jantares Diferentes 50, cuja data de publicação se desconhece.
Rosa Maria terá tido como rival outra autora sua contemporânea, pois, em data desconhecida, mas entre os anos 30 e 50, apareceram as populares e pequenas obras de Clara T. Costa: Guia da Cosinheira Familiar 51, cuja nona edição é de 1952 e a 10.ª de 1962, e A Doceira Familiar: Método Práticto de Fazer Doces, Pudins, Sorvetes, Compotas 52, cuja sétima edição, revista e aumentada, é de 1957 e a oitava de 1964, obras que se pautaram por directrizes e interesses semelhantes. As obras de Rosa Maria, mormente A Cosinheira das Cosinheiras, pretenderam aliar higiene, ideias sobre nutrição, sobriedade alimentar, saúde, receitas práticas e economia. Dirigidas às donas de casa, visavam facilitar as tarefas daquelas no que à alimentação familiar se referia. A autora teve em conta as necessidades calóricas das pessoas de acordo com a idade, a actividade física e as estações do ano, caracterizou os alimentos e propôs regimes específicos para diabéticos, artríticos e ainda os que apresentam problemas de estômago, fígado e rins. Antes de passar às receitas, apresentadas por ordem alfabética, primeiro os salgados e depois os doces, ainda apresentou um capítulo acerca da necessidade de cozinhar os alimentos. Em certos momentos não faltaram considerações de teor moral. Por exemplo, ao referir-se ao vinho, explicitou: “do abuso do vinho têm resultado terríveis enfermidades, como a delirium tremens, a loucura, doenças de fígado, etc. e não menor número de desordens e desgraças de ordem moral, que têm levado muitos ao degredo, à penitenciária e ao patíbulo”53.
Rosa Maria, logo no início das receitas salgadas, incluiu açorda à andaluza, açorda de bacalhau à alentejana e açorda à portuguesa. Recordemos que esta última era um prato consumido por pobres e remediados desde sempre, além de ser o prato nacional infantil. Por exemplo, em O Cozinheiro Indispensavel, obra do final do século XIX, pode ler-se: “a açorda é um preparado de cozinha muito usado em grande parte do nosso país e fora dele e com que em muitas localidades alimentam de preferência as crianças, desde que as separam do leite até que atingem certa idade”54. Por outro lado, já antes, nos anos 20 da mesma centúria, a inglesa Marianne Baillie sublinhou, em tom crítico, que as crianças portuguesas eram alimentadas exclusivamente com uma espécie de papa feita com pão, água, azeite e alho, isto é, açorda 55.
30 Ibidem, p. 220.
31 Suplemento Auxiliar do Programa de Culinária. Lisboa: Mocidade Portuguesa Feminina, 1969.
32 Ibidem, p. 5.
33 Estas informações foram obtidas através de um trabalho prático apresentado por Isabel Maria Henriques Pedro, no seminário de Temas de História Moderna, do Mestrado em Didáctica da História, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no ano lectivo de 2007–2008, por nós leccionado.
34 MARQUES, A. H. de Oliveira. A Alimentação. In: MARQUES, A. H. de Oliveira (Coord.). Portugal da Monarquia para a República (Nova História de Portugal, direcção de Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques, v. 11). Lisboa: Presença, 1991, p. 619.
35 SOUSA, Sofia de. Real confeiteiro português e brasileiro. Lisboa: Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, 1904.
36 O cosinheiro dos cosinheiros: Colecção de mais de 1000 Receitas. Lisboa: Tipografia Luso-Britânica, 1870.
37 ISALITA. Dôces e cosinhados: Receitas escolhidas. Lisboa: Centro Gráfico Colonial, 1925.
38 LEÃO, Agarena de. A cosinheira familiar. Lisboa: Tipografia A Rápida, 1926.
39 ALINANDA. Arte de bem comer. Porto: Domingos de Oliveira, 1929.
40 MARIA, Rosa. A cosinheira das cosinheiras: higiene alimentar e mais de 500 receitas para cozinhar, fazer doces, gelados, compota, etc. 30. ed. Porto: Civilização, 1982.
41 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar acepipes, molhos e saladas. Porto: Livraria Civilização, 1956.
42 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar bacalhau. Porto: Livraria Civilização, 1956.
43 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar aves. Porto: Livraria Civilização, 1956.
44 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar ovos. Porto: Livraria Civilização, 1956.
45 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinhar peixes. Porto: Livraria Civilização, 1961.
46 MARIA, Rosa. 100 maneiras de fazer sopas. Porto: Livraria Civilização, 1965.
47 MARIA, Rosa. 100 maneiras de cozinha vegetariana para uso das famílias. Porto: Livraria Civilização, 1956.
48 MARIA, Rosa. 100 maneiras de fazer doces económicos: bolos, pudins, compotas, sorvetes, etc. Lisboa: Empresa Literária Universal, [1958].
49 MARIA, Rosa. Como se almoça por 1$50: 100 almoços diferentes. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1933.
50 MARIA, Rosa. Como se janta por 3$00: 100 jantares diferentes. Lisboa: Empresa Literária Universal, [s.d.].
51 COSTA, Clara T. Guia da Cosinheira Familiar. Lisboa: Empresa Literária Universal, [1952].
52 COSTA, Clara T. A doceira familiar: método práctico de fazer doces, pudins, sorvetes, compotas… 7. ed., rev. e aum. Lisboa: Empresa Literária Universal, 1957.
53 MARIA, Rosa. A cosinheira das cosinheias […], p. 13.
54 O cozinheiro indispensavel: Repositorio dos melhores processos de preparar as mais saborosas iguarias […]. Porto: Livraria Internacional de Ernest Chardron, 1894, p. 21.
55 BAILLIE, Marianne. Lisbon in the years 1821, 1822, 1823, v. 1. Londres: John Murray, 1824, p. 111.
Rosa Maria apresentou uma novidade, pois serviu-se de uma forma poética 56 para dar a receita da açorda à portuguesa:
Pão de trigo, sem ter sombra de joio;
Azeite do melhor, de Santarém;
Alho do mais pequeno, e do saloio;
Ponha no lume brandinho e mexa bem;
Sal que não seja inglês – porque é remédio,
Toda a criança assim alimentada
É capaz de deitar abaixo um prédio
Quatro meses depois de desmamada.
Com este bom pitéu, sem refogados,
Invenção puramente lusitana,
Os ilustres varões assinalados
Passaram além da Taprobana.
Fortes p’la açorda, demos nós aos mouros,
Como se sabe, uma fatal derrota;
E abiscoitámos majestosos louros
Para os nobres troféus de Aljubarrota.
A assinalar o final da II Guerra Mundial, a cantora lírica Berta Rosa Limpo (1981) publicou, em 1945, O Livro de Pantagruel, um clássico que, em 1997, deu ao prelo a 63.ª ed., com revisão e actualização de Maria Manuela Limpo Caetano. Esta é uma obra ímpar no panorama editorial culinário português, contando originariamente com 1500 receitas, muitas delas de cunho vincadamente internacional. Ao contrário de quase todas as obras anteriores, este livro de culinária não foi escrito a pensar nos remediados. No prefácio da primeira edição, a autora confessou a sua paixão pela culinária, a primeira compilação das receitas de família, que levou a efeito em 1914, e o contacto directo com chefes cozinheiros franceses e italianos dos diferentes hotéis europeus por onde passava em digressão, que lhe forneceram receitas diversas. Deu igualmente conta que todas as receitas haviam sido experimentadas e que todas davam bons resultados se seguidas as instruções à risca 57.
Nos anos 50, destaque para Auronanda com a Arte de bem Saborear, saída dos prelos em 195258, um volumoso livro que faz lembrar o de Alinanda e o de Berta Rosa Limpo e em cujo prefácio se alude à importância da culinária para agradar ao marido. A obra refere a preparação dos alimentos e o material de cozinha e de limpeza, incluiu o desenho de diversos objectos para preparar os alimentos, de um glossário, onde aparecem termos portugueses e franceses (como por exemplo chifonnade, ciseler, glacer…), uma tabela de equivalência de pesos e medidas e muitas receitas de carácter internacional, a par de estampas coloridas de pratos preparados.
Na mesma década de 50, Libânia de Sousa Alves publicou pequenas obras de cozinha e de doçaria, nomeadamente As Melhores Receitas de Cozinha 59, As Melhores Receitas de Cozinha Natural 60 e Doces Seleccionados 61, enquanto Mirene ficou conhecida como autora do Tesouro das Cozinheiras 62, cuja terceira edição é de 1957. Estas autoras e estas obras pouco ou nada acrescentaram de relevante ao panorama editorial de então; o mesmo se pode afirmar em relação aos livros de doçaria de Maria Olímpia Areal: Doces Familiares 63, esta com quatro edições, e O Meu Livro de Doces 64.
Finalmente, referência para Maria de Lurdes Modesto (1930–…), a mais mediática autora, com vasta obra publicada desde a década de 50 e cuja fama começou por se alicerçar em programas de televisão, onde preparava receitas em directo. Foi professora em várias escolas femininas, manteve programas de culinária na rádio e tem colaborado activamente em jornais e revistas com colunas de cozinha. Entre os seus livros, destaque para Receitas Escolhidas 65 e para Cozinha Tradicional Portuguesa 66, uma área que tem privilegiado em termos de divulgação. Trata-se de um livro ilustrado e organizado tendo em conta as diferentes regiões do país, incluindo os arquipélagos da Madeira e dos Açores 67.
Não sendo, no início do século XX, a culinária entendida como algo particularmente importante, do ponto de vista da obtenção de notoriedade social, nota-se, tanto no feminino como no masculino, o recurso a anagramas e a pseudónimos para esconder o verdadeiro nome. Assim, Agarena de Leão é o anagrama de Helena de Aragão, enquanto Auronanda é o pseudónimo de Aurora Jardim Aranha, Isalita o de Maria Isabel Campos Henriques, Mirene o de Maria Irene Andrade Braga da Silva Teixeira e Francine Dupré o de Maria de Lurdes Modesto que, entretanto, o abandonou, acompanhando o crescente interesse e popularidade que o público lhe foi dispensando.
56 MARIA, Rosa. A cosinheira das cosinheiras […], p. 23. Comentem-se alguns passos da receita, nomeadamente o uso do azeite da mais emblemática região produtora portuguesa, o do alho proveniente da região saloia, isto é, à volta de Lisboa, especialmente a zona de Sintra; e do sal português, de grande qualidade e objecto de exportação desde cedo.
57 LIMPO, Berta Rosa. O Livro de Pantagruel. Lisboa: Círculo de Leitores, 1997, que inclui o prefácio da primeira edição em páginas não numeradas.
58 AURONANDA. Arte de bem saborear. Porto: Livraria Simões Lopes, 1952.
59 ALVES, Libânia de Sousa. As melhores receitas de cozinha. [s.l.]: Edição do Autor, [1955].
60 ALVES, Libânia de Sousa. As melhores receitas de cozinha natural. [s.l.]: Edição do Autor, [1956].
61 ALVES, Libânia de Sousa. Doces seleccionados. Porto: Edição do Autor, [1955].
62 MIRENE. Tesouro das cozinheiras. Porto: Porto Editora, [s.d.].
63 AREAL, Maria Olímpia. Doces familiares. 2. ed. Porto: Asa, 1959. Desconhecemos a data da primeira edição.
64 AREAL, Maria Olímpia. O meu livro de doces: receitas seleccionadas e experimentadas. Porto: Edição do Autor, 1953.
65 MODESTO, Maria de Lurdes. Receitas escolhidas. Lisboa: Verbo, 1978.
66 MODESTO, Maria de Lurdes. Cozinha Tradicional Portuguesa. 3. ed. Lisboa: Verbo, 1982.
67 Sobre Maria de Lurdes Modesto, cf. http://www.iplb.pt (Maria de Lurdes Modesto), consultado a 13 abr. 2008.
3.
Ao longo do século XX, as mulheres portuguesas despertaram para a publicação de livros de cozinha. Das autoras, com excepção de Maria de Lurdes Modesto, pouco ou nada sabemos; contudo, as obras que existem permitem levar a efeito estudos mais desenvolvidos. De qualquer modo, algumas ideias parecem claras. As autoras do princípio do século foram particularmente tributárias das obras escritas na centúria de Oitocentos, recolhendo e copiando o que de mais simples essas obras apresentavam. Por outro lado, como as principais preocupações de uma boa parte das autoras foram no sentido de produzir textos básicos para o serviço das donas de casa, tentando fornecer receitas apetitosas e económicas, a que não foram alheios a austeridade, a escassez de alimentos, o racionamento e a pobreza de uma parte significativa da população, em especial mas não exclusivamente durante os períodos de guerra, as propostas apresentadas passaram muito pela insistência na simplicidade e sobriedade, ao mesmo tempo que forneceram indicações nutricionais, o que não deixava de ser coadjuvado na publicidade e no ensino ministrado às raparigas na área da economia doméstica, uma matéria sob a atenção da Mocidade Portuguesa Feminina.
No final do século, tudo mudou; veja-se o caso de Maria de Lurdes Modesto que, no contexto português, conheceu alguma mediatização, a par de outras autoras que apareceram a partir dos anos 80, se bem que sem conseguirem destronar a pioneira da culinária na televisão e na rádio. Tal como nos manuais de economia doméstica, nos livros de receitas também se perfilam duas grandes linhas: as obras sofisticadas, com referências à culinária internacional, mormente à francesa e, secundariamente, à italiana, e as obras mais populares. Entre as primeiras refiram-se as de Alinanda, Berta Rosa Limpo e Auronanda, pois todas as restantes visaram um público mais modesto, mas desejoso de aprender a cozinhar e a poupar, a bem do equilíbrio do orçamento familiar. Note-se que um autor, que comungava destes ideais e escreveu obras afins às referidas, Manuel da Mata, assinou os seus livros como Febrónia Mimoso, eventualmente para chegar mais facilmente às donas de casa.
A par dos livros das autoras referidas também deveremos juntar os que foram escritos e assinados por homens, quer os generalistas quer os exclusivamente dedicados à doçaria, e cujos conteúdos também não se afastam cabalmente do que foi enunciado ao longo deste estudo. Efectivamente, a culinária no masculino conheceu alguns nomes com relevância; seja-nos permitido lembrar Carlos Bento da Maia e Olleboma, isto é, António Maria de Oliveira Belo, sem esquecer Emanuel Ribeiro, que só se interessou por doçaria. Nestes casos, particularmente nos dois primeiros, estamos perante obras que marcaram gerações de cozinheiros.
Finalmente, realcemos três aspectos: por um lado, a longevidade de muitos títulos, com sucessivas edições ao longo dos tempos, o que se relaciona com o facto de o Estado Novo ter incutido na população não só a trilogia Deus, Pátria e Família como ter incentivado quer a prática da poupança familiar quer a má vontade face à mudança, assegurando que sucessivas gerações continuassem a adquirir as mesmas obras, reproduzindo, assim, os mesmos modelos, realidade, aliás, que ultrapassou o final da Ditadura; por outro lado, o pouco apreço da culinária enquanto actividade, que estava longe de assegurar a quem a praticava o sucesso mediático que os actuais chefs alcançam. Ou seja, durante uma boa parte do século XX, a culinária no feminino era, antes de mais, a possibilidade de bem alimentar as famílias, uma tarefa eminentemente pertença das mulheres e, em especial, das donas de casa; e, finalmente, a necessidade de se proceder ao estudo comparativo de todas as obras de culinária para perceber as inspirações e os plágios, tão frequentes nestas matérias. Para isso, o apuramento das datas das primeiras edições e a comparação dos receituários, quer ao nível dos títulos quer dos conteúdos, revela-se fundamental enquanto linha de investigação susceptível de aprofundar os conhecimentos nestas matérias.
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1906 Como devo Governar a minha Casa
- Autor do artigo Por canthecan_bfmhxg
- Data do artigo Janeiro 2, 1906
Como devo Governar a minha Casa
1906
TÍTULO: Como devo Governar a minha Casa
SUB TÍTULO:
AUTOR: Virgínia de Castro e Almeida
NOTAS DE AUTORIA: Modificação e adaptação do livro italiano de Giulia Ferraris Tamburini
PREFÁCIO:
SUPORTE: Impresso
GÉNERO BIBLIOGRÁFICO: Monografia
DATA DE PUBLICAÇÃO: 1906
DEPÓSITO LEGAL:
EDIÇÃO:
LOCAL: Lisboa
EDITORA: Livraria Classica Editora – A. M. Teixeira & Cª
TIPOGRAFIA/IMPRESSO POR:
ENCADERNAÇÃO:
FORMATO / DIMENSÕES:
NÚMERO DE PÁGINAS: 468 págs.
COLECÇÃO:
ISBN/ISSN:
COLECÇÃO DE: SELO DE MAR
REFERÊNCIA BN NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha” edição BN – 1998:
NÚMERO “Livros Portugueses de Cozinha”: 00
OBSERVAÇÕES:
“a cozinha está completamente entregue ao cozinheiro ou cozinheira, mas exige o especial cuidado da dona de casa […] a cozinha é a grande consumidora dos recursos financeiros e é preciso que dela não saia apenas o sustento indispensável mas sim um pouco de prazer, sobretudo para o dono da casa que tanto contribui para as despesas”
in
BiblioAlimentaria
1. Memória gastronómica
15. MARIA, Rosa, Como devo governar a minha casa (19‑‑?)
Este pequeno livro de 46 pp., escrito por alguém que vive a depressão económica que grassa em Portugal durante e entre as duas guerras mundiais da 1.ª metade do século xx, insere‑se numa clara linha editorial de formação da dona de casa em matéria de economia doméstica. O caráter doutrinário e didático do opúsculo evidencia‑se na estrutura que apresenta, uma vez que nas oito páginas iniciais a Autora 27 doutrina sobre as virtudes e os vícios responsáveis por uma economia familiar equilibrada ou ruinosa, seguindo‑se 31 páginas (uma para cada dia do mês) de ementas diárias de modesto custo (pelo que os três pratos propostos por dia vêm intitulados de “cosinha económica”), acompanhadas, na metade direita da página, por uma lista fixa de ingredientes a comprar e consumíveis de confeção (carvão, petróleo, luz, água) e de limpeza (sabão). Apresentamos nesta página o exemplo do orçamento do “Dia 1”.
O marketing editorial subjazia a uma publicação de caráter mensal como esta, uma vez que na última pág. do folheto se informa as leitoras do local onde se poderiam adquirir “orçamentos mensais” idênticos a este e de que a aquisição desses vols. de 32 pp. (à razão de um por mês) custava menos à bolsa familiar do que a compra de papel almaço (vendido avulso em papelarias, para o mesmo fim: registo das receitas e despesas mensais de um orçamento familiar).
O público alvo da presente publicação é a mulher casada, entre cujas funções consta, como adverte a Autora, “a obrigação de organizar a vida do lar, em conformidade com os proventos da família, adquiridos mensalmente” (p. 3). Como se percebe por esta alusão aos rendimentos mensais do agregado familiar (mín. 600$00 / máx. 1.600$00), às referências à habitação arrendada (mín. 120$00 / máx. 400$00), à menção a despesas com serviçais (apenas para as famílias mais abonadas, com 1.400$00 ou 1.600$00 mensais) e aos reparos de que há distrações económicas (ler livros e passear ao ar livre 28) ao alcance de quem não pode custear frequentes idas ao teatro ou ao cinema, Rosa Maria parece escrever sobretudo para donas de casa burguesas de mais modestos rendimentos.
Note‑se que o/a comprador/a da obra se confrontava logo na capa com o pendor normativo e pedagógico do opúsculo, conforme se depreende do detalhado segundo subtítulo nela estampado: Método fácil de escriturar diáriamente, as despezas e receitas de cada família, acompanhado de teorías de economia doméstica. Receitas de cosinha, para a organização duma alimentação económica. Na primeira parte da obra, Rosa Maria discorre sobre os pilares morais que, numa família, são responsáveis pela boa gestão do “Orçamento familiar” (título dado a essas reflexões), a saber: previdência económica, boa administração e prudência (evitando que a despesa ultrapasse a receita, pois “O viver com economia não é deshonra o que é vergonhoso, é gastar mais do que se ganha”, p. 2). Rosa Maria não se limita, porém, a teorizar sobre a boa aplicação do orçamento mensal das famílias, pois apresenta sete casos práticos de gestão de ordenados de diverso montante. Os cinco primeiros mantêm as mesmas rubricas de despesa (alimentação, renda de casa, vestuário e calçado, livros e outras distrações, previdência), ainda que os montantes para cada uma variem. Os dois últimos casos práticos apresentam mais uma rubrica, diferenciadora em termos de estatuto económico‑social, visto corresponderem a famílias com posses para terem criados bem tratados 29. Repare‑se que, atenta à inevitável oscilação de custos de mês a mês e ao surgimento de gastos não contemplados nessas rubricas fixas, Rosa Maria criou o item “previdência”, fundo pensado, como o próprio nome indica, para “prevenir” as despesas imprevistas!
27 Não havendo até à data nenhum estudo que tenha apurado a real identidade por detrás deste pseudónimo, usamos, por comodidade, este nome feminino para nos referirmos à pessoa que escreveu o texto.
28 A apologia da leitura e do lazer ao ar livre tem por fundamento fatores económicos, embora, como se percebe das palavras de Rosa Maria, encerre a valência da fruição estética: “V. Ex.ª já pensou quanto de distracção, de alegria lhe pode proporcionar a agradável leitura de um livro?!… Um livro, chega para distrair uma família inteira. Serve para adornar um lar, porque um lar sem livros e deliciosa distracção, transporta‑nos a paízes desconhecidos, relaciona ‑nos com centenas de criaturas que não temos a canseira de receber, e dá‑nos tal soma de emoções que nos surpreende tão ridículo custo. Há outras distrações económicas, como passear ao campo onde a Natureza é pródiga nas suas manifestações, deixando‑nos surpreendido com tanta beleza e encanto” (p. 7).é um lar triste, sem sol. O livro, é o melhor companheiro, êle, dá‑nos uma suave
29 A autora é perentória nesta matéria: “só deve ter criados, quem lhes possa pagar, dar‑lhes uma alimentação sã e em quantidade relativa com o esforço a dispender” (p. 6).
30 400$00 para um ordenado de 600$00, 500$00 para 800$00, 560$00 para 1.000$00, 600$00 para 1.200$00 e, quando entra na despesa o custo com criados, passamos a previsões de 600$00 (alimentação) e 100$00 (criados) para um ordenado de 1.400$00, e a 700$00 (alimentação) e 100$00 (criados) para um ordenado de 1.600$00.
31 Um exemplo de carne e peixe propostos para o mesmo dia (o 20) são os pratos de “carneiro de cebolada” e “croquetes de bacalhau”; também se encontram duas carnes no mesmo cardápio (o do dia 18), “cabrito assado com ervilhas” e “carne assada à jardineira”; sem esquecer um cardápio em que os três pratos são todos de peixe (no dia 29): “bacalhau com grão”, “sopa de ameijoas” e “linguado frito”.
32 Além de serem acompanhamento de numerosos pratos (Ervilhas com ovos, dia 8; Arroz de peixe com ervilhas e Pardais com ervilhas, dia 12; Carne guisada com ervilhas, dia 14; Fígado de vaca com ervilhas, dia 16; Cabrito guisado com ervilhas, dia 18; Mexilhão com arroz e ervilhas, dia 23; Bacalhau com ervilhas, dia 28; Fígado com arroz e ervilhas, dia 31), são ingrediente principal de três sopas/purés/caldos (dias 2, 22 e 25).
A utilidade de ter um registo diário das despesas reside não só em poder, no final do mês, atingir o desejado equilíbrio entre receita (do ordenado) e despesa (das compras), mas é igualmente a forma mais simples de enriquecer: “Para se enriquecer, não é preciso grande trabalho, basta gastar menos do que se ganha” (p. 8).
O lugar da alimentação no governo do lar é fulcral, constituindo a rubrica para a qual se prevê sempre a maior fatia de gastos mensais 30. No que se refere aos cardápios diários, denominados de “cosinha económica”, observamos que, sendo nítido o esforço da autora para apresentar propostas de baixo custo, ainda assim, a verba prevista para a alimentação, relativamente significativa (que pode ser 4/6 da receita mensal), permite alguns dias com um ou dois pratos de carne e/ou peixe (dos três pratos diários propostos) 31. Mas a preocupação em cozinhar com ingredientes económicos, acessíveis e enraizados nos gostos mais tradicionais ressalta da presença constante de sopas de hortaliças (nabos, couves e ervilha, a vagem‑rainha do cardápio de Rosa Maria 32) e leguminosas (feijão, favas e grão de bico), de numerosos pratos de bacalhau e de ovos (chegando a propor para o cardápio do dia 11 dois pratos de ovos: Ovos à alentejana, Omoleta de ameijoas), da insistência na carne de talho mais económica, o carneiro, e nas “miudezas” dos animais (fígado de vaca ‑dias 16 e 31, rabo de boi ‑dia 30, línguas, rins e miolos de carneiro – dias 23 e 26, dia 25, respetivamente).
Impõe‑se uma observação relativamente à avassaladora presença de pratos de bacalhau 33. Verificamos que este ingrediente entra em 45% dos dias do mês e que, em média, o regime alimentar de uma família poupada passava por contemplar em metade dos dias da semana um prato de bacalhau. Este é um bom exemplo do esforço economicista de Rosa Maria, pois o bacalhau constituía um dos pescados mais acessíveis 34, e também o reflexo do estatuto que esse peixe seco adquirira de iguaria identitária nacional.
Não é só na escolha dos produtos que se revelam as preocupações economicistas da Autora. O cuidado em apresentar uma proposta culinária de aproveitamento de sobras de refeições anteriores é, ao nível das técnicas culinárias, o reflexo desse mesmo cuidado com a rentabilização dos bens da cozinha doméstica. Note‑se a sensibilidade da escritora para persuadir as leitoras das valências salutares e gustativas do seu Ensopado de restos (dia 10), quando afirma a respeito desse prato “faz‑se um bom e saboroso almoço”. Também a cozinha rápida e fácil marca presença, com pratos como Ovos com tomates (dia 1), Salada de batata (dia 2) e Batatas com toucinho (dia 5). Esta receita, aliás, é mais um bom exemplo do esforço de persuasão da Autora em acentuar as qualidades gastronómicas, económicas e dietéticas das suas propostas, conforme se depreende das palavras com que remata a receita: “É um prato muito saboroso para um almôço económico e de substância”.
É essa mesma preocupação com as finanças domésticas que leva Rosa Maria a recomendar o recurso condicionado a um ingrediente, então de alto custo (para quem o tem de comprar e não o produz), a azeitona. Termina o prato de Filetes de bacalhau (dia 17) com a observação “servem‑se com azeitonas, se houver dinheiro para as comprar”. Idêntica sugestão volta a aparecer no termo da receita de Croquetes de bacalhau (dia 20): “Servem‑se com azeitonas, quando as haja, ou dinheiro para as comprar”.
Ainda que de forma mais discreta, percebe‑se na seleção do receituário apresentado e num comentário explícito a um prato de origem estrangeira (Caldo de carneiro à inglesa, dia 14) a sensibilidade da Autora para uma gastronomia e práticas alimentares identitárias dos portugueses. É com humor que assinala uma diferença evidente entre a conceção de “caldo de carnes” para consumidores pátrios e, no caso em apreço, para ingleses. O costume luso resume‑se a uma refeição mais substancial e completa, já que, como escreve: “Os ingleses bebem só o caldo, nós, como somos grandes comilões, comemos tudo e não comemos a panela por ser muito indigesta…”.
Também a presença da “culinária dos territórios” assinala essa consciência da identidade gastronómica associada a regiões ou lugares específicos do país, caso de dois pratos indicados como típicos do Alentejo (Ovos à alentejana, dia 11; Bacalhau de cebolada à alentejana, dia 21), um do Minho (Favas à minhota, dia 26) e outro de Lamego (Bacalhau à moda de Lamego, dia 9).
Ainda que de forma mais discreta, percebe‑se na seleção do receituário apresentado e num comentário explícito a um prato de origem estrangeira (Caldo de carneiro à inglesa, dia 14) a sensibilidade da Autora para uma gastronomia e práticas alimentares identitárias dos portugueses. É com humor que assinala uma diferença evidente entre a conceção de “caldo de carnes” para consumidores pátrios e, no caso em apreço, para ingleses. O costume luso resume‑se a uma refeição mais substancial e completa, já que, como escreve: “Os ingleses bebem só o caldo, nós, como somos grandes comilões, comemos tudo e não comemos a panela por ser muito indigesta…”.
Também a presença da “culinária dos territórios” assinala essa consciência da identidade gastronómica associada a regiões ou lugares específicos do país, caso de dois pratos indicados como típicos do Alentejo (Ovos à alentejana, dia 11; Bacalhau de cebolada à alentejana, dia 21), um do Minho (Favas à minhota, dia 26) e outro de Lamego (Bacalhau à moda de Lamego, dia 9).
No termo do opúsculo figuram duas partes de claro pendor formativo em matéria de rentabilização e economia dos produtos frescos de origem vegetal usados na cozinha: frutas e hortaliças. As técnicas à época mais acessíveis e praticadas para prolongar a “validade” desses frescos eram as conservas, que, no caso das frutas, por consistirem no armazenamento da fruta inteira em xarope de açúcar dentro de vasilhas ou “potes” hermeticamente fechados, se conheciam por “compotas” e, no caso das verduras, por serem “conservadas” por imersão em preparados líquidos à base de vinagre, também em vasilhames bem fechados, se denominavam genericamente de “conservas”. Entre as compotas, deparam as leitoras com propostas de frutas no geral bem conhecidas (damascos, cerejas, morangos, uvas, maçãs, amoras e ameixas), mas também com uma variedade específica de ameixa, a rainha Cláudia. Quanto às hortaliças de conserva, as leitoras são ensinadas a preparar tanto receitas genéricas, para legumes e verduras variados (chamadas de Conserva sortida e Conserva caseira), como preparados particulares (de couve‑flor, ervilhas, tomates, cebolas e feijão‑verde).
(CS) Carmen Soares
33 Bacalhau à Gomes de Sá, dia 3; Bacalhau de caldeirada, dia 4; Pasteis de bacalhau, dia 6; Bacalhau (sanduiches de), dia 7; Bacalhau (rolo de), dia 8; Bacalhau à moda de Lamego, dia 9; Filetes de bacalhau, dia 17; Bifes de bacalhau panados, dia 19; Croquetes de bacalhau, dia 20; Bacalhau de cebolada à alentejana, dia 21; Bacalhau à lavadeira, dia 22; Arroz de bacalhau com pimentos, dia 23; Bacalhau com ervilhas, dia 28; Bacalhau com grão, dia 29.
34 Sobre o bacalhau, vd. Braga, I. Drumond (2012), “Morue”, in J.P. Poulain, Dictionnaire des Cultures Alimentaires, PUF, Paris, 889‑893; Sobral, J. M. e Rodrigues, P. (2013), “O “fiel amigo”: o bacalhau e a identidade portuguesa”, Etnográfica, 17.3: 619‑649; Sobral, J. M. (2014), “Da penitência ao prazer: o lugar do bacalhau e a cozinha portuguesa”, in Câmara Municipal de Viana (Eds.), Gil Eannes: uma História com Futuro, Viana do Castelo, 117‑129; Silva, A. (2015), “The fable of the cod and the promised sea. About Portuguese tradition of bacalhau”, in F. Barata e J. Rocha (eds.), Heritages and Memories from the Sea1st International Conference of the UNESCO Chair in Intangible Heritage andTraditional Know‑How: Linking Heritage, Universidade de Évora, Évora, 130‑143; Sobral, J. M. (2016), “O bacalhau: de alimento de penitência a ícone português”, Argos: Revista do Museu Marítimo de Ílhavo 4: 27‑33.